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Anne
Frank, uma Biografia, de Melissa Müller (tradução de Reinaldo
Guarany; Record; 395 páginas; 50 reais)
Durante cinqüenta anos, Anne Frank foi mais um mito do que uma pessoa
de carne e osso. Quase tudo o que se sabia a respeito dela estava
em seu famoso Diário, documento emocionante sobre a perseguição nazista
aos judeus, que mostra o dia-a-dia da adolescente que passou meses
escondida com sua família numa casa na Holanda, até ser descoberta
pelos soldados de Hitler e enviada a um campo de concentração. Nesta
biografia, ela é retratada pela primeira vez de maneira ampla, desde
a infância, com suas qualidades e defeitos. Para tanto, a jornalista
austríaca Melissa Müller levou a cabo um impecável trabalho de investigação.
Ela consultou arquivos e fez entrevistas reveladoras. Para coroar
a pesquisa, Melissa divulga aqui o conteúdo de cinco páginas do diário
que haviam sido arrancadas pelo próprio pai de Anne Frank e nunca
antes publicadas. Nelas, Anne critica o casamento dos pais.
Leia um Capítulo:
Prefácio
Seu diário — escrito entre 1942 e 1944 no esconderijo em Amsterdã
— é o documento literário mais lido sobre os crimes nazistas e transformou-a
numa das figuras mais conhecidas do século XX: a menina Anne Frank,
4 anos quando teve de abandonar sua pátria, a Alemanha; 13, quando
foi obrigada a se esconder dos nazistas; e nem completara 16 quando
morreu no campo de concentração — como mais um dos seis milhões de
vítimas inocentes do obscuro delírio racial de Hitler. Nos últimos
cinqüenta anos, Anne Frank foi estilizada como embaixatriz dos discriminados
num mundo de violência e falta de liberdade, um símbolo de humanidade,
de tolerância, de direitos humanos e democracia, a síntese do otimismo
e da vontade de viver. Para milhões de jovens em busca de identidade,
ela tornou-se figura de identificação, até mesmo heroína. Ela foi
usada e abusada como elo entre criminosos e vítimas, seu diário —
leitura obrigatória em muitas escolas do mundo inteiro — foi interpretado
como mensagem universal de coragem e esperança. Seus pensamentos,
como é de praxe no caso de coisas muito citadas, tornaram-se palavras
proverbiais, muitas vezes arrancadas do contexto e reformuladas segundo
a necessidade. Se houvesse tal coisa no judaísmo, possivelmente já
se teria advogado em favor de sua beatificação. Aos 13 anos de idade,
li pela primeira vez o diário de Anne Frank. Pude identificar-me de
imediato com sua luta pela formação de sua personalidade, luta esta
condicionada pela puberdade, porém já objetiva. Em muitas coisas que
ela escreveu, falou tal como eu pensava. Os ressentimentos que nutria
contra a mãe não me eram estranhos. O fato de ter escrito o diário
na condição de perseguida por um regime de terror e de ter morrido
cerca de oito meses após a última anotação, foi outro aspecto que
me afetou e tocou fundo. Sem dúvida, um aspecto com alta necessidade
de explicação. Desde aquela época, nunca mais me deixou a pergunta
do "por que" — provavelmente feita de maneira bastante ingênua devido
à idade. Não conheci uma razão que respondesse minha pergunta mesmo
que de modo apenas quase satisfatório. Não recebi dos professores.
Nem de meus pais. Silêncio, pena, tristeza, mas nenhuma resposta esclarecedora.
Há muito tempo eu sei: não existe explicação alguma para o holocausto,
nem saída da cabeça, nem saída da barriga. Existe, porém, a possibilidade
de se aprofundar nos acontecimentos e de ampliar o catálogo de perguntas.
A partir de que pano de fundo político, econômico, social e de psicologia
de massas se pôde chegar a esse genocídio? Que circunstâncias entraram
em combinação para seres humanos como eu e você se tornarem vítimas,
criminosos, sequazes, espectadores e alienados que desviavam o olhar?
