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Morte
à queima-roupa
Assassinado
em plena tribuna de honra, Anuar Sadat
sai de cena no Oriente Médio deixando aliados
e inimigos com expectativa de mudança
Marco Antônio
de Rezende, do Cairo
Reportagem
de VEJA publicada em 14
de outubro de 1981
Com garbo
e orgulho, a esquadrilha de cinco aviões Mirage da Força
Aérea do Egito prosseguiu com suas rasantes piruetas enquanto
outros aparelhos soltavam caudas de fumaça vermelha, branca
e preta - as cores nacionais do Egito - no céu ensolarado
do Cairo. Para os pilotos, a perfeição era essencial:
embaixo, na terra, o presidente Anuar Sadat deveria estar com
os olhos voltados para cima acompanhando as evoluções,
satisfeito. Até as 13h02 da fatídica terça-feira
da semana passada, assim foi. Mas, naquele instante, retomando
as palavras de Moshe Dayan, "o mundo mudou".
A parada militar
do dia 6 de outubro é o ponto alto da liturgia patriótica
egípcia. Para comemorar a data em que lançou a ofensiva
para recuperar a margem oriental do canal de Suez, em 1973, Sadat
mandou construir uma tribuna de concreto e granito vermelho, diante
da pirâmide estilizada que serve de túmulo ao Soldado
Desconhecido no bairro de Medinet el Nasr, a meio caminho entre
a capital e o aeroporto. Lá, todos os anos, assistia em
companhia da cúpula do regime, do corpo diplomático
e dos adidos militares estrangeiros a um desfile de ambicioso
rigor marcial, pontilhado de espetaculares demonstrações
de eficiência bélica. Ao final, sempre sozinho, Sadat
costumava embarcar num helicóptero que o esperava atrás
da tribuna e seguia para Mit Abul Kom, sua aldeia natal no delta
do Nilo, para meditar e pregar diante do túmulo do irmão
mais moço, Atif, morto na guerra de 1973.
Também
na semana passada o presidente egípcio embarcou no helicóptero,
só que para um vôo inútil ao Hospital de Maadi:
com sua impecável farda azul-marinho de mushir - marechal
e comandante-em-chefe - encharcada de sangue, Anuar Sadat estava
mortalmente ferido no pescoço, peito, braço e pernas.
Uma equipe de doze médicos militares instalou o presidente
na sala de cirurgia "A", no 1º andar, e durante
meia hora lutou para evitar sua morte. Mas Sadat já chegou
em coma profundo, com perda de sangue pela boca.
Transfusões,
injeções para reativar o coração,
eletrochoques e massagens cardíacas externas foram tentados.
Por fim, foi aberta a caixa torácica para massagear diretamente
o coração mas, a essa altura, a linha do eletroencefalograma
já não apresentava mais nenhum relevo. Às
13h45, o general Ahmad Sami Karin - o mesmo que assinou o atestado
de óbito do xá Reza Pahlevi - declarou morto o Rais.
"Só Deus é eterno", disse à viúva
Jihane Sadat.
SURGE MUBARAK
- O alucinante ataque de metralhadoras e granadas que irrompeu
em pleno desfile, e tomou de assalto o palanque montado na avenida
da Vitória, fora bem-sucedido. Restava ao mundo, perplexo,
juntar rapidamente os estilhaços políticos do atentado
mais dramático desde o assassinato de John Kennedy em 1963
e ficar de prontidão para a eventualidade de um desdobramento
ainda maior.
De imediato,
o próprio Egito, a vizinha Líbia e sobretudo Israel
colocaram suas Forças Armadas em estado de alerta. Os 4.000
homens das duas unidades anfíbias da VI Frota americana
e a totalidade das Forças de Deslocamento Rápido,
recentemente constituídas para descer numa crise no Oriente
Médio, em poucas horas, também foram equipadas para
uma necessidade de embarque. Tomando a ofensiva no plano diplomático,
o primeiro-ministro de Israel, Menahem Begin, tratou logo de conter
o dique de interrogações que se formaram em torno
da sobrevivência, ou não, dos acordos de Camp David,
nos quais Israel e Egito regulamentaram um plano de paz duradoura,
em 1979, e anunciou que respeitaria metro por metro o cronograma
da devolução do Sinai ocupado. Em suma, o mundo
começava a se movimentar na ausência de Anuar Sadat,
o estadista árabe mais singular do pós-guerra. Ao
mesmo tempo, no Egito, o atentado veio provar a existência
de uma oposição radical, cujo potencial não
diminuiu com a demonstração de autocontrole institucional
na rápida indicação do vice-presidente Mohammed
Hosni Mubarak como sucessor do Rais.
