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Freedomland,
de Richard Price (tradução de Eneida Santos; Rocco; 648 páginas;
58 reais)
Anos atrás, o jornalista e romancista Tom Wolfe criticou os escritores
americanos atuais por falharem em descrever a complexa realidade do
país. O único que ele absolveu foi Richard Price. De fato, os livros
de Price compõem painéis grandiosos da vida nos Estados Unidos. O
ponto de partida de Freedomland é o suposto rapto de uma criança por
um homem negro. As acusações da mãe trazem à tona conflitos raciais,
questões sobre o poder da mídia e lutas políticas. Price, que também
é um respeitado autor de roteiros cinematográficos, conduz a narrativa
de maneira ágil, sem no entanto deixar de lado os detalhes que dão
solidez e realismo à trama.
Primeiro capítulo:
- Bem, como esses rapazes mesmos costumam dizer, a vida... a vida
e a morte são cotas tão frívolas. A morte não significa muita coisa.
A morte é... vida. 0 sacerdote muçulmano cruzava o palco de ponta
a ponta, na tentativa de concluir seu sermão. Na parede atrás dele,
as fotos ampliadas de Mãe Barrett e seu irmão gêmeo Theo enfeitavam
o ambiente. Os dois retratos ostentavam uma moldura de papel crepom
preto e estavam colados sobre uma espécie de pano de mesa branco.
Ao mesmo tempo em que ouvia atenta e cabisbaixa a pregação daquele
negro da localidade, metido num turbante e trajando seu dashiki, a
platéia dedicava-lhe olhares que oscilavam entre a culpa e a negligência.
Havia cerca de cem moradores sentados em cadeiras dobráveis no galpão
onde funcionava o centro comunitário. No entanto, apenas a minoria
era composta de pessoas muito jovens ou de menos de cinqüenta anos.
Seis policiais impassíveis, de pé no fundo do salão, com os braços
cruzados sobre o peito, montavam guarda, devido a rumores de algum
tipo de confusão. De jeans preto e amarrotado, camiseta enfeitada
por uma mensagem otimista e sentado sobre o parapeito da janela, o
detetive Lorenzo Council aguardava a vez de lidar. Para onde quer
que olhasse, havia alguma coisa que o deixava irritado. Do lado de
fora, havia o descampado com os engradados de geladeiras que o encarregado
não tivera o cuidado de fechar com algum tipo de cadeado ou lacre.
Lorenzo sabia que amanhã, ou talvez hoje à noite, alguns rapazes com
toda certeza tentariam se meter dentro daquelas armadilhas mortais
e transformá-las num ponto de reunião. O encarregado pousou aquela
tralha com as portas para cima temendo que os garotos começassem a
derrubar tudo, mas ninguém teve a idéia brilhante de virá-las ao contrário.
0 toque sinistro da história era o fato de que o destino de cada geladeira
havia sido rabiscado com giz na lateral. Por exemplo, "12G 14 Hurley";
ou seja, "este caixão pertence a você". Lorenzo também se irritava
ao ver os irmãos Convoy na companhia daquele imbecil do Tariq Wilkins,
de papo para o ar no Edifício Um. Apesar de a maior parte dos garotos
da sua idade evitar este tipo de reunião, esquivando-se daquele tapinha
nas costas, os outros pelo menos tiveram a decência de conter a vontade
de sair por aí hoje, num gesto de respeito pelas pessoas que realmente
compareceram. Mas esses três...- E esta multidão aqui dentro? Era
exatamente o que ele esperava: a maioria composta de pessoas de idade,
como o casal assassinado. Apareceram ali, movidos por um reflexo antigo
de atender a convocações. Mas estavam apavorados. O terror tornava-se
evidente na falta de iniciativa verbal, no modo como desviavam o olhar
ou pareciam desligados. Na realidade, procuravam olhar para qualquer
coisa que não fosse as fotos em homenagem aos mortos ou o palestrante
-Os... os covardes... o covarde... aliás, não... A coisa, porque quem
quer que seja que tenha feito isto não merece ser considerado um ser
humano, portanto prefiro me referir a ele como uma coisa, uma coisa
maldita. Com um movimento sóbrio de cabeças, as pessoas concordaram
impassíveis Uma lágrima ocasional era derramada, podia-se ouvir o
choro fortuito de um bebê e o ar impregnava-se do bafo adocicado de
bebido Más uni ano inteiro havia transcorrido. Embora esta reunião
em comemoração ao primeiro aniversário do crime tivesse sido idéia
sua, Lorenzo sentia-se descrente com relação a qualquer resultado
concreto daquela iniciativa Além do mais, o discurso daquele sacerdote
era por demais maçante. Nove e meia. Ele havia combinado uma mudança
no plantão para hoje à noite com seu companheiro, Bump Rosen, que
ficou incumbido de substituí-lo entre quatro horas e quinze para as
dez. Lorenzo retribuiria o favor das quinze para as dez à meia-noite,
para que Bump pudesse ir correndo para casa a tempo de ver seu filho
de doze anos debutar como ator em Lei e ordem. Nove e meia. Faltavam
ainda quinze minutos e ele não havia sequer se levantado para começar
a discursar. Um dos objetivos deste "encontro" era colocar novamente
os criminosos nas manchetes para reavivar a lembrança do crime, mas
apenas dois repórteres haviam comparecido - uma moça do Dempsy Register
e um estagiário do Jersey Journal. Nem a polícia nem a imprensa eram
capazes de suscitar o interesse sobre dois homicídios cometidos num
bairro que, desde então, contabilizava um total de 59 casos mais recentes.
Lorenzo olhou para a repórter do Register, Jesse Haus. Fazia oito
anos que conhecia aquela moça de baixa estatura e corpo bem-feito,
sempre vestida de jeans dos pés à cabeça e com excesso de rímel nas
pestanas. Jesse estava sentada numa cadeira próximo ao corredor. 0
hábito de examinar as unhas com a testa franzida sempre o fazia lembrar
um carro de corrida preso num engarrafamento. Uma das pernas, cruzada
sobre a outra, balançava nervosamente enquanto um bloco de notas esquecido
sobre o colo ameaçava cair a cada momento. O piscar incessante dava
a sensação de que todo aquele rímel havia entrado nas pálpebras. Alguns
meses atrás, os dois passaram algum tempo juntos para que ela escrevesse
seu perfil para o Register A reportagem chegou a motivar um convite
para o programa de Rolonda Watts. Agora, absorvendo sua expressão
estranhamente apática e, ao mesmo tempo, atenta, Lorenzo achou que
a impaciência frenética da repórter aumentava a sua, fazendo-o sentir-se
mais consciente de que todo aquele espetáculo fugia ao seu controle.
Enviou, então, uma mensagem telepática para ela: "espere". Enquanto
acariciava com gestos ansiosos a cabeça raspada, Lorenzo dedicou-se
a estudar os retratos dos velhos gêmeos Barrett. O cabelo grisalho
de ambos, cortado à escovinha, conferia um ar assexuado àqueles rostos
em formato de coração. Os olhos dela eram pequenos e redondos como
contas e tinham uma expressão de condenação. Já os do irmão, igualmente
estreitos, eram maliciosos. Tio Theo, na casa dos setenta anos, mantinha
o hábito de usar calças apertadas e, mesmo nos meses mais quentes,
pulôveres de gola alta. Havia se aposentado como guarda-livros do
teatro Apollo mas continuava sendo um sujeito afável e tresloucado
que chamava todo mundo de neném - todo mundo à exceção dos grandes
astros a quem havia sido apresentado durante todos aqueles anos. Referia-se
a eles como "Senhor" Billy Eckstine, "Senhorita" Dinah Washington,
"Senhor" Sam Cooke e "Senhorita" Sarah Vaughan. Tio Theo era uma "figura"
que, em troca de sorvete e pizza, convencia gerações de jovens do
conjunto residencial a admirar Lionel Hampton cantando com seu modo
característico "Hey Ba Ba Re Bop", a gostar da versão de Joe liggins
para "lhe Honeydripper" e da interpretação de "Síxty Minute Man" por
Billy Ward e os Dominoes. Ele sempre perguntava aos rapazes se sabiam
o significado de "0 homem dos sessenta minutos", mas nunca entrava
em maiores detalhes sobre o assunto. Centenas de garotos do conjunto
Armstrong, inclusive Lorenzo, sentaram-se naquele sofá forrado de
plástico durante anos, tentando não rir dele. Uma figura, Lorenzo
pensou, um sujeito único que já não existe mais - para ele, tratava-se
de uma perda irreparável que justificava o esforço extra daquela noite.