Há mais de três anos tornei a pegar o diário; com o dobro da idade
que tinha quando da primeira leitura, li dessa vez a chamada edição
definitiva; em comparação com a primeira, ampliada com inúmeras anotações
que, em parte, são muito pessoais, confissões íntimas, desenfreados
ataques de raiva e de sentimentalismos. Declarações espontâneas de
uma menina com fome de viver, com extraordinário potencial literário
e humano, que não podia se desenvolver porque nascera judia. Dessa
vez, fui acossada por inúmeras perguntas. As mais urgentes, de novo,
aquelas que indagavam sobre os pressupostos que capacitavam os homens
a fazer desumanidades tão inconcebíveis. Como a família de Anne, tanto
do lado paterno como do materno, viveram esse tempo? Em que ambiente
familiar, com que amigos Anne começou a se desenvolver? Que vivências
marcaram-na? Seu diário, porém, anota apenas um sétimo de sua vida.
Assim começou minha busca pela pessoa que está por trás do mito, por
histórias e acontecimentos da vida da menina alemã-judia Annelies
Marie Frank que influenciaram a formação de sua personalidade. Sem
dúvida nenhuma, uma personalidade forte, mas que só foi compreendida
no desdobramento. Por isso, uma biografia não deve ser feita, de maneira
alguma, como se se tratasse de sondar e consolidar um ser humano pronto
— segundo as regras e sutilezas da psicologia; ao contrário, deve
acompanhar Anne com atenção em seu desenvolvimento, que foi interrompido
tão abruptamente. Assim sendo, meu objetivo foi reunir o maior número
possível de pedrinhas do mosaico e montar o quadro mais autêntico
possível da breve vida de Anne, para pesquisar as raízes familiares
bem como o ambiente social sobre os quais sua vida foi construída.
Esta biografia não quer, de forma alguma, substituir o diário de Anne;
pelo contrário, vai completar esse documento insubstituível em sua
sinceridade e clareza. O olhar de Anne, naturalmente muitas vezes
fragmentado, sobre seu ambiente e o mundo externo que se reflete no
diário, deve ser ampliado por meio de um olhar geral de fora. Ele
documenta seu caminho de vida e sua via-crúcis, bem como de seus parentes
mais próximos e amigos mais íntimos, copiando a partir da "vítima
mais conhecida" de Hitler, que todos imaginam conhecer e da qual se
sabe tão pouco, a loucura do regime nazista: da propaganda de ódio,
passando pela expatriação, degradação e privação dos direitos, até
a deportação e massacre organizado dos judeus. Este livro jamais poderia
ter sido realizado sem o valioso encontro com a última geração que
fala a partir da experiência pessoal e que ainda pode manter viva
a lembrança do holocausto; nem sem a confiança — ganha passo a passo
— daquelas pessoas que conheceram Anne Frank pessoalmente e que hoje
vivem espalhadas pelo mundo inteiro, em Israel, nos Estados Unidos,
na Argentina, na Holanda, na França e na Alemanha. Sem a disposição
de confrontar com suas dolorosas recordações, de se abrir para mim
e revelar particularidades de sua vida sobre as quais se mantiveram
caladas durante mais de cinqüenta anos — em parte, porque antes ninguém
lhes indagou sobre elas; em parte, porque antes ainda não estavam
prontas para falar a respeito —, muitos dos detalhes que entraram
no livro teriam continuado obscuros por muito tempo, talvez para sempre.
Durante minhas pesquisas, segui a pista e conheci mais de vinte testemunhas
da época que são parentes ou eram amigos de Anne Frank e muito mais
pessoas que foram íntimas de seu pai Otto depois da guerra. No decorrer
dos meses e das numerosas conversas, muitas delas se tornaram amigos
que eu não gostaria mais de perder. O fato de eu ter ganhado também
a confiança de Miep Gies, após meses de cautelosa aproximação, ampliou
muito meu ângulo visual, enriquecendo o livro com muitas informações
importantes. Fiquei muito honrada porque no final ela se declarou
disposta a escrever um posfácio para meu livro. Meus parceiros de
conversa confiaram suas histórias e contaram sobre períodos da vida
deles que tiveram ligação com Anne Frank e sua família, mostraram-me
as lembranças que tinham dos Frank, fotografias, cartas, anotações
manuscritas, documentos elucidativos — muitos dos quais inéditos até
hoje — e, desse modo, ajudaram a desenhar um quadro de Anne e de sua
vida rica em facetas — uma vida curta num tempo torturado e violento,
uma vida em que as circunstâncias excepcionais se tornaram trivialidades,
uma vida sem chance de sobrevivência. E eles me ajudaram a chegar
próximo de respostas a perguntas-chave que absorveram não apenas a
mim, mas também a milhões de outras pessoas que há décadas leram o
diário: quem traiu a família Frank? O que Anne pretendia com seu diário?
