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VEJA RIO RECOMENDA
Entrevista Eduardo
Coutinho, diretor do documentário O Fim e o Princípio Veja
Rio Por o filme ganhou esse título? Eduardo
Coutinho
O título é que ganhou o filme. Esse era o título de um projeto
(não realizado) que eu fui obrigado a apresentar . No livro " O Turista
Aprendiz " o Mario de Andrade termina com a seguinte frase: "....mas
tudo vai acabando agora que o Brasil principia..." Essa frase deu a idéia
para o título do projeto. Quando eu falava o título do projeto algumas
pessoas me diziam... O Princípio e o Fim; e eu ficava p. e falava: O Fim
e o Princípio . As pessoas não gostam do fim antes. Veja
Rio Vocês tinham uma pauta, mas a abandonaram. Pensaram, entre
outras coisas, em orientar o filme a partir de temas como "um dia na vida
de um beneficiário do Fome Zero". Por que houve a mudança de
rumo?
Eduardo
Coutinho
A gente não tinha pauta. As possibilidades eram muitas, mas as questões
sociológicas da atualidade deixaram de ter interesse porque as pessoas
que encontramos eram muito mais interessantes que as questões. Veja
Rio Você aparece bem mais neste filme. Foi uma opção
ou uma necessidade?
Eduardo
Coutinho
Foi uma opção necessária porque o filme não teve pesquisa,
apenas uma mediadora, o que tornou necessária uma participação
mais afetiva e próxima das pessoas. Veja
Rio Você não acha que, para os espectadores de um
cinema na zona sul do Rio, os moradores do sítio Araçás vão
parecer gente de outro planeta? Existe uma aproximação possível
entre o Brasil da metrópole e a turma de Araçás?
Eduardo
Coutinho
Espero que pertençam ao mesmo planeta. Só que é um país
muito desigual e espero que os espectadores que forem ver o filme se interessem
por outros brasis e outros sertões;em suma se interessem pelo que é
diferente deles mesmos. De outro planeta, aliás, é o conceito do
Multiplex, que domina o circuito de cinemas hoje. Veja
Rio A intenção primeira do filme era a de uma câmera
na mão e nenhuma idéia preconcebida na cabeça. A proposta
era essa mesmo, a de romper com experiências anteriores, que exigiam pesquisa
prévia?
Eduardo
Coutinho
Sim, mas a gente sempre acha o que procura. Ao mesmo tempo acabei encontrando
o limite espacial que caracteriza meus últimos filmes. Veja
Rio Em Santa Marta: Duas Semanas no Morro um dos personagens
é um garoto meio revoltado que viria a se transformar no traficante Marcinho
VP. Peões aborda o universo de um sindicalista que viria a se tornar
presidente da república. Sua obra pode ser entendida como um instrumento
para se compreender melhor os rumos do país?
Eduardo
Coutinho
Dos rumos do país eu não sei nada, mas acho que os filmes podem
ajudar a compreender alguns dos brasis e dos sertões deste país. Veja
Rio Muitos dos entrevistados de O Fim e o Princípio são
bem velhinhos e exibem um vocabulário digno da literatura de Guimarães
Rosa. Você acha que essa linguagem única e o rico imagináriodos
entrevistados vão sobreviver a eles mesmos ou, em breve, tornar-se-ão
lembranças de um Brasil presentes apenas em filmes como O Fim e o Princípio?
Eduardo
Coutinho
Em termos da riqueza da linguagem, sim, tendem a se extinguir. Em termos de censo
comunitário, é complicado. Mas as questões do imaginário
(relações com religião e destino) vão durar muito
mais tempo. Porque essas são questões vêm de longe. |