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O
Cão de Terracota, de Andrea Camilleri (tradução de Joana Angélica
d'Ávila Melo; Record; 255 páginas; 27 reais)
Quem é fã dos grandes detetives da literatura, como Sherlock Holmes
ou Philip Marlowe, deve abrir espaço nessa galeria para um recém-chegado:
Salvo Montalbano. O leitor brasileiro já havia tido contato com esse
investigador siciliano no livro A Forma da Água, mas o novo romance
de Andrea Camilleri confirma que Montalbano é um herói e tanto. Brilhante,
galanteador e amante dos vinhos, desta vez ele captura um chefão da
Máfia, além de investigar assassinatos cometidos há cinqüenta anos.
Trecho do primeiro capítulo
"A julgar pelo aspecto do amanhecer, o dia se anunciava certamente
meio a meio, ora feito de raios de sol incandescente, ora de gélidas
alfientadas de chuva, temperado no conjunto de ventanias repentinas.
Um daqueles dias nso quais quem é sensível à brusca mudança de tempo,
e sofre disso no sangue e no cérebro, é capaz de mudar continuamente
de opinião e de rumo, como aqueles pedaços de latão, cortados em forma
de bandeira ou de galo, que, no alto dos telhados, giram em todos
os sentidos à menor lufada.
O comissário Salvo Montalbano sempre havia pertencido a essa infeliz
categoria humana, coisa que herdara da mãe, mulher muito enferma que
freqüentemente se fechava no escuro do quarto, com dores de cabeça,e
então não se podia fazer barulho nenhum em casa, tinha-se de caminhar
pé ante pé. Já o pai mantinha sempre a mesma saúde, na tempestade
ou na bonança, e encasquetava sempre a mesma idéia, chovesse ou fizesse
sol.
Também desta vez, o comissário não desmentiu sua natureza. Mal havia
parado o automóvel no quilômetro dez da rodovia provincial Vigàta-fela,
como lhe haviam dito que devia fazer, veio-lhe de repente o impulso
de dar a partida novamente, mandando a operação às favas. com esforço,
porém, conseguiu se controlar. Encostou melhor o carro à beira da
estrada e abriu o porta-luvas para pegar a pistola, que geralmente
não levava consigo. Mas a mão parou a meio caminho: e ele, imóvel,
embasbacado, pôs-se a observar a arma. 'Nossa Senhora! É mesmo!',
pensou"
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