Que personalidade havia de fato por trás da mãe, sobre a qual Anne
escreveu com tanta dureza e severidade? Otto Frank, o pai de Anne,
foi o único da família que pôde se posicionar em relação ao diário
da filha depois da guerra; o homem sempre contido em público o fez
com a escolha dos textos que liberou para publicação. No entanto,
até hoje quase não sabíamos coisa alguma sobre a mãe de Anne, nem
mesmo sobre a formação escolar que teve. Ela permaneceu sem contornos
durante mais de cinqüenta anos — bem como toda sua família, os Holländer.
Um dos objetivos que persegui com este livro foi dar enfim à mãe e
às suas raízes a importância que, sem dúvida, tiveram para Anne em
seu desenvolvimento. Sem a colaboração dos descendentes da família
Holländer que vivem espalhados pelo mundo, e sem a liberalidade de
diversas repartições da Alemanha cujo material de arquivo — apesar
de toda a burocracia — foi colocado à minha disposição jamais teria
alcançado esse objetivo. Também sou muito grata a Cor Suijk, o diretor
internacional do Anne Frank Center de Nova York — um amigo íntimo
de Otto Frank de muitos anos —, pelo fato de, após 18 anos de silêncio,
ter tomado a decisão de me tornar acessíveis duas anotações do diário
que até então eram mantidas em segredo — uma delas de 8 de fevereiro
de 1944; a outra, a última "introdução" que Anne redigiu para o diário
—, com toda certeza os últimos textos do diário ainda não publicados,
escritos com a caligrafia de Anne. Como um dos textos dá esclarecimento
sobre o destino pessoal de Edith Frank-Holländer, lançando uma nova
luz sobre o quadro que Anne desenha de sua mãe no resto do diário,
e como o outro texto insinua o que Anne pretendia ou até não pretendia
com seu diário, eles completam a história da família de Anne como
peça essencial do mosaico. Cerca de meio ano antes de sua morte, Otto
Frank confiara estas páginas a seu amigo e conselheiro pessoal, Cor
Suijk. Em virtude de seus acordos verbais com Otto Frank, Cor Suijk
sentiu-se autorizado a me consentir um exame do material. O Anne Frank
Fonds, colocado a par por Cor Suijk e solicitado a colaborar, negou-se,
por razões que para mim não são compreensíveis, a consentir que o
texto original das páginas fosse copiado neste livro. Para me aproximar
da menina Anne Frank, escolhi conscientemente uma abordagem prudente
de narração. No entanto, nenhum detalhe, nenhuma anedota deste livro
é inventada. Também abri mão de conjecturas sempre que foi possível
e, quando foram inevitáveis, as identifiquei como tal. Quando testemunhas
da época tinham recordações diferentes de certos acontecimentos —
após mais de meio século, algumas imagens podem se desfigurar — tentei
procurar esclarecimento, ou então, quando foi impossível, chamei a
atenção para as divergências que, via de regra, não eram essenciais.
Um pesquisador em história é alguém que não apenas analisa a história,
mas também conta histórias verdadeiras, disse o historiador Yehuda
Bauer. Um número maior de pessoas ouve um contador de história comprometido
com a história do que ouve um teórico que a analisa. Eu tentei contar
a história de Anne Frank, de sua família e de seu círculo de amigos
de tal maneira que o maior número possível de pessoas me ouvisse —
com a esperança de que, se possível, muitas delas se inteirassem dos
crimes inconcebíveis que o regime nazista praticou, se inteirassem
dos fatos históricos e das caucas sociais sobre cujo pano de fundo
pôde ocorrer o massacre, tomando assim consciência de sua responsabilidade.
"Enquanto toda a humanidade sem exceção não passar por uma grande
metamorfose, a guerra vai grassar, tudo que é construído, criado e
cultivado, será cortado e exterminado de novo, para em seguida começar
outra vez!", Anne Frank escreveu em seu diário um mês antes de seu
décimo quinto aniversário (3 de maio de 1944, vers. A). Desde o final
da Segunda Guerra Mundial houve exatamente quatro dias no mundo inteiro
nos quais não foi desencadeada uma guerra em algum lugar do planeta.
A história não se repete, disse Voltaire, mas o homem faz isso. O
homem, com toda inteligência, é fraco e destruidor, e se deixa levar
até perder seus ideais de vista. Então, ele começa — como se não fosse
capaz de aprender — de novo. Não devemos deixar de ter esperança na
capacidade de aprender do homem. E por isso não devemos deixar de
contar essas histórias. Histórias como a de Anne Frank. Histórias
contra o esquecimento. Munique, junho de 1998 Melissa Müller 1 A prisão
Silêncio! Nenhuma palavra mais em voz alta! Quem está no banheiro?
