Freedomland, de Richard Price (tradução de Eneida Santos; Rocco; 648 páginas; 58 reais)

Anos atrás, o jornalista e romancista Tom Wolfe criticou os escritores americanos atuais por falharem em descrever a complexa realidade do país. O único que ele absolveu foi Richard Price. De fato, os livros de Price compõem painéis grandiosos da vida nos Estados Unidos. O ponto de partida de Freedomland é o suposto rapto de uma criança por um homem negro. As acusações da mãe trazem à tona conflitos raciais, questões sobre o poder da mídia e lutas políticas. Price, que também é um respeitado autor de roteiros cinematográficos, conduz a narrativa de maneira ágil, sem no entanto deixar de lado os detalhes que dão solidez e realismo à trama.


Primeiro capítulo:

- Bem, como esses rapazes mesmos costumam dizer, a vida... a vida e a morte são cotas tão frívolas. A morte não significa muita coisa. A morte é... vida. 0 sacerdote muçulmano cruzava o palco de ponta a ponta, na tentativa de concluir seu sermão. Na parede atrás dele, as fotos ampliadas de Mãe Barrett e seu irmão gêmeo Theo enfeitavam o ambiente. Os dois retratos ostentavam uma moldura de papel crepom preto e estavam colados sobre uma espécie de pano de mesa branco. Ao mesmo tempo em que ouvia atenta e cabisbaixa a pregação daquele negro da localidade, metido num turbante e trajando seu dashiki, a platéia dedicava-lhe olhares que oscilavam entre a culpa e a negligência. Havia cerca de cem moradores sentados em cadeiras dobráveis no galpão onde funcionava o centro comunitário. No entanto, apenas a minoria era composta de pessoas muito jovens ou de menos de cinqüenta anos. Seis policiais impassíveis, de pé no fundo do salão, com os braços cruzados sobre o peito, montavam guarda, devido a rumores de algum tipo de confusão. De jeans preto e amarrotado, camiseta enfeitada por uma mensagem otimista e sentado sobre o parapeito da janela, o detetive Lorenzo Council aguardava a vez de lidar. Para onde quer que olhasse, havia alguma coisa que o deixava irritado. Do lado de fora, havia o descampado com os engradados de geladeiras que o encarregado não tivera o cuidado de fechar com algum tipo de cadeado ou lacre. Lorenzo sabia que amanhã, ou talvez hoje à noite, alguns rapazes com toda certeza tentariam se meter dentro daquelas armadilhas mortais e transformá-las num ponto de reunião. O encarregado pousou aquela tralha com as portas para cima temendo que os garotos começassem a derrubar tudo, mas ninguém teve a idéia brilhante de virá-las ao contrário. 0 toque sinistro da história era o fato de que o destino de cada geladeira havia sido rabiscado com giz na lateral. Por exemplo, "12G 14 Hurley"; ou seja, "este caixão pertence a você". Lorenzo também se irritava ao ver os irmãos Convoy na companhia daquele imbecil do Tariq Wilkins, de papo para o ar no Edifício Um. Apesar de a maior parte dos garotos da sua idade evitar este tipo de reunião, esquivando-se daquele tapinha nas costas, os outros pelo menos tiveram a decência de conter a vontade de sair por aí hoje, num gesto de respeito pelas pessoas que realmente compareceram. Mas esses três...- E esta multidão aqui dentro? Era exatamente o que ele esperava: a maioria composta de pessoas de idade, como o casal assassinado. Apareceram ali, movidos por um reflexo antigo de atender a convocações. Mas estavam apavorados. O terror tornava-se evidente na falta de iniciativa verbal, no modo como desviavam o olhar ou pareciam desligados. Na realidade, procuravam olhar para qualquer coisa que não fosse as fotos em homenagem aos mortos ou o palestrante -Os... os covardes... o covarde... aliás, não... A coisa, porque quem quer que seja que tenha feito isto não merece ser considerado um ser humano, portanto prefiro me referir a ele como uma coisa, uma coisa maldita. Com um movimento sóbrio de cabeças, as pessoas concordaram impassíveis Uma lágrima ocasional era derramada, podia-se ouvir o choro fortuito de um bebê e o ar impregnava-se do bafo adocicado de bebido Más uni ano inteiro havia transcorrido. Embora esta reunião em comemoração ao primeiro aniversário do crime tivesse sido idéia sua, Lorenzo sentia-se descrente com relação a qualquer resultado concreto daquela iniciativa Além do mais, o discurso daquele sacerdote era por demais maçante. Nove e meia. Ele havia combinado uma mudança no plantão para hoje à noite com seu companheiro, Bump Rosen, que ficou incumbido de substituí-lo entre quatro horas e quinze para as dez. Lorenzo retribuiria o favor das quinze para as dez à meia-noite, para que Bump pudesse ir correndo para casa a tempo de ver seu filho de doze anos debutar como ator em Lei e ordem. Nove e meia. Faltavam ainda quinze minutos e ele não havia sequer se levantado para começar a discursar. Um dos objetivos deste "encontro" era colocar novamente os criminosos nas manchetes para reavivar a lembrança do crime, mas apenas dois repórteres haviam comparecido - uma moça do Dempsy Register e um estagiário do Jersey Journal. Nem a polícia nem a imprensa eram capazes de suscitar o interesse sobre dois homicídios cometidos num bairro que, desde então, contabilizava um total de 59 casos mais recentes. Lorenzo olhou para a repórter do Register, Jesse Haus. Fazia oito anos que conhecia aquela moça de baixa estatura e corpo bem-feito, sempre vestida de jeans dos pés à cabeça e com excesso de rímel nas pestanas. Jesse estava sentada numa cadeira próximo ao corredor. 0 hábito de examinar as unhas com a testa franzida sempre o fazia lembrar um carro de corrida preso num engarrafamento. Uma das pernas, cruzada sobre a outra, balançava nervosamente enquanto um bloco de notas esquecido sobre o colo ameaçava cair a cada momento. O piscar incessante dava a sensação de que todo aquele rímel havia entrado nas pálpebras. Alguns meses atrás, os dois passaram algum tempo juntos para que ela escrevesse seu perfil para o Register A reportagem chegou a motivar um convite para o programa de Rolonda Watts. Agora, absorvendo sua expressão estranhamente apática e, ao mesmo tempo, atenta, Lorenzo achou que a impaciência frenética da repórter aumentava a sua, fazendo-o sentir-se mais consciente de que todo aquele espetáculo fugia ao seu controle. Enviou, então, uma mensagem telepática para ela: "espere". Enquanto acariciava com gestos ansiosos a cabeça raspada, Lorenzo dedicou-se a estudar os retratos dos velhos gêmeos Barrett. O cabelo grisalho de ambos, cortado à escovinha, conferia um ar assexuado àqueles rostos em formato de coração. Os olhos dela eram pequenos e redondos como contas e tinham uma expressão de condenação. Já os do irmão, igualmente estreitos, eram maliciosos. Tio Theo, na casa dos setenta anos, mantinha o hábito de usar calças apertadas e, mesmo nos meses mais quentes, pulôveres de gola alta. Havia se aposentado como guarda-livros do teatro Apollo mas continuava sendo um sujeito afável e tresloucado que chamava todo mundo de neném - todo mundo à exceção dos grandes astros a quem havia sido apresentado durante todos aqueles anos. Referia-se a eles como "Senhor" Billy Eckstine, "Senhorita" Dinah Washington, "Senhor" Sam Cooke e "Senhorita" Sarah Vaughan. Tio Theo era uma "figura" que, em troca de sorvete e pizza, convencia gerações de jovens do conjunto residencial a admirar Lionel Hampton cantando com seu modo característico "Hey Ba Ba Re Bop", a gostar da versão de Joe liggins para "lhe Honeydripper" e da interpretação de "Síxty Minute Man" por Billy Ward e os Dominoes. Ele sempre perguntava aos