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434
anos
Cenas da grande
cidade em dois atos
O
álbum de fotografias de São Paulo revela
o espetacular crescimento paulistano neste
século e mostra que a cidade não ficou pior
Veja
São Paulo, 27 de janeiro de 1988
Você
está convidado para uma fascinante viagem pelo tempo.
A estação de embarque é a São
Paulo do início do século e o ponto de desembarque
é a São Paulo de nossos dias. A cidade cresceu.
Agigantou-se. São Paulo tinha, em 1900, 240 000 habitantes.
Hoje, tem mais de 12 milhões. E são justamente
esses 12 milhões de habitantes a mais que fazem a grande
diferença entre a cidade de ontem e a de hoje. É
ilusória a idéia de que se pode conservar as
aparentes delícias de tempos dourados quando se tem
um contingente extra tão grande de pessoas. Sobretudo,
é ilusório pensar que a cidade tenha mudado
para pior. A viagem pelo tempo apresentada por Veja em São
Paulo só foi possível graças a pacientes
pesquisas feitas pelo historiador Boris Kossoy, um paulistano
de 47 anos. Dessas pesquisas resultou o livro São Paulo,
1900, patrocinado pela construtora CBPO e ainda sem data prevista
de lançamento.
Claro
que o personagem principal do livro é São Paulo,
mas há um coadjuvante todo especial: o fotógrafo
suíço Guilherme Gaensly (1843-1928). Estabelecido
na cidade, Gaensly traçou com sua lente um portentoso
perfil de São Paulo da virada do século. É
esse perfil que aparece nas páginas do livro de Kossoy.
"É claro que a cidade fotografada por Gaensly
não tem nada a ver com a metrópole em que vivemos",
diz Kossoy. "Mas não se pode dizer que São
Paulo mudou para pior." Gaensly registrou com suas fotos
um momento de particular ebulição na trajetória
paulistana. Em apenas catorze anos - de 1886 a 1900 -, o fluxo
de imigrantes europeus, sobretudo italianos, fizera a população
da cidade saltar de 47 000 habitantes para 240 000. A Light,
então, acabara de se instalar aqui, os paulistanos
começavam a ser apresentados à iluminação
elétrica e os bondes deixavam de ser puxados por animais.
"O espírito empreendedor da cidade já estava
mais do que visível", diz Kossoy. Esse álbum
fotográfico é uma homenagem de Veja em São
Paulo à grande metrópole na passagem de seu
434º aniversário.
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Luiz Aureliano
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Com seus 2 800 metros de extensão, a Avenida Paulista
foi criada, em 1891, para ser o símbolo de uma cidade
industrial que lançava seus primeiros desafios ao futuro.
Para ela acorreram, senhores de seu tempo, os prósperos
capitães da indústria nascente. Gente muito
rica, como o importador Siciliano, o cervejeiro Büllow,
dono da Antarctica, e, é claro, o conde multiempreendedor
Francisco Matarazzo, fez desse espigão plácido
e arborizado seu porto seguro. Criou-se um mosaico étnico
e arquitetônico, em que cada qual erguia mansões
à imagem de sua origem e à semelhança
de seus sonhos. A velha Paulista não perdeu sua pujança.
Hoje, coração financeiro do país, assiste
ao trânsito diário de 700 000 pessoas e 60 000
veículos por suas ruas e calçadas. Vistas do
mesmo ângulo (entre as alamedas Campinas e Joaquim Eugênio
de Lima), as fotos retratam dois momentos de brilho da tradicional
avenida.
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Antonio Milena
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Nesta
foto, de 1906, a Rua General Carneiro deixa evidente sua beleza
humilde. Era ela que ligava o Pátio do Colégio,
coração da velha São Paulo, ao outro
lado do Rio Tamanduateí, local onde fábricas
pipocavam em bairros nascidos com nomes estranhos como Mooca,
Pari ou Brás. Nessa rota, que conduzia ao primeiro
embrião do parque industrial da cidade, floresceu uma
próspera rede de serviços e um comércio
de miudezas. Hoje, a rota e o comércio são os
mesmos. Só que embelezados por uma urbanização
dos anos 80.