A torneira ainda está aberta. Nada de dar a descarga agora. Baixo,
baixo. Não sejam tão descuidados. Psiu! Após dois anos, claro que
vocês podiam saber... Esvaziar penicos. Empurrar camas para trás.
Tirar sapatos! Os sinos já estão tocando. Às oito e meia, quando os
trabalhadores do armazém chegam, deve reinar o silêncio. O cotidiano
ritual das manhãs nos fundos da casa: às quinze para as sete toca
o despertador no quarto de Hermann e Auguste van Pels. Seu estridente
tilintar também arranca do sono a família Frank, e Fritz Pfeffer um
andar abaixo. Os barulhos seguintes lhes são por demais conhecidos:
uma batida certeira — agora a Sra. van Pels desligou o despertador.
O rangido, primeiro hesitante, depois cada vez mais definido — o Sr.
van Pels levanta, desce com cuidado a inclinada escada de madeira.
Como sempre, ele é o primeiro no banheiro. Anne espera na cama, até
ouvir a porta do banheiro ranger outra vez. Seu companheiro de quarto,
Fritz Pfeffer, é o próximo. Anne se sente aliviada. Desfruta dos poucos
minutos em que está sozinha no espaço apertado no começo da manhã.
De olhos fechados, ela escuta o trinado do passarinho no pátio dos
fundos e se espreguiça em seu local de dormir. De fato, não se pode
chamar de "cama" aquele sofá estreito que ela aumentou colocando uma
cadeira na parte dos pés. No entanto, Anne acha realmente luxuoso
seu local de dormir. Miep Gies, que abastece os Frank com víveres
em seu esconderijo, contou para ela que outros clandestinos dormem
em alcovas minúsculas, muitas vezes sem janelas, ou então no chão
de porões úmidos. Disciplinada, Anne se levanta e puxa a lona para
escurecer a janela. A disciplina determina sua vida no esconderijo.
Um breve olhar lá fora. Nesta manhã de sexta-feira há muito pouca
visibilidade. Com certeza, vai ser um esplêndido dia quente de alto
verão. Se ela mais uma vez... apenas por alguns momentos... porém,
paciência, logo se chega lá... o atentado contra Hitler há cerca de
duas semanas deu enfim esperanças de novo a todos... provavelmente,
no outono ela poderá ir de novo para a escola... seu pai e o Sr. van
Pels têm certeza de que em outubro tudo terá passado... de que então
estarão livres... de fato, hoje já é 4 de agosto de 1944. Eles têm
45 minutos para se preparar para o novo dia. Quarenta e cinco minutos
passam num abrir e fechar de olhos até que oito pessoas deixem para
trás seu asseio matinal, arrumem a roupa de cama, empurrem a cama
para o lado, ponham em ordem mesa e cadeiras. Quando começar a atividade
no armazém abaixo deles, às oito e meia, nenhum barulho mais poderá
chegar de cima. Com que facilidade eles mesmos poderiam se denunciar.
Além disso, o gerente do armazém, van Maaren, já está muito desconfiado.
Antes do pequeno café da manhã, às nove, cada um cuida de si. Se possível,
sem fazer barulho. Essa meia hora pela manhã é especialmente crítica.
Eles lêem, estudam, ou costuram — e aguardam. Se um deles tiver de
se levantar, andará devagar como um ladrão pelo quarto, usando meias
ou chinelos macios. Falar só é permitido em tom de sussurro. Quem
der uma risada alta ou gritar com uma dor repentina, merecerá os olhares
repreensivos dos outros. Então, quando enfim chegam os funcionários
do escritório, depois dos trabalhadores do armazém, e o matraquear
de máquinas de escrever, o toque do telefone e as vozes de Miep Gies,
Bep Voskuijl e Johannes Kleiman — todos eles amigos e colaboradores
dos clandestinos — se tornam bastidores de barulho, então o perigo
é abafado um pouco. Por fim, Miep chega para pegar a lista de compras.
Lista de compras? Em todo caso, Miep tem de aceitar o que receber.