rapazes se sabiam o significado de "0 homem dos sessenta minutos", mas nunca entrava em maiores detalhes sobre o assunto. Centenas de garotos do conjunto Armstrong, inclusive Lorenzo, sentaram-se naquele sofá forrado de plástico durante anos, tentando não rir dele. Uma figura, Lorenzo pensou, um sujeito único que já não existe mais - para ele, tratava-se de uma perda irreparável que justificava o esforço extra daquela noite. Quanto à Mãe Barrett, Lorenzo nunca gostou muito dela, embora julgasse que, devido à sexualidade ostensiva de Theo, a melhor opção seria invocar sua memória em vez da do irmão, numa reunião daquele tipo. O problema era que Lorenzo, assim como todos naquela sala, sabia quem havia cometido o crime, mas ninguém, nem o sacerdote nem os policiais, podia dizer o nome em público porque o autor nunca foi acusado. Foi o neto, Mookie, um brutamontes mentecapto, corpulento, explosivo, de inteligência curta e sempre com um ar ausente. Lorenzo tinha certeza de que havia sido de, porque Mookie não tinha onde morar, exceto nas vezes em que a avó e o tio-avô lhe davam guarida, o deixavam dormir no chão e assaltar a geladeira. Quem quer que tenha cometido este ato monstruoso teve o cuidado de colocar cobertores dobrados sob as cabeças das vítimas, na tentativa de colocá-las em posição confortável - um gesto de remorso. 0 apartamento não foi revirado, apenas dentro de uma gaveta aberta no quarto ainda havia restos de comida e algum dinheiro trocado: seja lá quem for que tenha feito aquilo, sabia o local exato onde o dinheiro estava escondido. Mas a divisão de homicídios trabalhou mal e não conseguiu gravar o depoimento de Mookie no ano passado. Portanto, não havia nada para rebater suas contradições. Depois de alguns interrogatórios tempestuosos, o garoto simplesmente recusou-se a falar, saindo da cidade logo em seguida e indo morar no Brooklyn, onde, por mais incrível que pudesse parecer, tinha uma "famíllia" para tomar conta dele. Sem a arma do crime e sem uma testemunha - alguém que tivesse a iniciativa de dizer "É verdade, eu o vi sair, eu o vi entrar, ouvi sua voz alterada pelo ódio" -, não havia quase nada a fazer, tanto para Lorenzo quanto para qualquer outro. Apesar do silêncio geral, motivado pelo medo de vingança ou medo de envolvimento no caso, o Armstrong inteiro estava indignado e hoje sofria as emoções do primeiro aniversário de um de seus momentos mais vergonhosos. - Vocês sabem - prosseguiu o sacerdote sorrindo e ajeitando os óculos de tartaruga -, eu poderia reunir cem homens com um simples telefonema. Me consigam um exército e eu saio por aí. Não me custaria nada executar sumariamente esta... esta criatura. Nada. 0 sacerdote abriu um sorriso amplo e forçado para os policiais no fundo do salão. Alguns devolveram o sorriso, batendo suavemente as costas nos azulejos da parede. - Mas o que temos aqui neste país, cheio... cheio de falhas do jeito que é, é um sistema, um Poder Judiciário... Tudo incomodava Lorenzo. Por exemplo, a prisão naquela manhã de Supreme Griffin, o chefão do momento. Os gorilas o haviam surpreendido na saída da ponte George Washington e encontraram uma trouxinha de maconha escondida no porta-luvas. A informação era de que Supreme havia simplesmente saído do automóvel e, num gesto espontâneo e casual, contou-lhes sobre o meio quilo de heroína, acondicionado em cinqüenta papelotes e camuflado na calota. Quando o bandido deu entrada na delegada naquela noite, Lorenzo lhe perguntou por que ele havia marcado aquela bobeira. A resposta de Supreme, oferecida a um detetive que gostava de se descrever como "um velho homem do narcotráfico", o entristeceu mais do que nunca. ' - Estou de saco cheio, entendeu? A porra do saco muito cheio. Naqueles tempos as pessoas gostavam de dizer "0 crack já era, viva a heroína". Bem, é verdade - Lorenzo pensou -, as estatísticas podiam mostrar que tinha menos gente morrendo mas havia uma tristeza palpável no ar, uma resignação e uma renúncia que era como a própria morte. - Às vezes somos... - o sacerdote divagava agora, atenuando o tom do sermão e distribuindo um sorriso indulgente para aqueles indivíduos taciturnos sentados a sua frente. - ... às vezes nos comportamos como pessoas assustadas. E com razão, muita razão. Um rapaz negro, educado nega sarjeta está muito mais exposto a sofrer uma morte violenta antes de atingir a maioridade do que os soldados enviados para combater na Segunda Guerra Mundial. É esta a estimativa do New York Times... é o que afirma o New York Times Mas estou aqui hoje para lhes dizer o seguinte: não existe nada e ninguém a temer neste mundo, a não ser a Deus. Porque morreremos um dia e enfrentaremos o Juízo Final... o Juízo Final virá com certeza. - Fez uma reverência para a platéia. Asalaam alaikims. Enquanto deixava o palco, um murmúrio débil de "Asalaam alaikims" chegou até ele. No entanto, a maioria dos presentes era um pouco velha demais para preterir Jesus em favor de Maomé. Do parapeito da janela, Lorenzo esfregou o rosto enquanto a platéia voltava-se para ele educadamente, aguardando submissos o próximo golpe. 0 detetive olhou pela vidraça e voltou a observar os irmãos Convoy. A raiva ganhou maior proporção diante daquele jardim lúgubre e geométrico de geladeiras. Num salto, pôs-se de pé e se dirigiu para o palco. - Nós nos consideramos uma comunidade. Referimo-nos a nós mesmos como uma família - Lorenzo declarou num bramido dissonante. Era este seu tom de voz costumeiro sempre que se dirigia a um público numeroso. - Mas, como não queremos que nos chamem de dedosduros, acabamos prestando nossa lealdade para as pessoas erradas. Movendo-se pesadamente para trás e para adiante pelo palco, como um tigre enjaulado, Lorenzo dirigia um olhar repressor aos moradores recaídos e aos guardas que o observavam do fundo do salão. Ele era um homem corpulento - mais de cem quilos, distribuídos por 1,90m de altura - e ostentava uma barriga protuberante. As rachaduras crônicas do lábio inferior saliente e os óculos de lentes grossas eram sua marca registrada. Em situações como aquela, apostava sempre na eficácia da gritaria e da irritação. - Ouvi dizer... tomei conhecimento de que alguém teria dito que, se esta fosse uma zona de brancos, a polícia já teria apanhado o sujeito. Se fosse... Não! Não! Isto só seria verdade se os branco, os azuis... sei V. os malhados tivessem dado um passo à frente e dito: "Sim! Vi quem fez isso. Sim! Ouvi os tiros. Sim! Sim! Sim!..." Está na hora de sermos honestos! Lorenzo os observava, sentindo a raiva ser alimentada pelo fato de saber que estava castigando as pessoas erradas, ou seja, aquelas que haviam ao menos comparecido. "Mas neste conjunto só se ouve "não, não, não, não mencione meu nome, não, não, por favor, por favor, não, não, em boca fechada não entra mosca". É por estas e outras...! - Empertigou-se. - Um ano inteiro se passou. As pessoas foram mortas num total de oito vezes. Oito tiros às nove da manhã. - Ele percorreu furtivamente o palco, reconhecendo na multidão a Sra. Bankhead, uma velhinha que morava ao lado da casa dos irmãos Barrett. "Mas ninguém ouviu nada, ninguém ouviu coisa nenhuma. Agora, me digam como isto é possível, se sei perfeitamente que, se eu ligar o rádio nas alturas no quarto andar, alguém do primeiro vai reclamar do barulho. Como é que pode, se sei que, se eu deixar cair um copo no segundo andar, alguém do terceiro vai correndo para a delegacia reclamar da festa de arromba no meu apartamento? - Lorenzo andava compassada e