Londres, o Romance, de Edward Rutherfurd (tradução de Alves Calado; Record; 1.019 páginas; 65 reais)

Nem livro de história nem guia turístico, esta obra é uma espécie de biografia romanceada da capital da Inglaterra, na qual figuras reais como Thomas Cromwell e Charles Dickens se misturam com mais de 100 personagens inventados pelo autor. Começando pelo tempo dos druidas, 2.000 anos atrás, e chegando até os dias de hoje, Rutherfurd não deixa escapar nenhum evento importante. Há também muitas curiosidades - como a origem dos nomes de ruas ou da palavra "xerife", e as técnicas necessárias para fabricar uma armadura. Para cobrir tantos assuntos, ele recorre a métodos folhetinescos. A ação corre depressa. Seus heróis e vilões ganham traços caricaturais ao lutar pela glória ou pelo amor, pela honra ou pela vingança. Mas tudo é muito divertido e, no final, as peças se encaixam. O efeito pode não ser o mesmo de uma visita a Londres, mas essa viagem literária certamente tem seus encantos e vantagens. Pelo menos, você não vai ter de provar a comida inglesa.

>> Trecho do livro:

"Muitas vezes, desde que a Terra era jovem, este local esteve sob o mar.

Há quatrocentos milhões de anos, quando os continentes estavam arrumados numa configuração bastante diferente, a ilha fazia parte de um pequeno promontório a noroeste de uma massa de terra vasta e informe. O promontório era desolado, projetando-se solitário no imenso oceano mundial. Nenhum olhar, salvo o de Deus, jamais o vir. Nenhuma criatura se movia sobre a terra; nenhum pássaro se alçava ao céu, tampouco havia peixes no mar.

Nessa época remota, no canto do sudeste do promontório, um mar que partiu deixou para trás um terreno despido, formado de ardósia espessa e escura. Silencioso e vazio ele permaneceu, como a superfície de algum planeta não descoberto, a rocha cinzenta interrompida aqui e ali apenas por rasas poças d'água. Sob essa camada de ardósia, no fundo da Terra, pressões ainda mais antigas haviam erguido uma crista suavemente inclinada, com cerca de seiscentos metros de altura, que pairava sobre a paisagem como um gigantesco quebra-mar. E assim o lugar permaneceu durante longo tempo, cinzento e silencioso, tão desconhecido quanto o vazio interminável anterior ao nascimento.

Nos oito períodos geológicos que se seguiram -- durante os quais os continentes se moveram, a maioria das cordilheiras se formou e a vida gradualmente se desenvolveu- nenhum movimento da Terra perturbou o local onde ficava a crista de ardósia. Mas muitas vezes os mares vieram e partiram. Alguns eram frios; alguns quentes. Cada um permaneceu durante milhões de anos. E todos depositaram sendimentos com muitas dezenas de metros de profundidade, de modo que, por fim, a crista de ardósia, por mais alta que fosse, ficou coberta, suavizada e enterrada no fundo, praticamente não dando a entender que existia.

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