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Tatuapé
O segundo salto do Tatuapé
O
dinheiro que ergue prédios de alto padrão
no bairro mais charmoso da Zona Leste agora
atrai serviços de consumo e diversão
Veja
São Paulo, 11 de outubro de 1995
Caco de Paula e Ieda Passos
Elena Vettorazzo
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A
paisagem mostra e os números confirmam: limitada ao
sul pelos mananciais e ao norte pela Serra da Cantareira,
São Paulo avança para o leste. Segue na direção
de Guarulhos, a grande cidade paulista com o maior índice
de crescimento populacional nos últimos anos. O rumo
é leste simplesmente porque aí está o
espaço disponível. Nessa grande área
da São Paulo em ebulição não há
Moemas, Jardins ou Morumbis para atrair o dinheiro que muda
de mãos e de endereço. Mas, um pouco antes do
meio do caminho, a 8 quilômetros da Catedral da Sé,
um antigo bairro assume o papel de capital da Zona Leste.
É o Tatuapé, com seus vistosos edifícios
de alto padrão, um certo ar de cidade interiorana e
vigor semelhante ao daquelas novas fronteiras agrícolas
que enriquecem da noite para o dia. O lugar parece um canteiro
de obras. Para cada lado que se olhe há tapumes, placas
anunciando a construção de mais e mais edifícios,
muitos deles com apartamentos que custam cerca de 500 000
reais e alguns com coberturas que chegam a três vezes
esse valor.
Foram
empreendimentos desse tipo que colocaram o Tatuapé
no segundo lugar em lançamentos imobiliários
em 1994, à frente de locais como Perdizes, Butantã,
Vila Mariana e Moema, perdendo apenas para o Morumbi. "O
Jardim Anália Franco e o Alto Tatuapé concentram
os prédios de luxo, mas a vitalidade imobiliária
se expande por todo o bairro", diz Luiz Antônio
Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de
Patrimônio, Embraesp. Essa tendência, iniciada
nos anos 80, resistiu a diversos planos econômicos,
passou por períodos recessivos e continua firme, contaminando
regiões vizinhas. Como uma griffe, o Tatuapé
ultrapassa seus tênues limites paroquiais para emprestar
o nome a partes da Mooca, Penha ou Carrão. "É
a bairrofagia", explica Pompéia, identificando
ali o mesmo fenômeno existente na Vila Olímpia,
abocanhada pelo Itaim, ou no Tucuruvi, tragado por Santana.
"O
bairro é fantástico", diz Armando Fernandes
Júnior, 46 anos, vice-presidente executivo do Bradesco,
que mora com a família num apartamento de 390 metros
quadrados, no Jardim Anália Franco. Nascido no Tatuapé,
ele nunca pensou em se mudar do lugar onde criou os filhos
- e adquiriu vários imóveis. Nem mesmo quando
deixou o trabalho na agência local e se transferiu para
a sede do banco, em Osasco, a 28 quilômetros de distância.
"Os novos-ricos do Tatuapé acabaram ficando por
aqui, pois é um lugar que tem de tudo", diz. Tudo?
Ainda não, mas o suficiente para fazer do local uma
espécie de eldorado urbano.
"Tatuapé
e vizinhança formam uma região emergente e qualificada",
diz José Iolando Mallegni Filho, diretor comercial
da Marplan. São surpreendentes os resultados do estudo
realizado pelo instituto de pesquisas no Tatuapé e
nos vizinhos bairros da Mooca, Penha, Carrão, Água
Rasa e Vila Formosa. Comparando-se dados de 1990 e 1994, o
porcentual da população que pertencia às
classes A e B saltou de 30% para 46%. Isso significa que os
habitantes dessa região hoje vivem com muito mais conforto
do que cinco anos atrás. Cresceu também o número
de telefones em casa (de 26% para 46%) e o de videocassetes
(de 24% para 53%). Embora pequena, a quantidade de moradores
que tem casa de campo ou sítio dobrou entre 1990 e
1994: de 3% para 6%.