E recebe menos de dia para dia. Ela sabe, porém, com que ansiedade
os habitantes dos fundos da casa esperam por ela. Anne importuna Miep
com todo tipo de perguntas, como em todas as manhãs. Miep lhe dá esperanças
para a tarde, como em todas as manhãs. Só depois de dar a palavra
de honra de que terá tempo para uma hora de minuciosa conversa, é
que Anne a despacha para o escritório. Otto Frank se retira com Peter
van Pels para o minúsculo quarto do andar de cima. Hoje o inglês está
em pauta, um ditado. Sozinho, Peter não progride com o enfadonho idioma
estrangeiro. De modo que Otto lhe dedica a manhã. Assim, pelo menos
ele não demora tanto. Enquanto isso, Margot e Anne se concentram em
seus livros, um andar abaixo. Exercitar-se na paciência e na disciplina
foi o que a levada Anne aprendeu nos últimos dois anos. Bem lá embaixo
no armazém está funcionando o moedor de condimentos. Seu matraquear
monótono soa familiar. Willem Gerard van Maaren abriu por completo
a porta do armazém, que dá para a Prinsengracht, para deixar entrar
a luz e o calor do suave verão de Amsterdã. Dez e meia. Até a pausa
do meio-dia, os dois trabalhadores do armazém ainda têm muito que
fazer. De repente, homens desconhecidos, cinco ou mais, estão parados
no armazém — entre eles, um de uniforme. Serviço secreto alemão. SD.
Os homens estão armados. Algumas palavras são ditas, em seguida o
surpreso van Maaren indica com o polegar para cima os aposentos do
escritório. Um segundo trabalhador, Lammert Hartog, está parado ao
lado, tenso. Seu olhar revela insegurança. Imediatamente, os estranhos
se apressam para o primeiro andar em direção às duas salas do escritório,
apenas um deles fica para trás, de olho na saída. Ele não repara em
Lammert Hartog, que logo na chegada deles havia vestido o paletó e
saído de fininho sem retornar. Ou então não quer reparar. Sem bater
na porta, um dos homens, pequeno e notavelmente corpulento, entra
no escritório comum de Miep Gies, Bep Voskuijl e Johannes Kleiman.
Miep nem levanta os olhos. Não é estranho que alguém chegue no escritório.
Quando ela ouve um ríspido "permanecer sentado e nenhuma palavra!",
levanta os olhos e olha para o cano de uma arma. — Não se mexa — ordena
o holandês. Através da porta dupla de dois batentes soam palavras
de ordem rudes. O homem do SD e seus três ajudantes, todos holandeses,
surpreenderam o chefe da firma, Victor Kugler, em sua escrivaninha
na sala ao lado. — A quem pertence este prédio? — o homem uniformizado
se dirige a ele em tom rude, falando alemão. Kugler pensa ter reconhecido
um sotaque austríaco. — Ao Sr. Piron — responde ele também em alemão.
Ele passou a infância e a juventude na Áustria. — Nós só somos inquilinos
aqui. Kugler permanece sentado, rígido, e logo menciona o endereço
do holandês a quem pertence o prédio da Prinsengracht 263, desde abril
de 1943. Impaciente, o homem do SD bufa algo como: — Não desconverse!
— seu nome, verifica-se, é Silberbauer. Karl Josef Silberbauer. —
Quero saber quem é o chefe aqui. — Sou eu — replica Kugler. O que
os sujeitos do SD estão procurando? Kugler, um homem tranqüilo e extremamente
severo, que por muitas pessoas é visto como intratável, tenta pôr
ordem em seus pensamentos. Terão ido buscá-lo? Será que sabem por
acaso que... se ao menos eles não forem aos fundos da casa... e se
alguém os traiu? Durante dois anos e um mês tudo correu bem. Impossível
que justo agora... agora que a ofensiva dos Aliados também começa
enfim a tomar o norte da França. Agora que só pode ser uma questão
de algumas semanas. Agora que tudo vai ficar bem. Segundos de auto-sugestão.
Então, sua esperança dá lugar à certeza fatal: os homens têm conhecimento.
Negar só servirá para piorar tudo. — Há judeus escondidos em sua casa
— as palavras de Silberbauer soam como uma sentença em última instância.
Sem saída. Silberbauer tem pressa, está em serviço. E, para ele, aquilo
ali é rotina. Ele ordena que Kugler vá na frente. Kugler obedece.
