Reféns da violência
Junho de 2002

Moradores dos centros urbanos brasileiros estão cada vez mais reféns da violência. O fórum de VEJA on-line perguntou: você mudou sua rotina em função do medo? De que forma? Confira alguns depoimentos.
   
  Prisão dentro de casa
Depois de ter minha casa arrombada, colocamos grades, cadeados, fechaduras em todos os lugares. Meu filho de 4 anos, Igor, perguntou: "Mamãe, porque nós estamos presos e os bandidos soltos?"
Eloíza Cirne, Natal, RN
   
  Com medo
Mudei a forma de agir, de olhar um desconhecido, de sair de casa, de parar no trânsito. Vivemos com medo e sem segurança alguma. O governo é falho e parece ser cúmplice dos bandidos. Cadeia para os dois!
Hélder F. Barbosa, Gravatá, PE
   
  Solidariedade
Eu mudei e revi meus próprios conceitos. Apadrinhei um menor carente e estou tentando na medida do possível dar amor, carinho e dignidade para ele. Já que infelizmente o governo não faz a sua parte, eu pelo menos tento fazer a minha, evitando assim que no futuro apareça mais um marginal nas ruas.
Cristiano Martinelli, São Paulo, SP
   
  Em todo lugar
A violência não é apenas um problema dos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Centros urbanos menos desenvolvidos, como João Pessoa, na Paraíba, têm sua parcela de violência. Nós também andamos com medo nas ruas.
Pedro Alonço, João Pessoa, PB
   
  Mais lucidez
Eu mudei minha rotina. Fiquei mais lúcida do que antes. Escrevo para jornais e revistas quase que semanalmente, pedindo ajuda da imprensa para pressionar essas autoridades que aí estão. Acredito mais em Deus do que antes e nunca esqueço de pedir que coloque mais coragem e bom senso nas mentes das autoridades de segurança para que enfrentem de vez o problema. E bem sabemos, que só para a morte é que não há solução.
Lucia Helena, São Paulo, SP
   
  Pena de morte
Quando a violência ficou bem perto da minha casa em São Paulo, resolvi mudar de cidade. Estou em Palmas há cinco anos e temos uma vida tranqüila. Tem violência em escala reduzida e não há motivo para pânico. Continuo acreditando que a pena de morte legalizada vai fazer com que a violência diminua, porque os grupos de extermínio tendem a aumentar se os assaltos seguidos de morte, seqüestro e tráfico de drogas não diminuírem.
Sônia Maria Rodrigues, Palmas, TO
   
  Paranóia?
Moro em Tatuí, cidade de 100.000 habitantes no interior de São Paulo. Deveria ser uma pacata cidadezinha, com igreja matriz, coreto, fonte, serenatas ao luar - pois Tatuí é a Capital da Música - mas não é. Já "faz parte" do nosso cotidiano, assaltos, roubos de veículos, assassinatos e até seqüestros. Mudei completamente o meu comportamento: fechei duas lojas de material de construção e uma revenda de veículos e me eclausurei em minha casa, onde tenho dois cães de guarda e alarme. Não saio mais à noite e quando saio, dou voltas na quadra da minha casa para ver se não tem alguém me esperando. Alguém pode dizer se isso é paranóia?
José Maria Machado, Tatuí, SP
   
  Mudança de hábito
Claro que o medo muda a rotina de todos. Ir para o trabalho e voltar para casa é obrigatório. Não há o que pensar. Quanto a outros compromissos noturnos, penso duas vezes. Convite para aniversário: Onde é? Por onde vou passar? Desisto.
J. Elias Maganhi, Rio de Janeiro, RJ
   
  Situação alarmante
Com certeza, todos nós mudamos a nossa rotina. Aqui em Belo Horizonte um maníaco começou a furar as nádegas das mulheres no centro da cidade. Enquanto o homem não foi preso, eu evitei passar pela região. Não queria correr esse risco. Também não saio tanto de casa e pago uma Van especial para voltar da faculdade à noite porque tenho medo de andar de ônibus. A situação é alarmante.
Luciana, Belo Horizonte, MG
   
  Império do tráfico
Após ser assaltado diversas vezes, duas vezes no mesmo mês, todas na zona sul do Rio de Janeiro, decidi mudar com "mala e cuia" para onde me encontro atualmente. Ou hibernava dentro de casa ou fazia isso. Já estou morando aqui há 2 anos e meio na maior tranqüilidade. Lamento o não reconhecimento pela governadora do Estado do poder paralelo que o tráfico implantou há muitos anos na cidade do Rio de Janeiro. Todos sabemos que há áreas nas cidades que são exclusivas do tráfico, nas quais quando temos que passar, temos de apagar o farol e baixar os vidros. Nestas áreas a lei que impera é ditada pelos donos das "bocas". Nem parece que os governantes não sabem disso.
Elival, Campos, RJ
   
  Prevenção
Para evitar a violência, não saio de casa durante a noite e quando vou a alguma festa, não passo por bairros mais perigosos. Evito sair sozinho. Não estou com paranóia, mas é melhor prevenir do que remediar.
Erick Rabello, Salvador, BA
   
  Desleixo governamental
Percebo que não sou eu apenas que tem medo de parar em sinaleiros, de quem caminha atrás de nós e de prestar informações. Todo mundo o tem. Enfim, é o medo da desproteção e do desleixo governamental!
Edson Costa, Ipirá, BA
   
  Guerra civil
Vivemos uma guerra civil em que o governo garante o seu caráter interminável. A polícia quando não é corrupta, é ineficiente. Portanto, procuro proteção através da cautela e de procedimentos seguros, como sair pouco à noite, dirigir com as portas do carro travadas e os vidros fechados. Tudo isso porque a maior arma do bandido e assaltante é o fator-surpresa.
Emerson Godoy, Recife, PE
   
 
   
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