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Lembrando
Babilônia, de David Malouf (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia
das Letras; 253 páginas; 22 reais)
Separe este livro para ler durante as Olimpíadas de Sydney. Não, ele
não tem nada a ver com práticas esportivas. Mas se trata de um ótimo
romance sobre o período de formação da Austrália e o encontro de culturas
que se deu ali. Malouf conta a história de um grupo de colonos escoceses
que, em meados do século passado, constroem seu vilarejo numa das
regiões mais isoladas e inóspitas do país. Um dia, um homem surge
dos pântanos. Europeu, ele foi abandonado na infância e criado por
uma tribo de aborígines. "Paródia de um homem branco", nas palavras
do autor, esse novo personagem causa inquietação e perplexidade entre
os moradores do vilarejo e traz à tona todas as contradições do processo
colonizador. Malouf, o mais importante escritor australiano da atualidade,
explora os conflitos que se seguem e ainda oferece descrições detalhadas
das paisagens de sua terra natal.
>> Trechos do primeiro capítulo:
1.
"Certo dia, em meados do século XVIX, quando a colonização em Queensland
tinha avançado pouco além do litoral, três crianças brincavam à beira
de um cercado quando viram uma coisa extraordinária. Eram duas meninas
pequenas, com roupas de chita remendadas, e um menino, primo delas,
de calça curta e suspensórios, todos os três criados em fazenda, sempre
descalços, e não se assustavam à toa.
Tinham poucas oportunidades para brincar, mas vinham se distraindo,
já fazia uma hora, com um jogo inventado pelo menino: o cercado, cheio
de pedras de argila e trilhas de formigas, era uma floresta na Rússia
- eles eram caçadores e seguiam os rastros de lobos.
O menino criou essa migalha de fantasia a partir de um conto do livro
de leitura da quarta série; ele estava impregnado pelo conto. O ar
frio queimava suas narinas, a neve rangia sob seus pés; a arma que
levava, um cajado de bom tamanho, pesava em seu braço. Mas as meninas,
em especial Janet, que era mais velha do que ele e meia cabeça mais
alta, estavam chateadas. Elas não tinham nenhuma experiência de neve
e lobos não as interessavam. Reclamavam, faziam corpo mole e ele tinha
de recorrer a todo o seu dom de fantasia, e também à sua força de
vontade, que era tenaz, para manter as meninas dentro da brincadeira.
Vinha com eles um cão pastor azulado. Andava aos saltos, com a língua
pendurada, excitado com a concentração solene do menino, mas também
intrigado, sem conseguir atinar o que queriam encontrar: a noção de
lobo não lhe fora transmitida. Dançava em volta do pequeno grupo,
às vezes na frente, às vezes ao lado, farejava a terra bem de perto,
erguia os olhos úmidos na esperança de receber instruções e, a todo
momento, como era jovem e se distraía à toa, pulava atrás dos insetos
que saltavam da grama aparada quando eles se aproximavam, ou atrás
dos gafanhotos que emitiam um zumbido possante e rolavam para o lado,
fugindo da mandíbula do cão. Então, de repente, ele captou o cheiro.
Com um latido de pura alegria, disparou na direção da cerca que demarcava
o limite da propriedade, e as crianças, todas as três, se viraram
para ver o que ele tinha encontrado.
Lachlan Beattie sentiu a neve derreter sob seus pés. Ouviu um distante
rumor de fuga, como o vento correndo por um túnel, e levou um instante
para entender que o barulho vinha de dentro dele.
No calor intenso que fazia ondular e brilhar tudo aquilo que olhavam,
um fragmento do pântano de coqueiros-de-vênus, numa extensão de terra
lá adiante, proibida para eles, desprendera-se da faixa cinzenta que
constituía o lado mais remoto do pântano e, numa forma mais semelhante
a uma miragem diluída, fruto da insolação, do que a algo material,
vinha rolando, saltando e voando, delgado e sutilmente difuso, na
direção deles.
Um negro! Foi o primeiro pensamento do menino. Estamos sendo invadidos
por negros. Depois de tantos alarmes falsos, a hora tinha chegado.
As duas meninas ficaram paralisadas de assombro. Soltaram um suspiro,
inspiraram com força e depois se esqueceram de soltar o ar. O menino
também estava espantado, mas já começara a se recuperar. Embora estivesse
muito pálido em volta da boca, fez o que sua masculinidade exigia.
Empunhando ligeiro o cajado, deu um passo à frente com ar resoluto.
Mas não era uma invasão, só havia um deles; e, até onde o menino conseguia
distinguir através do suor nos olhos e no tremular semelhante ao de
uma chama da figura ao longe, a coisa talvez nem sequer fosse humana.
As pernas iguais a varetas, cheias de calombos nas juntas, sugeriam
uma ave aquática, um grou, ou então um ser humano que, à maneira das
histórias que eles contavam uns para os outros, cheias de feitiços
e maldições, havia se transformado numa ave, mas só pela metade, e
agora, sem ser uma coisa nem outra, corria aos pulos e requebros na
direção deles, vindo de um mundo distante, além da terra de ninguém
do pântano, que era a morada de tudo o que havia de selvagem, temível
e, uma vez que se encontrava tão afastado da experiência não só deles
como dos seus pais, morada também dos rumores de pesadelo, das superstições
e de tudo o que pertencia à Escuridão Absoluta.
Um trapo azul cobria o meio da criatura, de onde pendiam mangas de
camisa. Elas balançavam e acenavam. Mas os braços, que nem varetas,
também acenavam acima da cabeça, ou espantavam moscas, ou línguas
de alguma chama invisível. Ah, era isso. Era um espantalho em que
de algum modo ardera a centelha da vida, ele tinha descido de sua
estaca de pau e agora, em desmazelo e em farrapos, corria aos trambolhões
pela terra abrasadora, seu rosto, duro como couro, preto de tão queimado,
mas, eles repararam, à medida que se aproximava, com cabelos branqueados
pelo sol e cor de palha, como o cabelo deles.
O que quer que fosse, era a intenção do menino enfrentá-lo. Muito
forte e decidido, dois passos à frente das primas, embora pudessem
ser cem metros, em vista do isolamento tremendo que sentia, com uma
fé na força da arma em sua mão que ele sabia ser impossível, sabia
que talvez não resistisse, o menino ergueu o cajado sobre o ombro
e tomou posição de combate.
A criatura, quase sobre eles a essa altura, com o cão Flash nos seus
calcanhares, freou de repente, soltou uma espécie de guincho e, saltando
para cima da haste superior da cerca, pendurou-se ali, com os braços
totalmente abertos, como que se preparando para voar. Em seguida a
boca rasgada se escancarou. - Não atire - gritou. - Sou um objeto
ing-g-g-glês."
>> Saiba mais:
Companhia
das letras
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