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10 de julho de 2002
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Dia-a-dia do repórter Otávio Canecchio que, durante uma semana, trabalhou como vendedor de semáforo

Segunda-feira, 3 de junho, às 9h, Vila Mariana.
Após a apertada vitória do Brasil contra a Turquia na estréia da Copa do Mundo, saio confiante para o primeiro dia como ambulante de semáforo. Circulo pela região de Moema e Vila Mariana à procura de um cruzamento movimentado. A seleção, no entanto, fez o expediente nas ruas também começar mais tarde. Demoro para encontrar vendedores. Ao passar pelas ruas Sena Madureira e Domingos de Moraes, avisto alguns com bandeiras e fitas amarelas. De cara, percebo que aqui a disputa pelo ponto é forte. "Não vai dar para ficar, já tem muita gente", avisa José Lucas Evangelista Arguelles, que antes da Copa vendia rosas no local. "Vai na rua de cima", aconselha-me um outro. Argumento que as minhas balas e dropes não concorrem com as bandeiras. Mas não convenço. Tento outros dois sinais próximos, também sem êxito. Finalmente consigo ficar na esquina das ruas Afonso Celso e Domingos de Moraes. Há apenas um deficiente físico pedindo esmola e um aposentado entregando panfletos de planos de saúde. Sem conhecer os macetes, vago sem sucesso durante duas horas entre os veículos. Vendo um dropes.

Segunda-feira, 3 de junho, às 14h, Pinheiros
O congestionado cruzamento das Avenidas Rebouças com Henrique Schaumann parece o mercado persa. Vende-se de tudo. Os ambulantes aqui usam coletes verde e são filiados à Associação dos Trabalhadores de Semáforo do Estado de São Paulo. Uma vendedora me ensina: "Tem que insistir e falar que custa 1 real". A dica dá certo e emplaco mais um dropes. Mas o coordenador do ponto, José Dantas dos Santos, me informa que para trabalhar ali é necessário pertencer à entidade. A maioria dos semáforos da Avenida Brasil está ocupada. Alguns trabalham no mesmo lugar há anos e olham para mim com desconfiança. Um deles dispara: "Você ou é polícia, ou bandido ou repórter". Desconverso e volto a circular até encontrar um vendedor de biju que não se importa com a minha presença. Em dias de sorte, ele me conta que fatura até 100 reais. "O negócio é ir nos importados", recomenda, referindo-se aos carros estrangeiros. E revela sua estratégia: "Empurro três por cinco reais para ficar com o troco". Preciso aprender com ele, pois o balanço do primeiro dia é desanimador: quatro reais.

Terça-feira, 4 de junho, às 9h, Vila Clementino
Ao lado do colégio Arquidiocesano, na Rua Loefgreen, encontro o deficiente físico e o aposentado dos folhetos de saúde que estavam ontem na Vila Mariana. Observo que muitos ambulantes circulam por vários pontos no mesmo dia. Se as vendas não emplacam, eles migram para outros lugares. Alguns cruzamentos rendem mais em horários específicos. Próximo dos colégios, por exemplo, aprendo que a hora do almoço costuma ser mais lucrativa em razão da saída dos alunos. Puxo papo com o aposentado, que me conta que a cada mil folhetos entregues recebe míseros dez reais. Além de ganhar pouco, ele tem que aguentar motoristas mal-educados. "Ontem uma mulher amassou o papel e jogou na minha cara", reclama. O deficiente aproxima-se de mim para definir as fronteiras. "Eu fico neste lado da rua e você do outro", ordena. Os motoristas costumam ser mais generosos com os deficientes. Enquanto me esforço para vender dois pacotes de chicletes, o rapaz recebe de uma só vez cinco reais de esmola.

Terça-feira, 4 de junho, às 15h30, Jardim Europa.
Vendo balas sob o olhar desconfiado de seguranças particulares que trabalham em mansões na esquina das ruas Groelândia e Alemanha. Como companhia, tenho apenas uma família com duas crianças pedindo trocados. O farol fecha e preparo-me para mais uma investida entre os carros. Nesse momento, duas viaturas da polícia estacionam na minha frente. Rapidamente, quatro PMs saem armados dos carros na minha direção. Antes de me revistarem, aviso que sou jornalista e estou realizando uma reportagem. Não dão ouvidos. Um deles fala: "Recebemos uma denúncia". E continua revistando: "Cadê a arma?". Depois de muito bate-boca, eles realmente se convencem de que sou repórter e mostro os documentos. "É um procedimento de rotina. Quando a Polícia recebe uma denúncia sobre alguma atitude suspeita, dirige-se até o local para checar e revistar os suspeitos", explica o tenente coronel, Eliseu Leite de Moraes, chefe da comunicação social da Polícia Militar. Depois do susto, termino o expediente mais cedo com o dobro do que ganhei ontem.

