saúde

Reportagem publicada em 17/04/1996

A guerra ao câncer

A medicina mobiliza os avanços da ciência
na luta contra o inimigo, que desafia os
esforços de prevenção e chegará ao
próximo século como a doença que
mais mata no mundo

Izalco Sardenberg

Há um momento que traduz a agonia de um doente terminal de câncer. É quando ele não se alimenta mais. Não dá para colocar comida na boca e, à simples menção de um prato com carne, ele sente vontade de vomitar. Sem comer direito durante vários dias, o paciente fica com o rosto chupado e o corpo exangue. O nojo tem uma explicação fisiológica. Pedaços do tumor necrosam e o organismo produz uma substância que corta o apetite - como se já não bastassem as dores, o medo e a solidão diante da morte próxima. Levantar-se é um esforço insano. Só com ajuda. A percepção da realidade se esvai devagarinho, até a hora em que o doente apenas pressente os familiares, enfermeiras e médicos que se movem ao redor, feito sombras. As drogas tiram a dor - não toda - e provocam sonolência e confusão. Não dá para saber se é dia ou noite nem quanto tempo passou desde a última tentativa de encontrar uma posição mais confortável na cama. A morte, quando chega, é uma bênção.

Só quem já acompanhou um paciente de câncer sabe como essa doença pode ser cruel em seu estágio terminal. Ninguém gosta de pensar sobre o assunto. Muitos evitam até pronunciar a palavra, cuja origem latina quer dizer “caranguejo”, provavelmente por causa da semelhança entre as pernas do crustáceo e os tentáculos do tumor. Não admira que o câncer seja encarado pela maioria das pessoas como uma sentença de morte. Nas últimas décadas, apenas a Aids ameaçou roubar-lhe o título de doença que causa mais horror e pânico à humanidade. Há, no entanto, uma diferença fundamental: a síndrome da imunodeficiência adquirida é um mal que se pode prevenir totalmente. O câncer, não. Descontados alguns fatores de risco, ter ou não ter a doença é uma loteria, que mata por ano mais de 4 milhões de pessoas, 90 000 no Brasil.

Essa percepção da doença transformou o câncer em inimigo número 1 da medicina. A própria linguagem empregada pelos médicos e pesquisadores está recheada de expressões bélicas. Só se fala em guerra. “Não damos um minuto de sossego ao inimigo”, diz Sérgio Simon, um dos mais destacados cancerologistas brasileiros. Nos centros de pesquisa dos países ricos, onde se gasta uma média de 1,5 bilhão de dólares por ano em estudos, o principal campo de batalha se situa no próprio coração das células. Debruçados sobre o micromundo molecular, os pesquisadores tratam de abrir a caixa-preta que regula o funcionamento das células malignas.

NOVAS TÉCNICAS - Houve avanços importantes nos últimos vinte anos. A taxa de mortalidade dos cânceres da idade infantil, como a leucemia e o tumor de Wilmes (uma modalidade rara de câncer que atinge o rim), caiu de 70% para menos de 30% dos casos. O câncer de testículo e alguns linfomas (tumor no sistema linfático), letais até há pouco tempo, hoje apresentam índices elevados de cura. A qualidade de vida dos doentes deu um salto, graças a cirurgias não mutiladoras. Nos casos de câncer de mama, surgiu um novo tipo de operação, a quadrantectomia, que permite remover uma parte e não mais o seio inteiro de pacientes com o tumor em estágio inicial. Uma técnica cirúrgica reduziu de 100% para 50% o risco de impotência nas cirurgias de extração da próstata (veja reportagem à pág. 84).
A quimioterapia, o tratamento à base de drogas que interfere no ciclo de reprodução celular, também evoluiu muito. Uma das principais novidades é um tipo de transplante de medula que consiste em retirar as células-mãe do sangue do paciente e congelá-las. (Tais células, essenciais à defesa do organismo, são as que se reproduzem mais depressa.) O doente, então, é submetido a uma dose potentíssima de quimioterapia. Em seguida, recebe de volta as próprias células, que estavam guardadas num banco de sangue, congeladas. Seria como tirar a mobília da sala para dedetizar o ambiente e depois colocar os móveis de volta. Há novos remédios que controlam melhor a náusea provocada pela quimioterapia, um dos piores efeitos colaterais do tratamento - o outro, estético, deixa o paciente totalmente careca porque mata, temporariamente, as células do bulbo capilar. A radioterapia, peça-chave do arsenal anticâncer, desenvolveu graças aos computadores uma técnica conformacional que permite melhorar a “pontaria” dos feixes de raios desferidos contra o tumor.