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Luiz Aureliano
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Ao
longo dos últimos oitenta anos, as ruas de São
Paulo também conheceram várias mudanças
para pior. Aquela que foi nos primeiros anos do século
a charmosa porta de entrada para o mais refinado corredor
do comércio paulistano - a Rua São Bento (vista,
nesta foto, a partir do largo homônimo) - perdeu sua
identidade e elegância. Dois hotéis disputavam
a preferência dos forasteiros. À esquerda o Grande
Hotel Paulista, instalado sobre a Pharmácia S. José;
à direita, o italianíssimo Hotel do Rebechino.
O bonde elétrico, grande novidade desses dias, recortava
com humor essa paisagem harmoniosa. As fachadas, desafogadas,
alinhavam-se numa sucessão agradável aos olhos.
O mesmo cenário, hoje, é o que se pode chamar
de neofeio - perspectivas truncadas, materiais pobres nas
fachadas, horizontes interrompidos, comércio decadente.
O alegre corredor tornou-se claustrofóbico.
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Luiz Aureliano
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Quase
noventa anos atrás, a célebre e pulsante Avenida
São João, imortalizada por Caetano em sua canção
Sampa, já abrigava um símbolo autenticamente
paulistano: na extremidade direita da foto tirada pode-se
ver a palavra chops, verdadeiro emblema do linguajar paulista.
Hoje, o olhar se fixa em dois marcos distintos trazidos pela
industrialização - o edifício Martinelli,
clássico da arquitetura dos anos 20, e o prédio
do Banespa. Um detalhe dos tempos de antanho: o gradil à
frente do bonde esquerdo visava impedir que pessoas se suicidassem
atirando-se sob suas rodas.
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Antonio Milena
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Talvez
para a surpresa dos corações ecológicos,
várias ilhas verdes resistiram aos passos do desenvolvimento.
O reservatório de água da Cantareira é
uma delas, como se vê nessas duas imagens que têm
noventa anos de história da cidade a separá-las.
Nos dois primeiros anos do século XX, essa diminuta
lagoa supria as necessidades de água e esgoto de toda
São Paulo. Hoje não conseguiria abastecer nem
mesmo as belas residências cercadas de verde erguidas
ao seu redor.
Luiz Aureliano
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Eis
aqui uma excelente prova de que o progresso, mesmo que a passos
largos, pode conviver em perfeita harmonia com o passado.
A Quinze de Novembro foi a mais importante via de São
Paulo. Ali estavam os maiores bancos, as mais elegantes lojas
de moda, os melhores cafés e restaurantes. Nela se
situava, também, o estúdio do fotógrafo
Guilherme Gaensly, de cujo trabalho nasceu o livro de Boris
Kossoy. O destaque, na foto de 1902, é o pequeno jornaleiro
no meio da rua - um dos chamados bambini, quase todos garotos
italianos, figuras marcantes na São Paulo do início
do século. Hoje, vista do mesmo ângulo, a rua
ainda ostenta um arco (2º casarão à esquerda)
de glorioso passado.
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Antonio Milena
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Na
São Paulo do começo do século, um punhado
de moradores de casarões parecia ter a cidade a seus
pés. A vista ao alcance dos olhos desses poucos felizardos
era algo interminável. Hoje, com a cidade verticalizada,
o horizonte diminuiu sensivelmente. Mas, em compensação,
agora são milhares os habitantes que desfrutam um pedaço
da panorâmica. A foto acima foi tirada, ao que tudo
indica, do prédio do colégio Mackenzie, entre
os anos de 1905 e 1906. O panorama que se descortina, a partir
dali, é o do bairro de Santa Cecília. Sinal
dos tempos, o prédio do Mackenzie, o maior da região,
à época, hoje é um dos mais baixos.
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Antonio Milena
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Os
saudosistas poderão suspirar ao ver que, no começo
do século, barquinhos sulcavam as águas límpidas
do Tietê. Nadava-se no rio. Nessa foto, datada de 1905,
já existia o Clube de Regatas São Paulo, um
dos primeiros centros esportivos da capital. E, na outra margem,
funcionava, como hoje, o Espéria, fundado pela colônia
italiana. Os sócios dos dois clubes se visitavam dando
poucas e vigorosas braçadas no Tietê. Hoje, o
curso do rio está retificado e em suas águas
só convivem poluentes. Em compensação,
pelas marginais que ladeiam o Tietê e são essenciais
para a movimentação na cidade, o paulistano
pode visitar amigos bem mais distantes.
