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Dia-a-dia
do repórter Otávio Canecchio que, durante uma semana, trabalhou
como vendedor de semáforo
Segunda-feira,
3 de junho, às 9h, Vila Mariana.
Após a apertada vitória do Brasil contra a Turquia
na estréia da Copa do Mundo, saio confiante para o primeiro
dia como ambulante de semáforo. Circulo pela região
de Moema e Vila Mariana à procura de um cruzamento movimentado.
A seleção, no entanto, fez o expediente nas ruas também
começar mais tarde. Demoro para encontrar vendedores. Ao
passar pelas ruas Sena Madureira e Domingos de Moraes, avisto alguns
com bandeiras e fitas amarelas. De cara, percebo que aqui a disputa
pelo ponto é forte. "Não vai dar para ficar,
já tem muita gente", avisa José Lucas Evangelista
Arguelles, que antes da Copa vendia rosas no local. "Vai na
rua de cima", aconselha-me um outro. Argumento que as minhas
balas e dropes não concorrem com as bandeiras. Mas não
convenço. Tento outros dois sinais próximos, também
sem êxito. Finalmente consigo ficar na esquina das ruas Afonso
Celso e Domingos de Moraes. Há apenas um deficiente físico
pedindo esmola e um aposentado entregando panfletos de planos de
saúde. Sem conhecer os macetes, vago sem sucesso durante
duas horas entre os veículos. Vendo um dropes.
Segunda-feira, 3 de junho, às 14h, Pinheiros
O congestionado cruzamento das Avenidas Rebouças com
Henrique Schaumann parece o mercado persa. Vende-se de tudo. Os
ambulantes aqui usam coletes verde e são filiados à
Associação dos Trabalhadores de Semáforo do
Estado de São Paulo. Uma vendedora me ensina: "Tem que
insistir e falar que custa 1 real". A dica dá certo
e emplaco mais um dropes. Mas o coordenador do ponto, José
Dantas dos Santos, me informa que para trabalhar ali é necessário
pertencer à entidade. A maioria dos semáforos da Avenida
Brasil está ocupada. Alguns trabalham no mesmo lugar há
anos e olham para mim com desconfiança. Um deles dispara:
"Você ou é polícia, ou bandido ou repórter".
Desconverso e volto a circular até encontrar um vendedor
de biju que não se importa com a minha presença. Em
dias de sorte, ele me conta que fatura até 100 reais. "O
negócio é ir nos importados", recomenda, referindo-se
aos carros estrangeiros. E revela sua estratégia: "Empurro
três por cinco reais para ficar com o troco". Preciso
aprender com ele, pois o balanço do primeiro dia é
desanimador: quatro reais.
Terça-feira,
4 de junho, às 9h, Vila Clementino
Ao lado do colégio Arquidiocesano, na Rua Loefgreen,
encontro o deficiente físico e o aposentado dos folhetos
de saúde que estavam ontem na Vila Mariana. Observo que muitos
ambulantes circulam por vários pontos no mesmo dia. Se as
vendas não emplacam, eles migram para outros lugares. Alguns
cruzamentos rendem mais em horários específicos. Próximo
dos colégios, por exemplo, aprendo que a hora do almoço
costuma ser mais lucrativa em razão da saída dos alunos.
Puxo papo com o aposentado, que me conta que a cada mil folhetos
entregues recebe míseros dez reais. Além de ganhar
pouco, ele tem que aguentar motoristas mal-educados. "Ontem
uma mulher amassou o papel e jogou na minha cara", reclama.
O deficiente aproxima-se de mim para definir as fronteiras. "Eu
fico neste lado da rua e você do outro", ordena. Os motoristas
costumam ser mais generosos com os deficientes. Enquanto me esforço
para vender dois pacotes de chicletes, o rapaz recebe de uma só
vez cinco reais de esmola.
Terça-feira,
4 de junho, às 15h30, Jardim Europa.
Vendo balas sob o olhar desconfiado de seguranças particulares
que trabalham em mansões na esquina das ruas Groelândia
e Alemanha. Como companhia, tenho apenas uma família com
duas crianças pedindo trocados. O farol fecha e preparo-me
para mais uma investida entre os carros. Nesse momento, duas viaturas
da polícia estacionam na minha frente. Rapidamente, quatro
PMs saem armados dos carros na minha direção. Antes
de me revistarem, aviso que sou jornalista e estou realizando uma
reportagem. Não dão ouvidos. Um deles fala: "Recebemos
uma denúncia". E continua revistando: "Cadê
a arma?". Depois de muito bate-boca, eles realmente se convencem
de que sou repórter e mostro os documentos. "É
um procedimento de rotina. Quando a Polícia recebe uma denúncia
sobre alguma atitude suspeita, dirige-se até o local para
checar e revistar os suspeitos", explica o tenente coronel,
Eliseu Leite de Moraes, chefe da comunicação social
da Polícia Militar. Depois do susto, termino o expediente
mais cedo com o dobro do que ganhei ontem.
