|
Texto integral
Tic, Tac, Tic, Tac
A imprensa está acabando. E
eu tenho de correr para acabar antes dela. Quanto tempo ainda me
resta? Segundo Sumner Redstone, dono da CBS, menos de dez anos.
Tic, tac, tic, tac.
A tiragem do New York Times,
nos últimos seis meses, caiu 3,55%. A do Los Angeles Times,
6,55%. A do USA Today, 7,46%. Dos maiores jornais dos Estados
Unidos, o único que conseguiu se manter no mesmo lugar foi
o Wall Street Journal, de Rupert Murdoch.
Na TV a cabo americana ocorreu algo
semelhante. A CNN, no horário nobre, desabou para o quarto
lugar entre os canais de notícias. A MSNBC, que no ano passado
ganhou um monte de espectadores fazendo campanha para Barack Obama,
despencou depois que ele foi eleito. Quem cresceu nesse período,
distanciando os concorrentes, foi a FOX News, com seus palpiteiros
de direita. A FOX News, como o Wall Street Journal, pertence
a Rupert Murdoch.
Sim, Rupert Murdoch. Em 2006, o Financial
Times (menos 2,62%) perguntou-lhe se a FOX News perderia seus
espectadores caso o Partido Democrata conquistasse o poder. Ele
respondeu: "Isso é uma idiotice. Se o governo passar
para os democratas, todos aqueles que não gostarem deles
48% do país vão assistir a FOX News".
Foi o que aconteceu. A imprensa pode
estar acabando. Mas ela está acabando - ainda mais rapidamente
e ainda mais vergonhosamente para quem aceitou se transformar
em porta-voz do governo. Ninguém quer ler matéria
paga. Ninguém quer receber notícia estatal. Ninguém
quer acompanhar uma cobertura domesticada e adesista.
Os telejornais das maiores redes dos
Estados Unidos deram um total de dezesseis horas de notícias
positivas sobre Barack Obama, em seus primeiros 50 dias de governo.
George W. Bush, em seus primeiros 50 dias, ganhou apenas duas horas
e meia de notícias positivas, nos mesmos telejornais.
Nesse cálculo, não entram
as declarações diárias de Barack Obama e as
três entrevistas coletivas transmitidas ao vivo por todas
as redes de TV americanas. Corrigindo: todas as redes uma ova. Na
quarta-feira, o canal FOX é isso aí: mais uma
empresa de Rupert Murdoch esnobou a Casa Branca e transmitiu
um seriado em vez da entrevista auto-promocional em que Barack Obama
celebrou seus 100 dias de governo. Resultado: no horário,
a FOX obteve a maior audiência da TV aberta americana. Barack
Obama retaliou durante a própria entrevista coletiva, ignorando
o repórter da FOX e respondendo às perguntas dos repórteres
de todas as outras redes.
Quanto mais fragilizada se torna a
imprensa, mais dependente ela é do governo; quanto mais dependente
ela é do governo, mais fragilizada ela se torna. É
o Catch-22 gutemberguiano. Só ganha uma sobrevida quem consegue
romper esse mecanismo de abastardamento. E isso vale tanto para
os Estados Unidos quanto para o Brasil, onde há uma compulsão
doentia para o jornalismo chapa-branca.
A imprensa está acabando. Se
o futuro é a internet, quero estar longe daqui quando ele
chegar. Falta pouco. Tic, tac, tic, tac.
|