Antonio Milena
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Foi
nos últimos anos do século passado que surgiu
a Estação da Luz, erigida numa área de
7 520 metros quadrados, em estilo vitoriano, réplica
da estação de Sidney, na Austrália. Com
a instalação de fábricas ao longo da
estrada de ferro, brotaram bairros operários, como
o Bom Retiro, um reduto de imigrantes judeus e italianos.
Era a época dos tílburis aguardando a chegada
dos trens. Essa foto, tirada provavelmente no ano de 1906,
a partir do Liceu de Artes e Ofícios, prova que nela
nada foi alterado até hoje. Saíram de cena os
tílburis, entraram os automóveis, mas a estação
permaneceu a mesma. Providencial preservação
do passado? Não. Reflexo da estagnação
do sistema ferroviário em São Paulo, que não
acompanhou a fulgurante maré renovadora que envolveu
a cidade.
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Luiz Aureliano
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São
Paulo é de tudo um pouco. Mas é, antes de mais
nada, seu próprio povo - sejam os atuais 12 milhões
de habitantes, seja toda sorte de gente que, ao longo dos
86 anos que separam as duas fotos, forjou a matéria-prima
essencial dessa incansável cidade. Os efeitos do desenvolvimento
sobre São Paulo podem ser medidos, com uma graça
especial, na Rua São Bento. No começo do século,
percorrida por bondes durante o dia e iluminada por lampiões
à gás durante a noite, ela era considerada a
mais agitada das ruas do centro. Hoje, prossegue sendo uma
das vias mais palmilhadas pela imensa nação
paulistana.
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O
caçador de fotógrafos
Luiz
Aureliano
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| Kossoy:
reconstruindo a história de São Paulo
com fotografias |
São
Paulo e fotografia são duas das maiores paixões
do historiador paulistano Boris Kossoy, professor de
pós-graduação da USP e morador
do bairro do Brooklin. Aos 47 anos, ele tem o hábito
de sair pela cidade com sua velha Pentax à mão
para fazer fotos aqui e ali. Apesar de ser um competente
fotógrafo amador, sua ligação com
as imagens tem muito mais a ver com o trabalho dos outros.
É que Kossoy, como pesquisador, dedica-se, desde
o início da década de 70, ao estudo de
tudo o que se refere à história da fotografia
no Brasil. Não faltaram nesta sua trajetória
fascinantes descobertas. Em 1976, por exemplo, ele constatou
que um francês radicado em Campinas, Hercule Florence,
utilizara a fotografia antes mesmo que o também
francês Louis Daguerre.
Um
livro seu, Origens e Expansão da Foto no Brasil,
ilustrado com trabalhos de mais de 400 fotógrafos
do século, colocou-o face a face com um nome
especial. Era Guilherme Gaensly, um suíço
que chegou à Bahia ainda criança e lá
montou um estúdio fotográfico. Em 1890,
com 50 anos, Gaensly resolveu mudar-se para São
Paulo. Sorte da cidade, premiada com magníficos
ensaios fotográficos que permitem, quase 100
anos depois, uma viagem no tempo. "Olhando as fotos
dá para sentir a cidade exatamente como era há
100 anos", admira-se Kossoy. Apesar de Gaensly
ter feito uma vasta produção sobre a cidade,
o esforço de Kossoy para reunir o material foi
imenso. "Muito se perdeu", lamenta. O que
não se perdeu se espalhou. "Em doze anos,
corri todos os jornais da época, varri arquivos
históricos daqui, do Rio e da Bahia, farejei
coleções particulares e documentos",
diz ele. "Acho que todo este trabalho valeu a pena."
Mais gratificante que tudo, segundo ele, foi o contato
com a obra de Gaensly. "Basta uma olhada despretensiosa
para perceber que o trabalho dele foi muito melhor do
que o de qualquer outro fotógrafo da sua época."
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