furiosamente, ajeitando os óculos. - Perdemos duas pessoas queridas. Apontou para o retrato de Mãe Barrett. - Olhem para ela. Olhem! Mãe Barrett. Era assim que chamávamos ela. Ela em nona mãe. E o Tio Theo?... -Lorenzo hesitou, sabendo que "tio" não tinha o mesmo apelo visceral de "Mãe". - Era assim que nos referíamos a ele. Quantos de vocês aqui presentes não receberam vários telefonemas dele dizendo assim: "Seu filho, ou filha, está na minha casa ouvindo discos. Posso convidar ele pra jantar, convidar ela pra almoçar, dar um livro a ele, comprar um sorvete pra ela?" Houve uma aquiescência solene, gerando um novo surto de lágrimas. - Eles eram da velha-guarda! - É verdade - alguém disse em meio a um murmúrio que ganhava corpo. - Da velha-guarda! Gente da melhor qualidade! Eram do tempo em que todo mundo aqui se preocupava um com o outro! As pessoas concordavam com mais ênfase, crivando-o de estímulos para continuar. - É isso aí, chefinho! Lorenzo olhou para a Sra. Bankhead. Aflita, ela balançava o corpo na cadeira, remoendo seu segredo. Fazia um ano inteiro que ela o evitava. Depois de alguns ruídos característicos de interferência, o rádio de um dos policiais passou a transmitir algum informe no fundo do salão. - Querem saber sobre meus tempos de menino aqui? Se eu aprontasse qualquer coisa lá nos fundos do conjunto, sabem o que acontecia? Voltava para casa debaixo de porrada. Naquela época minha mãe tinha seus ajudantes-de-ordens! Uns cinqüenta, por aí! Aqui e ali ouviam-se risos tímidos e cautelosos. Lorenzo estremecia com pena deles, com pena do que estava prestes a fazer. Um dos policiais soltou um bocejo alto. - Se eu matasse aula ou fumasse um cigarro, eu tinha cinqüenta mães para me puxar as orelhas. Velha-guarda! - Os passos fortes e decididos continuavam a percorrer o palco. - Velha-guarda! Mãe Barrett... - Fez uma pausa, provocando uma risada como se tivesse perdido a disposição de manter o tom reprovador. - Sabem o que Mãe Barrett fez uma vez, quando eu era criança? Roubei um punhado de chocolate granulado do caminhão Chilly Willy. Vocês lembram daquele caminhão que aparecia aqui no verão? - Claro. - Lembro bem sim. Jesse Haus, do Register, reuniu seus pertences silenciosamente e saiu agachada pelo corredor em direção à saída. Lorenzo sentiu-se um pouco ofendido pela possibilidade de uma reportagem negativa. Ele estava apenas no começo. - O caminhão Chilly Willy... - repetiu, em seguida a uma perda momentânea do fio da meada- tinha aquele, como direi, aquela espécie de bandeja lateral, com todas as coberturas, o chocolate granulado, coberturas de chocolate e de todas as cores, para mergulhar a casquinha do sorvete. A rapaziada no maior olho grande, sabe como é... Lorenzo arregalou os olhos e lambeu os beiços. Desta vez, as risadas fluíram mais facilmente. Até uma dupla de policiais sorria, com a cabeça voltada para a janela. - Uma vez, antes de entrar para a polícia, não deu pra segurar. Estava morrendo de vontade, estava tão louco que surrupiei um punhado, dois punhados. Que se danassem as casquinhas de sorvete! Lorenzo representava a cena, e as pessoas jogavam si cabeça para trás, rindo para o teto. A Sra. Bankhead agitava-se na cadeira, com uma das mãos cobrindo o rosto. O peso do segredo que guardava a excluía do espetáculo. - Gente, eu corria como o diabo, levei aquilo tudo para atrás do Edifício Um. Lorenzo lembrou-se daqueles imbecis lá fora. - 0 cara do Chilly Willy não entendeu nada. E quando me viro, pronto para encher a boca e me deliciar... - Lorenzo imitava agora o ator cômico Bill Cosby, virando-se para, logo a seguir, ficar imóvel, com os olhos levantados e arregalados de medo, fitando algum adulto gigantesco e invisível. - Me vão e dou de cara com quem? Mãe Barrett me olhando com aquele olho. Lembram daquele olho que ela tinha? Era de fazer qualquer um gelar. - Nem me fale. - A velha nem quis saber da minha versão da história. Nem me deixou inventar uma mentira. Me deu uma palmada no traseiro, sabiam? Foi tão forte que as pessoas passaram uma semana inteira catando os pedacinhos da minha bunda pelos bancos por onde eu sentava, juro. A velha me mandou voando pra casa naquele dia! As pessoas se contorciam nas cadeiras de armar, como se alguém as estivesse segurando pela nuca, soltando sibilos de alegria, cutucando umas às outras. Enquanto ria também, o detetive encontrou o olhar de um dos policiais que lhe sorria, numa tentativa de admitir: "Tudo bem, você venceu." - Velha-guarda! - berrou amistosamente, esperando que a platéia se acalmasse. Em seguida, acrescentou no mesmo tom afável: - É... a velha Barrett. Sabiam que quando fui chamado ao apartamento dela no ano passado havia tanto sangue espalhado que cheguei a escorregar e me esparramar no chão? É verdade! Lorenzo sorriu, olhando para o tênis. 0 ar estava carregado e silencioso. - Ela levou tantos tiros à queima-roupa... -E então se interrompeu, pensando, "Já captaram a mensagem. Agora é não deixar essa gente esquecer que você está aqui". "Não me digam depois que a polícia não está cumprindo seu dever. Nós somos os responsáveis por esta área. - Apontou para os policiais no fundo do galpão. -- Eis não estão aqui as 24 horas do dia. Nós estamos. Temos que ter um ideal. Temos que andar com a cabeça erguida. Se alguém está no caminho errado, temos que tomar uma atitude. Nas nossas casas, nas nossas famílias, nos corredores, nos edifícios, pátios e no nosso conjunto... nós, nós somos a polícia. 0 rádio de um dos policiais voltou a fazer barulho no fundo do salão. - Tem razão - uma voz anônima concordou. - Perdemos dois num dia só. Dois velhos maravilhosos que tomavam conta da gente o tempo todo. Lorenzo andou sorrateiramente pelo palco, ajeitando o revólver na cintura. - Tem gente nestas casas que não sai da janela. - Agora, usava um tom baixo. - A maior TV do mundo, certo? É isto que vocês falam e vocês sabem de quem estou falando. Não preciso mencionar nomes. Tornou a ajeitar o revólver, puxou as calças para cima e sorriu para a platéia. - Gente, estou quase prendendo o criminoso e o que está faltando é justamente o que vocês sabem. "Vocês me conhecem. Estou aqui 24 horas por dia, sete dias na semana. Tudo que preciso é de um telefonema. - Examinou cada rosto exausto e contrafeito, tentando um contato direto com a turma da janela, ou seja, todos os idosos que moravam nos dois primeiros andares do Edifício MA, a área designada pelo encarregado para ser ocupada pelos velhos e conhecida pelos ladrões como o "clube dos otários". "Tudo que preciso é de um telefonema. - Lorenzo evitou olhar para a vizinha dos Barrett, a Sra. Bankhead, brindando o auditório com uma reverência respeitosa. - E obrigado por terem tido a coragem de comparecer a esta reunião. Alá, Jesus, Jeová ou Maomé, enfim... Deus abençoe todos vocês. Enquanto o grupo se dispersava, Lorenzo permaneceu no galpão do centro comunitário, jogando conversa fora, à procura daquele olhar furtivo cuja intenção seria a de transmitir-lhe uma mensagem do tipo "quero lhe dizer alguma coisa, mas não aqui". Sem pressa, dirigia-se à saída. No trajeto, ouvia as pessoas dizerem 'Áspero que você consiga prender ele" e outras baboseiras semelhantes. Desvencilhando-se dos abraços e das lágrimas, Lorenzo tentava seguir a Sra. Bankhead. Em sua caminhada vacilante, a senhora idosa arrastava o corparizil artrítico em direção à porta. 