Portões de Fogo, de Steven Pressfield (tradução de Ana Luiza Dantas Borges; Objetiva; 395 páginas; 35,90 reais)

Num momento em que romances sobre a antiguidade parecem ter virado mania, este livro é uma grata surpresa. Ele é consideravelmente melhor do que outras obras do gênero, como a série sobre Ramsés, do egiptólogo francês Christian Jacq, ou a série sobre Alexandre, o Grande, escrita pelo italiano Valerio Massimo Manfredi. O tema de Portões de Fogo, cujos direitos cinematográficos já foram adquiridos pelo diretor Michael Mann, é a batalha de Termópilas, que opôs os gregos e os persas em 480 a.C. Nesse confronto legendário, 300 guerreiros espartanos comandados pelo general Leônidas enfrentaram de maneira suicida o gigantesco exército do rei persa Xerxes, conseguindo impingir-lhe pesadas baixas. Pressfield, que é americano, compõe grandiosas cenas de guerra, mas não pára por aí: seus diálogos e descrições transpiram autenticidade. Um épico que até os gregos antigos acostumados a Homero leriam com prazer.

Trecho do primeiro capítulo:

"Eu sempre me perguntei como seria morrer.

Havia um exercício que nós, do séquito guerreiro, praticávamos quando servíamos de saco de pancadas para a infantaria pesada espartana. Era chamado de Carvalho, pois nos posicionávamos ao longo de uma série de carvalhos na orla da planície de Otona, onde os oficiais e fidalgos comissionados conduziam seus exercícios de campo no outono e no inverno. Alinhávamo-nos, com dez escudos de profundidade, escudos de vime da extensão do corpo firmados sobre a terra, e nos golpeavam, as tropas de choque, atravessando o pântano em linha de batalha, oito de profundidade, a passo, depois a trote e, finalmente, a galope. 0 impacto de seus escudos interfoliados tinha a intenção de nos tirar o fôlego, e conseguia. Era como ser atingido por uma montanha. Nossos joelhos, por mais atados que estivessem, curvavam-se como árvores novas antes de um deslizamento de terra; em um instante toda a coragem abandonava nosso coração; éramos desarraigados como caules secos pela sega do lavrador.

Morrer era assim. A arma que me matou nas Termópilas foi a lança de um hoplita egípcio, que penetrou sob o plexo da caixa torácica. Mas a sensação não foi a que se esperava, não foi de ser perfurado, mas sim de ser empurrado com força, como nós, os parceiros de treinamento, sentíamos sob os carvalhos.

Eu achava que os mortos se desligavam. Que consideravam a vida com os olhos da sabedoria objetiva. Mas a minha experiência foi a oposta. A emoção dominou. A impressão é de que nada permaneceu, a não ser a emoção. 0 meu coração doeu como nunca doera. A perda me envolveu com uma dor aguda, subjugando tudo. Vi minha mulher e meus filhos, minha querida prima Diomache que eu amava. Vi Skarnandridas, meu pai, e Eunike, minha mãe, Bruxieus, Dekton e "Suicídio", nomes que não significam nada para Sua Majestade, mas que me eram mais queridos do que a própria vida e que, agora, agonizando, se tornaram ainda mais queridos.

Partiram para longe. Para longe parti.

Eu estava profundamente consciente de meus irmãos guerreiros que haviam caído comigo. Um vínculo cem vezes mais forte do que aquele que experimentara em vida me unia a eles. Senti um alívio inexprimível e percebi tinha temido, mais do que a morte, a separação deles. Compreendi o tormento cruciante do sobrevivente da guerra, a sensação de traição e covardia experimentada por aqueles que ainda se agarram à vida quando seus camaradas já dela se soltaram.

0 estado que chamamos de vida se encerrara.

Eu estava morto.

E ainda assim, por mais tirânica que fosse essa sensação de perda, havia outra mais incisiva que agora eu experimentava, e percebia meus irmãos de armas sentindo comigo. Era a seguinte.

Que a nossa história morreria conosco.

Que ninguém jamais a conheceria.

Não importava eu mesmo, meus propósitos pessoais, egoístas e vaidosos, mas eles. Leônidas, Alexandros e Polynikes, Arete privada de sua família e, mais que todos, Dienekes. 0 seu valor, a sua sagacidade, seus pensamentos privados que só eu tive o privilégio de compartilhar, enfim tudo que ele e seus camaradas haviam conseguido e sofrido simplesmente desapareceria, seria carregado pelo ar como a fumaça de um incêndio na floresta, e isso era insuportável.

Tínhamos alcançado o rio. Podíamos ouvir com ouvidos que não eram mais ouvidos e ver com olhos que não eram mais olhos o riacho de Lethe e a hoste de mortos de tão longa agonia, cuja ronda sob a terra por fim está chegando ao termo. Estavam retornando à vida, bebendo da água que apagaria toda a recordação de sua existência ali, como sombras.

Mas, nós das Terinópilas, estávamos a uma eternidade de bebermos a água de Lethe. Nós lembrávamos.

Um grito que não era um grito, mas somente a dor multiplicada do coração dos guerreiros, todos sentindo o que eu também sentia, rompeu a cena funesta com um patos intolerável, inqualificável.

Então, atrás de mim, se é que havia tal coisa, um "atrás" nesse mundo em que todas as direções são como uma única, surgiu um fulgor dessa sublimidade, que eu soube, todos nós soubemos imediatamente, que só poderia ser um deus.

Febo, o Grande Arqueiro, Apolo em pessoa, em sua armadura de guerra, movia-se entre os oficiais espartanos. Nenhuma palavra foi trocada; nenhuma foi necessária. 0 arqueiro podia sentir a agonia dos homens e eles sabiam, sem falar, que ele, guerreiro e médico, estava ali para remediá-la. Tão rapidamente, que impossibilitou qualquer surpresa, senti seus olhos em minha direção, eu o último que esperaria isso, e então Dienekes, ele próprio, estava do meu lado, o meu senhor em vida.

Eu seria aquele. Aquele que retornaria e falaria. Uma dor mais intensa que as anteriores me dominou. 0 prazer da vida e até mesmo a chance desesperadamente buscada de contar a história, de repente, pareceram insuportáveis comparados à dor de ter de me separar daqueles que eu passara a amar tanto.

Porém, mais uma vez, diante do poder do deus, nenhuma súplica foi possível.

Vi outra luz, mais pálida, mais crua, uma iluminação mais tosca, e soube que era o sol. Eu estava planando de volta. Vozes me chegavam através de ouvidos físicos. A fala de soldados, egípcios e persas, e mãos com luvas de couro puxando-me debaixo de uma pilha de cadáveres.

Mais tarde, marines egípcios me disseram que eu tinha proferido a palavra lokas que significava "foda-se" em sua língua, e que tinham rido enquanto arrastavam meu corpo destroçado para a luz do dia.

Enganaram-se. A palavra foi Loxias - título grego de respeito para Apolo, o Astuto, ou Apolo Ardiloso, cujos oráculos apresentavam-se sempre evasivos e oblíquos -, e eu estava como que gritando, amaldiçoando-o por colocar essa terrível responsabilidade sobre mim, que não possuía o talento para realizá-la.

Assim como os poetas convocam a Musa para falar através deles, emiti um grasnido inarticulado para o Agressor De Longe.

Se realmente me escolheu, Arqueiro, então que suas flechas com belas plumas sejam lançadas; de meu arco. Empreste-me sua voz, Arqueiro. Ajude-me a contar a história.


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