Menos de quarenta
horas após o brutal assassinato, o rosto anguloso de Mubarak
tomou conta do país - antes mesmo que os egípcios
e o resto do mundo tivessem uma imagem completa dos acontecimentos
da avenida da Vitória. Nem mesmo as 1.500 pessoas portadoras
de convites individuais, sentadas no palanque e nas arquibancadas
à volta de Sadat, tiveram uma visão clara do que
ocorreu na imponente avenida de quase 100 metros de largura.
CAMINHÃO
PARADO - Por meio de testemunhos fragmentados, sabe-se que
a 1 hora da tarde, faltando 20 minutos para o fim do desfile iniciado
uma hora antes, começaria a longa e ruidosa procissão
de blindados e caminhões da Artilharia. Enquanto na tribuna
reservada aos diplomatas, à esquerda do presidente, um
suboficial distribuía suco de goiaba e Coca-Cola a algumas
crianças, na tribuna dos adidos militares, à direita
de Sadat, o coronel brasileiro Ney Eichler Cardoso, oficial de
Artilharia servindo na Embaixada do Cairo, concentrava sua atenção
num grupo de nove caminhões de fabricação
soviética, que rebocavam reluzentes canhões de 122
milímetros, recentemente importados da Coréia do
Sul.
"De repente",
conta o coronel Eichler, "percebi que a linha dos caminhões
estava flutuando." No jargão militar, isso significa
que a fila de veículos perdeu o alinhamento, coisa inesperada
num desfile exaustivamente ensaiado. A surpresa foi ainda maior
quando o primeiro caminhão da fila mais próxima
à tribuna parou, avançou mais alguns metros e parou
definitivamente diante das autoridades. Segundo outro depoimento,
o presidente pensou que o comando de assassinos vinha-lhe apresentar
armas. A cena já se havia repetido algumas vezes durante
o desfile. "Assim", lembra o general Mahmoud El Masri,
comandante da Guarda Republicana, "quando eles se aproximaram,
o presidente levantou-se naturalmente para fazer continência."
Seja como for, tudo indica que Sadat não usou o instinto
militar que levou seus dois vizinhos de tribuna, o ministro de
Defesa, general Abu Ghazala, e o vice-presidente Hosni Mubarak,
a se lançarem ao chão ao primeiro disparo. O ataque
foi rápido e decisivo. Primeiro, um tenente robusto e dois
soldados saltaram do caminhão parado, e correram em direção
à tribuna de honra, lançando três granadas
e disparando suas metralhadoras Kalashnikov. Um quarto soldado,
a bordo do veículo, abriu fogo diretamente sobre Sadat.
Talvez tenham sido estes tiros que o feriram primeiro.
NA PONTA
DOS PÉS - Com muita pontaria e pouca sorte, os assassinos
lançaram duas granadas dentro da tribuna. "A primeira
não explodiu", lembrou depois o ministro da Defesa,
que estava sentado ao lado esquerdo de Sadat. "A segunda
atingiu o rosto do general Hafez, chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas, também sentado na primeira fila, mas tampouco
explodiu." Se um dos dois petardos explodisse, desapareceria
toda a cúpula do governo egípcio. Uma terceira granada,
de fumaça, explodiu aos pés do palanque. Os atacantes
continuaram avançando e, segundo Ghazala, lançaram
fora da tribuna mais duas granadas, do tipo defensivo, cujo leque
de estilhaços bastante fechado e vertical feriu poucas
pessoas. "Nesse momento, olhei para o presidente e fui ferido
por estilhaços no braço direito e na face",
relatou o general. Haviam decorrido não mais de 30 segundos
desde a parada do caminhão.
Anuar Sadat
ainda se encontrava em seu lugar quando o quarto atacante, mesmo
ferido pelos disparos tardios de um agente de segurança,
deixou o veículo e se juntou aos demais. Foi então
que o general Hassan Allam, seu chefe da Casa Militar, junto com
o secretário particular, Fawzi Abdel Hafez, e o ajudante-de-ordens
Nazih Helmi, todos sentados na segunda fileira, se lançaram
sobre Sadat para jogá-lo ao chão. Mas, não
sendo guarda-costas profissionais, os três chegaram tarde:
o presidente caiu entre as cadeiras já sangrando abundantemente,
o general Allam morreu, e Helmi e Abdel Hafez ficaram gravemente
feridos. Quanto aos seis agentes de segurança do presidente,
incompreensivelmente sentados dez filas atrás, eles não
impediram sequer que dois dos assassinos chegassem livremente
à tribuna, nela se apoiassem e, elevando-se na ponta dos
pés, disparassem suas metralhadoras qual máquinas
fotográficas, acima da cabeça, sem sequer mirar.