0 intuito era conseguir alcançá-la do lado de fora sem chamar muito a atenção, mas um dos policiais o segurou pelo braço. - E aí, chefinho, soube do seu garotão, o Supreme? Lorenzo parou, com um meio sorriso: seu garotão. - É, entrou numa fria de novo. - Pode crer... - filosofou o policial lovakas, o Bola-Preta. Em seguida, encolheu o corpo e ficou na ponta dos pés para dar passagem a outra mulher gorda que tentava sair. 0 rádio do Bola-Preta emitiu um chiado. - Leste 202. - 0 tom monocórdio da chamada fazia lembrar o eletrocardiograma de um defunto. - Dois zero dois. Câmbio - a unidade convocada respondeu, no mesmo tom. Bola-Preta e Lorenzo ouviam absortos. - Comunicado sobre uma trouxinha de maconha jogada do terraço da rua Weehawken n.'15, conjunto Roosevelt. Câmbio, por favor. Bola-Preta diminuiu o volume do rádio. - Ouvi dizer que o Supreme entregou de bandeja, tipo "É isso aí..." - É, também fiquei sabendo - Lorenzo concordou distraído e continuou a passar a multidão em revista, em busca de um contato visual. As paredes do galpão estavam repletas de auto-retratos das crianças da creche que funcionava ali durante o dó. Eram reproduções toscas de rostos infantis, desenhados com tinta de pintura a dedo sobre papel pardo e intituladas "SOU ALGUÉM". - Como é que foram as coisas por aqui? - Bola-Preta fez um sinal afirmativo com a cabeça, referindo-se às fotografias ampliadas que um funcionário da manutenção carregava debaixo do braço. Lorenzo deu de ombros. - Tá todo mundo apavorado. Sabe como é -disse, apressando-se em direção à porta, ansioso por alcançar a Sra. Bankhead. Mas o rádio de Bola-Preta voltou a se manifestar. - Sul, IR. - Cento e onze, câmbio. - Cento e onze, por favor. compareça à sala de emergência do centro médico. Procure uma vítima do sexo feminino no local. Probabilidade de roubo de carro seguido de tentativa de seqüestro. - Os dois tentavam ouvir com mais atenção desta vez, já que o Distrito Sul era o seu território. Lorenzo consultou o relógio: dez e quinze. Merda. Bump Rosen a esta altura já estava sentado em casa assistindo ao filho fazer o papel de um skinhead pré-adolescente e homicida no horário nobre da TV. 0 bip disparou, como para confirmar a troca de favores. 0 caso do seqüestro ficaria a seu encargo, tão logo os tiras tomassem o primeiro depoimento. - Tudo bem, chefe. - Virou-se em direção à saída, mas Bola-Preta voltou a tocar-lhe o braço. - Lorenzo. - Bola-Preta acenou com a cabeça, referindo-se ao sacerdote que naquele momento conversava com o subsíndico. - Acho bom avisar àquele muçulmano metido a besta pra pegar leve nessa conversa mole de "me consigam um exército". Alguém pode acabar acreditando nessa merda. - Diz você - desafiou Lorenzo com um sorriso amarelo. Em seguida, afastou-se à procura da Sra. Bankhead, Mas ela já havia desaparecido. Quando Lorenzo manobrava no estacionamento, os faróis do seu carro surpreenderam uma mulher alta segurando uma trouxa de roupa lavada. Oscilando o corpo de um lado para o outro, ela estava parada bem no caminho. Lorenzo desviou e passou por ela, rindo. - E aí, boneca, tá fazendo o que no meio da rua? Tentando ser atropelada? Estou avisando, você não me tira um centavo. Tenho seguro, minha filha. - Neste caso processo o governo - a mulher brincou, aproximandose da porta. Ruth Raymond nasceu e foi criada no conjunto Armstrong cerca de trinta e cinco anos atrás e tinha vaga cativa na região. Numa noite de calor sufocante como aquela, a espécie de capa de plástico que protegia as roupas dobradas que ela carregava estava colada no braço nu, como um invólucro aderente para alimentos. Lorenzo se perguntava onde ela havia conseguido aquela trouxa de roupa depois das dez da noite. - Gostei do que você disse lá dentro, chefinho. - 0 rosto macilento de Ruth denunciava o vício da bebida, adquirido depois da morte do filho, havia seis meses. 0 rapaz fora assassinado por causa de uma jaqueta de couro. - Sabe com quem você devia conversar? Com a Sra. Bankhead. Você tá sabendo que aquela velha tá por dentro das coisas, né? - Tô. Aposto que está. - Sabia que ela viajou pra Carolina do Norte umas nove ou dez vezes no ano passado? Ficou pra lá e pra cá no ônibus, velha e pesada daquele jeito? Juro, chefinho, tem alguma coisa comendo ela por dentro. A coitada nem consegue mais parar quieta em casa, vendo televisão em paz. - Tô sabendo. - Atenção todas as unidades. Roubo de carro no Distrito Sul. Carro Toyota Camry ano 1991, quatro portas, bege, placa GDR 665, Golfe, Delta, Romeo, meia meia cinco. Lorenzo baixou o volume do rádio. - É, dizem que ela foi a primeira a entrar no apartamento e encontrar os corpos - Ruth disse, parecendo recuar um pouco devido ao desodorizante de ambiente com odor de coco, pendurado no espelho retrovisor. - É verdade, foi ela sim - Lorenzo concordou num tom solene. - A infeliz deve ter ficado apavorada com a cena -- Ruth concluiu com lágrimas nos olhos. - Com certeza. - Ela sabe das coisas, chefinho. - Ruth agarrou-lhe o braço. - Por favor, faz ela desembuchar. - Tô tentando. Ele havia chegado ao ponto de ameaçar prender o neto da Sra. Bankhead, valendo-se de um mandado de prisão preventiva cujo prazo havia expirado e oferecido a liberdade do rapaz em troca de informação, mas o próprio neto disse: - Minha avó vai levar esta história para o túmulo -forçando Lorenzo a executar a ordem de prisão. - Todas as unidades, informações complementares sobre a ocorrência no Distrito Sul. Veículo ocupado por um negro de aproximadamente 1,80 m de altura, cabeça raspada. Visto pela última vez nas cercanias da rua Hurley. - E você, boneca? Tem alguma coisa que possa me ajudar? Ruth olhou para a direita e para a esquerda. Em seguida, pressionou a trouxa de roupa lavada contra a porta do motorista. - Me dá um cartão - murmurou aflita. Lorenzo retirou um cartão da capanga, pousando-o sobre o colo. Ruth enfiou a mão pela janela aberta, amassou o cartão como se fosse um pedaço de papel higiênico e o fez deslizar para dentro da trouxa. Lorenzo calculou ser aquele o décimo quinto cartão que lhe dava, desde a morte do filho. - Eu telefono, tá? - Ruth falou entre os dentes enquanto percorria os olhos pelos prédios. 0 detetive assentiu com um movimento de cabeça, sem demonstrar entusiasmo. - Ruth, você precisa dormir um pouco. Tá com uma cara de cansada. - Começou a movimentar o automóvel devagar. - Não faço outra coisa a não ser dormir - a mulher gritou enquanto o carro se afastava. Depois, aumentando o tom da voz, pediu: - Avise ao encarregado para tirar aquela merda daquelas geladeiras lá da Concha. Elas me dão nos nervos. Lorenzo dirigiu-se para a sala de emergência, pensando na chamada: tentativa de seqüestro, roubo de carro, vítima do sexo feminino, rua Hurley. 