Kafka e os Leopardos, de Moacyr Scliar (Companhia das Letras; 117 páginas; 16 reais)

O Moacyr Scliar não dorme no ponto. Mal acabou de festejar o Prêmio Jabuti recebido por seu romance de 1999, A Mulher que Escreveu a Bíblia, e já está com uma nova obra nas livrarias. O texto faz parte da coleção Literatura e Morte, da editora Companhia das Letras, e traz as marcas habituais de um bom livro do autor: é curto e muito engraçado. Parte da narrativa de Kafka e os Leopardos passa-se no Brasil, no presente. Mas a maior fatia do enredo tem lugar na Europa do Leste, no comecinho do século. É lá que um jovem revolucionário, apelidado de Ratinho, tenta cumprir uma missão secreta e acaba confundindo o enigmático escritor checo Franz Kafka, autor de livros como A Metamorfose, com um militante comunista. A partir daí, Ratinho vai se enredar numa fantástica comédia de erros. Aproveitando esse mote, Scliar reflete, com muita ironia, sobre os embates entre a política e a arte.

Trecho do primeiro capítulo

"RELATóRIO CONFIDENCIAL 125/65

Senhor Delegado: tem por finalidade este relatório in formar a V.S. acerca da prisão do elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, detido na noite de 24 para 25 de novembro de 1965 numa das ruas centrais de Porto Alegre. Dito elemento, conhecido militante nos meios universitários da cidade, vinha sendo seguido há dois meses por nossos agentes. Por volta das 21 horas Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, dirigiu-se para o apartamento de sua namorada Beatríz Gonçalves. Outros elementos, seis no total, chegaram ao local, sozinhos ou em duplas - obviamente para uma reunião secreta. Às 23h3o os elementos deixaram o local, ocasião em que lhes foi dada voz de prisão pelo agente Roberval. Sete elementos, incluindo Beatriz Gonçalves, conseguiram fugir, mas o elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, que puxa de uma perna, não pôde correr. Detido e conduzido à sede da Unidade de Operações Especiais, foi interrogado. Nesse procedimento utilizou -se o auxílio de choques elétricos, interrompidos por duas razões: 1) sucessivos desmaios do elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, e 2) falta de energia elétrica. Desta maneira, o interrogatório não pôde ser completado. 0 elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, repetiu várias vezes que a reunião tinha por objetivo discutir literatura e tomar chimarrão. No apartamento foi efetivamente encontrada uma cuia de chimarrão ainda morna e vários livros, o que naturalmente não invalida a hipótese de reunião subversiva. 0 elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, foi revistado. Em seus bolsos havia: 1) poucas notas e moedas; 2) um lenço sujo e rasgado; 3) um toco de lápis; 4) dois comprimidos de aspirina; 5) um papel cuidadosamente dobrado, com as seguintes palavras datilografadas em alemão:

Leoparden in Tempel

Leoparden brechen in den Tempel ein und saufen die Opférkrúge leer; das wiederholt sich immer wieder, schlieslich kann man es vorausberechnen, und es wird ein Teil der Zéremonie.

Abaixo do texto, a assinatura de um certo Franz Kafka.

0 papel, amarelado, parece bastante antigo. Cremos, contudo, que isso é um truque, e que se trata, na realidade, de uma mensagem, possivelmente em código; estamos aguardando a tradução para o português, solicitada em caráter de urgência, para melhor avaliação. Com base em dita tradução, continuaremos investigando o elemento Jaime Kantarovitch, codinome Cantareira, agora com vistas a conexões subversivas internacionais.

Com a abertura dos arquivos dos serviços secretos que operaram no Brasil a partir do golpe de 1964, numerosos documentos vieram à luz, entre eles o relatório confidencial acima transcrito, de que tenho uma cópia.

Jaime Kantarovitch, apelidado Cantareira por um amigo carioca, era meu primo. Nunca fomos íntimos, mas eu gostava dele e respeitava-o muito. 0 relatório remete a uma surpreendente história que envolve o próprio Jaime, o nosso tio-avô Benjamin Kantarovitch - e Franz Kafka."

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