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Texto integral
A tortura da CIA e a pergunta de
Cheney
O prisioneiro
é amarrado a uma prancha, com os olhos tapados e um pano
enfiado na boca. Os interrogadores despejam água em seu rosto,
sufocando-o. Essa foi uma das técnicas de interrogatório
empregadas por agentes da CIA contra os terroristas da Al-Qaeda
- a técnica do afogamento. Barack Obama chamou-a de tortura.
Nós, os defensores da prática, impenitentes, preferimos
chamá-la burocraticamente de "técnica incrementada
de interrogatório".
Quem está
certo? Barack Obama está certo: é tortura. Uma tortura
mansa, dócil, amena, tanto que alguns jornalistas se submeteram
espontaneamente a ela. E se um jornalista encara o sofrimento, é
sinal de que qualquer um pode encará-lo. Mesmo assim, é
tortura. E tortura é sempre imoral. Mas a pergunta repetida
insistentemente por Dick Cheney, depois que Barack Obama decidiu
divulgar o relatório sobre os episódios de tortura
praticados pela CIA, tem de ser respondida: é mais imoral
torturar um terrorista ou permitir um atentado? Porque esse é
o melhor argumento usado por Dick Cheney. Ele garante que a técnica
do afogamento salvou vidas, impedindo uma nova série de atentados
nos Estados Unidos, nos mesmos moldes dos ataques de 11 de setembro
de 2001. Ele garante também que a prova desse fato está
contida nos documentos da CIA que Barack Obama, até agora,
preferiu omitir, mantendo o sigilo.
O que
se sabe com certeza é que Khalid Shaikh Mohammed, acusado
de ser o organizador dos atentados de 11 de setembro, foi capturado
nos primeiros meses de 2003, numa cidade paquistanesa. Interrogado
sobre os planos da Al-Qaeda para novos atentados terroristas nos
Estados Unidos, ele se limitou a dizer: "Esperem para ver".
Em vez de esperar para ver, a CIA torturou-o com a técnica
do afogamento. Sim: 183 vezes. Sim: deu resultado. Depois de alguns
dias, Khalid Shaikh Mohammed dedurou um terrorista conhecido como
Hambali, cuja captura permitiu o desmonte de uma célula composta
por 17 membros da Jemmah Islamiyah, que tinha planos para realizar
uma "Segunda Onda" de atentados contra os Estados Unidos,
na Costa Oeste. Quantas vidas foram salvas com isso? É o
que os documentos da CIA podem ajudar a esclarecer.
Os interrogadores
da CIA foram comparados aos torturadores de Pol Pot. Do mesmo modo
que a guerra no Iraque foi comparada às Cruzadas, Gaza foi
comparada ao gueto de Varsóvia e a crise financeira do ano
passado foi comparada à de 1929. Nós estamos numa
era de embustes históricos, usados para camuflar a propaganda
eleitoreira. É perturbador admitir que a tortura, aplicada
de maneira limitada - contra Khalid Shaikh Mohammed e outros dois
terroristas -, num período igualmente limitado - nos meses
posteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001 -, possa ter
contribuído para salvar centenas de pessoas. Mas os fatos
perturbadores precisam ser questionados sem medo, mesmo que a resposta
contrarie tudo aquilo em que sempre acreditamos. O erro é
"esperar para ver". Ninguém deve esperar para ver.
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