Quanto à Mãe Barrett, Lorenzo nunca gostou muito dela, embora julgasse
que, devido à sexualidade ostensiva de Theo, a melhor opção seria
invocar sua memória em vez da do irmão, numa reunião daquele tipo.
O problema era que Lorenzo, assim como todos naquela sala, sabia quem
havia cometido o crime, mas ninguém, nem o sacerdote nem os policiais,
podia dizer o nome em público porque o autor nunca foi acusado. Foi
o neto, Mookie, um brutamontes mentecapto, corpulento, explosivo,
de inteligência curta e sempre com um ar ausente. Lorenzo tinha certeza
de que havia sido de, porque Mookie não tinha onde morar, exceto nas
vezes em que a avó e o tio-avô lhe davam guarida, o deixavam dormir
no chão e assaltar a geladeira. Quem quer que tenha cometido este
ato monstruoso teve o cuidado de colocar cobertores dobrados sob as
cabeças das vítimas, na tentativa de colocá-las em posição confortável
- um gesto de remorso. 0 apartamento não foi revirado, apenas dentro
de uma gaveta aberta no quarto ainda havia restos de comida e algum
dinheiro trocado: seja lá quem for que tenha feito aquilo, sabia o
local exato onde o dinheiro estava escondido. Mas a divisão de homicídios
trabalhou mal e não conseguiu gravar o depoimento de Mookie no ano
passado. Portanto, não havia nada para rebater suas contradições.
Depois de alguns interrogatórios tempestuosos, o garoto simplesmente
recusou-se a falar, saindo da cidade logo em seguida e indo morar
no Brooklyn, onde, por mais incrível que pudesse parecer, tinha uma
"famíllia" para tomar conta dele. Sem a arma do crime e sem uma testemunha
- alguém que tivesse a iniciativa de dizer "É verdade, eu o vi sair,
eu o vi entrar, ouvi sua voz alterada pelo ódio" -, não havia quase
nada a fazer, tanto para Lorenzo quanto para qualquer outro. Apesar
do silêncio geral, motivado pelo medo de vingança ou medo de envolvimento
no caso, o Armstrong inteiro estava indignado e hoje sofria as emoções
do primeiro aniversário de um de seus momentos mais vergonhosos. -
Vocês sabem - prosseguiu o sacerdote sorrindo e ajeitando os óculos
de tartaruga -, eu poderia reunir cem homens com um simples telefonema.
Me consigam um exército e eu saio por aí. Não me custaria nada executar
sumariamente esta... esta criatura. Nada. 0 sacerdote abriu um sorriso
amplo e forçado para os policiais no fundo do salão. Alguns devolveram
o sorriso, batendo suavemente as costas nos azulejos da parede. -
Mas o que temos aqui neste país, cheio... cheio de falhas do jeito
que é, é um sistema, um Poder Judiciário... Tudo incomodava Lorenzo.
Por exemplo, a prisão naquela manhã de Supreme Griffin, o chefão do
momento. Os gorilas o haviam surpreendido na saída da ponte George
Washington e encontraram uma trouxinha de maconha escondida no porta-luvas.
A informação era de que Supreme havia simplesmente saído do automóvel
e, num gesto espontâneo e casual, contou-lhes sobre o meio quilo de
heroína, acondicionado em cinqüenta papelotes e camuflado na calota.
Quando o bandido deu entrada na delegada naquela noite, Lorenzo lhe
perguntou por que ele havia marcado aquela bobeira. A resposta de
Supreme, oferecida a um detetive que gostava de se descrever como
"um velho homem do narcotráfico", o entristeceu mais do que nunca.
' - Estou de saco cheio, entendeu? A porra do saco muito cheio. Naqueles
tempos as pessoas gostavam de dizer "0 crack já era, viva a heroína".
Bem, é verdade - Lorenzo pensou -, as estatísticas podiam mostrar
que tinha menos gente morrendo mas havia uma tristeza palpável no
ar, uma resignação e uma renúncia que era como a própria morte. -
Às vezes somos... - o sacerdote divagava agora, atenuando o tom do
sermão e distribuindo um sorriso indulgente para aqueles indivíduos
taciturnos sentados a sua frente. - ... às vezes nos comportamos como
pessoas assustadas. E com razão, muita razão. Um rapaz negro, educado
nega sarjeta está muito mais exposto a sofrer uma morte violenta antes
de atingir a maioridade do que os soldados enviados para combater
na Segunda Guerra Mundial. É esta a estimativa do New York Times...
é o que afirma o New York Times Mas estou aqui hoje para lhes dizer
o seguinte: não existe nada e ninguém a temer neste mundo, a não ser
a Deus. Porque morreremos um dia e enfrentaremos o Juízo Final...
o Juízo Final virá com certeza. - Fez uma reverência para a platéia.
Asalaam alaikims. Enquanto deixava o palco, um murmúrio débil de "Asalaam
alaikims" chegou até ele. No entanto, a maioria dos presentes era
um pouco velha demais para preterir Jesus em favor de Maomé. Do parapeito
da janela, Lorenzo esfregou o rosto enquanto a platéia voltava-se
para ele educadamente, aguardando submissos o próximo golpe. 0 detetive
olhou pela vidraça e voltou a observar os irmãos Convoy. A raiva ganhou
maior proporção diante daquele jardim lúgubre e geométrico de geladeiras.
Num salto, pôs-se de pé e se dirigiu para o palco. - Nós nos consideramos
uma comunidade. Referimo-nos a nós mesmos como uma família - Lorenzo
declarou num bramido dissonante. Era este seu tom de voz costumeiro
sempre que se dirigia a um público numeroso. - Mas, como não queremos
que nos chamem de dedosduros, acabamos prestando nossa lealdade para
as pessoas erradas. Movendo-se pesadamente para trás e para adiante
pelo palco, como um tigre enjaulado, Lorenzo dirigia um olhar repressor
aos moradores recaídos e aos guardas que o observavam do fundo do
salão. Ele era um homem corpulento - mais de cem quilos, distribuídos
por 1,90m de altura - e ostentava uma barriga protuberante. As rachaduras
crônicas do lábio inferior saliente e os óculos de lentes grossas
eram sua marca registrada. Em situações como aquela, apostava sempre
na eficácia da gritaria e da irritação. - Ouvi dizer... tomei conhecimento
de que alguém teria dito que, se esta fosse uma zona de brancos, a
polícia já teria apanhado o sujeito. Se fosse... Não! Não! Isto só
seria verdade se os branco, os azuis... sei V. os malhados tivessem
dado um passo à frente e dito: "Sim! Vi quem fez isso. Sim! Ouvi os
tiros. Sim! Sim! Sim!..." Está na hora de sermos honestos! Lorenzo
os observava, sentindo a raiva ser alimentada pelo fato de saber que
estava castigando as pessoas erradas, ou seja, aquelas que haviam
ao menos comparecido. "Mas neste conjunto só se ouve "não, não, não,
não mencione meu nome, não, não, por favor, por favor, não, não, em
boca fechada não entra mosca". É por estas e outras...! - Empertigou-se.
- Um ano inteiro se passou. As pessoas foram mortas num total de oito
vezes. Oito tiros às nove da manhã. - Ele percorreu furtivamente o
palco, reconhecendo na multidão a Sra. Bankhead, uma velhinha que
morava ao lado da casa dos irmãos Barrett. "Mas ninguém ouviu nada,
ninguém ouviu coisa nenhuma. Agora, me digam como isto é possível,
se sei perfeitamente que, se eu ligar o rádio nas alturas no quarto
andar, alguém do primeiro vai reclamar do barulho. Como é que pode,
se sei que, se eu deixar cair um copo no segundo andar, alguém do
terceiro vai correndo para a delegacia reclamar da festa de arromba
no meu apartamento? - Lorenzo andava compassada e furiosamente, ajeitando
os óculos. - Perdemos duas pessoas queridas. Apontou para o retrato
de Mãe Barrett. - Olhem para ela. Olhem! Mãe Barrett. Era assim que
chamávamos ela. Ela em nona mãe. E o Tio Theo?... -Lorenzo hesitou,
sabendo que "tio" não tinha o mesmo apelo visceral de "Mãe". - Era
assim que nos referíamos a ele. Quantos de vocês aqui presentes não
receberam vários telefonemas dele dizendo assim: "Seu filho, ou filha,
está na minha casa ouvindo discos. Posso convidar ele pra jantar,
convidar ela pra almoçar, dar um livro a ele, comprar um sorvete pra
ela?" Houve uma aquiescência solene, gerando um novo surto de lágrimas.