Quarta-feira, 5 de junho, às 10h, Perdizes
Aconselhado por outros vendedores, adoto uma estratégia mais agressiva para alavancar as vendas em um cruzamento ao lado do estádio do Palmeiras. Começo a aceitar passes de ônibus e faço pequenas promoções do tipo "dois por um real". Pela primeira vez, recebo dois vales-transportes de motoqueiros como pagamento. Em cerca de uma hora de trabalho, consigo arrecadar 10 reais. Um vendedor de bandeiras me conta que no dia do jogo de estréia da seleção vendeu 60 reais. "Mas hoje tá fraco", reclama. Observo que as mulheres ficam mais assustadas quando me aproximo. Muitas levantam o vidro assim que o semáforo fecha. Algumas se assustam quando chego ao lado do vidro do carro. Mas elas são mais generosas do que os homens. Nesta manhã, 70% dos meus clientes são do sexo feminino.

Quarta-feira, 5 de junho, às 15h, Ipiranga.
Compro de um garoto, na esquina da Juscelino Kubitschek com a Brigadeiro Faria Lima, aqueles envelopes com chicletes e balas para pendurar nos retrovisores. "Eu mesmo faço esses pacotes", revela o rapaz, que mora no distante Itaim Paulista. Para chegar até o outro Itaim, o Bibi, onde trabalha, ele enfrenta todos os dias duas horas de ônibus. Negocio e pago seis reais por dez envelopes. Entendo porque esse método espalha-se pelos semáforos da cidade. O negócio realmente funciona. Confirmo isso ao fazer um teste na Rua do Cursino, no Ipiranga. Em apenas uma hora, despacho oito. No começo, em razão da minha inexperiência, chego a atrapalhar o trânsito, pois o semáforo abre e eu ainda não havia recolhido todos. Os motoristas são obrigados a esperar. Fica mais fácil depois que calculei o tempo que o semáforo permanece fechado. A conclusão que tiro dos envelopinho é que eles vendem porque as pessoas não se sentem acuadas. Há tempo suficiente para decidir e pegar o trocado até o vendedor retornar. Termino o dia com 12 reais no bolso.

Quinta-feira, 6 de junho, 10h30, Paraíso.
Em vez de comprar mais envelopes para revender, eu mesmo produzo os meus pacotinhos. Com plástico, grampeador e balas faço mais dez unidades. Incluo aquele papelzinho com o recado: "Estou desempregado e vender balas foi o único jeito que encontrei para sustentar minha família. Obrigado e Deus lhe pague". Permaneço na esquina das ruas Nicolau de Souza Queiróz com Vergueiro, próximo da estação do metrô Paraíso. Por volta das 10h, apenas um vendedor de bandeiras e fitinhas do Brasil está por lá. Porém, não demora para chegar mais três rapazes com o kit-limpeza formado por rodinho, água e sabão para disparar nos pára-brisas dos veículos. Eles ocupam as três vias da rua e me deixam sem espaço. Antes de ir embora, pergunto ao vendedor das bandeirinhas onde se pode comer algo por perto. O rapaz me indica um carrinho de cachorro-quente: "O lanche e mais o suco sai por cinqüenta centavos", recomenda.

Quinta-feira, 6 de junho, 14h30, Ibirapuera.
Sob um calor de 30 graus, permaneço no farol da Avenida Ibirapuera com Largo Mestre de Aviz. Aqui, não encontro nenhum concorrente para "brigar" pelo ponto. Apenas uns seguranças particulares da vizinhança acompanham de longe a minha movimentação. Mas não importunam. Neste cruzamento, registro o meu recorde de vendas em um único intervalo de semáforo: quatro dropes para motoristas diferentes. Percebo que quando vendo para alguém, geralmente a pessoa no carro ao lado também anima-se a comprar. O meu balanço de vendas nesse dia é o melhor da semana: 15 reais

Sexta-feira, 7 de junho, 16h, Pinheiros.
No meu último dia como ambulante trabalho meio período. À tarde, volto ao disputado cruzamento da Rebouças com Henrique Schaumann. Dessa vez, os vendedores de jalecos verdes não se importam com a minha presença. Já estão no final do expediente, pois costumam deixar o ponto por volta das 18h. A partir daí o local é ocupado por outros vendedores.

         
     
 
 
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