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16 de novembro de 2005

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Entrevista

Eduardo Coutinho, diretor do documentário O Fim e o Princípio

Veja Rio – Por o filme ganhou esse título?

Eduardo Coutinho – O título é que ganhou o filme. Esse era o título de um projeto (não realizado) que eu fui obrigado a apresentar . No livro " O Turista Aprendiz " o Mario de Andrade termina com a seguinte frase: "....mas tudo vai acabando agora que o Brasil principia..." Essa frase deu a idéia para o título do projeto. Quando eu falava o título do projeto algumas pessoas me diziam... O Princípio e o Fim; e eu ficava p. e falava: O Fim e o Princípio . As pessoas não gostam do fim antes.


Veja Rio –
Vocês tinham uma pauta, mas a abandonaram. Pensaram, entre outras coisas, em orientar o filme a partir de temas como "um dia na vida de um beneficiário do Fome Zero". Por que houve a mudança de rumo?

Eduardo Coutinho – A gente não tinha pauta. As possibilidades eram muitas, mas as questões sociológicas da atualidade deixaram de ter interesse porque as pessoas que encontramos eram muito mais interessantes que as questões.


Veja Rio –
Você aparece bem mais neste filme. Foi uma opção ou uma necessidade?

Eduardo Coutinho – Foi uma opção necessária porque o filme não teve pesquisa, apenas uma mediadora, o que tornou necessária uma participação mais afetiva e próxima das pessoas.


Veja Rio –
Você não acha que, para os espectadores de um cinema na zona sul do Rio, os moradores do sítio Araçás vão parecer gente de outro planeta? Existe uma aproximação possível entre o Brasil da metrópole e a turma de Araçás?

Eduardo Coutinho – Espero que pertençam ao mesmo planeta. Só que é um país muito desigual e espero que os espectadores que forem ver o filme se interessem por outros brasis e outros sertões;em suma se interessem pelo que é diferente deles mesmos. De outro planeta, aliás, é o conceito do Multiplex, que domina o circuito de cinemas hoje.


Veja Rio –A intenção primeira do filme era a de uma câmera na mão e nenhuma idéia preconcebida na cabeça. A proposta era essa mesmo, a de romper com experiências anteriores, que exigiam pesquisa prévia?

Eduardo Coutinho – Sim, mas a gente sempre acha o que procura. Ao mesmo tempo acabei encontrando o limite espacial que caracteriza meus últimos filmes.


Veja Rio –
Em Santa Marta: Duas Semanas no Morro um dos personagens é um garoto meio revoltado que viria a se transformar no traficante Marcinho VP. Peões aborda o universo de um sindicalista que viria a se tornar presidente da república. Sua obra pode ser entendida como um instrumento para se compreender melhor os rumos do país?

Eduardo Coutinho – Dos rumos do país eu não sei nada, mas acho que os filmes podem ajudar a compreender alguns dos brasis e dos sertões deste país.


Veja Rio –
Muitos dos entrevistados de O Fim e o Princípio são bem velhinhos e exibem um vocabulário digno da literatura de Guimarães Rosa. Você acha que essa linguagem única e o rico imagináriodos entrevistados vão sobreviver a eles mesmos ou, em breve, tornar-se-ão lembranças de um Brasil presentes apenas em filmes como O Fim e o Princípio?

Eduardo Coutinho – Em termos da riqueza da linguagem, sim, tendem a se extinguir. Em termos de censo comunitário, é complicado. Mas as questões do imaginário (relações com religião e destino) vão durar muito mais tempo. Porque essas são questões vêm de longe.

     
  
   

 

 
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