Quarta-feira,
5 de junho, às 10h, Perdizes
Aconselhado por outros vendedores, adoto uma estratégia
mais agressiva para alavancar as vendas em um cruzamento ao lado
do estádio do Palmeiras. Começo a aceitar passes de
ônibus e faço pequenas promoções do tipo
"dois por um real". Pela primeira vez, recebo dois vales-transportes
de motoqueiros como pagamento. Em cerca de uma hora de trabalho,
consigo arrecadar 10 reais. Um vendedor de bandeiras me conta que
no dia do jogo de estréia da seleção vendeu
60 reais. "Mas hoje tá fraco", reclama. Observo
que as mulheres ficam mais assustadas quando me aproximo. Muitas
levantam o vidro assim que o semáforo fecha. Algumas se assustam
quando chego ao lado do vidro do carro. Mas elas são mais
generosas do que os homens. Nesta manhã, 70% dos meus clientes
são do sexo feminino.
Quarta-feira, 5 de junho, às 15h, Ipiranga.
Compro de um garoto, na esquina da Juscelino Kubitschek com
a Brigadeiro Faria Lima, aqueles envelopes com chicletes e balas
para pendurar nos retrovisores. "Eu mesmo faço esses
pacotes", revela o rapaz, que mora no distante Itaim Paulista.
Para chegar até o outro Itaim, o Bibi, onde trabalha, ele
enfrenta todos os dias duas horas de ônibus. Negocio e pago
seis reais por dez envelopes. Entendo porque esse método
espalha-se pelos semáforos da cidade. O negócio realmente
funciona. Confirmo isso ao fazer um teste na Rua do Cursino, no
Ipiranga. Em apenas uma hora, despacho oito. No começo, em
razão da minha inexperiência, chego a atrapalhar o
trânsito, pois o semáforo abre e eu ainda não
havia recolhido todos. Os motoristas são obrigados a esperar.
Fica mais fácil depois que calculei o tempo que o semáforo
permanece fechado. A conclusão que tiro dos envelopinho é
que eles vendem porque as pessoas não se sentem acuadas.
Há tempo suficiente para decidir e pegar o trocado até
o vendedor retornar. Termino o dia com 12 reais no bolso.
Quinta-feira,
6 de junho, 10h30, Paraíso.
Em vez de comprar mais envelopes para revender, eu mesmo produzo
os meus pacotinhos. Com plástico, grampeador e balas faço
mais dez unidades. Incluo aquele papelzinho com o recado: "Estou
desempregado e vender balas foi o único jeito que encontrei
para sustentar minha família. Obrigado e Deus lhe pague".
Permaneço na esquina das ruas Nicolau de Souza Queiróz
com Vergueiro, próximo da estação do metrô
Paraíso. Por volta das 10h, apenas um vendedor de bandeiras
e fitinhas do Brasil está por lá. Porém, não
demora para chegar mais três rapazes com o kit-limpeza formado
por rodinho, água e sabão para disparar nos pára-brisas
dos veículos. Eles ocupam as três vias da rua e me
deixam sem espaço. Antes de ir embora, pergunto ao vendedor
das bandeirinhas onde se pode comer algo por perto. O rapaz me indica
um carrinho de cachorro-quente: "O lanche e mais o suco sai
por cinqüenta centavos", recomenda.
Quinta-feira,
6 de junho, 14h30, Ibirapuera.
Sob um calor de 30 graus, permaneço no farol da Avenida
Ibirapuera com Largo Mestre de Aviz. Aqui, não encontro nenhum
concorrente para "brigar" pelo ponto. Apenas uns seguranças
particulares da vizinhança acompanham de longe a minha movimentação.
Mas não importunam. Neste cruzamento, registro o meu recorde
de vendas em um único intervalo de semáforo: quatro
dropes para motoristas diferentes. Percebo que quando vendo para
alguém, geralmente a pessoa no carro ao lado também
anima-se a comprar. O meu balanço de vendas nesse dia é
o melhor da semana: 15 reais
Sexta-feira, 7 de junho, 16h, Pinheiros.
No meu último dia como ambulante trabalho meio período.
À tarde, volto ao disputado cruzamento da Rebouças
com Henrique Schaumann. Dessa vez, os vendedores de jalecos verdes
não se importam com a minha presença. Já estão
no final do expediente, pois costumam deixar o ponto por volta das
18h. A partir daí o local é ocupado por outros vendedores.
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