Que outra coisa lhe resta? Os homens o seguem com armas na mão. Os
olhos azuis e duros de Kugler brilham — mais do que de costume — como
uma parede impenetrável. No entanto, a postura particular de seu corpo,
correta ao extremo e sempre parecendo controlada, ilude: a sensação
de impotência paralisa seus pensamentos. Em sua cabeça: nada, apenas
ramas de algodão infladas como nuvens negras. Aquilo que lhe é familiar
em seu ambiente desaparece com a falta de clareza. Os últimos minutos
antes de uma tormenta, abafados, sufocantes, ameaçadores. Perguntas
torturantes o assaltam: Quem traiu seus protegidos? Um vizinho? Um
trabalhador? Por que justamente hoje? Ele percorre, com aparente indiferença,
o corredor que liga a parte da frente da casa aos fundos. Sobe degrau
por degrau a estreita escada que em cima se enrosca para a direita
numa escada em caracol. Os desconhecidos seguem logo atrás dele. Silberbauer
ainda não se acostumou com as escadas inclinadas e perigosas de Amsterdã.
Catorze, quinze, dezesseis. Agora, eles se encontram num vestíbulo
que o papel de parede com flores enormes em bege e vermelho faz parecer
mais apertado. Atrás deles, a porta de ligação com o depósito de condimentos;
bem diante deles uma estante de livros da altura de um homem, com
três gavetas cheias de pastas cinzentas e surradas. Em cima da estante
está pendurado um mapa grande, desses que são vistos em repartições
e escolas. Bélgica na escala de 1:500.000. Abrir! Claro que eles estão
informados. Um empurrão. Como um portão pesado, a estante de livros
é afastada da parede. Atrás dela — quase meio metro acima do chão
— aparece uma porta branca cuja extremidade superior desaparece atrás
de uma parede fina e do mapa. O canto superior do marco da porta está
acolchoado com um pano cheio de serragem. Do contrário, as pessoas
podiam bater a cabeça. Será que os Frank já escutaram os passos barulhentos,
as vozes desconhecidas? À hesitação de Victor Kugler, os sujeitos
do SD reagem com mais insistência. Postura! Bem na frente deles, uma
outra escada, larga o suficiente para uma pessoa, leva ao andar de
cima dos fundos da casa. Kugler passa pelo estreito corredor à esquerda
e abre a porta de ligação. A primeira pessoa que Kugler vê é Edith
Frank, a mãe de Anne, que está sentada à mesa. — Gestapo — ele ouve
a própria voz sussurrar. Não saem outras palavras de seus lábios secos.
Ela vai entrar em pânico, ele receia. No entanto, Edith permanece
sentada, como que paralisada. Ela olha de longe para Kugler e os desconhecidos.
Indiferente. — Mãos ao alto — ordena-lhe um dos holandeses com a arma
apontada. Num gesto mecânico, ela levanta os braços. Um outro conduz
Anne e sua irmã Margot para fora do quarto contíguo. Elas são obrigadas
a se colocar ao lado da mãe, com as mãos sobre a cabeça. Nesse meio
tempo, dois policiais holandeses correram para o andar de cima. — Mãos
ao alto! — enquanto um deles mantém em xeque com a pistola o Sr. e
a Sra. van Pels, o outro invade a pequena câmara ao lado. — Mãos ao
alto! Como se fossem dois criminosos que pudessem lutar pela liberdade,
ele revista Otto Frank e Peter van Pels à procura de armas. Em seguida,
ele os conduz para fora, onde estão os pais de Peter, em silêncio,
as mãos sobre a cabeça, o olhar perdido no vazio. — Você pode descer.
Rápido. O último a aparecer é Fritz Pfeffer, com uma arma nas costas.
Os sujeitos do SD parecem satisfeitos. Oito judeus num só golpe. Uma
boa manhã. — Onde está o dinheiro de vocês? Onde estão as coisas de
valor? — Silberbauer pergunta em tom de ordem ameaçador. Rápido, rápido,
não se pode perder tempo. Os oito prisioneiros parecem incrivelmente
serenos. Só nas faces de Margot correm lágrimas. Em silêncio. Otto
Frank sente que nesse momento eles têm de mostrar que estão colaborando.
Então, tudo vai ficar bem. Os próprios alemães estão com medo. Aliás,
eles também sabem que a ofensiva dos Aliados... que só pode ser uma
questão de semanas. Otto aponta para o armário afundado na parede,
no qual guarda as coisas de valor da família. Silberbauer ordena a
seus ajudantes que façam uma revista no resto dos aposentos da casa
dos fundos em busca de jóias e dinheiro, e também no sótão. Ele próprio
vai pegar o volumoso cofre dos Frank no armário. Seu olhar percorre
o quarto. Agora, ele encontrou o que precisa. A pasta de documentos
de couro de Otto. Na verdade, a pasta de Anne; pois Otto cedeu-a para
a filha como lugar seguro para seus documentos pessoais. Silberbauer
abre a pasta, a vira de cabeça para baixo e, sem nenhum cuidado, deixa
que os diários, os cadernos e as folhas soltas caiam no chão. "...
meu diário não, meu diário só junto comigo!", Anne anotara quatro
meses antes. Agora, ela não demonstra qualquer reação. Silberbauer,
a quem irrita a aparente falta de surpresa de sua prisioneira, deixa
o conteúdo do cofre cair na pasta e berra: — Vamos, preparem-se! Depressa!