No chão, as personalidades tentavam proteger-se com cadeiras,
em meio a quepes, medalhas, sabres e pedaços de carne.
Milagrosamente,
o vice-presidente Mubarak escapou apenas com um ferimento na mão
esquerda. Foi ele quem comandou o resgate do presidente ferido,
ajudando a carregá-lo ainda durante o tiroteio, até
a porta dos fundos do palanque, para embarcá-lo no desesperado
vôo de helicóptero até o hospital. É
possível que o crescente orgulho pessoal de Sadat como
Rais do Egito e seu aguçado sentido de um destino histórico
expliquem por que ele não usava um colete à prova
de balas. Seu guarda-roupa incluía pelo menos dois exemplares,
um deles presenteado pelos russos antes da expulsão dos
20.000 conselheiros militares e técnicos soviéticos
em 1972, mas nunca se soube que os tivesse usado.
ÚLTIMA
PALAVRA - Os disparos, no total, não duraram mais que
1 minuto. Mas o pânico que tomou conta das tribunas certamente
ajudou a aumentar o número de feridos e, possivelmente,
de mortos. Além do presidente morreram outras oito pessoas,
inclusive um dos soldados atacantes, o presidente do Tribunal
de Contas e um bispo da Igreja copta. Entre os quarenta feridos
havia crianças pisoteadas no palanque e soldados atropelados
por veículos que abandonaram o desfile em revoada. Uma
ambulância conseguiu chegar até o palanque para recolher
as vítimas.
Houve também,
naturalmente, ironias do destino. O ministro da Defesa da Irlanda,
Jim Tully, por exemplo, tinha ido passar em revista o batalhão
irlandês das forças da ONU no Sinai. Estava em trânsito
pelo Cairo quando recebeu um convite de última hora para
assistir ao desfile. Sentiu-se honrado ao receber um lugar na
segunda fila, perto de Sadat. Foi lá que recebeu um estilhaço
que lhe atravessou a mandíbula, saindo pela boca. "Lancei-me
ao chão", contaria mais tarde, "mas não
consegui ir longe porque o corpo do presidente estava atrás
de mim." Outro que se pode considerar marcado pela sorte
- ou pelo azar - é o boliviano Reynaldo Del Carpio: em
1980, foi seqüestrado junto com outros quinze embaixadores
por terroristas colombianos em Bogotá. Nada sofreu, além
do trauma. Transferido para o Cairo, acabou sendo ferido no atentado
contra Sadat.
Ainda na noite
do atentado, Mubarak foi à vila da família Sadat,
no bairro de Giza, apresentar suas condolências à
viúva Jihane e às três filhas do casal. A
viúva do presidente havia presenciado boa parte da tragédia
pois se encontrava num camarote envidraçado no alto da
tribuna, junto com outras mulheres de personalidades presentes.
Segundo lhe contaram, a última palavra pronunciada por
Sadat foi: "Não". Quanto ao único filho
homem do casal, Gamal, de 25 anos, encontrava-se pescando no litoral
da Flórida e só conseguiu chegar no Cairo no dia
seguinte ao atentado. Àquela altura, já estavam
prontos os planos para o solene funeral de sábado passado,
e começavam a surgir as primeiras pistas sobre a autoria
do atentado.
GOVERNO TEMPORÁRIO
- Apesar de sua proclamada devoção religiosa, Sadat
parece ter sido morto por ordem da confraria dos Irmãos
Muçulmanos, uma organização islâmica
fundada na década de 30 e que jamais aceitou a ocidentalização
do país e de seus costumes. A Irmandade Muçulmana
não chega a ser uma seita islâmica como os xiitas
do Irã, mas é igualmente radical e violenta. Tem
a morte de pelo menos três chefes de governo em sua folha
corrida e conta com comprovada solidariedade em setores das Forças
Armadas.
Tudo indica
que a ameaça do fundamentalismo islâmico, que custou
a Reza Pahlevi o trono e aos iranianos a desintegração
de seu Estado, vinha sendo até agora mal avaliada no Egito.
O proselitismo em favor de um modelo de vida de acordo com a chariat
- a lei islâmica - expande-se com rapidez, sobretudo entre
os jovens. Nas universidades é crescente o número
de rapazes que deixa crescer sintomáticas barbas de inspiração
islâmica, ao mesmo tempo que exige que o ensino de ginecologia
seja exclusivamente dedicado a estudantes do sexo feminino.
