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Vou
Embora, de Jean Echenoz (tradução de Myriam Campello; Objetiva;
184 páginas; 17,90 reais)
Cansado da rotina, um galerista francês resolve transformar-se em
caçador de tesouros e parte para aventuras em lugares como o Pólo
Norte. Com base nesse mote inusitado, Jean Echenoz compôs um livro
hilariante, movimentado e muitíssimo bem escrito. Em outras palavras,
uma raridade na ficção francesa contemporânea que vale a pena conferir.
>> Trecho do primeiro capítulo:
"Vou embora, disse Ferrer, vou deixar você. Pode ficar com tudo, mas
eu vou embora. E como os olhos de Suzanne, desviando-se para o chão,
detinham-se sem motivo numa tomada elétrica, Félix Ferrer largou as
chaves sobre o console da entrada. Depois, abotoou o sobretudo antes
de sair, fechando suavemente a porta do pavilhão.
Do lado de fora, sem um olhar para o carro de Suzanne com vidros embaçados
que silenciavam sob as luzes da rua Ferrer se pôs a andar para a estação
Corentin-Celton, a seiscentos metros de distância. Por volta das nove
horas, na primeira noite de domingo de janeiro, o metrô estava quase
deserto. Apenas uma dezena de homens solitários, como Ferrer parecia
ter-se tornado há vinte e cinco minutos, ocupava-o agora. Numa época
normal, Ferrer se teria alegrado por encontrar uma célula vazia de
bancos face a face, como um pequeno compartimento só para ele, seu
contexto preferido no metrô. Naquela noite, nem pensava nisso, distraído,
mas menos preocupado do que imaginara pela cena que acabara de ocorrer
com Suzanne, mulher de índole difícil. Tendo esperado uma reação mais
viva, gritos entrecortados de ameaças e graves insultos, ficara aliviado
e ao mesmo tempo contrariado pelo próprio alívio.
Colocara perto de si a maleta contendo principalmente objetos de toalete
e mudas de roupas e, de início, olhara fixamente para a frente, decifrando
maquinalmente painéis publicitários de revestimento de piso, mensagens
de casais e anúncios imobiliários.Mais tarde, entre Vaugirard e Volontaires,
Ferrer abriu a maleta para pegar um catálogo de leilões de obras de
arte persa tradicional que folheou até a estação Madeleine, onde desceu.
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