Japoneses
Histórias de um povo que
ajudou a construir a cidade

Veja São Paulo, 4 de agosto de 1993

Para a imensa maioria dos paulistanos, aqueles risquinhos, os tais ideogramas, permanecem indecifráveis e algumas palavras ainda provocam tropeções na pronúncia. Não é por falta de prática. Restaurantes, bancos, programas de TV, lojas, indústrias, carros, academias, prédios, obras de arte - enfim, há uma miscelânea de coisas com a mesma marca inconfundível, dentro e fora do bairro da Liberdade. Seja no Semba, eleito o melhor restaurante de 1993 pelo Guia Quatro Rodas, seja nas disputadas telas da artista plástica Tomie Ohtake, ela está lá. Passados 85 anos desde que o navio Kasato-Maru trouxe os primeiros imigrantes, os japoneses e todas as suas realizações estão definitivamente incorporados à vida daqui. No último censo específico, realizado em 1987, a colônia já somava 1,168 milhão de pessoas no Brasil. Destas, 290 000 estão em São Paulo, cidade que tem a maior concentração nipônica fora do Japão.

Para recontar parte dessa saga, o fotógrafo Keiju Kobayashi, um dos principais especialistas do país em reprodução de obras de arte e ele mesmo imigrante, decidiu pesquisar a trajetória de vários conterrâneos que se aventuraram deste lado do mundo. "Minha preocupação era mostrar como a cultura japonesa foi passada de geração a geração", explica Kobayashi. Por isso, nas entrevistas, quase todas feitas na língua pátria, ele incluiu os nisseis (a segunda geração) e os sanseis (terceira). Em nenhum momento quis elaborar um tratado científico sobre o tema. Preferiu uma pesquisa iconográfica. Deparou, então, com a escassez e as condições precárias do material. Naquela época, tirar fotos se tornava um luxo caro para trabalhadores do campo, categoria em que se enquadrava a maior parte dos colonos nas primeiras décadas do século. Mais difícil foi encontrar registros das famílias no Japão. Mesmo assim, ele desencavou várias relíquias, entre elas a imagem de uma magérrima equipe de sumô em 1936.

Na seleção dos clãs, Kobayashi, 60 anos e desde 1955 no Brasil, passou ao largo de nomes mais conhecidos. Havia opções como a própria Ohtake e seus filhos Ricardo, atual secretário estadual de Cultura, e Ruy, um dos principais arquitetos brasileiros. A lista poderia incluir o pintor Manabu Mabe, políticos, empresários, médicos e outros profissionais bem-sucedidos. Quase todos cultivam a milenar discrição oriental, mas não foi por essa razão que não entraram no levantamento. Ocorre que Kobayashi optou por trilhar o caminho menos gasto. Preferiu falar de gente comum que chegou à classe média, com seus dramas e alegrias universais.

Iniciado em 1988, o trabalho de Kobayashi está longe de terminar. Ele continua realizando entrevistas e, mais tarde, deverá organizar urna exposição de fotos. Na fase final, por enquanto sem previsão de data, pretende editar um livro com todo o material. A seguir, contam-se cinco histórias pesquisadas pelo fotógrafo. Todas começam há mais de seis décadas no Japão castigado pela miséria, num cenário bem diferente da prosperidade high tech de hoje. Os protagonistas vieram com suas famílias para trabalhar na lavoura no interior do Estado e, pelos mais diversos motivos, acabaram se fixando na capital. Na epopéia desses Eguchi, Hassegawa, Okamoto, Saito e Mori mostra-se por que, como e a que custo os japoneses ajudaram a fazer de São Paulo o que ela é hoje.