"Vejo
o governo Mubarak como um governo temporário", diz
Henry Jackson, professor de Ciência Política da Columbia
University, em Nova York. Jackson é o especialista em Oriente
Médio e África que previu a saída de cena
de Sadat, por golpe ou assassinato, no penúltimo número
da revista Foreign Policy, em artigo que esta semana se transformou
em leitura obrigatória no Pentágono. "O perigo
de fragmentação política e anarquia no Egito
é real (...), o processo de paz de Camp David está
morto (...) e os israelenses, independentemente de suas declarações
do momento, estão se preparando para um período
de caos no Egito", declarou ele a VEJA na semana passada,
A seu ver, o Egito de Mubarak caminhará inexoravelmente
em direção a um entrosamento maior com países
árabes conservadores, e estritamente muçulmanos,
como a Arábia Saudita.
Apesar do
empenho do governo egípcio em reduzir a autoria do atentado
a um minúsculo núcleo de quatro fanáticos,
o próprio relato oficial apresentado pelo ministro da Defesa
Ghazali oferece luzes mais amplas. Segundo o general, o comandante
do grupo que atacou o palanque seria o tenente Khaled Istambuli,
irmão de um conhecido militante muçulmano encarcerado
no mês passado na operação arrastão
desencadeada por Sadat contra a "sedição religiosa".
Istambuli morreu no ato e ninguém consegue explicar como
ele vinha escapando dos sucessivos expurgos empreendidos nas fileiras
militares. O outro membro do comando era um tenente da reserva,
que, junto com dois ex-recrutas, foi ferido e preso 2 minutos
após o atentado, não por agentes da segurança
presidencial mas por policiais. Em outras palavras, apenas um
dos atacantes seria militar de carreira e os demais, civis. Mas,
como o Egito é o país de onde originaram as versões
oficiais mais fantasiosas sobre o atentado - o mesmo Ghazali sugerira
anteriormente que Sadat enfrentara seus assassinos de pé,
peito erguido, valentemente -, será prudente aguardar um
histórico mais sereno de todo o episódio.
MODELO
SOLITÁRIO - Satisfeito com seu modelo solitário
de gerir o poder, apoiado numa estrutura estatal fortemente baseada
no organograma das Forças Armadas, o ex-presidente Anuar
Sadat de certa forma colocou-se acima de uma sociedade que só
lhe dedicou genuína admiração pela decisão
de atacar as forças de Israel que ocupavam o Sinai, em
1973. No mais, o amplo espectro da oposição egípcia
é capaz de incluir de personalidades respeitáveis,
como o general Chazli, veterano da guerra do Yom Kippur, a tipos
como o tenente Istambuli e possivelmente oficiais mais graduados
que o ajudaram. É possível que a decretação
do estado de emergência e a proibição de manifestações
tenham impedido cenas de pranto por Sadat antes do funeral. De
qualquer forma, o pesado silêncio, alternado por uma estranha
normalidade nas ruas do Cairo, dava a impressão de que
o presidente não deixou tantos órfãos entre
as emotivas massas egípcias.
Foi do exterior
que chegaram as manifestações mais ostensivas de
apreço. Na tarde de sexta-feira, um avião da Força
Aérea dos Estados Unidos despejou em solo egípcio
nada menos que três ex-presidentes (Jimmy Carter, Gerald
Ford e Richard Nixon), além do secretário de Estado
Alexander Haig e seu predecessor Henry Kissinger - que, assim,
pode saborear um pouco suas glórias passadas. Todos vieram
assistir ao enterro, junto com Menahem Begin, que violou as normas
mais elementares de segurança e as regras mais rígidas
da religião judaica para estar no mausoléu de Anuar
Sadat na manhã de shabbat.
Assim como
a junta médica batalhou com valentia para manter vivo Anuar
Sadat, Begin lutará com igual vigor para conservar viva
a política do Rais assassinado. Primeiro a chegar no Cairo,
o líder israelense também foi o primeiro chefe de
Estado a conversar com Mubarak. Os dois se abraçaram e
Begin perguntou como fora o atentado. "Aconteceu tão
de repente...", murmurou Mubarak. Dos dois, era o israelense
quem parecia mais órfão de Sadat. Com razão:
enquanto sua sobrevivência política está irremediavelmente
atrelada aos acordos de Camp David, a identidade política
de Mubarak, para se afirmar, poderá exigir rumos novos.
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