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Música do diabo
A música é o instrumento escolhido
pelo diabo para disseminar sua mensagem. Trata-se de um fato seguro,
que ninguém dotado de um pingo de critério ousaria
contestar. Abnegados estudiosos do satanismo passaram anos e anos
escutando discos de trás para a frente, à procura
de versos demoníacos infiltrados nas músicas. Depararam-se
com uma infinidade deles. Um dos mais célebres é este
aqui, do Deep Purple. Em ordem inversa, ele recita claramente:
Oh demon that is leading from hell, we believe, que pode
ser traduzido como Ó demônio, que está guiando
do inferno, nós acreditamos. Há também
este outro,
do The Eagles. O inocente Hotel California, ouvido no sentido
contrário, perde seu caráter kitsch e transforma-se
no tenebroso Yeah, satan organised his own religion. Ou:
Sim, satanás organizou sua própria religião.
A MPB, assim como o rock, está
repleta de anagramas e palíndromos malignos. Fiz uma rápida
pesquisa e, escutando alguns trechos de trás para a frente,
em ritmo mais lento, identifiquei alarmantes mensagens cifradas
em louvor do "pé-de-gancho" ou do "sarnento",
em particular nas músicas de Marisa Monte, Paulinho da Viola
e Guilherme Arantes. Há um verso de "Mulher", de
Erasmo Carlos, em que "do barro", em ordem inversa, soa
como "o rabudo". E há um verso de "Passaredo",
de Chico Buarque, em que "uirapuru" se torna "jurupari".
O que a música produz é
um estado de entorpecimento. A melodia, a harmonia, o ritmo
tudo contribui para conformar o espírito, para sedar, para
emburrecer. Quem escuta música demais acaba rejeitando qualquer
idéia dissonante, qualquer gesto que distoe. Nunca se escutou
tanta música quanto agora. É a Técnica Ludovico
em escala planetária. A Técnica Ludovico é
aquela de Laranja Mecânica, em que um adolescente rebelde
é domesticado por meio da execução contínua
da Nona Sinfonia de Beethoven. Quanta música Sócrates
ouviu ao longo de sua vida? Quanta música Leonardo da Vinci
ouviu ao longo de sua vida? Quanta música Flaubert ouviu
ao longo de sua vida? Certamente, muito menos do que um garoto de
11 anos é capaz de armazenar em seu ipod.
Ninguém parece ter percebido a malignidade
da música. Exceto eu, os fanáticos por Deep
Purple e o mulá Omar, que sabiamente proibiu todas as formas
de música em seu Afeganistão talibã, uma experiência
civilizadora cujo resultado jamais conheceremos, mas que poderia
ter criado um novo Renascimento. Último
exemplo.
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