0 local não se prestava àquele tipo de delito. A rua Hurley era uma rua esburacada e sem saída, no começo da ladeira Armstrong. Uma faixa larga de asfalto imprensada entre edifícios altos de um lado e um muro de contenção do outro, terminando numa pracinha infecta. Era uma terra de ninguém que se alargava para demarcar a vizinhança com Gannon, servindo aos moradores como uma espécie de estacionamento improvisado. Não era uma rua de reputação idônea. A combinação de deserto sombrio e fronteira mal delimitada fazia dela o local propício para o tráfico de drogas e, por extensão, não era o cenário adequado para um crime violento que só serviria para atrair a polícia e acabar com o negócio. Com um aceno para o guarda, Lorenzo entrou pelo estacionamento de ambulâncias do centro médico, sendo imediatamente recebido com sorrisos e apertos de mão efusivos. Todos conheciam Lorenzo "chefinho" Council na cidade, e vice-versa. Ele apontava e ria para os funcionários do posto de enfermagem, cumprimentando de imediato seis pessoas enquanto perscrutava o ambiente em busca de Penny Zito, a enfermeira da triagem, e trocava um aperto de mão com o guarda de cavanhaque, um garoto que uma vez prendeu por porte de arma. Foi ele que conseguiu aquele emprego para o rapaz, assim que saiu da prisão. Devido à presença efusiva e incansável de Lorenzo e ao traquejo social que o fazia capaz de agradar a gregos e troianos, era inevitável que houvesse boatos sem muito fundamento de que, se seu companheiro Michael, Hooks, diretor da Polícia Civil, conseguisse se eleger prefeito, o chefinho Council poderia ser nomeado comissário de polícia. - Amigão, amigão - Lorenzo o saudou, brindando o segurança com um sorriso radiante e reparando na narina furada e no rabo-de-cavalo grosso. -Tudo em cima? - Sabe como é, um dia de cada vez, concorda? - 0 rosto do rapaz estava corado de felicidade. - É isso aí - Lorenzo retrucou, escandindo as sílabas, como se dissesse amém. Penny Zito entrou no corredor, vinda da sala de espera, provavelmente voltando de um intervalo para fumar um cigarro ao ar livre. Os olhos de Lorenzo procuraram os da enfermeira acima da cabeça do guarda, em busca de uma informação visual rápida a respeito da vítima da ocorrência. Intencional ou não. Penny levou a mão à boca e deu uma tossidela, balançando os ombros em resposta ao queixo levantado de Lorenzo. Tiro certeiro. Sua perspicácia a tomava capaz de, com um gesto preciso do polegar, fazêlo entender que se tratava de um assassinato violento ou erguer a cabeça em direção ao consultório para indicar "é melhor entrar lá". - Tudo bem, Pen? - ele gritou, rindo por antecipação da provável resposta; não que ela fosse engraçada, mas esta era a personalidade dele. -Salve a grande Nana! - É por aí... - A enfermeira voltou a levar a mão à boca e tossir, produzindo um ruído semelhante a um rádio com interferência. - Já entendi. Ela está onde? - Na 23, junto com o homem mais perigoso do mundo. Lorenzo soltou uma gargalhada que o fiz cambalear como se a piada surtisse o efeito de uma pancada no lombo. - Só pode ser o Che Guevara, né? - Não ouviu? - A pergunta em tom de intimação categórica ecoou bem atrás dele. Lorenzo voltou-se. "Já mandei acabar com a fumaceira - o guarda de segurança ameaçou, colocando-se na ponta dos pés e investindo contra o rosto de um negro de cabeça raspada e um cigarro pendurado no canto da boca. Com a visão de um dos olhos prejudicada pela cortina de fumaça, o sujeito encarou o segurança muito mais baixo que ele. - Some da minha frente, merda! - Ele o teria surrado, se não fosse pela criança que trazia ao colo. - Qual é a tua? - Desafiou. 0 olho entrecerrado apertava-se mais, enquanto o outro adquiria um brilho homicida. Lorenzo julgou que a criança estivesse morta. - Apague o cigarro! - Disposto a brigar, o guarda tomou a ameaçar, movendo-se para trás e para a frente com a cabeça enterrada nos ombros, numa atitude que incorporava os gestos da Dança do Mador, comum em Darktown. Lorenzo postou-se entre os dois, cantarolando "Arrny, Army". Retirou com cuidado o cigarro dos lábios do sujeito enquanto impedia com o corpo a aproximação do guarda. Army assumiu uma postura defensiva, pronto para brigar, com ou sem o bebê, até perceber de quem se Catava. - Lorenzo! - Army fez um gesto com o queixo para a menina que trazia ao colo e, em seguida ameaçou, referindo-se ao guarda: - Tire este crioulo da minha frente antes que ele acabe estirado numa maca dessas. 0 guarda abriu a boca, mas Lorenzo o encarou. - Deixa comigo Colocou a mão sobre o ombro de Army e acalmou-o, levando-o até o posto de enfermagem. - Tudo bem com ela? - Lorenzo curvou-se para exarninar a criança envolta numa toalha de banho amarela. Do rostinho bem-feito emanava uma imobilidade enervante, em nada semelhante ao sono normal. - Que nada. - Army retorceu a boca com escárnio. - Por que cargas-d'água estou aqui? - Voltou-se para olhar o guarda. - Deram a ela um treco pra uma tal de ressonância hoje de manhã. Não acordou até agora. Acho que exageraram a dose dessa porcaria. Uma enfermeira aproximou-se e pegou o bebê; estavam a sua espera. Army debruçou-se sobre uma prancheta e assinou o nome, aprumando o corpo enquanto Lorenzo fazia um gesto afirmativo com a cabeça para o guarda. - Sei lá, parece que ela nasceu com alguma coisa errada. 0 médico disse que foi uma porrada na barriga. Lorenzo balançou a cabeça. - Na barriga da menina? - Não, da mãe. Entendeu? Quando estava lá dentro. Trouxemos ela pra cá. 0 médico perguntou pra minha mulher: "Você se drogou durante a gravidez?" Aí, minha mulher respondeu: "É minha neta, mas, sabe como é... -suspirou com um ar absorto - ... minha filha, quando teve ela, desapareceu do mapa. Nunca mais pus os olhos nela e, já viu, ... essa minha filha não deu a mínima pra barriga, aí..." - Army tomou fôlego e balançou a cabeça. Lorenzo concluiu, em boca fechada não entra mosca, volume 99. - Agora acabei ficando com essa também. Army balbuciou. - Comecei tudo de novo. Lorenzo ficou calado, achando que qualquer coisa que dissesse poderia parecer provocação. Army Howard era, entre outras coisas, um traficante mediano e bissexto desde os anos 70. - Vamos, lá desembucha. - Army acendeu outro cigarro. - Não tenho nada pra dizer, Army. - Lorenzo sorriu com sobriedade, o olhar abrandado por um sentimento de igualdade. - Ali, não tem? Bom, de qualquer jeito você pode dizer o que quiser porque não está errado. - Vamos lá, meu irmão, apaga o cigarro. - De jeito nenhum. Quero ver o bambambã vir aqui apagar. - Army fitou o guarda do lado oposto da sala. Distraído com outra coisa, o rapaz ignorou o insulto. Lorenzo deu de ombros e se afastou,---Espero que tudo corra bem. - Tá, eu também. - Army respondeu entre os dentes, ainda olhando o guarda. - Bambambã da zona filho-da-puta... Durante sua caminhada pelo corredor, em direção à sala 23, Lorenzo cumprimentou outro guarda de segurança, um técnico de raios X que conduzia ao centro cirúrgico uma dúzia de radiografias recémreveladas e um bêbado cujo rosto exibia um festival de hematomas. De acabara de dar entrada no centro médico, trazido por policiais, em conseqüência de uma surra na rodoviária. 0 bêbado olhou para Lorenzo e disse quase com doçura: - Tudo bem, não foi nada. Muito obrigado. - E aí, meu velho, vai parar de entornar agora? - Lorenzo perguntou na falta de coisa melhor para dizer. 0 bêbado sorriu envergonhado. - Tô achando meio difícil. - Meu caro jovem. - A voz sofisticada e monótona de Chatterjee ecoou pelo ambiente à medida que seus passos delicados o aproximavam de Lorenzo. 