O Burajiru era mais que um lar temporário

Se dependesse de Kazue Eguchi, a viagem nunca se realizaria. Aos 22 anos, ela sabia que a situação do Japão, naqueles idos de 1929, era quase desesperadora - principalmente para a filha de um pequeno agricultor. As safras não eram boas, faltava comida, dinheiro e empregos. Mesmo assim, Kazue preferia batalhar pela sorte por ali a arriscar o futuro numa terra desconhecida, a cerca de 20 000 quilômetros de distância, com o estranho nome de Burajiru. Além disso, Michinori, seu primeiro filho, tinha apenas 1 ano e oito meses. Acontece que o marido, Yasoma, já se decidira. Tomar o rumo da América do Sul virara idéia fixa. Convenceu o irmão, que levaria a família. Não havia alternativa para a resignada Kazue. Uma mulher, ditavam as regras de então, devia obedecer ao marido. "Imaginei que, pelo menos, voltaríamos em pouco tempo", recorda ela. Errou, como erraram milhares de outros compatriotas que pensavam em fazer do Brasil, ou Burajiru, como diziam, um lar temporário.

Foram quase dois meses de viagem, do Porto de Kobe, onde fez sua última foto no Japão, a Santos. Poucos dias depois do desembarque, lá estava a família Eguchi na segunda classe do trem na Linha de Ferro Noroeste, rumo a Guarantã, perto de Marília. Como rezava o contrato, assinado do outro lado do mundo, eles trabalhariam num cafezal. O pagamento era baixo, mas economizaram a ponto de, em 1936, comprarem 10 alqueires de terra (cerca de 240 000 metros quadrados) na vizinha Alto Alegre. Sete anos depois, mais economias e muitos calos renderam uma gleba de 100 alqueires em Luiziânia. Até gado Kazue e Yasoma criavam. Dali, em 1950, mudaram-se para Penápolis.

Naqueles tempos, já estavam no sétimo filho e o casal decidiu mudar-se para São Paulo. Vinha em busca de melhores escolas para as crianças. "Até os 20 anos eu quase não falava português", lembra Michinori, que vivia rodeado por outras famílias nipônicas. Era uma questão gramática e pragmática. "Precisava educar as crianças de forma a retribuir ao Brasil o que a gente tinha recebido", explica Kazue. Na capital, imaginava, eles aprenderiam a nova língua e, ao mesmo tempo, teriam mais oportunidades de emprego. Michinori, por exemplo, transformou-se num bem-sucedido comerciante. Na década de 80, reeditando a preocupação paterna, ele procurou um bom curso para os filhos Odair e Silvia. No Japão.

O médico Odair Eguchi passou dois anos na terra dos avós. Entendeu por que dona Kazue e o senhor Yasoma, falecido em 1972, cultuavam tanto os antepassados e o chamado espírito japonês. "O povo ali trabalha em equipe e pensa, com orgulho, no futuro do país", afirma Odair. "Aqui, ainda não temos essa consciência." Aos 86 anos, a avó Kazue tem uma visão otimista do problema. Ética, honra e dedicação não são conceitos exclusivos de um país. Nem o Brasil é um mar de lama irremediável. "Existem aspectos positivos dos dois lados", acredita a tranqüila senhora. "Nossos descendentes têm a obrigação de juntá-los e ajudar sua nação a progredir."


Um professor para os jovens súditos

Riichi Hassegawa era o melhor homem para o cargo, pois viera sozinho do Japão, enquanto a maioria dos imigrantes trazia a família inteira. Além disso, fizera um curso técnico na terra natal. Talvez se pudesse argumentar que Agronomia não era o ideal. Mas, naquela fazenda de Marília (SP), ele estava bem acima de seus conterrâneos, cuja instrução raramente passava do primário. Hassegawa tinha tempo e educação. Desse modo, assumiria um dos principais papéis dentro de qualquer comunidade de colonos nipônicos. Em 1934, ele passou a ser o sensei, o professor da escola. "Tinha a missão de preparar as crianças como verdadeiros japoneses", conta.

Tratava-se de uma questão lógica para os imigrantes. Se a passagem pelo Brasil seria temporária - no máximo, dez anos de sacrifício -, seus filhos deveriam estar prontos para a volta. Estudar japonês, assim, tornava-se prioritário. "O ensino da língua ajuda a manter o espírito do nosso povo", afirma Hassegawa. Daí viriam a dedicação, a disciplina e o senso de hierarquia, imaginavam os colonos. Se não viessem, havia métodos para consegui-los. Um dos mais temidos atendia pelo nome de ufukubinta, literalmente "tapa vai-e-volta", aplicado em alunos malcomportados. Batia-se ainda com varas e pedaços de madeira.