Não
é à toa que ao redor dessas torres de concreto
revestidas de granito e mármore - onde a mensalidade
do condomínio chega a 2 000 reais - comece a surgir
uma enorme teia de comércio e serviços. O Citibank,
por exemplo, escolheu a Praça Silvio Romero para a
instalação da sua sexta agência paulistana,
em abril passado. Pesaram na decisão os resultados
da pesquisa encomendada pelo banco. O estudo aponta que 9%
da população do Tatuapé ganha mais de
2 200 dólares por mês. Além disso, o bairro
tem 7 615 pequenas empresas. Mais que as 6 165 da região
da Paulista e Bela Vista.
Isso
ajuda a explicar por que a rede americana de locadoras de
vídeo Blockbuster escolheu o Tatuapé para abrir
uma de suas primeiras lojas. Pelo mesmo motivo, a Hobby Video
está indo atrás da concorrência. O McDonald's
tem resultados tão bons com sua loja que já
pretende inaugurar outras três. Na região da
Praça Silvio Romero, os serviços ficam mais
sofisticados, com novos cafés, agências bancárias,
lojas de griffe e de gêneros importados.
A
Academia Runner, instalada há três anos, hoje
tem 1600 alunos. Em sua maior parte, são pessoas que
optam por planos anuais de pagamento, demonstrando uma fidelidade
que não se encontra em nenhuma outra filial. "Para
mim, a abertura dessa academia foi a melhor coisa que aconteceu
no bairro", diz a malhadora Fabile Andréa Scorciapino,
18 anos, sobrinha de Antonino Cammarota, um grande construtor
local.
Tudo
isso está fazendo com que o morador permaneça
mais no bairro. "Ainda faltam algumas coisas, como uma
boa casa de shows, mas de dois anos para cá os jovens
não precisam mais cruzar a cidade para encontrar diversão",
diz Eduardo Bassoto, 26 anos. Na tarde de domingo dia 1º,
ele e sua amiga Audrey Caram, 20 anos, integravam-se ao burburinho
que toma conta das vizinhanças do Bar Pilequinho, na
Rua Isidro Tinoco. É ali que, nos domingões
ensolarados, cerca de 500 pessoas ficam nas calçadas
tomando cerveja e paquerando. Eduardo e Audrey estão
entre os solteiros mais cobiçados do pedaço.
Ele arranca suspiros das moças ao passar no seu Escort
conversível branco, novinho em folha. Pertence à
sua família a marca Vilejak Jeans e a indústria
química Stigra, que ele administra desde que o pai,
Renê Bassotto, passou a dedicar-se à sua empresa
têxtil, instalada no Ceará. Audrey também
está no rol dos bons partidos. Sua mãe, Maria
Eloá Caram, é uma das sócias da Esportes
Caram, que funciona na Rua 25 de Março. "Para
completar a noite do Tatuapé, só falta um bom
lugar para dançar", diz Audrey, dando uma dica
valiosa para quem pensa em abrir um novo negócio no
bairro.
"Aqui
as coisas parecem crescer com a mesma rapidez dos prédios",
diz Moacir Colangelo Pinto, que há oito anos abriu
com sua mulher, Márcia, o Colégio Discere Laboratum.
A idéia era criar uma pré-escola na linha construtivista,
com cinqüenta alunos. Já começou com 100,
hoje tem 450, do maternal à 5* série, pagando
mensalidades de 395 reais. As instalações estão
sendo ampliadas, enquanto há gente na fila da matrícula
por até seis meses. Depois dos imóveis, o ramo
de diversões parece ser o que mais se desenvolve. Pelo
menos duas novas choperias deverão ser inauguradas
no mês que vem. Quem vê o movimento da bem-sucedida
Cervejaria Paulista percebe que há espaço para
muitas outras. Inaugurada há um ano e meio, a casa,
ampla e bem decorada, não fica a dever para nenhuma
similar dos Jardins. "O consumo por pessoa gira em tomo
de 50 reais", diz Sérgio José Cardoso,
um filho de portugueses que montou o negócio com dois
amigos. Os freqüentadores são pessoas como a professora
Débora Cristina Mandotti, 19 anos, que na semana passada,
junto com seu namorado, o empresário Ramon Asensio,
25 anos, deslocou-se de Guarulhos, onde moram, em busca de
diversão na capital da Zona Leste.
