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446
anos
Eles pintam a cidade
A
dupla Gepp e Maia festeja o aniversário
de São Paulo com uma exposição que reúne
seus divertidos mapas paulistanos
Veja
São Paulo, 26 de janeiro de 2000
Eduardo Lima
Colaborou Rosana Zakabi
Nada
de violência, congestionamentos ou poluição.
Do ponto de vista dos desenhistas Haroldo George Gepp e José
Roberto Maia Olivas Ferreira, as melhores referências
de São Paulo são suas relações
humanas, as opções de lazer e os pontos turísticos.
Num trabalho a quatro mãos, Gepp e Maia se especializaram
em retratar a cidade em mapas estilizados e surpreendentes.
É um lugar de sonhos: engraçado, romântico,
poucos carros nas ruas, gente de bom astral. Seus desenhos
provocam sorrisos e fazem pensar: será que essa São
Paulo não existe mesmo ou só eles conseguem
vê-la? "A riqueza da cidade está em seus
milhões de detalhes", afirma Maia, 53 anos, o
mais falador. Gepp, 45 anos, quase sempre caladão,
concorda em silêncio. Juntos, com temperamento e altura
tão diferentes (Gepp é 13 centímetros
mais alto), já fizeram 28 pôsteres da capital.
Em cada um, chama a atenção de quem o vê
o traço minucioso. E logo vem a irresistível
curiosidade de curtir o mapa, pedacinho por pedacinho, tentando
encontrar sua casa, seu local de trabalho, seu bar favorito.
"Eles são os melhores em caricaturar a cidade",
diz o cartunista Laerte.
Os
mais jovens podem nunca ter ouvido falar em Gepp e Maia. Boa
parte dos moradores de São Paulo, porém, certamente
se encantou alguma vez com os traços que ilustram esta
reportagem. Com 25 anos de carreira, a dupla começou
a ficar conhecida no final da década de 70, quando
assinava os gráficos de gols no Jornal da Tarde. Depois
disso, fizeram de tudo um pouco: charges políticas,
maquetes e bonecos. Hoje, dedicam-se quase exclusivamente
aos mapas. Até agora retrataram 67 lugares, de Los
Angeles a Belém do Pará. Nenhum foi tantas vezes
representado por eles como São Paulo. A partir de terça-feira
25 de janeiro, 446º aniversário da cidade, a obra
paulistana de Gepp e Maia poderá ser apreciada em conjunto
numa exposição no Museu da Imagem e do Som (Avenida
Europa, 158, Jardim Europa).
Como
os desenhos reunidos foram realizados por encomenda de empresas,
a maioria é inédita para o público. Um
deles, pedido pelo Dersa, circulou apenas entre empresários
japoneses interessados em financiar um trecho do Rodoanel.
É divertidíssimo. Na lista de seus clientes
aparecem o Centro Empresarial de São Paulo, a Bolsa
de Mercadoria e Futuros, o Playcenter e agências de
publicidade. São mapas que levam até três
meses para ficar prontos. O preço varia de 20.000 a
30.000 reais, dependendo do número de detalhes - alguns
têm 1.800 edificações e 200 cenas com
personagens. Alguém lembrou aí de Onde Está
Wally?, do artista gráfico inglês Martin Handford?
Sim, há coisas parecidas. Não, não há
plágio. O livro de Wally, com um desenho mais elaborado,
foi lançado na Inglaterra em 1987, quando a dupla já
produzia desenhos no gênero que a consagrou. "É
bem semelhante, mas nós caricaturamos lugares e ele
uma situação qualquer", explica Gepp.
Gepp
e Maia criam tudo juntos, com paciência oriental. No
fim, nem eles sabem direito quem produziu o quê. Primeiro
mergulham na pesquisa, em que a parte mais importante é
o levantamento fotográfico. Em seguida, rabiscam um
esboço detalhado em papel sulfite. "É a
parte mais difícil", garante Gepp. Depois de escanear
o resultado em partes pequenas, os ajustes e a cor são
feitos em um computador, incrementado por uma mesa digitalizada
com caneta óptica. "Antes, usávamos nanquim
e aquarela", lembra Maia. Parece duro de acreditar, mas
são pessoas desorganizadas, que arquivam originais
numa garagem empoeirada.
Nascidos
no Estado do Rio de Janeiro, Gepp e Maia vieram para São
Paulo na adolescência e estudaram na Universidade Mackenzie
(formaram-se em desenho industrial e arquitetura, respectivamente).
Nunca usaram o diploma para ganhar dinheiro e se consideram
paulistanos por adoção. Gostam de caminhar por
aí, vestem roupas largas - talvez para disfarçar
os quilos a mais - e adoram futebol. Corintiano roxo, Gepp
sempre que pode vai com os três filhos ao estádio.
Na semana passada, ainda vibrava com a conquista do Mundial
da Fifa. "De vinte em vinte anos, temos de agüentar
a boa fase deles, entende?", provoca o são-paulino
Maia, que tem o mesmo cacoete de Pelé no jeito de falar.
Os
dois vivem bem, sem ser ricos. Gepp mora com a segunda mulher
na casa de três quartos erguida pelo sogro na época
em que a Vila Madalena tinha rua de terra. Coleciona mais
de quarenta times de futebol de botão, jogo que ele
treina praticamente todos os dias. "Sou vice-campeão
paulista e brasileiro", orgulha-se. Festeiro, tem muitos
quilômetros rodados entre os bares da Vila. "É
um boêmio e bom de copo", confirma o cartunista
Paulo Caruso. Maia prefere curtir os amigos, a mulher e o
único filho numa boa churrascada, preparada por ele.
Nos dias de folga, fora da temporada, sai das Perdizes, onde
mora, e vai para sua casa em Ilhabela. "Ele é
bem-humorado e um ótimo contador de histórias",
diz o ator Toni Lopes, o gordinho do anúncio do Bamerindus,
colega de cervejadas na praia desde o final dos anos 60.
Inquietos,
eles andam cheios de planos. Entre os projetos que pretendem
tocar depois da exposição, estão um livro,
um programa de humor esportivo com bonecos na televisão,
um outro pôster gigante de São Paulo e a montagem
de uma supermaquete da capital. Ao contrário da montagem
itinerante feita por eles para o Masp, em 1986, a idéia
desta vez é construir a estrutura num lugar fixo. "Queremos
algo que vire atração turística, em que
as pessoas possam descobrir os inúmeros detalhes da
nossa cidade", afirmam. Será, por certo, mais
uma São Paulo dos sonhos.
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