0 esmero da indumentária estava prejudicado por borrifos e máculas de toda a sorte, desde os sapatos.esporte à camisa de casimira e à gravata de seda amarelo-ouro. Lorenzo sabia que todo aquele desalinho eram ossos do ofício. Antes da metade do plantão noturno as roupas do médico acabavam por se sujar, por mais comprido e fechado que fosse o jaleco. Chatterjee estendeu-lhe a mão franzina, que desapareceu entre os dedos gigantescos do detetive. - Grande doutor! Quais são as novas? Estão fazendo a ficha dela? Chatterjee deu de ombros. - Não me deixa nem tirar uma radiografia. - Da é boa de papo? - Acho que não... está mentindo, ocultando alguma coisa. Bom, está meio avariada - com os braços esticados, o médico posicionou as palmas da mão para baixo, em direção ao chão. - Levou um tombo feio. Amparou a queda assim... - Voltou a encolher os braços, fechando os dedos. - Deve ter fraturado... - Pegou a mão do detetive e percorreu o polegar e o indicador pelos lados do pulso. - Sem raios X fica difícil... Ela conseguiu recolher todo o lixo do estacionamento ou só lá onde foi Tive que forçá-la a tomar uma antitetânica. Além disso, está com uma bela contusão bem aqui - Chatterjee esticou o braço e tocou a cabeça de Lorenzo com a ponta dos dedos. - É impossível cair de frente apoiandose com as mãos e ferir o topo da cabeça ao mesmo tempo, correto? - Entendi. - Não sei, não... Sabe o que eu acho? Acho que foi estuprada, mas se recusa a subir e ser examinada. - Deu de ombros. - Ou talvez conheça o sujeito que a atacou. Sabe como é, uma briguinha doméstica. -- Talvez não queda que ninguém saiba que estava num ponto de drogas àquela hora da noite. - Lorenzo concluiu, sem se dar conta de que a falta de entusiasmo na voz revelava uma certa contrariedade em estar perdendo um tempo precioso com a ida ao centro médico. - Vai ver não passa disso. Chatterjee o segurou pelo cotovelo. - Converse com ela - sugeriu, encaminhando-o ao consultório. - A juventude é curiosa. A sala 23, menor e mais reservada que a sala de cirurgia geral, estava ocupada por dois pacientes. A mobília era composta por três macas fixas cercadas de cortinas de plástico e a janela oferecia uma vista para o rio Hudson. Sentada na beirada de uma das macas, Brenda Martin ostentava um galo sobre a testa, resultante da queda recente na emergência. Seu aspecto era de desalento; os cabelos estavam desgrenhados e as pernas pendiam sem vida do alto da maca. Uma mancha enorme e avermelhada de mercurocromo cobria uma área que ia da calça jeans ao queixo, como se ela tivesse entrado em luta corporal com a pessoa que tentou desinfetar-lhe os ferimentos. Ambas as mãos estavam cobertas por grossas camadas de gaze e um dos pulsos estava imobilizado por uma tala. Lorenzo entrou sorrateiramente e evitou se aproximar, preferindo esperar que os dois policiais agachados diante dela, numa posição incômoda, terminassem a entrevista. Com as mãos cruzadas sobre a fivela do cinto, restringia sua presença aos bastidores, como um solista esperando a deixa. Nesse meio tempo, tentava analisá-la. Magra e pálida, ela lhe dava a impressão de ser uma dessas pessoas cujo desejo ardente de ser invisível ou passar despercebida a faz desaparecer diante de seus olhos. Notava apenas uma aura de desespero sincero e concluiu que teria que aguardar o desdobramento dos fatos. 0 outro paciente era um homem branco de aspecto desleixado, Sen-tado num canto lendo Moby Dick. Um pé descalço, inchado e apoiado sobre uma cadeira a sua frente denunciava um portador de diabetes. Os movimentos do braço esquerdo estavam restritos devido a uma agulha de soro que lhe ocupava uma das veias. Sob o braço direito, acomoda das numa cadeira a seu lado, havia três sacolas de supermercado repletas de roupas e brochuras. As outras macas estavam desocupadas. Sobre a primeira havia uma pilha desordenada de roupas de cama amarrotadas A segunda encontrava-se totalmente despida, deixando à mostra a superfície emborrachada. - Você disse negro - certificou-se um dos policiais com suavidade, movendo os pés para contrabalançar o peso do corpo. - Negro como eu ou mais escuro? Mais claro que eu? Brenda segurava uma lata de Diet Coke entre as palmas enfaixadas e levava a bebida à boca com as duas mãos, corno se fosse uni uso tentando extrair mel de um pote. - Já falei não estou a fim de dizer nada. Era de noite, entende? A voz estava fraca e, apesar do brilho de decisão no olhar, ela evitava encarar os dois homens. Lorenzo não salda dizer se aquela expressão era de decepção ou vergonha. - OK, tudo bem - o guarda anuiu. - E quanto à altura, você acha que ele tinha cerca de 1,80 m, certo? Mais ou menos. E uns noventa quilos. É isso mesmo? Acho que sim. - Neste ponto, Brenda percebeu a presença de Lorenzo e imediatamente passou a observá-lo dos pés à cabeça. Lorenzo tentou enviar-lhe um sorriso, mas os olhos da mulher moviam-se depressa demais para recebê-lo, focalizando o interesse ora para as ataduras, ora para o diabético desmazelado do lado oposto da sala. "Moby Dick - comentou com a voz rouca, o olhar novamente pousado sobre o colo. - É um bom livro. 0 paciente a observou por alguns instantes antes de retomar a leitura. Lorenzo pensou, a dissimulação em pessoa. - Mais alguma coisa que você queira acrescentar? - perguntou o outro policial. 0 desconforto da posição era evidente, obrigando-o a movimentar o corpo para acomodar-se melhor. Lorenzo deduziu que o motivo daquela pose agachada, que os colo cava em uma altura inferior à de Brenda, residia no fato de ambos serem negros, como o ladrão do carro. Devido a este pormenor, tentavam não parecer ameaçadores, fazendo-a sentir-se, na medida do possível, mais descontraída. Mas por que cargas-d'água não puxavam uma cadeira? Um dos policiais bateu nas costas do colega e ambos voltaram-se para o detetive. Ouviu-se um estalar de rótulas quando os dois homens se colocaram de pé. - Olá, chefe - Lorenzo cumprimentou com um sorriso profissional dirigido a ambos. - Posso ... ? - Deixou a pergunta no ar e, olhando para Brenda, fez um gesto afirmativo com a cabeça. - Você vai continuar a tomar o depoimento? - Um dos policiais perguntou esperançoso. Lorenzo deu de ombros. - Tudo bem. - Brenda? - 0 mesmo policial disse: - Este é o detetive Lorenzo Council Lorenzo voltou a sorrir-lhe, aproximando-se um pouco mais. Brenda levantou os olhos para observá-lo. Em seguida, tomou uma atitude desconcertante: estendeu uma das mãos enfaixadas e emitiu um cumprimento quase inaudível. Desconfiado, Lorenzo retribuiu o gesto e reparou que os dedos dela pareciam feitos de gelo. - Tudo bem, Brenda? Os dois policiais começaram a se dirigir para a porta. - Nem um pouco. Enquanto puxava uma cadeira, o seguinte pensamento lhe passou pela cabeça: um homem negro de um metro e oitenta e noventa quilos a agride e depois eu apareço na sua frente. Ela devia estar a ponto de pular pela janela. Apertar minha mão é um pouco suspeito... - Brenda, quer que eu pegue alguma coisa pra você? - perguntou, tentando fazer com que ela o olhasse. - Está precisando de alguma coisa? Ela mostrou a lata de refrigerante. - Me deram isto aqui - disse, apontando a cabeça em direção à porta por onde os dois policiais haviam saído. - Sente-se confortável? - Não. - Tudo bem. Ouça. Sei que você está chateada, certo? E acredito que esteja morrendo de cansaço - esperou uma reação qualquer, mas ela se limitou a olhar para o refrigerante. - Mas quanto mais rápido terminarmos isto, mais rápido as coisas se resolverão, concorda? Ela parecia prestes a chorar. 