- Eles eram da velha-guarda! - É verdade - alguém disse em meio a
um murmúrio que ganhava corpo. - Da velha-guarda! Gente da melhor
qualidade! Eram do tempo em que todo mundo aqui se preocupava um com
o outro! As pessoas concordavam com mais ênfase, crivando-o de estímulos
para continuar. - É isso aí, chefinho! Lorenzo olhou para a Sra. Bankhead.
Aflita, ela balançava o corpo na cadeira, remoendo seu segredo. Fazia
um ano inteiro que ela o evitava. Depois de alguns ruídos característicos
de interferência, o rádio de um dos policiais passou a transmitir
algum informe no fundo do salão. - Querem saber sobre meus tempos
de menino aqui? Se eu aprontasse qualquer coisa lá nos fundos do conjunto,
sabem o que acontecia? Voltava para casa debaixo de porrada. Naquela
época minha mãe tinha seus ajudantes-de-ordens! Uns cinqüenta, por
aí! Aqui e ali ouviam-se risos tímidos e cautelosos. Lorenzo estremecia
com pena deles, com pena do que estava prestes a fazer. Um dos policiais
soltou um bocejo alto. - Se eu matasse aula ou fumasse um cigarro,
eu tinha cinqüenta mães para me puxar as orelhas. Velha-guarda! -
Os passos fortes e decididos continuavam a percorrer o palco. - Velha-guarda!
Mãe Barrett... - Fez uma pausa, provocando uma risada como se tivesse
perdido a disposição de manter o tom reprovador. - Sabem o que Mãe
Barrett fez uma vez, quando eu era criança? Roubei um punhado de chocolate
granulado do caminhão Chilly Willy. Vocês lembram daquele caminhão
que aparecia aqui no verão? - Claro. - Lembro bem sim. Jesse Haus,
do Register, reuniu seus pertences silenciosamente e saiu agachada
pelo corredor em direção à saída. Lorenzo sentiu-se um pouco ofendido
pela possibilidade de uma reportagem negativa. Ele estava apenas no
começo. - O caminhão Chilly Willy... - repetiu, em seguida a uma perda
momentânea do fio da meada- tinha aquele, como direi, aquela espécie
de bandeja lateral, com todas as coberturas, o chocolate granulado,
coberturas de chocolate e de todas as cores, para mergulhar a casquinha
do sorvete. A rapaziada no maior olho grande, sabe como é... Lorenzo
arregalou os olhos e lambeu os beiços. Desta vez, as risadas fluíram
mais facilmente. Até uma dupla de policiais sorria, com a cabeça voltada
para a janela. - Uma vez, antes de entrar para a polícia, não deu
pra segurar. Estava morrendo de vontade, estava tão louco que surrupiei
um punhado, dois punhados. Que se danassem as casquinhas de sorvete!
Lorenzo representava a cena, e as pessoas jogavam si cabeça para trás,
rindo para o teto. A Sra. Bankhead agitava-se na cadeira, com uma
das mãos cobrindo o rosto. O peso do segredo que guardava a excluía
do espetáculo. - Gente, eu corria como o diabo, levei aquilo tudo
para atrás do Edifício Um. Lorenzo lembrou-se daqueles imbecis lá
fora. - 0 cara do Chilly Willy não entendeu nada. E quando me viro,
pronto para encher a boca e me deliciar... - Lorenzo imitava agora
o ator cômico Bill Cosby, virando-se para, logo a seguir, ficar imóvel,
com os olhos levantados e arregalados de medo, fitando algum adulto
gigantesco e invisível. - Me vão e dou de cara com quem? Mãe Barrett
me olhando com aquele olho. Lembram daquele olho que ela tinha? Era
de fazer qualquer um gelar. - Nem me fale. - A velha nem quis saber
da minha versão da história. Nem me deixou inventar uma mentira. Me
deu uma palmada no traseiro, sabiam? Foi tão forte que as pessoas
passaram uma semana inteira catando os pedacinhos da minha bunda pelos
bancos por onde eu sentava, juro. A velha me mandou voando pra casa
naquele dia! As pessoas se contorciam nas cadeiras de armar, como
se alguém as estivesse segurando pela nuca, soltando sibilos de alegria,
cutucando umas às outras. Enquanto ria também, o detetive encontrou
o olhar de um dos policiais que lhe sorria, numa tentativa de admitir:
"Tudo bem, você venceu." - Velha-guarda! - berrou amistosamente, esperando
que a platéia se acalmasse. Em seguida, acrescentou no mesmo tom afável:
- É... a velha Barrett. Sabiam que quando fui chamado ao apartamento
dela no ano passado havia tanto sangue espalhado que cheguei a escorregar
e me esparramar no chão? É verdade! Lorenzo sorriu, olhando para o
tênis. 0 ar estava carregado e silencioso. - Ela levou tantos tiros
à queima-roupa... -E então se interrompeu, pensando, "Já captaram
a mensagem. Agora é não deixar essa gente esquecer que você está aqui".
"Não me digam depois que a polícia não está cumprindo seu dever. Nós
somos os responsáveis por esta área. - Apontou para os policiais no
fundo do galpão. -- Eis não estão aqui as 24 horas do dia. Nós estamos.
Temos que ter um ideal. Temos que andar com a cabeça erguida. Se alguém
está no caminho errado, temos que tomar uma atitude. Nas nossas casas,
nas nossas famílias, nos corredores, nos edifícios, pátios e no nosso
conjunto... nós, nós somos a polícia. 0 rádio de um dos policiais
voltou a fazer barulho no fundo do salão. - Tem razão - uma voz anônima
concordou. - Perdemos dois num dia só. Dois velhos maravilhosos que
tomavam conta da gente o tempo todo. Lorenzo andou sorrateiramente
pelo palco, ajeitando o revólver na cintura. - Tem gente nestas casas
que não sai da janela. - Agora, usava um tom baixo. - A maior TV do
mundo, certo? É isto que vocês falam e vocês sabem de quem estou falando.
Não preciso mencionar nomes. Tornou a ajeitar o revólver, puxou as
calças para cima e sorriu para a platéia. - Gente, estou quase prendendo
o criminoso e o que está faltando é justamente o que vocês sabem.
"Vocês me conhecem. Estou aqui 24 horas por dia, sete dias na semana.
Tudo que preciso é de um telefonema. - Examinou cada rosto exausto
e contrafeito, tentando um contato direto com a turma da janela, ou
seja, todos os idosos que moravam nos dois primeiros andares do Edifício
MA, a área designada pelo encarregado para ser ocupada pelos velhos
e conhecida pelos ladrões como o "clube dos otários". "Tudo que preciso
é de um telefonema. - Lorenzo evitou olhar para a vizinha dos Barrett,
a Sra. Bankhead, brindando o auditório com uma reverência respeitosa.
- E obrigado por terem tido a coragem de comparecer a esta reunião.
Alá, Jesus, Jeová ou Maomé, enfim... Deus abençoe todos vocês. Enquanto
o grupo se dispersava, Lorenzo permaneceu no galpão do centro comunitário,
jogando conversa fora, à procura daquele olhar furtivo cuja intenção
seria a de transmitir-lhe uma mensagem do tipo "quero lhe dizer alguma
coisa, mas não aqui". Sem pressa, dirigia-se à saída. No trajeto,
ouvia as pessoas dizerem 'Áspero que você consiga prender ele" e outras
baboseiras semelhantes. Desvencilhando-se dos abraços e das lágrimas,
Lorenzo tentava seguir a Sra. Bankhead. Em sua caminhada vacilante,
a senhora idosa arrastava o corparizil artrítico em direção à porta.
0 intuito era conseguir alcançá-la do lado de fora sem chamar muito
a atenção, mas um dos policiais o segurou pelo braço. - E aí, chefinho,
soube do seu garotão, o Supreme? Lorenzo parou, com um meio sorriso:
seu garotão. - É, entrou numa fria de novo. - Pode crer... - filosofou
o policial lovakas, o Bola-Preta. Em seguida, encolheu o corpo e ficou
na ponta dos pés para dar passagem a outra mulher gorda que tentava
sair. 0 rádio do Bola-Preta emitiu um chiado. - Leste 202. - 0 tom
monocórdio da chamada fazia lembrar o eletrocardiograma de um defunto.