Em cinco minutos quero que todos tenham partido! Como num transe,
os prisioneiros pegam suas bolsas de fuga, no quarto ao lado. Mochilas
que estão prontas e penduradas há dois anos, preparadas para o caso
de começar um incêndio, e eles tivessem de abandonar os fundos da
casa. Eles fingem que não vêem a grande desordem que acabaram de fazer
os nazistas holandeses em sua busca. Silberbauer, segundo-sargento
da SS, não pode ficar parado. Com suas botas pesadas, anda de um lado
para outro no quarto estreito. De um lado para outro. Isto tem um
efeito intimidador, disseram a ele. Também ajuda a passar o tempo
até a partida. Ele tem 33 anos de idade, o cabelo louro-cinza cortado
à maneira militar sobre as enormes orelhas carnudas, os lábios claros
e finos, os olhos apertados em fendas. Um sujeito do tipo faz-tudo,
obediente, que ouve a autoridade. Seu uniforme lhe dá força, dá para
ver. Agora, faz parte dos mais fortes, pensa ele. Não pensa muito
mais coisas. Ele cumpre ordens. Evacuar os fundos da casa é uma ordem
bem corriqueira. Em 1939, o policial formado se alistou nas SS; em
outubro de 1943, foi transferido de sua cidade natal, Viena, para
o posto externo em Amsterdã, seção IV B4 da Gestapo, o chamado relatório
judeu da central da Segurança do Reich em Berlim, que está encarregada
da eficiente "solução da questão judaica" e é subordinada a Adolf
Eichmann. Enquanto isso, a mulher de Silberbauer vive em Viena. De
repente, ele estanca e olha fixo para a enorme caixa cinzenta que
está no chão entre a cama de Edith Frank e a janela. — A quem pertence
essa arca? — Silberbauer quer saber. — A mim — responde Otto, dizendo
a verdade. "Tenente d. Res. Otto Frank" está escrito em letras bem
legíveis na tampa da caixa guarnecida com ferro. — Fui oficial na
Primeira Guerra Mundial. — Mas... — é evidente que Karl Silberbauer
se sente incomodado. Aquela caixa não tem de estar ali. Ela perturba
a rotina dele. — Mas então por que você não se apresentou? Otto Frank
é seu superior na hierarquia militar. Frank, um judeu. — Você teria
ido para Theresienstadt — ele acentua como se o campo de concentração
de Theresienstadt fosse uma estação de águas para quem precisasse
de cura. Intranqüilo, o homem das SS olha pelo quarto, evita o contato
de olho com Otto Frank, que está tranqüilo. Ao contrário dos outros,
ele não quer mais fazer as malas. — Há quanto tempo está escondido
aqui? — Dois anos — responde Otto Frank — e um mês. Quando vê o incrédulo
sacudir de cabeça de Silberbauer, aponta para a parede ao lado da
porta do quarto de Anne. Finos traços de lápis marcam no papel de
parede o quanto Anne e Margot cresceram desde 6 de julho de 1942.
O olhar de Silberbauer fica parado num pequeno mapa da Normandia pendurado
bem à direita dos traços, no qual Otto assinalou o avanço dos Aliados.
Numerosos alfinetes com cabeças coloridas em vermelho, laranja e azul,
que Edith deu de presente de sua caixa de costura, marcam os sucessos
dos Aliados. Silberbauer esforçou-se para dizer num pigarro: — Pode
ir com calma. Está desconcertado? Está perplexo? Enquanto dois de
seus ajudantes vigiam os prisioneiros, ele prefere ir ver o que está
acontecendo lá embaixo. Entra no escritório comum através do escritório
menor do chefe, no qual Victor Kugler havia trabalhado e onde agora
seu colega Johannes Kleiman está sendo interrogado, e através do corredor
sem janelas. Pelas janelas quase da altura do aposento, se vêem raios
de sol dançando nas águas do canal, como pequenas estrelas cadentes.
