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Texto integral
A quarta dose de rum
"Uma revista semanal é como
um convidado fixo para jantar", disse Jon Meacham, diretor
da Newsweek. "Às vezes, é a pessoa mais
deliciosa do mundo; outras vezes, se embebeda e vomita em cima da
gente".
Minha coluna está completando dez anos nesta semana. Depois
de dez anos, me acostumei à ideia de ser a quarta dose de
rum oferecida por VEJA. Aquela dose de rum que, ocasionalmente,
faz entornar o jantar ingerido nas demais páginas da revista.
A Newsweek acaba de anunciar seus planos para tentar sair
do buraco. De acordo com o New York Times, que também
está tentando sair do buraco, um dos planos da Newsweek
é "apostar pesadamente em jornalistas de renome, figuras
conhecidas da TV assim como da página impressa, como Fareed
Zacharia e Christopher Hitchens". Isso é bom para mim.
Eu sou uma figura conhecida da TV, assim como da página impressa.
Mas é bastante peculiar que, num momento como este, em que
qualquer abestalhado pode publicar na internet seus palpites sobre
qualquer assunto, palpiteiros profissionais sejam vistos como uma
saída para a imprensa, torpedeada pela própria internet.
Qual é meu palpite profissional sobre o assunto? Meu palpite
profissional é que os abestalhados sempre ganham.
A Newsweek concorda que os abestalhados sempre ganham. Por
isso, seu plano, de agora em diante, é perder leitores, em
vez de ganhá-los, passando dos atuais 2.600.000 assinantes
a apenas 1.500.000 em janeiro do ano que vem. Mas o ideal, pelas
contas de sua diretoria, é continuar perdendo até
atingir 1.200.000 assinantes: os melhores, os mais bem educados,
os mais bem informados, os de maior poder de compra. O resto? O
resto pode ler os palpites dos abestalhados, publicados gratuitamente
na internet. O futuro da imprensa é se transformar num antisspam,
capaz de bloquear o rebotalho da internet, que invade os computadores
com seus esquemas criminosos, com sua publicidade indesejada e com
seus comentários imprestáveis.
Dez anos depois de publicar minha
primeira coluna, a imprensa corre o risco de desaparecer.
Nunca pensei que eu pudesse produzir esse efeito. Em meu artigo
de estreia, relatei a viagem que acabara de fazer à tribo
dos índios uaiuai, no meio da Amazônia. Naquele artigo,
citei um trecho de Tristes Trópicos, em que Claude Lévi-Strauss
dizia que "a função primária da comunicação
escrita foi facilitar a servidão". Usei essa ideia para
defender debochadamente o analfabetismo, concluindo: "Se Lévi-Strauss
estava certo ao dizer que a comunicação escrita apenas
reforçava a servidão, somos o país mais livre
do mundo". O analfabetismo infelizmente foi derrotado. Agora
todos os uaiuai publicam seus palpites abestalhados na internet.
Quer mais uma dose de rum?
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