A
choperia Garage Bier Kalt é outro ponto de agito que
vai de vento em popa, ampliando suas instalações
para passar de cinqüenta para 130 lugares. Existem, é
claro, redutos freqüentados predominantemente pelos moradores
mais bairristas do Tatuapé, como o Amarelinho - que,
a exemplo do Pilequinho, vive aquele fenômeno típico
da Vila Madalena, com centenas de pessoas concentrando-se
nas calçadas e carros fechando ruas próximas.
Como está numa área puramente residencial, a
vizinhança vive fazendo abaixo-assinados pedindo sossego.
Sem sucesso - como também acontece na Vila Madalena.
O roteiro etílico inclui ainda o pequeno e surpreendente
Bar do Jóia, na Rua Emília Marengo. Seria apenas
um animado boteco com mesinhas na calçada, serviço
péssimo e tábuas de frios caprichadíssimas.
Mas é mais que isso: suas prateleiras estão
repletas com um belo sortimento de cervejas importadas.
Comparado
com outros cantos da cidade, o Tatuapé é um
lugar tranqüilo. A delegada Vanderlene Sued Bossan, 25
anos, que cuida da 52ª DP, no chamado Baixo Tatuapé
- a área que fica ao norte da Radial Leste onde estão
o Parque São Jorge e a Vila Zilda -, diz que trabalhar
ali é como ganhar na loteria. "Nove em cada dez
casos são ocorrências de trânsito."
Nada de estupros ou homicídios. Na parte mais alta
e rica do bairro, o delegado José Vicente, titular
da 30ª DP, tem um pouco mais de trabalho. De cada dez
queixas diárias seis são de roubo de carro.
Também
há problemas com drogas, principalmente nos locais
de concentração de jovens, como a Praça
Silvio Romero e os bares da moda. O bairro ainda conta com
o 8º Batalhão da Polícia Militar e a 5ª
Delegacia da Mulher. Ao todo, há um efetivo de 300
policiais. Ainda assim, o conselho comunitário da região
reforçou a vigilância com vinte policiais aposentados
que fazem a segurança do Médio e Alto Tatuapé.
Eles andam armados e com walkie-talkies, orientados a avisar
a polícia se virem algo suspeito. Como concentram a
renda mais alta do bairro, os moradores do Jardim Anália
Franco e dos Altos do Tatuapé - onde algumas quadras
têm tantos prédios que o lugar ficou ,conhecido
como "paliteiro" - temem por seqüestros. Não
há registro de nenhum até agora. O crime que
mais abalou a região ocorreu em junho do ano passado,
quando uma dentista foi espancada depois de reagir a um assalto
seguido de tentativa de estupro.
Os
moradores do Jardim Anália Franco conseguem fazer suas
caminhadas matinais com razoável tranqüilidade
no Centro Esportivo e Recreativo do Trabalhador, Ceret, uma
fundação mantida pelo Estado e por contribuições
dos associados. Para ficar sócio paga-se uma taxa de
22 reais e mais 8 reais por trimestre. Numa área gramada
e arborizada de 286 000 metros quadrados há uma piscina
com 50 por 100 metros e capacidade para 5 milhões de
litros de água, quatro campos de futebol, ginásio
poliesportivo, quadras de futebol de salão e tênis.
Entre os 80 000 freqüentadores do Ceret há moradores
de Itaquera, Penha, Vila Formosa, Vila Prudente, Guaianases
e Guarulhos.
Se
um parque arborizado, as choperias e os prédios são
capazes de atrair tanta gente da grande Zona Leste, o que
dizer de um shopping? O Tatuapé ainda não tem
nenhum, embora existam três na Zona Leste (Penha, Aricanduva,
Artur Alvim), além do Center Norte, muito freqüentado
pelos moradores do bairro.