0 rosto voltou a contrair-se, mas tudo que conseguiu produzir foi um suspiro profundo. Lorenzo calculou que havia algum dente de coelho naquela história. - Brenda, quer que eu chame uma mulher pra fazer a investigação em meu lugar? Você se sentiria mais à vontade? Ela comprimiu os lábios, os olhos fixos sobre as mãos. - Não fui estuprada, se é isto que está tentando insinuar. - ótimo - ele a perscrutava -, fico feliz em ouvir isso. Bom, você sabia que a polícia já divulgou a descrição do carro e do autor da agressão? Tá todo mundo procurando por ele, certo? Agora, dá pra me aturar mais um pouco e contar a história de novo, mais uma vez para que eu possa-- - Eu estava tentando ir para Gannon pela rua Hurley - ela o interrompeu. - Moro em Gannon. Lorenzo já havia suspeitado deste fato; a população de Gannon resumia-se à classe operária e era constituída predominantemente por brancos. Garmon fazia fronteira com Darktown, famoso bairro de Dempsy. Os limites de Garmon se estendiam até o conjunto residencial Armstrong, ou, como era chamado por alguns, Strongarm. Uma das atribuições do seu departamento de polícia era vigiar os prédios do condomínio, verificar se algum viciado de Garmon ia lá à procura de droga e tentar fazê-lo pular a cerca de volta. Outra tarefa seria a de vigiar os jovens de Armstrong. Por exemplo, os policiais ficavam à espera de quatro rapazes que iam para Gannon em duas bicicletas. Na certa, voltariam meia hora depois, em quatro bicicletas. Os adolescentes de Armstrong tinham pavor de serem mortos lá também, porque o Departamento de Polícia de Gannon gostava de causar uma impressão permanente: "Mantenha nossa cidade limpa." - Eu estava na rua Hurley, certo? Me disseram que... sabe o final da ma? Bom, era só continuar sempre em frente, entende?... atravessar aquele parque... como é mesmo o nome ... ? - Martyrs Park? -Isso, Martyrs. 0 parque a que Brenda se referia era um pequeno terreno arborizado, cheio de lixo e alguns bancos espalhados. 0 nome era uma homenagem à memória de Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers. 0 centro do parque delimitava a fronteira entre Gannon e Dempsy. Garmon mantinha um posto permanente no local, informalmente conhecido por Vigília. Uma radiopatrulha estacionada 24 horas por dia no estacionamento de um pequeno centro comercial falido, localizado no lado oposto do parque, ou seja, no território pertencente a Garmon, era responsável pelo policiamento constante da área. - Martyrs Park... - continuou. - Sabe, me disseram... ouvi dizer que era possível atravessar ele de carro e sair na Jessup, em Gannon, certo? - É, pode - Lorenzo concordou. Com uma das mãos, segurava o bloco de notas ainda em branco e, com a outra, um radiotransmissor. Observou o cabelo escorrido, os ombros estreitos e caídos e a camiseta cujos dizeres veiculavam uma mensagem de utilidade pública. Brenda começou a despertar-lhe um sentimento de indiferença. Armstrong sempre levava as sobras, mas metade dos viciados era de Gannon. Mantenha nossa cidade limpa... - Aí, quando já estava na metade do parque, o que acontece? Não vejo rua nenhuma. Só árvores, feito floresta. Então, resolvi sair dali. Voltar pelo caminho de sempre. Foi nessa hora que o sujeito me aparece. 0 farol bateu nele, como se ele tivesse saído detrás de uma árvore, ou sei lá de onde. Não estava a fim de papo com ele, mas não dava pra ver direito pra onde eu estava indo de marcha a ré, entende? Aí, quando eu menos esperava, ele chega na janela do automóvel e diz: "Tá tentando cortar caminho? Não é por aqui não. É por lá." - Sua voz tentava reproduzir um ligeiro sotaque negro. "Aí, ele começou a apontar por entre as árvores e eu não via nada. Então, ele falou rindo: "Segue por ali." Bom, tava rindo mas não parecia... quer dizer... era simpático, parecia prestativo... e depois falou "é por..." foi então que abriu a porta do carro e insistiu "veja pra onde eu estou apontando". Era como se eu tivesse que sair do carro, ficar em pé e... bom, não era isso que eu queria mas, sei lá, nem deu tempo de pensar. Só me lembro dele me puxando pra fora e foi aí que... - Levantou as mãos e exibiu as palmas. - Ele me empurrou com tanta força que me esparramei no chão. Parecia que tinha caído de um edifício de não sei quantos andares, sei lá... Lorenzo balançou a cabeça afirmativamente, observando-lhe os joelhos para verificar se na calça havia manchas compatíveis com a queda descrita. Mas o olhar de Brenda continuava arredio. - Aí, eu... quando consegui me levantar, ele estava entrando no carro Eu gritei "Ei" e fui... segurei o braço dele. Ele saiu do carro e dessa vez me atirou pra cima... me espatifei no chão... ufa... perdi o fôlego, mas tentei. Me levantei, tentei falar mas não saía nada... - Parecia supernervosa. Lorenzo limitava-se a examinar suas reações. - Sabe, ele estava (Ando no pé e eu---sei lá_ eu só... - Tropeçando nas palavras, da sacudiu os ombros num sinal de desistência. Lorenzo mal prestava atenção. Na realidade, refletia sobre aquela situação: uma mulher, residente em Gannon, foi espancada em Armstrong, em Strongarm, no parque de Darktown. Não lhe agradava nem um pouco a idéia de ter que se relacionar com aqueles vizinhos. Lorenzo perdia-se em digressões mais profundas e passou a fazer uma seleção mental dos colegas lotados naquele departamento de polícia, classificando-os conforme o temperamento intempestivo ou equilibrado, conciliador ou intransigente. Brenda levou as mãos enfaíxadas até os olhos. 0 movimento súbito o trouxe de volta à realidade. - Tudo bem com você? Ela não respondeu. Brenda! 0 que é? Ele pegou o carro e saiu do parque de marcha a ré? -Isso. - E aí pegou a rua Hurley? - Foi. - Você naturalmente viu que direção ele tomou, certo? - Lorenzo imaginava que o criminoso tivesse ido em direção a Newark, onde mais? Lá era a capital do carro roubado no mundo livre. - Brenda, você viu onde ele dobrou? Lorenzo interrompeu a conversa sem esperar a resposta. - Com licença. - Logo em seguida, transmitiu uma mensagem pelo rádio: Investigador sul 15 chamando base, câmbio. Base falando. Câmbio. É... sobre o roubo de carro na área sul. Verifique se a polícia de Newark foi notificada. E por favor entre em contato com Bump, Rosen, peça a ele para começar a arrolar testemunhas em Armstrong. Lorenzo detestava tomar aquela atitude. Consultou o relógio: quinze para as onze. Lei e ordem ainda não tinha acabado. 0 filho de Bump devia, com toda certeza, estar no meio da cena do tribunal. Torceu para que Bump se demorasse à porta, na esperança de, ao menos, ver o julgamento do menino. Abaixou o volume do rádio. - Desculpe -justificou-se. - Você não pode imaginar - Brenda prosseguiu o desabafo, com os olhos fixos na parede oposta, a cabeça tremendo. - Eu tentei. Tentei ir atrás dele. Tentei avisar. - Avisar o quê? - Lorenzo curvou-se, apoiando os cotovelos sobre os joelhos. Ela pousou com cuidado o refrigerante na mesinha ao lado. - Não quero que a minha mãe saiba dessa história. Lorenzo assentiu com um movimento da cabeça. No entanto, seria capaz de apostar que ela estava lá à procura de droga. - Brenda, preciso perguntar uma coisa mas quero que saiba que seja qual for a resposta, a única coisa que me interessa é pegar o cara que agrediu você, certo? - Você acha o quê, que eu estava lá comprando crack? - Os lábios se contraíram. - Não me interessa mesmo, mas, se for este o caso, talvez sirva de ajuda pra míni e eu possa ir direto ao alvo. Não se preocupe, nada vai te acontecer. Só preciso saber quem bateu em você. Você é a vítima, pura e simplesmente. Nem sua mãe, nem ninguém, precisa saber de nada, entendeu? - Não estou mais nessa há quase cinco anos. Nem me lembro mais disso. - Otimo, ótimo. - Lorenzo não estava nem um pouco convencido. - Além disso, meu irmão é do seu ramo. Ao é? Lotado onde? Gannon. Ele é detetive. Sei. Merda. Qual é o ... ? Martin. Danny Martin. Ali, sei quem é. - Balançou a cabeça, como se aquela informação fosse do seu agrado. - É um bom policial. - Danny Martin era um sujeito bastante decente mas meio explosivo. Lorenzo pressentiu que aquele dado novo poderia resultar em encrenca. - Quer que telefone para ele? - Acho que não - desconversou. num tom vago e quase inaudível. Aquele murmúrio digressivo era um indício de que Brenda compartilhava com ele a previsão de aborrecimentos. - Tudo bem, não tem problema nenhum - concordou de imediato. De qualquer modo, sentiu-se na obrigação de telefonar para o colega, por uma questão de cortesia profissional. - Bom, Brenda, esta noite... - 0 que eu estava fazendo lá, já que não estava atrás de droga, não é imo? - É, tenho que perguntar. -Trabalho lá. - Onde? - No condomínio. Trabalho no centro de estudos da polícia civil. - Ah o centro de estudos do conjunto Jefferson, não é? - Acabamos de inaugurar uma filial no porão do Edifício Cinco. 