Até a metade do século, a escola de japonês foi um emblema da dificuldade dos imigrantes em se integrar à sociedade. Convictos do retorno, fechavam-se em colônias e pouco se importavam em viver distantes dos brasileiros. Não se recusavam ao intercâmbio, é claro, pois precisavam vender os produtos que plantavam. Ao jogo de futebol de domingo, porém, preferiam um bom campeonato de sumô. Entre os adeptos encontrava-se o próprio Hassegawa, que, em tempos de vacas e imigrantes magros, não poderia ter o perfil rotundo dos lutadores profissionais.

A questão é que essa filosofia criava armadilhas. "Quando entrei numa escola brasileira fiquei desesperada. Não escrevia nada, não conseguia nem falar direito." Quem diz isso é Eiko, filha de Riichi Hassegawa. Na década de 50, o pai, que tem hoje 79 anos, abandonara as salas de aula e trabalhava no campo, em Pompéia, perto de Marília. "Por causa dos costumes diferentes, eu me sentia discriminada pela sociedade", recorda. A família está desde 1964 na capital. Embora viva agora em boas condições financeiras, sente que a integração não é perfeita. "Somos um grupo fechado demais", acredita Afonso Sugiyama, 19 anos, filho de Eiko. "É bom manter a união, sem exageros."

Se quisesse, Hassegawa poderia ter mudado o final dessa história. Em 1954, ele, a mulher e os cinco filhos (o último nasceria dois anos depois) receberam um convite para regressar ao Japão. Os irmãos de Hassegawa prontificavam-se a pagar as passagens de volta. Ele queria, a mulher também, e as crianças tinham sido preparadas para isso. Só que ninguém embarcou. Riichi Hassegawa havia deixado Ibaraki, nas proximidades de Tóquio, em 1934, para ficar rico. Ele foi educado para cumprir seus objetivos. "Não tinha condições de retornar de mãos vazias", justifica.


Carregando os imigrantes
na carroceria do caminhão

Masao Okamoto nunca ficou muito bem no figurino de imigrante japonês tradicional. Veja, para começar, seu fulgurante caminhão Ford V8, comprado em 1936, quando ele completava oito anos de Brasil. Enquanto a maioria dos conterrâneos preferia colocar os lucros da lavoura na própria terra, Okamoto investiu em quatro rodas. O que carregava na carroceria? Os próprios imigrantes, que viviam mudando de uma cidade para outra em busca de melhores oportunidades. Rodou Minas Gerais, Paraná e todo o noroeste de São Paulo com os patrícios às costas. Ao fim de tantas viagens, juntou dinheiro suficiente para, aí sim, tornar-se proprietário de uma plantação de 10 alqueires em Bastos, no interior do Estado. Poderia ficar por lá o resto da vida, mas queria dar uma educação melhor aos filhos. Em 1949, pegou a estrada de novo. Dessa vez, em direção a São Paulo, com a mulher e as crianças - um homem e oito, exato, oito mulheres.

Na cidade grande, havia uma profusão de serviços considerados tipicamente nipônicos. Os primeiros imigrantes que trocaram o campo pela capital encontravam espaço apenas como carpinteiros, empregados domésticos (copeiros, em sua maioria) e motoristas de praça. Foram criados dois pontos de táxi com telefone e tudo. Eram chamados de "garage": na Avenida São João existia a Garage Mikado e na Praça João Mendes, a Garage Congresso. Na época em que Okamoto chegou por aqui, o mercado de trabalho para a colônia já era bem mais amplo. Conseguia-se trabalhar em tinturarias, barbearias, doceiras, fábricas de móveis e lojas de produtos importados. Os japoneses desde então se concentravam na Liberdade, principalmente na Rua Conde de Sarzedas, onde ficava a maior parte das pensões e restaurantes orientais. Pois, para variar, Okamoto fez diferente. Tomou o rumo da Zona Leste e se instalou na Vila Prudente.