Além
de dois grupos que disputam para ver quem erguerá o
primeiro grande shopping no bairro, existem vários
centros comerciais de vizinhança, em projeto ou já
em construção. Um deles, o Silvio Romero Plaza
Shopping, promete suprir uma antiga deficiência do Tatuapé,
com duas salas de cinema. O empreendimento, lançado
em fevereiro pela Datapol e todo comercializado em apenas
três meses, está sendo construído pela
Lúcio Engenharia, um nome que se repete exaustivamente
em placas espalhadas por todo o lado. O dono da empresa, o
português Firmino Matias Lúcio, 67 anos, é
um ex-padeiro e dono de mercearia que está no negócio
de construção civil há 35 anos. Morando
ou construindo no Tatuapé, há vários
exemplos de gente simples que subiu na vida. Um dos mais conhecidos
é o também português Antonio Barril, 65
anos, ex-plantador de batatas que chegou ao Brasil nos anos
50, vendendo roupas da Ilha da Madeira. Fez fortuna junto
com seu irmão, Carlos, construindo mais de 200 sobrados
no Jardim Anália Franco. Hoje é dono de terrenos
que valem pelo menos 12 milhões de dólares e
ergue edifícios como o Vila Monte Verde. Ali os apartamentos,
de 375 metros quadrados de área útil, terão
uma piscina cada um e custarão 700 000 reais.
"Quem
faz o Tatuapé são pessoas que criaram suas pequenas
fortunas aqui mesmo na Zona Leste", diz Vitor Perre,
um ex-caminhoneiro da Penha que hoje é dono da Expresso
Garças e de empresas de importação. Perre
está deixando o dúplex de 756 metros quadrados,
onde mora há sete anos, nos Altos do Tatuapé.
O lugar ficou grande demais para ele, a mulher e o filho de
13 anos. Estão-se mudando para um menor, de 460 metros
quadrados. "As pessoas que moram ou trabalham na Zona
Leste têm uma ambição natural de mudar
para o Tatuapé", diz Hamilton Vieira, 46 anos,
dono da Quéops, urna das agências de viagens
do Brasil que mais vendem passagens para Portugal - seu recorde
foram 2 000, em 1991. Nascido na Penha e criado em Aricanduva,
Vieira acabou mudando para o Tatuapé, com a mulher,
Miriam, numa época em que o preço do metro quadrado
era mais baixo, um pouco antes do boom imobiliário
dos anos 80. "Quem vem para cá não quer
sair nunca mais."
Via
expressa para o oriente
Uma
obra gigantesca promete mudar o panorama da Zona Leste paulistana
até julho de 1996. A Avenida dos Trabalhadores cortará
três bairros da região. Terá 18 quilômetros
- o que dá seis vezes a extensão da Faria Lima
-, duas pistas com 14 metros de largura cada uma e quatro
faixas de tráfego. "É sem dúvida
o projeto mais importante do nosso governo", alardeia
o prefeito Paulo Maluf. A estrada liga São Mateus à
Rodovia Ayrton Senna e passará por uma área
onde moram 3 milhões de pessoas. Quando estiver pronta,
o tráfego pesado não precisará mais cruzar
o centro da cidade em direção ao litoral, melhorando
o trânsito da capital. O orçamento total da obra
é de 140 milhões de reais. Só os quatro
viadutos custarão 15 milhões cada um. O restante
do dinheiro será dividido entre a canalização
dos córregos, a pavimentação e as desapropriações.
Tudo com recursos da prefeitura.
A
construção da Jacu-Pêssego, como era chamada,
faz Parte do Projeto do anel viário metropolitano,
interligando as, vias Dutra, Fernão Dias, Ayrton Senna,
Anchieta e Régis Bittencourt. Iniciada no governo de
Jânio Quadros em 1988, teve uma pequena parte concluída
na gestão de Luiza Erundina, mas só agora começa
a tomar forma. O "quintal da Zona Leste", como é
conhecido pelos moradores, é uma região carente
de moradia, transporte público e emprego, além
de ter um alto crescimento populacional. Entre 1980 e 1990,
Itaquera teve taxa de crescimento anual de 8,15%, São
Miguel Paulista, de 6,59%, e Ermelino Matarazzo, de 4,73%.
No mesmo período a cidade de São Paulo cresceu
1,15%. No final de agosto, o prefeito enviou à Câmara
um projeto de lei isentando de tributos municipais as empresas
não poluentes instaladas ou que pretendam instalar-se
no pólo industrial da Zona Leste. O maior obstáculo
para a conclusão da avenida será a remoção
da gigantesca favela do Pantanal. Mesmo depois do dilúvio
que quase destruiu o local no começo do ano, novas
construções continuam a surgir no meio dos barracos.
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