0 rumo da conversa, que fluía melhor agora, provocou em Lorenzo uma certa hesitação. - Ali, sei, sei. Ouvi falar. Tudo bem - disse finalnzWe, concordando com a cabeça. 0 centro de estudos era uma atividade extraclasse, instituída com a finalidade de afastar os préadolescentes das ruas e, em alguns casos, do ambiente doméstico, tanto quanto possível. Releu a mensagem da camiseta: Só UM HOMEM FRACO PARA DES - Você acha o quê, que eu estava lá comprando crack? - Os lábios se contraíram. - Não me interessa mesmo, mas, se for este o caso, talvez sirva de ajuda pra míni e eu possa ir direto ao alvo. Não se preocupe, nada vai te acontecer. Só preciso saber quem bateu em você. Você é a vítima, pura e simplesmente. Nem sua mãe, nem ninguém, precisa saber de nada, entendeu? - Não estou mais nessa há quase cinco anos. Nem me lembro mais disso. - Otimo, ótimo. - Lorenzo não estava nem um pouco convencido. - Além disso, meu irmão é do seu ramo. Ao é? Lotado onde? Gannon. Ele é detetive. Sei. Merda. Qual é o ... ? Martin. Danny Martin. Ali, sei quem é. - Balançou a cabeça, como se aquela informação fosse do seu agrado. - É um bom policial. - Danny Martin era um sujeito bastante decente mas meio explosivo. Lorenzo pressentiu que aquele dado novo poderia resultar em encrenca. - Quer que telefone para ele? - Acho que não - desconversou. num tom vago e quase inaudível. Aquele murmúrio digressivo era um indício de que Brenda compartilhava com ele a previsão de aborrecimentos. - Tudo bem, não tem problema nenhum - concordou de imediato. De qualquer modo, sentiu-se na obrigação de telefonar para o colega, por uma questão de cortesia profissional. - Bom, Brenda, esta noite... - 0 que eu estava fazendo lá, já que não estava atrás de droga, não é imo? - É, tenho que perguntar. -Trabalho lá. - Onde? - No condomínio. Trabalho no centro de estudos da polícia civil. - Ah o centro de estudos do conjunto Jefferson, não é? - Acabamos de inaugurar uma filial no porão do Edifício Cinco. 0 rumo da conversa, que fluía melhor agora, provocou em Lorenzo uma certa hesitação. - Ali, sei, sei. Ouvi falar. Tudo bem - disse finalnzWe, concordando com a cabeça. 0 centro de estudos era uma atividade extraclasse, instituída com a finalidade de afastar os préadolescentes das ruas e, em alguns casos, do ambiente doméstico, tanto quanto possível. Releu a mensagem da camiseta: Só UM HOMEM FRACO PARA DES RESPEITAR A MULHER FORTE QUE 0 CRIOU. 0 seguinte pensamento, então te ocorreu: talvez ela seja gente fina. Talvez. - E verdade. Ouvi dizer que você estava trabalhando lá. Agora me lembro. Motivada pelo leve tom de entusiasmo que Lorenzo imprimia à voz, Brenda inclinou o corpo para a frente. A fala ganhava maior velocidade, como se um tempo determinado lhe tivesse sido concedido para que seus argumentos pudessem convencê-lo a tomar seu partido. - Veja você Ontem, o pessoal empacotou umas coisas e levamos pra lá. Quando foi hoje, eu estava em casa procurando os óculos, entende? Já era tarde e eu não conseguia encontrar. Então, achei que talvez eles tivessem ido junto com a mudança, por engano. Resolvi dar um pão no Edifício Cinco, pra dar uma olhada nas caixas. Mas estava com a chave errada e não consegui entrar.. Foi então que resolvi voltar depressa para Gannon e... interrompeu bruscamente a narrativa. - 0 resto você já sabe. Lorenzo percebeu seu empenho em detalhar o depoimento. No entanto, o comportamento arredio o fez suspeitar de que ela escondia alguma coisa. Algum namorado? Um namorado negro? Um estupro? Drogas? 0 que poderia ser?... - Tudo bem. - Lorenzo esfregou as mãos enquanto os pés executavam batidas ritmadas no chão. Ambos permaneciam sentados em silêncio. Havia no ar um clima de expectativa. 0 outro paciente espirrou, virou a página do livro, bocejou. - Que tal descermos para consultar o arquivo de fotografias? Ela sacudiu levemente os ombros, sem responder, sem tomar nenhuma atitude concreta no sentido de levantar-se ou esboçar algum gesto significativo. Limitou-se a entrelaçar os dedos, esperando. Lorenzo inclinou a cabeça, tentando fazer com que ela tirasse os olhos do colo. -- Brenda! Visivelmente perturbada, Brenda lançou-lhe um olhar furtivo e relutante. - Brenda. -- Curvou ainda mais a cabeça para tentar encará-la. Tem alguma coisa que você está escondendo... Ela voltou a dar de ombros e levou uma (Ias mãos enfaixadas à boca, procurando desviar o olhar. - Brenda - a voz de Lorenzo estava macia -, não consigo deixar de... -Lorenzo viu-se tomado por uma onda de apreensão que o fez vacilar, numa demonstração evidente de que sentia medo de descobrir algo que preferia ignorar. - Não consigo evitar uma sensação de que existe alguma coisa além que te preocupa, entende? Ela concordou com um movimento decisivo de cabeça. Embora continuasse arredia, aquele gesto indicava maior consciência da situação. Como alguém que anseia o primeiro beijo, Brenda esperava a pergunta certa. - Vou perguntar de novo. Você gostaria da presença de uma investigadora? Ela fez um sinal negativo com a cabeça, ainda na expectativa. 0 peito arfava visivelmente. Um movimento chamou a atenção de Lorenzo: uma das camas aparentemente vazias moveu-se numa agitação de lençóis. Alguém estivera deitado debaixo daquela pilha desordenada de roupas todo o tempo e agora dava sinal de vida, emitindo um gemido melodioso. A cena inesperada provocou um suspiro alto no diabético que murmurou: "Meu Jesus Cristo." - Brenda. Você conhece o sujeito? Ela bateu devagar com a tala na testa. Repetiu o gesto, cerrando os dentes e começou a chorar. Lorenzo interpretou aquele pranto como um sinal de medo e contrariedade. Sem tirar os olhos dela, Lorenzo aproximou-se mais, quase a tocando. - Quem é ele, Brenda? Ela fitou a parede. As lágrimas tornavam-lhe os olhos iridescentes. 0 choro aumentava de intensidade. Ele lhe tocou os joelhos. - Brenda, hoje é seu dia de sorte. Eu tenho a faca e o queijo na mão, lá em Armstrong. Não existe ninguém que eu não conheça. Quem é o cara, Brenda? Quem fez isso com você? - Meu filho... - desabafou, olhando para a parede. - 0 quê? - Lorenzo estava surpreso, calculando sua idade em trinta anos. - Quem?... - Ele fez um gesto com a mão, para detê-la. Espera aí. Brenda retesou os músculos. Uma série de tremores involuntários percorreram-lhe o corpo, como se estivesse com frio. Ele esboçou um gesto em sua direção para acalmá-la, mas desistiu no meio do caminho __ 0 que é que tem o seu filho?... Num movimento brusco, ela levantou o braço para cobrir os olhos, derrubando a lata de refrigerante no chão. 0 barulho seco fez o diabético soltar uma imprecação. - Está no carro. - As palavras fluíram num grito entrecortado. Lorenzo endireitou o corpo. Finalmente Brenda o encarava, sem nenhum subterfúgio, os olhos tomados pelo terror, como se esperasse que ele ficasse de pé e a espancasse até a morte.

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