Consertou furos e vazamentos por dezesseis anos, até se aposentar. "Pude dar uma boa educação aos meus filhos", orgulhava-se Okamoto. "A cultura e a experiência dos imigrantes continuam dessa forma." Para que ninguém esquecesse os preceitos dos antepassados, o chefe do clã mostrava o Édito Imperial sobre Educação, um documento de 1890 com as regras de conduta ética e moral do povo japonês. Praticamente todo imigrante trazia uma cópia na sua bagagem. "A nossa ficava pendurada na parede da sala", lembra Paulo, o mais velho dos filhos. Para Masao Okamoto, que morreu em 1991, aos 85 anos, mesmo os casamentos de filhos e netos fora da colônia não iriam prejudicar essa tradição. Um exemplo está na sua família. Sob as bênçãos dos mais velhos, a neta Valquíria casou com um gaijin, o engenheiro Walter Martinelli. "Meus dois filhos entendem japonês", afirma Valquíria. "Eles também têm o espírito dos seus ancestrais. A gente nasce com isso."


Os estilhaços da guerra atingem a colônia

Há décadas respeitado e, ultimamente, invejado, o Japão nem sempre privou da melhor imagem no Brasil. Muito menos os seus súditos. Nas primeiras três décadas do século, discutiu-se abertamente a proibição de entrarem no país. O pior viria com a II Guerra Mundial. Foi o que sentiu Genzo Saito, que aportara aqui em 1933. Pouco lhe adiantou ser um bom trabalhador numa fazenda de algodão em Araraquara. Ele, a mulher e os filhos, junto com todas as outras famílias orientais, acabaram expulsos de lá. Tudo por causa da guerra. Os proprietários não admitiam mais ter japoneses entre seus empregados. Eram ingleses, mas se fossem brasileiros não teriam agido muito diferente.

Passados cinqüenta anos, Saito diz que não guarda mágoas. "Foi um tempo de exceção", considera. "Éramos encarados como membros de uma nação inimiga." Em 1938, o governo brasileiro havia proibido o ensino de língua estrangeira para menores de 14 anos. Logo depois, a imprensa em japonês seria banida, enquanto policiais confiscavam revistas e livros nipônicos nas lojas especializadas. Os imigrantes não podiam reunir-se em grupos. Se quisessem conversar em bares ou qualquer lugar público, deveriam fazê-lo em bom português. Precavido, Saito não desrespeitava as novas normas. Na verdade, ele tinha lá outras preocupações, como... pescar.

"Eu era um pouco folgado", admite. quebrando a imagem do imigrante japonês obcecado pelo trabalho. Genzo Saito dava duro - e muito. Mas fosse em Araraquara ou em Fernandópolis, outra parada da família, ele sempre arranjava tempo para lançar suas iscas. Mesmo nos tempos de Japão, já era considerado uma exceção, pois aos 20 anos de idade ainda não se preocupava com emprego. Vir para o Brasil tinha sido mais uma aventura do que um plano de vida. "Meu irmão insistiu que eu o acompanhasse", lembra. "Como era solteiro e sem grandes responsabilidades, aceitei." Em 1939, ainda na fazenda inglesa, colocou a aliança no dedo. Seu casamento foi acertado nos moldes tradicionais: à base de negociações indiretas. "Um amigo levou o meu pedido ao pai da noiva", lembra Saito. Ele desposou Hanano numa cerimônia a céu aberto, com a mesa ornamentada por um ramo de pinheiro, uma tartaruga e a figura do pássaro grou. Até hoje, alguns casamentos entre orientais trazem esses três símbolos da longevidade.

Durante um bom tempo, Saito manteve a esperança de retornar à terra natal. A derrocada do Japão na II Guerra enterrou suas ilusões. Ele a princípio não quis acreditar. Num mundo sem satélites nem televisão, os imigrantes desconfiavam das manchetes dos jornais brasileiros anunciando a vitória dos aliados. A própria bomba atômica, pensavam, não passaria de uma farsa americana. Os mais fanáticos criaram a Shindô Renmei, sociedade secreta cuja missão era eliminar os "derrotistas", aqueles imigrantes que assumiam a "vergonha" do fim. Comandos terroristas atuaram no interior e na própria capital. Os conflitos mataram 23 pessoas e feriram outras 86. A polícia desbaratou a Shindô em 1947.