- Dois zero dois. Câmbio - a unidade convocada respondeu, no mesmo
tom. Bola-Preta e Lorenzo ouviam absortos. - Comunicado sobre uma
trouxinha de maconha jogada do terraço da rua Weehawken n.'15, conjunto
Roosevelt. Câmbio, por favor. Bola-Preta diminuiu o volume do rádio.
- Ouvi dizer que o Supreme entregou de bandeja, tipo "É isso aí..."
- É, também fiquei sabendo - Lorenzo concordou distraído e continuou
a passar a multidão em revista, em busca de um contato visual. As
paredes do galpão estavam repletas de auto-retratos das crianças da
creche que funcionava ali durante o dó. Eram reproduções toscas de
rostos infantis, desenhados com tinta de pintura a dedo sobre papel
pardo e intituladas "SOU ALGUÉM". - Como é que foram as coisas por
aqui? - Bola-Preta fez um sinal afirmativo com a cabeça, referindo-se
às fotografias ampliadas que um funcionário da manutenção carregava
debaixo do braço. Lorenzo deu de ombros. - Tá todo mundo apavorado.
Sabe como é -disse, apressando-se em direção à porta, ansioso por
alcançar a Sra. Bankhead. Mas o rádio de Bola-Preta voltou a se manifestar.
- Sul, IR. - Cento e onze, câmbio. - Cento e onze, por favor. compareça
à sala de emergência do centro médico. Procure uma vítima do sexo
feminino no local. Probabilidade de roubo de carro seguido de tentativa
de seqüestro. - Os dois tentavam ouvir com mais atenção desta vez,
já que o Distrito Sul era o seu território. Lorenzo consultou o relógio:
dez e quinze. Merda. Bump Rosen a esta altura já estava sentado em
casa assistindo ao filho fazer o papel de um skinhead pré-adolescente
e homicida no horário nobre da TV. 0 bip disparou, como para confirmar
a troca de favores. 0 caso do seqüestro ficaria a seu encargo, tão
logo os tiras tomassem o primeiro depoimento. - Tudo bem, chefe. -
Virou-se em direção à saída, mas Bola-Preta voltou a tocar-lhe o braço.
- Lorenzo. - Bola-Preta acenou com a cabeça, referindo-se ao sacerdote
que naquele momento conversava com o subsíndico. - Acho bom avisar
àquele muçulmano metido a besta pra pegar leve nessa conversa mole
de "me consigam um exército". Alguém pode acabar acreditando nessa
merda. - Diz você - desafiou Lorenzo com um sorriso amarelo. Em seguida,
afastou-se à procura da Sra. Bankhead, Mas ela já havia desaparecido.
Quando Lorenzo manobrava no estacionamento, os faróis do seu carro
surpreenderam uma mulher alta segurando uma trouxa de roupa lavada.
Oscilando o corpo de um lado para o outro, ela estava parada bem no
caminho. Lorenzo desviou e passou por ela, rindo. - E aí, boneca,
tá fazendo o que no meio da rua? Tentando ser atropelada? Estou avisando,
você não me tira um centavo. Tenho seguro, minha filha. - Neste caso
processo o governo - a mulher brincou, aproximandose da porta. Ruth
Raymond nasceu e foi criada no conjunto Armstrong cerca de trinta
e cinco anos atrás e tinha vaga cativa na região. Numa noite de calor
sufocante como aquela, a espécie de capa de plástico que protegia
as roupas dobradas que ela carregava estava colada no braço nu, como
um invólucro aderente para alimentos. Lorenzo se perguntava onde ela
havia conseguido aquela trouxa de roupa depois das dez da noite. -
Gostei do que você disse lá dentro, chefinho. - 0 rosto macilento
de Ruth denunciava o vício da bebida, adquirido depois da morte do
filho, havia seis meses. 0 rapaz fora assassinado por causa de uma
jaqueta de couro. - Sabe com quem você devia conversar? Com a Sra.
Bankhead. Você tá sabendo que aquela velha tá por dentro das coisas,
né? - Tô. Aposto que está. - Sabia que ela viajou pra Carolina do
Norte umas nove ou dez vezes no ano passado? Ficou pra lá e pra cá
no ônibus, velha e pesada daquele jeito? Juro, chefinho, tem alguma
coisa comendo ela por dentro. A coitada nem consegue mais parar quieta
em casa, vendo televisão em paz. - Tô sabendo. - Atenção todas as
unidades. Roubo de carro no Distrito Sul. Carro Toyota Camry ano 1991,
quatro portas, bege, placa GDR 665, Golfe, Delta, Romeo, meia meia
cinco. Lorenzo baixou o volume do rádio. - É, dizem que ela foi a
primeira a entrar no apartamento e encontrar os corpos - Ruth disse,
parecendo recuar um pouco devido ao desodorizante de ambiente com
odor de coco, pendurado no espelho retrovisor. - É verdade, foi ela
sim - Lorenzo concordou num tom solene. - A infeliz deve ter ficado
apavorada com a cena -- Ruth concluiu com lágrimas nos olhos. - Com
certeza. - Ela sabe das coisas, chefinho. - Ruth agarrou-lhe o braço.
- Por favor, faz ela desembuchar. - Tô tentando. Ele havia chegado
ao ponto de ameaçar prender o neto da Sra. Bankhead, valendo-se de
um mandado de prisão preventiva cujo prazo havia expirado e oferecido
a liberdade do rapaz em troca de informação, mas o próprio neto disse:
- Minha avó vai levar esta história para o túmulo -forçando Lorenzo
a executar a ordem de prisão. - Todas as unidades, informações complementares
sobre a ocorrência no Distrito Sul. Veículo ocupado por um negro de
aproximadamente 1,80 m de altura, cabeça raspada. Visto pela última
vez nas cercanias da rua Hurley. - E você, boneca? Tem alguma coisa
que possa me ajudar? Ruth olhou para a direita e para a esquerda.
Em seguida, pressionou a trouxa de roupa lavada contra a porta do
motorista. - Me dá um cartão - murmurou aflita. Lorenzo retirou um
cartão da capanga, pousando-o sobre o colo. Ruth enfiou a mão pela
janela aberta, amassou o cartão como se fosse um pedaço de papel higiênico
e o fez deslizar para dentro da trouxa. Lorenzo calculou ser aquele
o décimo quinto cartão que lhe dava, desde a morte do filho. - Eu
telefono, tá? - Ruth falou entre os dentes enquanto percorria os olhos
pelos prédios. 0 detetive assentiu com um movimento de cabeça, sem
demonstrar entusiasmo. - Ruth, você precisa dormir um pouco. Tá com
uma cara de cansada. - Começou a movimentar o automóvel devagar. -
Não faço outra coisa a não ser dormir - a mulher gritou enquanto o
carro se afastava. Depois, aumentando o tom da voz, pediu: - Avise
ao encarregado para tirar aquela merda daquelas geladeiras lá da Concha.
Elas me dão nos nervos. Lorenzo dirigiu-se para a sala de emergência,
pensando na chamada: tentativa de seqüestro, roubo de carro, vítima
do sexo feminino, rua Hurley. 0 local não se prestava àquele tipo
de delito. A rua Hurley era uma rua esburacada e sem saída, no começo
da ladeira Armstrong. Uma faixa larga de asfalto imprensada entre
edifícios altos de um lado e um muro de contenção do outro, terminando
numa pracinha infecta. Era uma terra de ninguém que se alargava para
demarcar a vizinhança com Gannon, servindo aos moradores como uma
espécie de estacionamento improvisado. Não era uma rua de reputação
idônea. A combinação de deserto sombrio e fronteira mal delimitada
fazia dela o local propício para o tráfico de drogas e, por extensão,
não era o cenário adequado para um crime violento que só serviria
para atrair a polícia e acabar com o negócio. Com um aceno para o
guarda, Lorenzo entrou pelo estacionamento de ambulâncias do centro
médico, sendo imediatamente recebido com sorrisos e apertos de mão
efusivos. Todos conheciam Lorenzo "chefinho" Council na cidade, e
vice-versa. Ele apontava e ria para os funcionários do posto de enfermagem,
cumprimentando de imediato seis pessoas enquanto perscrutava o ambiente
em busca de Penny Zito, a enfermeira da triagem, e trocava um aperto
de mão com o guarda de cavanhaque, um garoto que uma vez prendeu por
porte de arma. Foi ele que conseguiu aquele emprego para o rapaz,
assim que saiu da prisão. Devido à presença efusiva e incansável de
Lorenzo e ao traquejo social que o fazia capaz de agradar a gregos
e troianos, era inevitável que houvesse boatos sem muito fundamento
de que, se seu companheiro Michael, Hooks, diretor da Polícia Civil,
conseguisse se eleger prefeito, o chefinho Council poderia ser nomeado
comissário de polícia. - Amigão, amigão - Lorenzo o saudou, brindando
o segurança com um sorriso radiante e reparando na narina furada e
no rabo-de-cavalo grosso. -Tudo em cima? - Sabe como é, um dia de
cada vez, concorda? - 0 rosto do rapaz estava corado de felicidade.
