Espelho Índio, de Roberto Gambini (Axis Mundi/Terceiro Nome; 192 páginas; 65 reais)

Anos atrás, o psicanalista Roberto Gambini teve uma idéia original. Com base nas descrições dos nativos brasileiros encontradas nas cartas que padre José de Anchieta e outros jesuítas escreveram no século XVI, ele fez um alentado ensaio sobre a formação do caráter nacional. Esgotada nas livrarias há cerca de cinco anos, a obra, antes publicada como simples brochura, acaba de ganhar edição de luxo. Agora, ostenta capa dura e está recheada de ilustrações que constituem um atrativo à parte. São reproduções de gravuras, desenhos e livros do acervo do bibliófilo José Mindlin. Essas imagens retratam temas como o canibalismo, a subjugação dos indígenas e as impressões fantásticas que os europeus tinham a respeito do país.

Leia trecho:

1. A identidade brasileira e seu drama oculto A questão da identidade brasileira, fundamental para uma compreensão correta de nosso papel no presente visando a construção do futuro, deve ser colocada a partir de sua verdadeira origem,ou seja,o reconhecimento da existência de uma alma ancestral do Brasil. e o que quer dizer com isso? Quer sizer tudo aquilo que foi perdido no processo civilizatório que se instalou em nossa terra a partir do contato com o europeu. A grande pergunta que devemos ousar fazer é: qual a qualidade distintiva de nossa consciência coletiva moderna se desde seu nascedouro, no século XVI, uma parte preciosíssima foi deixada de lado por ter sido negada? Que efeitos essa negação eventualmente tem sobre a estruturação de nosso modo de ser, pensaar e agir contemporâneos? Nossa proposta é que essa condição histórica inicial possa ser sentida hoje como uma grande perda- e mais do que isso, como uma dissociação. Nossa consciência e nossa identidade foram construídas no plano da racionalidade, faltando, para completá-las, uma contrapartida não racional que lhe restitua a base perdida desde o começo de um processo que está agora completando 500 anos.