Apesar de duvidar da derrota, Saito permaneceu longe da violência. Sua maior preocupação era garantir o sustento da família. No total, foram 38 anos na lavoura de algodão. Tinha sete filhos quando, em 1972, decidiu mudar-se para São Pau]o. Veio ser agricultor, profissão que exercia quando se aposentou, em 1985. Recentemente, o filho mais velho, Shigueru, a nora e um neto foram tentar a sorte no Japão. Saito ficou para cuidar de duas netas, a mais nova com 13 anos, e do hobby que arrumou agora, aos 79 anos: a cultura de orquídeas.


A longa jornada atrás das árvores do ouro

Roda noite, a família Mori colocava dois cavaletes no quarto, operação repetida em outro cômodo da casa. Sobre eles, iam tábuas e uns poucos colchões, dispostos de maneira a ocupar o maior espaço possível. Na falta de camas, era o que havia para pai, mãe e sete filhos dormirem. "A vida era muito dura', lembra Kazue, 55 anos, filha mais velha de Shiguematsu Mori, um japonês que, em 1930, ficaram fascinado pelo que ouviu falar do Brasil. À procura de candidatos, a companhia de imigração corria cidades e vilarejos anunciando um país com fartura de terras, oportunidades e riquezas. Nessa nação distante crescia a "árvore do ouro" - o pé de café. Passados mais de vinte anos, nem o café, muito menos o tomate, a batatinha, a hortelã, o bicho-da-seda e tantas outras tentativas de ganhar a vida tinham tirado Mori da pobreza que pensara ter abandonado no Japão.

A cada ano ou plantação diferente, Mori renovava sua esperança: "Desta vez, vai funcionar." Não dava certo, o que só servia para recrudescer a antipatia pela nova terra. "Naquela época, tudo no Brasil parecia ruim", reconhece. A lista começava com a comida, seja pelo excesso de tempero dos pratos tradicionais, seja pela falta de matéria-prima para preparar as receitas japonesas. Havia também os insetos. Em Bastos, a 570 quilômetros de São Paulo, onde viveu seus primeiros anos de imigrante, Mori convivia com borrachudos, baratas, carrapatos, biriguis (minúsculos pernilongos) e aranhas-caranguejeiras, que tinham o hábito de pernoitar nas botas dos colonos.

Bastos foi o ponto de partida. Mori andava de cidade em cidade, desbravando terras e esticando a fronteira agrícola do Estado. Esteve em Lucélia e Flórida Paulista. Depois, foi plantar quase na divisa com o atual Mato Grosso do Sul. Em 1953, passou a ser gerente de uma cooperativa agrícola em Pompéia. A partir daí, a vida melhorou e Mori jogou fora, para sempre, a idéia de levar os filhos para morar no Japão. Disse adeus às casas de pau-a-pique e chão de barro. O cargo lhe deu condições de comprar, em 1954, terras na Serra dos Cristais, em Franco da Rocha, onde até hoje, aos 78 anos, mora num sítio confortável.

Quem continuou a saga andarilha da família foram os filhos e, mais recentemente, os netos. Kazue, por exemplo, veio para São Paulo. Durante muito tempo acordava às 3 da madrugada. Vendia ovos da granja do pai nas feiras da Lapa e de Perdizes. Casou, abandonou as barracas e atualmente se preocupa com a situação dos filhos William, 23 anos, e Ricardo, 28. Em 1989, os dois resolveram refazer, em sentido contrário, a longa jornada do avô. O caçula trabalha corno guarda de trânsito e o mais velho é ajudante de obras. Ambos são dekassegui, palavra que significa "ir, ganhar dinheiro e voltar logo", exatamente a mesma idéia que moveu seus antepassados no início do século. Como o patriarca Shiguematsu, ainda não encontraram nenhuma árvore do ouro. Conseguiram, pelo menos, levar a mãe para passear no Japão no ano passado. Kazue foi e voltou com uma convicção. "Eles devem lutar aqui mesmo", afirma. "Afinal, os dois são muito mais brasileiros do que qualquer outra coisa."

 
 
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