| Lula é PMDB
Lula
é PMDB. É o que tenho a dizer sobre o resultado eleitoral do último
domingo. Se o PMDB é um aglomerado de caciques, Lula é o cacique
dos caciques, tendo repartido o território brasiliense em tribos, cada
qual com seus costumes, com sua estrutura, com seu sistema de valores. Sobretudo
isso: com seu sistema de valores. Se o PMDB é um emblema de fisiologia,
Lula é seu maior representante, saltando alegremente de um lado para o
outro, de acordo com as suas necessidades mais imediatas. Se o PMDB representa
o poder local, Lula administra o governo da República como se fosse a prefeitura
de Campina Grande. O PT perdeu no domingo, o PT foi ridicularizado no domingo,
mas quem disse que Lula é do PT? Uma
idéia foi repetida continuamente nos últimos dias. A idéia
de que é cedo para se pensar em 2010. Na realidade, o que políticos,
banqueiros, empreiteiros e jornalistas pretendem fazer, a partir de agora, é
apenas isso: pensar em 2010. Pode ser cedo para o eleitor comum, mas está
mais do que na hora de firmar acordos, comprar aliados e leiloar apoios para a
disputa presidencial. Por isso mesmo, é preciso descobrir qual será
o papel de Lula. De um ano para cá, ele sempre deu a entender que bancaria
a candidatura de Dilma Rousseff. Eu entendo sua escolha. Ele perdeu todos os outros
candidatos. Só sobrou Dilma Rousseff. E se só sobrou Dilma Rousseff,
ele tem de se arranjar com ela. Mas o que Lula realmente espera obter com isso?
Ele conhece o eleitorado. Por mais que eu me esforce, por mais que eu tente me
desfazer de meus preconceitos, sou incapaz de imaginar como os eleitores poderiam
votar em Dilma Rousseff. Ela tem aquele ar impaciente de funcionária pública
que se recusa a aceitar nosso documento porque a cópia tem de ser autenticada,
e que aguarda ansiosamente a saída do trabalho para poder fazer sua aula
de rumba. Imagino que Lula saiba que uma candidata dessas nunca será eleita. É
nesse ponto que surge o Lula peemedebista. Como todos os peemedebistas, ele tem
um projeto pessoal, muito mais do que um projeto partidário. Para ele,
bem mais importante do que eleger um sucessor petista é garantir que seus
interesses pessoais sejam atendidos pelo novo governo. Seu maior interesse, hoje,
é assegurar uma passagem de poder sem conflitos, sem ressentimentos, para
que seu sucessor nem pense em importuná-lo mais adiante, fazendo uma devassa
pública de suas contas, ou punindo os membros de seu círculo íntimo,
ou afastando seus homens da máquina estatal. Se Lula concluir que a derrota
eleitoral em 2010 é certa, sua melhor candidata é Dilma Rousseff.
Ele poderá se engajar em sua campanha, mas sem ter de se imolar por ela,
indispondo-se com seus opositores. Lula precisa negociar o futuro de sua tribo.
Ele é PMDB. Por isso, acabará ganhando, mesmo se perder. |