- É isso aí - Lorenzo retrucou, escandindo as sílabas, como se dissesse
amém. Penny Zito entrou no corredor, vinda da sala de espera, provavelmente
voltando de um intervalo para fumar um cigarro ao ar livre. Os olhos
de Lorenzo procuraram os da enfermeira acima da cabeça do guarda,
em busca de uma informação visual rápida a respeito da vítima da ocorrência.
Intencional ou não. Penny levou a mão à boca e deu uma tossidela,
balançando os ombros em resposta ao queixo levantado de Lorenzo. Tiro
certeiro. Sua perspicácia a tomava capaz de, com um gesto preciso
do polegar, fazêlo entender que se tratava de um assassinato violento
ou erguer a cabeça em direção ao consultório para indicar "é melhor
entrar lá". - Tudo bem, Pen? - ele gritou, rindo por antecipação da
provável resposta; não que ela fosse engraçada, mas esta era a personalidade
dele. -Salve a grande Nana! - É por aí... - A enfermeira voltou a
levar a mão à boca e tossir, produzindo um ruído semelhante a um rádio
com interferência. - Já entendi. Ela está onde? - Na 23, junto com
o homem mais perigoso do mundo. Lorenzo soltou uma gargalhada que
o fiz cambalear como se a piada surtisse o efeito de uma pancada no
lombo. - Só pode ser o Che Guevara, né? - Não ouviu? - A pergunta
em tom de intimação categórica ecoou bem atrás dele. Lorenzo voltou-se.
"Já mandei acabar com a fumaceira - o guarda de segurança ameaçou,
colocando-se na ponta dos pés e investindo contra o rosto de um negro
de cabeça raspada e um cigarro pendurado no canto da boca. Com a visão
de um dos olhos prejudicada pela cortina de fumaça, o sujeito encarou
o segurança muito mais baixo que ele. - Some da minha frente, merda!
- Ele o teria surrado, se não fosse pela criança que trazia ao colo.
- Qual é a tua? - Desafiou. 0 olho entrecerrado apertava-se mais,
enquanto o outro adquiria um brilho homicida. Lorenzo julgou que a
criança estivesse morta. - Apague o cigarro! - Disposto a brigar,
o guarda tomou a ameaçar, movendo-se para trás e para a frente com
a cabeça enterrada nos ombros, numa atitude que incorporava os gestos
da Dança do Mador, comum em Darktown. Lorenzo postou-se entre os dois,
cantarolando "Arrny, Army". Retirou com cuidado o cigarro dos lábios
do sujeito enquanto impedia com o corpo a aproximação do guarda. Army
assumiu uma postura defensiva, pronto para brigar, com ou sem o bebê,
até perceber de quem se Catava. - Lorenzo! - Army fez um gesto com
o queixo para a menina que trazia ao colo e, em seguida ameaçou, referindo-se
ao guarda: - Tire este crioulo da minha frente antes que ele acabe
estirado numa maca dessas. 0 guarda abriu a boca, mas Lorenzo o encarou.
- Deixa comigo Colocou a mão sobre o ombro de Army e acalmou-o, levando-o
até o posto de enfermagem. - Tudo bem com ela? - Lorenzo curvou-se
para exarninar a criança envolta numa toalha de banho amarela. Do
rostinho bem-feito emanava uma imobilidade enervante, em nada semelhante
ao sono normal. - Que nada. - Army retorceu a boca com escárnio. -
Por que cargas-d'água estou aqui? - Voltou-se para olhar o guarda.
- Deram a ela um treco pra uma tal de ressonância hoje de manhã. Não
acordou até agora. Acho que exageraram a dose dessa porcaria. Uma
enfermeira aproximou-se e pegou o bebê; estavam a sua espera. Army
debruçou-se sobre uma prancheta e assinou o nome, aprumando o corpo
enquanto Lorenzo fazia um gesto afirmativo com a cabeça para o guarda.
- Sei lá, parece que ela nasceu com alguma coisa errada. 0 médico
disse que foi uma porrada na barriga. Lorenzo balançou a cabeça. -
Na barriga da menina? - Não, da mãe. Entendeu? Quando estava lá dentro.
Trouxemos ela pra cá. 0 médico perguntou pra minha mulher: "Você se
drogou durante a gravidez?" Aí, minha mulher respondeu: "É minha neta,
mas, sabe como é... -suspirou com um ar absorto - ... minha filha,
quando teve ela, desapareceu do mapa. Nunca mais pus os olhos nela
e, já viu, ... essa minha filha não deu a mínima pra barriga, aí..."
- Army tomou fôlego e balançou a cabeça. Lorenzo concluiu, em boca
fechada não entra mosca, volume 99. - Agora acabei ficando com essa
também. Army balbuciou. - Comecei tudo de novo. Lorenzo ficou calado,
achando que qualquer coisa que dissesse poderia parecer provocação.
Army Howard era, entre outras coisas, um traficante mediano e bissexto
desde os anos 70. - Vamos, lá desembucha. - Army acendeu outro cigarro.
- Não tenho nada pra dizer, Army. - Lorenzo sorriu com sobriedade,
o olhar abrandado por um sentimento de igualdade. - Ali, não tem?
Bom, de qualquer jeito você pode dizer o que quiser porque não está
errado. - Vamos lá, meu irmão, apaga o cigarro. - De jeito nenhum.
Quero ver o bambambã vir aqui apagar. - Army fitou o guarda do lado
oposto da sala. Distraído com outra coisa, o rapaz ignorou o insulto.
Lorenzo deu de ombros e se afastou,---Espero que tudo corra bem. -
Tá, eu também. - Army respondeu entre os dentes, ainda olhando o guarda.
- Bambambã da zona filho-da-puta... Durante sua caminhada pelo corredor,
em direção à sala 23, Lorenzo cumprimentou outro guarda de segurança,
um técnico de raios X que conduzia ao centro cirúrgico uma dúzia de
radiografias recémreveladas e um bêbado cujo rosto exibia um festival
de hematomas. De acabara de dar entrada no centro médico, trazido
por policiais, em conseqüência de uma surra na rodoviária. 0 bêbado
olhou para Lorenzo e disse quase com doçura: - Tudo bem, não foi nada.
Muito obrigado. - E aí, meu velho, vai parar de entornar agora? -
Lorenzo perguntou na falta de coisa melhor para dizer. 0 bêbado sorriu
envergonhado. - Tô achando meio difícil. - Meu caro jovem. - A voz
sofisticada e monótona de Chatterjee ecoou pelo ambiente à medida
que seus passos delicados o aproximavam de Lorenzo. 0 esmero da indumentária
estava prejudicado por borrifos e máculas de toda a sorte, desde os
sapatos.esporte à camisa de casimira e à gravata de seda amarelo-ouro.
Lorenzo sabia que todo aquele desalinho eram ossos do ofício. Antes
da metade do plantão noturno as roupas do médico acabavam por se sujar,
por mais comprido e fechado que fosse o jaleco. Chatterjee estendeu-lhe
a mão franzina, que desapareceu entre os dedos gigantescos do detetive.
- Grande doutor! Quais são as novas? Estão fazendo a ficha dela? Chatterjee
deu de ombros. - Não me deixa nem tirar uma radiografia. - Da é boa
de papo? - Acho que não... está mentindo, ocultando alguma coisa.
Bom, está meio avariada - com os braços esticados, o médico posicionou
as palmas da mão para baixo, em direção ao chão. - Levou um tombo
feio. Amparou a queda assim... - Voltou a encolher os braços, fechando
os dedos. - Deve ter fraturado... - Pegou a mão do detetive e percorreu
o polegar e o indicador pelos lados do pulso. - Sem raios X fica difícil...
