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Texto integral
Kraftwerk e Mozart
234 anos. É a soma da idade dos
quatro componentes do Kraftwerk. É como se o grupo tivesse
nascido em 1775. Por essa medida, ele é contemporâneo
de Mozart. Em 1775, Mozart tinha 19 anos. A vinda do Kraftwerk ao
Brasil, cronologicamente, equivale à vinda de Mozart ao Brasil.
Em vez de Salzburgo, o Sambódromo.
Depois do espetáculo do Kraftwerk
no Sambódromo, li que um de seus membros, Florian Schneider,
de 62 anos, decidiu abandonar o grupo alguns meses atrás,
sendo substituído por um eletricista, Stefan Pfaffe. Isso
reduziu a idade do Kraftwerk em cerca de duas décadas. Refiz
todas as minhas contas. Foi como se Mozart tivesse vindo tocar no
Sambódromo cinco anos depois de sua morte. Musicalmente,
faz mais sentido.
Na última semana, fui arrastado
ao Sambódromo para ver o Radiohead. Antes de ver o Radiohead,
tive de ver o Kraftverk, que abriu o espetáculo. Acompanhei
seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando
saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha
15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele
tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro
de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca.
Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com
suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com
sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo
caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes
Os Thunderbirds.
No comecinho da década de 1980,
o Kraftwerk influenciou grupos como Joy Division, Depeche Mode,
New Order, Soft Cell, Human League. Meia dúzia de acordes
no minimoog. Foi o pior momento da história da música.
Foi o pior momento também na história da pintura,
da arquitetura, da literatura, que continuaram se abastardando de
lá para cá. O espetáculo do Kraftwerk no Sambódromo,
com um eletricista no lugar do tecladista, foi o testemunho melancólico
de um fracasso geracional. O fracasso de minha geração.
E o espetáculo do Radiohead?
Um de seus guitarristas é amigo de um amigo, que me arrumou
um lugar no curralzinho da mesa de som. E o baterista do grupo,
no dia seguinte, no bar do hotel, ensinou meu filho menor a tocar
bumbo. Apesar disso, eles me aborreceram com aquelas bandeiras tibetanas
penduradas nos pianos. Me aborreceram com aquele protesto disparado
contra os "norte-americanos". Me aborreceram sobretudo
por me fazer ficar de pé por mais de quatro horas. Durante
o espetáculo do Kraftwerk, pensei sobre o fracasso de minha
geração. Sobre o futuro esclerosado que representamos.
Durante o espetáculo do Radiohead, mais modestamente, pensei
apenas que, entre eles e uma cadeira, escolho a cadeira. Entre Mozart
e uma cadeira, escolho a cadeira.
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