| |
| |
|
|
|
|
|
| |
 |
|
|
O
Peso da Água, de Anita Shreve (tradução de Fausto Wolff; Bertrand
Brasil; 272 páginas; 33 reais)
Em 1873, duas mulheres são mortas numa desolada cidadezinha costeira.
Cem anos depois, uma repórter viaja ao local dos crimes para fotografá-lo,
seguida pelo marido, que está envolvido com outra mulher. Entretecendo
os dois enredos - o primeiro real, o segundo inventado -, a americana
Anita Shreve compõe uma história poderosa e cheia de tensão, que mantém
o leitor grudado no livro até a última página.
>> Trecho do primeiro capítulo:
"Minha função é avisar às pessoas sempre que vejo uma saliência rochosa,
uma ilha. Fico parada na proa, olhos fixos no nevoeiro. De tanto tentar
perscrutar a cerração, acabo vendo coisas que não existem. Primeiro,
luzes minúsculas se movendo, depois gra- dações de cinza, minimamente
sutis. Aquilo foi uma sombra? Foi uma forma? E então, de repente,
de modo tão chocante que mal consigo abrir a boca por alguns segundos,
tudo aparece na minha frente: Appledore (Maça Dourada), Londoners
(Londrinos), Star (Estrela) e Smuttynose (Nariz Sujo) - rochas que
emergem da neblina. Smuttynose - na sua totalidade - esparramada,
rochas descoloridas, proibitiva, silenciosa.
Eu grito Terra. Pelo menos, acho que foi isso que gritei.
Às vezes, no barco, sou invadida por uma sensação de claustrofobia,
mesmo quando estou sozinha na proa. Não havia antecipado isso. Somos
quatro adultos e uma criança forçados viver juntos de modo agradável
num espaço que certamente não é maior do que um quarto de dormir.
E esse espaço está sempre úmido. Os lençóis estão sempre úmidos. Minha
roupa de baixo também. Rich, que já tem o barco há anos, diz que isso
acontece sempre. Ele me passa a impressão de que aceita a umidade
e até extrai certo prazer dela. Como se com isso indicasse o seu caráter.
Rich trouxe uma nova mulher com ele. Seu nome é Adaline.
Rich dá as instruções. O barco é velho, um Morgan 41, mas é bem cuidado,
e o casco foi envernizado recentemente.Rich pede o bicheiro do barco
e grita para que Thomas prenda as bóias. Rich desacelera o motor,
deixa-o em reverso, manobra o barco longo e esguio - esse espaço que
se move através da água - preparando-se para atracar. Thomas se inclina
e apanha uma bóia. Adaline tira os olhos do livro que lê e olha para
cima por um instante. É nosso terceiro dia a bordo da chalupa: Hull
(Casca de Fruta), Marblehead (Cabeça de Mármore), Anisquam, e agora
as Ilhas de Shoals (dos Baixios)."
|
|
| |
|
|
|
|
|
| |
|
|
|
 |
|
|
|