Ela conseguiu recolher todo o lixo do estacionamento ou só lá onde
foi Tive que forçá-la a tomar uma antitetânica. Além disso, está com
uma bela contusão bem aqui - Chatterjee esticou o braço e tocou a
cabeça de Lorenzo com a ponta dos dedos. - É impossível cair de frente
apoiandose com as mãos e ferir o topo da cabeça ao mesmo tempo, correto?
- Entendi. - Não sei, não... Sabe o que eu acho? Acho que foi estuprada,
mas se recusa a subir e ser examinada. - Deu de ombros. - Ou talvez
conheça o sujeito que a atacou. Sabe como é, uma briguinha doméstica.
-- Talvez não queda que ninguém saiba que estava num ponto de drogas
àquela hora da noite. - Lorenzo concluiu, sem se dar conta de que
a falta de entusiasmo na voz revelava uma certa contrariedade em estar
perdendo um tempo precioso com a ida ao centro médico. - Vai ver não
passa disso. Chatterjee o segurou pelo cotovelo. - Converse com ela
- sugeriu, encaminhando-o ao consultório. - A juventude é curiosa.
A sala 23, menor e mais reservada que a sala de cirurgia geral, estava
ocupada por dois pacientes. A mobília era composta por três macas
fixas cercadas de cortinas de plástico e a janela oferecia uma vista
para o rio Hudson. Sentada na beirada de uma das macas, Brenda Martin
ostentava um galo sobre a testa, resultante da queda recente na emergência.
Seu aspecto era de desalento; os cabelos estavam desgrenhados e as
pernas pendiam sem vida do alto da maca. Uma mancha enorme e avermelhada
de mercurocromo cobria uma área que ia da calça jeans ao queixo, como
se ela tivesse entrado em luta corporal com a pessoa que tentou desinfetar-lhe
os ferimentos. Ambas as mãos estavam cobertas por grossas camadas
de gaze e um dos pulsos estava imobilizado por uma tala. Lorenzo entrou
sorrateiramente e evitou se aproximar, preferindo esperar que os dois
policiais agachados diante dela, numa posição incômoda, terminassem
a entrevista. Com as mãos cruzadas sobre a fivela do cinto, restringia
sua presença aos bastidores, como um solista esperando a deixa. Nesse
meio tempo, tentava analisá-la. Magra e pálida, ela lhe dava a impressão
de ser uma dessas pessoas cujo desejo ardente de ser invisível ou
passar despercebida a faz desaparecer diante de seus olhos. Notava
apenas uma aura de desespero sincero e concluiu que teria que aguardar
o desdobramento dos fatos. 0 outro paciente era um homem branco de
aspecto desleixado, Sen-tado num canto lendo Moby Dick. Um pé descalço,
inchado e apoiado sobre uma cadeira a sua frente denunciava um portador
de diabetes. Os movimentos do braço esquerdo estavam restritos devido
a uma agulha de soro que lhe ocupava uma das veias. Sob o braço direito,
acomoda das numa cadeira a seu lado, havia três sacolas de supermercado
repletas de roupas e brochuras. As outras macas estavam desocupadas.
Sobre a primeira havia uma pilha desordenada de roupas de cama amarrotadas
A segunda encontrava-se totalmente despida, deixando à mostra a superfície
emborrachada. - Você disse negro - certificou-se um dos policiais
com suavidade, movendo os pés para contrabalançar o peso do corpo.
- Negro como eu ou mais escuro? Mais claro que eu? Brenda segurava
uma lata de Diet Coke entre as palmas enfaixadas e levava a bebida
à boca com as duas mãos, corno se fosse uni uso tentando extrair mel
de um pote. - Já falei não estou a fim de dizer nada. Era de noite,
entende? A voz estava fraca e, apesar do brilho de decisão no olhar,
ela evitava encarar os dois homens. Lorenzo não salda dizer se aquela
expressão era de decepção ou vergonha. - OK, tudo bem - o guarda anuiu.
- E quanto à altura, você acha que ele tinha cerca de 1,80 m, certo?
Mais ou menos. E uns noventa quilos. É isso mesmo? Acho que sim. -
Neste ponto, Brenda percebeu a presença de Lorenzo e imediatamente
passou a observá-lo dos pés à cabeça. Lorenzo tentou enviar-lhe um
sorriso, mas os olhos da mulher moviam-se depressa demais para recebê-lo,
focalizando o interesse ora para as ataduras, ora para o diabético
desmazelado do lado oposto da sala. "Moby Dick - comentou com a voz
rouca, o olhar novamente pousado sobre o colo. - É um bom livro. 0
paciente a observou por alguns instantes antes de retomar a leitura.
Lorenzo pensou, a dissimulação em pessoa. - Mais alguma coisa que
você queira acrescentar? - perguntou o outro policial. 0 desconforto
da posição era evidente, obrigando-o a movimentar o corpo para acomodar-se
melhor. Lorenzo deduziu que o motivo daquela pose agachada, que os
colo cava em uma altura inferior à de Brenda, residia no fato de ambos
serem negros, como o ladrão do carro. Devido a este pormenor, tentavam
não parecer ameaçadores, fazendo-a sentir-se, na medida do possível,
mais descontraída. Mas por que cargas-d'água não puxavam uma cadeira?
Um dos policiais bateu nas costas do colega e ambos voltaram-se para
o detetive. Ouviu-se um estalar de rótulas quando os dois homens se
colocaram de pé. - Olá, chefe - Lorenzo cumprimentou com um sorriso
profissional dirigido a ambos. - Posso ... ? - Deixou a pergunta no
ar e, olhando para Brenda, fez um gesto afirmativo com a cabeça. -
Você vai continuar a tomar o depoimento? - Um dos policiais perguntou
esperançoso. Lorenzo deu de ombros. - Tudo bem. - Brenda? - 0 mesmo
policial disse: - Este é o detetive Lorenzo Council Lorenzo voltou
a sorrir-lhe, aproximando-se um pouco mais. Brenda levantou os olhos
para observá-lo. Em seguida, tomou uma atitude desconcertante: estendeu
uma das mãos enfaixadas e emitiu um cumprimento quase inaudível. Desconfiado,
Lorenzo retribuiu o gesto e reparou que os dedos dela pareciam feitos
de gelo. - Tudo bem, Brenda? Os dois policiais começaram a se dirigir
para a porta. - Nem um pouco. Enquanto puxava uma cadeira, o seguinte
pensamento lhe passou pela cabeça: um homem negro de um metro e oitenta
e noventa quilos a agride e depois eu apareço na sua frente. Ela devia
estar a ponto de pular pela janela. Apertar minha mão é um pouco suspeito...
- Brenda, quer que eu pegue alguma coisa pra você? - perguntou, tentando
fazer com que ela o olhasse. - Está precisando de alguma coisa? Ela
mostrou a lata de refrigerante. - Me deram isto aqui - disse, apontando
a cabeça em direção à porta por onde os dois policiais haviam saído.
- Sente-se confortável? - Não. - Tudo bem. Ouça. Sei que você está
chateada, certo? E acredito que esteja morrendo de cansaço - esperou
uma reação qualquer, mas ela se limitou a olhar para o refrigerante.
- Mas quanto mais rápido terminarmos isto, mais rápido as coisas se
resolverão, concorda? Ela parecia prestes a chorar. 0 rosto voltou
a contrair-se, mas tudo que conseguiu produzir foi um suspiro profundo.
Lorenzo calculou que havia algum dente de coelho naquela história.
- Brenda, quer que eu chame uma mulher pra fazer a investigação em
meu lugar? Você se sentiria mais à vontade? Ela comprimiu os lábios,
os olhos fixos sobre as mãos. - Não fui estuprada, se é isto que está
tentando insinuar. - ótimo - ele a perscrutava -, fico feliz em ouvir
isso. Bom, você sabia que a polícia já divulgou a descrição do carro
e do autor da agressão? Tá todo mundo procurando por ele, certo? Agora,
dá pra me aturar mais um pouco e contar a história de novo, mais uma
vez para que eu possa-- - Eu estava tentando ir para Gannon pela rua
Hurley - ela o interrompeu. - Moro em Gannon. Lorenzo já havia suspeitado
deste fato; a população de Gannon resumia-se à classe operária e era
constituída predominantemente por brancos. Garmon fazia fronteira
com Darktown, famoso bairro de Dempsy. Os limites de Garmon se estendiam
até o conjunto residencial Armstrong, ou, como era chamado por alguns,
Strongarm. Uma das atribuições do seu departamento de polícia era
vigiar os prédios do condomínio, verificar se algum viciado de Garmon
ia lá à procura de droga e tentar fazê-lo pular a cerca de volta.