— E então — Miep Gies, que ficou sozinha no escritório, ouve Silberbauer
dizer em alemão. Ela conseguiu passar furtivamente, sem ser notada,
os cartões de alimentos para seu marido Jan. Kleiman mandou Bep Voskuijl,
a colega de escritório de Miep que chorava tanto que não enxergava
mais nada através dos óculos, procurar sua mulher, levando a carteira
de dinheiro. Miep também poderia ter ido embora, mas quis ficar. — Agora
é sua vez — ameaça Silberbauer. Seu dialeto de Viena soa familiar.
Ela mesma nasceu em Viena e viveu naquela cidade até completar o décimo
primeiro aniversário. — Eu também sou de Viena — responde ela com
voz firme. Uma compatriota, com isto o nazista não contava. Mas era
só não sair da rotina. Documentos. Perguntas-padrão. Silberbauer está
pressionado. — Não tem vergonha de ajudar esse bando de judeus, sua
traidora? — ele berra como se as palavras agressivas pudessem devolver-lhe
o moral que está ameaçado de perder. Na prática, desde o desembarque
dos Aliados em 6 de junho, as ações contra os judeus foram suspensas.
O Serviço de Inteligência tem agora outras preocupações; precisa preparar-se
para a defesa da Holanda. Nesta manhã, a repartição de Silberbauer
abriu uma exceção — a deixa que o holandês dera pelo telefone não
podia ficar sem resposta. Portanto, Silberbauer foi despachado. A
coisa foi dita de maneira simples. Ir lá. Prender oito judeus. Estava
claro que eles não tinham qualquer possibilidade de fuga. E agora
todas essas complicações. Se ele soubesse disso... Miep junta toda
sua força e olha dentro dos olhos de Silberbauer. Por fim, ele se
acalma, murmura algo sobre simpatia pessoal, diz que não sabe o que
deve fazer com ela e deixa o cômodo com a ameaça de que vai voltar
amanhã para examiná-la. Ele quer deixar aquilo para trás, sair daquela
casa opressiva. O caminhão pedido pelo telefone, um furgão sem janelas
laterais, enfim chega. Bem vigiados pelos policiais nazistas, os oito
traídos e Victor Kugler descem a escada dos fundos da casa, passos
hesitantes, um após outro, passando no corredor pelos escritórios,
mais uma escada inclinada, depois chegam ao ar livre. A primeira vez
desde dois anos e um mês. De novo na rua. A luz do sol os cega. Dentro
do carro está escuro de novo. Miep fica na casa com o gerente do armazém,
van Maaren. Johannes Kleiman, tal como Kugler, foi transportado com
os clandestinos. Está sentada diante da escrivaninha, desconsolada,
esgotada e vazia. Poderia sair, mas continua na casa. Há alguma maneira
de ajudar seus amigos? Ainda há alguma salvação? Os policiais vão
retornar? Passam-se minutos, ou horas, ela não sabe. Depois enfim
chega seu marido Jan para vê-la. No final, sua colega Bep também retorna.
Junto com van Maaren, eles ousam ir aos fundos da casa. Silberbauer
trancou a porta atrás da estante de livros e levou a chave. No entanto,
Miep possui uma segunda chave. Ficam horrorizados diante do caos que
a polícia deixou. Sem escrúpulos, eles arrancaram tudo dos armários,
desarrumaram camas. O chão do quarto dos Frank está coberto com cadernos
e folhas soltas. No meio de tudo, um livrinho quadriculado que parece
um álbum de poesia. As anotações no diário de Anne! Rapidamente, Miep
recolhe os papéis. Bep a ajuda. As duas pegam dois livros da biblioteca,
que haviam tomado emprestado para Anne e Margot. Ali, a mala da máquina
de escrever de Otto. O robe leve de Anne. Não encontram coisas valiosas
que tivessem de guardar para os presos. Os policiais já roubaram.
Ficou tarde. Lá fora, o sol continua brilhando, mergulhando fachada
e aposentos internos da Prinsengracht 263 na clara luz da tarde, naquela
coloração amarelo dourada que se conhece dos quadros de Vermeer. Miep
empilha os diários de Anne e as muitas folhas soltas, sem ler uma
palavras deles sequer. Na ausência de Bep, arruma tudo na gaveta de
sua escrivaninha. Deve trancá-la? Não, isso só serviria para despertar
a curiosidade daqueles que a sacudissem. Ela quer devolver logo as
anotações para Anne, quando ela retornar da guerra.
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