Outra tarefa seria a de vigiar os jovens de Armstrong. Por exemplo,
os policiais ficavam à espera de quatro rapazes que iam para Gannon
em duas bicicletas. Na certa, voltariam meia hora depois, em quatro
bicicletas. Os adolescentes de Armstrong tinham pavor de serem mortos
lá também, porque o Departamento de Polícia de Gannon gostava de causar
uma impressão permanente: "Mantenha nossa cidade limpa." - Eu estava
na rua Hurley, certo? Me disseram que... sabe o final da ma? Bom,
era só continuar sempre em frente, entende?... atravessar aquele parque...
como é mesmo o nome ... ? - Martyrs Park? -Isso, Martyrs. 0 parque
a que Brenda se referia era um pequeno terreno arborizado, cheio de
lixo e alguns bancos espalhados. 0 nome era uma homenagem à memória
de Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers. 0 centro do parque
delimitava a fronteira entre Gannon e Dempsy. Garmon mantinha um posto
permanente no local, informalmente conhecido por Vigília. Uma radiopatrulha
estacionada 24 horas por dia no estacionamento de um pequeno centro
comercial falido, localizado no lado oposto do parque, ou seja, no
território pertencente a Garmon, era responsável pelo policiamento
constante da área. - Martyrs Park... - continuou. - Sabe, me disseram...
ouvi dizer que era possível atravessar ele de carro e sair na Jessup,
em Gannon, certo? - É, pode - Lorenzo concordou. Com uma das mãos,
segurava o bloco de notas ainda em branco e, com a outra, um radiotransmissor.
Observou o cabelo escorrido, os ombros estreitos e caídos e a camiseta
cujos dizeres veiculavam uma mensagem de utilidade pública. Brenda
começou a despertar-lhe um sentimento de indiferença. Armstrong sempre
levava as sobras, mas metade dos viciados era de Gannon. Mantenha
nossa cidade limpa... - Aí, quando já estava na metade do parque,
o que acontece? Não vejo rua nenhuma. Só árvores, feito floresta.
Então, resolvi sair dali. Voltar pelo caminho de sempre. Foi nessa
hora que o sujeito me aparece. 0 farol bateu nele, como se ele tivesse
saído detrás de uma árvore, ou sei lá de onde. Não estava a fim de
papo com ele, mas não dava pra ver direito pra onde eu estava indo
de marcha a ré, entende? Aí, quando eu menos esperava, ele chega na
janela do automóvel e diz: "Tá tentando cortar caminho? Não é por
aqui não. É por lá." - Sua voz tentava reproduzir um ligeiro sotaque
negro. "Aí, ele começou a apontar por entre as árvores e eu não via
nada. Então, ele falou rindo: "Segue por ali." Bom, tava rindo mas
não parecia... quer dizer... era simpático, parecia prestativo...
e depois falou "é por..." foi então que abriu a porta do carro e insistiu
"veja pra onde eu estou apontando". Era como se eu tivesse que sair
do carro, ficar em pé e... bom, não era isso que eu queria mas, sei
lá, nem deu tempo de pensar. Só me lembro dele me puxando pra fora
e foi aí que... - Levantou as mãos e exibiu as palmas. - Ele me empurrou
com tanta força que me esparramei no chão. Parecia que tinha caído
de um edifício de não sei quantos andares, sei lá... Lorenzo balançou
a cabeça afirmativamente, observando-lhe os joelhos para verificar
se na calça havia manchas compatíveis com a queda descrita. Mas o
olhar de Brenda continuava arredio. - Aí, eu... quando consegui me
levantar, ele estava entrando no carro Eu gritei "Ei" e fui... segurei
o braço dele. Ele saiu do carro e dessa vez me atirou pra cima...
me espatifei no chão... ufa... perdi o fôlego, mas tentei. Me levantei,
tentei falar mas não saía nada... - Parecia supernervosa. Lorenzo
limitava-se a examinar suas reações. - Sabe, ele estava (Ando no pé
e eu---sei lá_ eu só... - Tropeçando nas palavras, da sacudiu os ombros
num sinal de desistência. Lorenzo mal prestava atenção. Na realidade,
refletia sobre aquela situação: uma mulher, residente em Gannon, foi
espancada em Armstrong, em Strongarm, no parque de Darktown. Não lhe
agradava nem um pouco a idéia de ter que se relacionar com aqueles
vizinhos. Lorenzo perdia-se em digressões mais profundas e passou
a fazer uma seleção mental dos colegas lotados naquele departamento
de polícia, classificando-os conforme o temperamento intempestivo
ou equilibrado, conciliador ou intransigente. Brenda levou as mãos
enfaíxadas até os olhos. 0 movimento súbito o trouxe de volta à realidade.
- Tudo bem com você? Ela não respondeu. Brenda! 0 que é? Ele pegou
o carro e saiu do parque de marcha a ré? -Isso. - E aí pegou a rua
Hurley? - Foi. - Você naturalmente viu que direção ele tomou, certo?
- Lorenzo imaginava que o criminoso tivesse ido em direção a Newark,
onde mais? Lá era a capital do carro roubado no mundo livre. - Brenda,
você viu onde ele dobrou? Lorenzo interrompeu a conversa sem esperar
a resposta. - Com licença. - Logo em seguida, transmitiu uma mensagem
pelo rádio: Investigador sul 15 chamando base, câmbio. Base falando.
Câmbio. É... sobre o roubo de carro na área sul. Verifique se a polícia
de Newark foi notificada. E por favor entre em contato com Bump, Rosen,
peça a ele para começar a arrolar testemunhas em Armstrong. Lorenzo
detestava tomar aquela atitude. Consultou o relógio: quinze para as
onze. Lei e ordem ainda não tinha acabado. 0 filho de Bump devia,
com toda certeza, estar no meio da cena do tribunal. Torceu para que
Bump se demorasse à porta, na esperança de, ao menos, ver o julgamento
do menino. Abaixou o volume do rádio. - Desculpe -justificou-se. -
Você não pode imaginar - Brenda prosseguiu o desabafo, com os olhos
fixos na parede oposta, a cabeça tremendo. - Eu tentei. Tentei ir
atrás dele. Tentei avisar. - Avisar o quê? - Lorenzo curvou-se, apoiando
os cotovelos sobre os joelhos. Ela pousou com cuidado o refrigerante
na mesinha ao lado. - Não quero que a minha mãe saiba dessa história.
Lorenzo assentiu com um movimento da cabeça. No entanto, seria capaz
de apostar que ela estava lá à procura de droga. - Brenda, preciso
perguntar uma coisa mas quero que saiba que seja qual for a resposta,
a única coisa que me interessa é pegar o cara que agrediu você, certo?
- Você acha o quê, que eu estava lá comprando crack? - Os lábios se
contraíram. - Não me interessa mesmo, mas, se for este o caso, talvez
sirva de ajuda pra míni e eu possa ir direto ao alvo. Não se preocupe,
nada vai te acontecer. Só preciso saber quem bateu em você. Você é
a vítima, pura e simplesmente. Nem sua mãe, nem ninguém, precisa saber
de nada, entendeu? - Não estou mais nessa há quase cinco anos. Nem
me lembro mais disso. - Otimo, ótimo. - Lorenzo não estava nem um
pouco convencido. - Além disso, meu irmão é do seu ramo. Ao é? Lotado
onde? Gannon. Ele é detetive. Sei. Merda. Qual é o ... ? Martin. Danny
Martin. Ali, sei quem é. - Balançou a cabeça, como se aquela informação
fosse do seu agrado. - É um bom policial. - Danny Martin era um sujeito
bastante decente mas meio explosivo. Lorenzo pressentiu que aquele
dado novo poderia resultar em encrenca. - Quer que telefone para ele?
- Acho que não - desconversou. num tom vago e quase inaudível. Aquele
murmúrio digressivo era um indício de que Brenda compartilhava com
ele a previsão de aborrecimentos. - Tudo bem, não tem problema nenhum
- concordou de imediato. De qualquer modo, sentiu-se na obrigação
de telefonar para o colega, por uma questão de cortesia profissional.
- Bom, Brenda, esta noite... - 0 que eu estava fazendo lá, já que
não estava atrás de droga, não é imo? - É, tenho que perguntar. -Trabalho
lá. - Onde? - No condomínio. Trabalho no centro de estudos da polícia
civil. - Ah o centro de estudos do conjunto Jefferson, não é? - Acabamos
de inaugurar uma filial no porão do Edifício Cinco. 0 rumo da conversa,
que fluía melhor agora, provocou em Lorenzo uma certa hesitação. -
Ali, sei, sei. Ouvi falar. Tudo bem - disse finalnzWe, concordando
com a cabeça. 0 centro de estudos era uma atividade extraclasse, instituída
com a finalidade de afastar os préadolescentes das ruas e, em alguns
casos, do ambiente doméstico, tanto quanto possível. Releu a mensagem
da camiseta: Só UM HOMEM FRACO PARA DES - Você acha o quê, que eu
estava lá comprando crack? - Os lábios se contraíram. - Não me interessa
mesmo, mas, se for este o caso, talvez sirva de ajuda pra míni e eu
possa ir direto ao alvo. Não se preocupe, nada vai te acontecer. Só
preciso saber quem bateu em você. Você é a vítima, pura e simplesmente.
Nem sua mãe, nem ninguém, precisa saber de nada, entendeu? - Não estou
mais nessa há quase cinco anos. Nem me lembro mais disso. - Otimo,
ótimo. - Lorenzo não estava nem um pouco convencido. - Além disso,
meu irmão é do seu ramo. Ao é? Lotado onde? Gannon. Ele é detetive.
Sei. Merda. Qual é o ... ? Martin. Danny Martin. Ali, sei quem é.
- Balançou a cabeça, como se aquela informação fosse do seu agrado.
- É um bom policial. - Danny Martin era um sujeito bastante decente
mas meio explosivo. Lorenzo pressentiu que aquele dado novo poderia
resultar em encrenca. - Quer que telefone para ele? - Acho que não
- desconversou. num tom vago e quase inaudível. Aquele murmúrio digressivo
era um indício de que Brenda compartilhava com ele a previsão de aborrecimentos.
- Tudo bem, não tem problema nenhum - concordou de imediato. De qualquer
modo, sentiu-se na obrigação de telefonar para o colega, por uma questão
de cortesia profissional. - Bom, Brenda, esta noite... - 0 que eu
estava fazendo lá, já que não estava atrás de droga, não é imo? -
É, tenho que perguntar. -Trabalho lá. - Onde? - No condomínio. Trabalho
no centro de estudos da polícia civil. - Ah o centro de estudos do
conjunto Jefferson, não é? - Acabamos de inaugurar uma filial no porão
do Edifício Cinco. 0 rumo da conversa, que fluía melhor agora, provocou
em Lorenzo uma certa hesitação. - Ali, sei, sei. Ouvi falar. Tudo
bem - disse finalnzWe, concordando com a cabeça. 0 centro de estudos
era uma atividade extraclasse, instituída com a finalidade de afastar
os préadolescentes das ruas e, em alguns casos, do ambiente doméstico,
tanto quanto possível. Releu a mensagem da camiseta: Só UM HOMEM FRACO
PARA DES RESPEITAR A MULHER FORTE QUE 0 CRIOU. 0 seguinte pensamento,
então te ocorreu: talvez ela seja gente fina. Talvez. - E verdade.
Ouvi dizer que você estava trabalhando lá. Agora me lembro. Motivada
pelo leve tom de entusiasmo que Lorenzo imprimia à voz, Brenda inclinou
o corpo para a frente. A fala ganhava maior velocidade, como se um
tempo determinado lhe tivesse sido concedido para que seus argumentos
pudessem convencê-lo a tomar seu partido. - Veja você Ontem, o pessoal
empacotou umas coisas e levamos pra lá. Quando foi hoje, eu estava
em casa procurando os óculos, entende? Já era tarde e eu não conseguia
encontrar. Então, achei que talvez eles tivessem ido junto com a mudança,
por engano. Resolvi dar um pão no Edifício Cinco, pra dar uma olhada
nas caixas. Mas estava com a chave errada e não consegui entrar..
Foi então que resolvi voltar depressa para Gannon e... interrompeu
bruscamente a narrativa. - 0 resto você já sabe. Lorenzo percebeu
seu empenho em detalhar o depoimento. No entanto, o comportamento
arredio o fez suspeitar de que ela escondia alguma coisa. Algum namorado?
Um namorado negro? Um estupro? Drogas? 0 que poderia ser?... - Tudo
bem. - Lorenzo esfregou as mãos enquanto os pés executavam batidas
ritmadas no chão. Ambos permaneciam sentados em silêncio. Havia no
ar um clima de expectativa. 0 outro paciente espirrou, virou a página
do livro, bocejou. - Que tal descermos para consultar o arquivo de
fotografias? Ela sacudiu levemente os ombros, sem responder, sem tomar
nenhuma atitude concreta no sentido de levantar-se ou esboçar algum
gesto significativo. Limitou-se a entrelaçar os dedos, esperando.
Lorenzo inclinou a cabeça, tentando fazer com que ela tirasse os olhos
do colo. -- Brenda! Visivelmente perturbada, Brenda lançou-lhe um
olhar furtivo e relutante. - Brenda. -- Curvou ainda mais a cabeça
para tentar encará-la. Tem alguma coisa que você está escondendo...
Ela voltou a dar de ombros e levou uma (Ias mãos enfaixadas à boca,
procurando desviar o olhar. - Brenda - a voz de Lorenzo estava macia
-, não consigo deixar de... -Lorenzo viu-se tomado por uma onda de
apreensão que o fez vacilar, numa demonstração evidente de que sentia
medo de descobrir algo que preferia ignorar. - Não consigo evitar
uma sensação de que existe alguma coisa além que te preocupa, entende?
Ela concordou com um movimento decisivo de cabeça. Embora continuasse
arredia, aquele gesto indicava maior consciência da situação. Como
alguém que anseia o primeiro beijo, Brenda esperava a pergunta certa.
- Vou perguntar de novo. Você gostaria da presença de uma investigadora?
Ela fez um sinal negativo com a cabeça, ainda na expectativa. 0 peito
arfava visivelmente. Um movimento chamou a atenção de Lorenzo: uma
das camas aparentemente vazias moveu-se numa agitação de lençóis.
Alguém estivera deitado debaixo daquela pilha desordenada de roupas
todo o tempo e agora dava sinal de vida, emitindo um gemido melodioso.
A cena inesperada provocou um suspiro alto no diabético que murmurou:
"Meu Jesus Cristo." - Brenda. Você conhece o sujeito? Ela bateu devagar
com a tala na testa. Repetiu o gesto, cerrando os dentes e começou
a chorar. Lorenzo interpretou aquele pranto como um sinal de medo
e contrariedade. Sem tirar os olhos dela, Lorenzo aproximou-se mais,
quase a tocando. - Quem é ele, Brenda? Ela fitou a parede. As lágrimas
tornavam-lhe os olhos iridescentes. 0 choro aumentava de intensidade.
Ele lhe tocou os joelhos. - Brenda, hoje é seu dia de sorte. Eu tenho
a faca e o queijo na mão, lá em Armstrong. Não existe ninguém que
eu não conheça. Quem é o cara, Brenda? Quem fez isso com você? - Meu
filho... - desabafou, olhando para a parede. - 0 quê? - Lorenzo estava
surpreso, calculando sua idade em trinta anos. - Quem?... - Ele fez
um gesto com a mão, para detê-la. Espera aí. Brenda retesou os músculos.
Uma série de tremores involuntários percorreram-lhe o corpo, como
se estivesse com frio. Ele esboçou um gesto em sua direção para acalmá-la,
mas desistiu no meio do caminho __ 0 que é que tem o seu filho?...
Num movimento brusco, ela levantou o braço para cobrir os olhos, derrubando
a lata de refrigerante no chão. 0 barulho seco fez o diabético soltar
uma imprecação. - Está no carro. - As palavras fluíram num grito entrecortado.
Lorenzo endireitou o corpo. Finalmente Brenda o encarava, sem nenhum
subterfúgio, os olhos tomados pelo terror, como se esperasse que ele
ficasse de pé e a espancasse até a morte.
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