CURVA ASCENDENTE - Em número de vítimas, o câncer só perde para as doenças cardíacas, como o infarto, e as do aparelho circulatório, como o derrame. Isso, por enquanto. No ano 2000 terá superado as doenças circulatórias em incidência e mortalidade nos Estados Unidos. No Brasil, o câncer deve ser também a enfermidade mais letal do próximo século. Hoje em dia, só o coração e a violência (aí incluídos os acidentes) matam mais. A curva ascendente da mortalidade se deve, em parte, à dificuldade de detectar precocemente a maioria dos tipos de câncer. No ranking dos cânceres que mais matam, o topo pertence ao câncer no pulmão, associado diretamente ao cigarro, o pior dos agentes cancerígenos, responsável, sozinho, por 30% dos casos da doença no planeta (veja quadro à pág. 82). O câncer no pulmão é um tumor agressivo e quase sempre impossível de detectar, que traga a vida de mais de 1 milhão de pessoas por ano. O aumento dos casos se concentra na população feminina, pois as mulheres começaram a fumar décadas mais tarde que os homens e só agora os efeitos estão surgindo.
A idéia de que o câncer está ligado aos estados da alma - ou seja, à “cabeça” das pessoas - é pura cascata, segundo 100% dos médicos. Muita gente acredita, sem a menor base científica, que pessoas muito contidas, que não sabem ser espontâneas ou externar suas emoções, correm maior risco de ter um câncer, como se a repressão e o recalque pudessem se traduzir na doença. A escritora americana Susan Sontag, que precisou extirpar um seio devido a um câncer de mama, desmonta essa crendice num livro admirável, A Doença como Metáfora. Wilhelm Reich, o guru da terapia sexual, acreditava piamente nessa idéia, assim como o escritor Norman Mailer. Em 1960, Mailer esfaqueou sua mulher, Adele Morales, e declarou, depois, que estava com tanto ódio dela que não podia deixar de atacá-la. “Se eu não fizesse isso, teria câncer”, justificou-se. Sontag diz que Mailer sofre de “cancerfobia”, o medo obsessivo da doença.

EFEITO GELADEIRA - No capítulo da prevenção, os pesquisadores têm indicações seguras de que dietas à base de carnes brancas (peixes e frango) e ricas em fibras são úteis para evitar o câncer de intestino. Dietas com pouca gordura podem prevenir o câncer de mama - o exemplo mais citado pela literatura médica é o do Japão, país com a mais baixa incidência mundial desse tipo de doença e cuja cozinha tem uma nítida preferência pelos alimentos sem fritura. A Organização Mundial de Saúde fez recentemente um estudo sobre a preservação de alimentos no qual relaciona a incidência de câncer de estômago (uma doença mais comum em países pobres) e o uso da geladeira. Constatou-se que as taxas de ocorrência são inversamente proporcionais ao número de geladeiras - quanto mais câncer, menos geladeiras, e vice-versa. “Isso prova que alimentos bem preservados diminuem os riscos de câncer de estômago”, diz Marcos Morais, presidente do Instituto Nacional do Câncer. Nos lugares pobres, onde não há refrigeradores, a conservação do alimento obedece a métodos tradicionais, como o salgamento e a defumação, que provavelmente contêm agentes carcinogênicos.

Na maior parte dos casos, o câncer é uma doença de longa gestação. Até ficar do tamanho aproximado de uma azeitona (que é quando o mal costuma ser diagnosticado clinicamente), um tumor leva vinte anos, em média. “São tumores que vicejam em silêncio, sem apresentar sintomas”, atesta o patologista Osvaldo Giannotti Filho, professor da Escola Paulista de Medicina. “Quando são percebidos clinicamente, já não há muito que fazer.” Esse detalhe ajuda a entender por que aumentou o número de novos casos e de mortes por câncer. É que a população mundial envelheceu - a expectativa de vida dos brasileiros, por exemplo, saltou de 45 anos, na década de 50, para 64 anos. “A idade é o principal fator de risco em relação ao câncer”, informa o epidemiologista Luiz Augusto Marcondes Fonseca, da Fundação Oncocentro, em São Paulo. Hoje, pelo simples motivo de que vivem mais, as pessoas correm mais risco de ter câncer.

MAL DOS GENES - A dificuldade de combater o câncer se deve ao fato de que é uma doença infinitamente mais complexa do que, por exemplo, as enfermidades do coração. A doença cardíaca é causada quase sempre pelo entupimento das artérias. Pode ser prevenida com dieta e exercícios ou resolvida, em último caso, na mesa cirúrgica. Já o câncer abrange um conjunto de mais de 100 doenças diferentes, cujo denominador comum é a multiplicação desordenada de genes anormais. Há pouco mais de trinta anos a oncologia, o ramo da medicina que estuda o câncer, era uma disciplina desconhecida. Não se sabia, então, que o câncer é uma doença dos genes, as unidades bioquímicas responsáveis pelas características dos seres vivos. E que, por uma razão externa (agentes cancerígenos) ou interna (hormônios, sistema imunológico e hereditariedade), o gene sofre uma mutação e começa a se reproduzir de modo descontrolado.

Trata-se de um risco inerente a todos os organismos multicelulares vivos. Cada vez que uma célula humana se divide, ela precisa replicar seu DNA, o código genético da vida, com mais de 3 bilhões de caracteres. A divisão celular é governada pelo próprio DNA. Os erros ocorridos durante o processo - inevitáveis - são, felizmente, reparados por proteínas que exercem uma função equivalente, numa fábrica, ao setor de controle de qualidade. O câncer desponta quando esse sistema pifa - e as células malignas se multiplicam sem que nenhuma proteína as detenha. Daí em diante, elas empreendem uma marcha de destruição e morte. Primeiro se constituem num núcleo sólido. Depois criam sua própria rede de vasos sanguíneos para nutrir o tumor, um processo que é chamado de angiogênese. Essa é a hora fatal em que o tumor se habilitará a invadir, com seus tentáculos, os órgãos e tecidos vizinhos. A proximidade das veias acarretará outro subproduto terrível - a metástase. É o fenômeno em que as células cancerosas mergulham na corrente sanguínea e migram para o cérebro, o pulmão, o fígado ou qualquer outro órgão e, uma vez lá instaladas, formam um novo tumor.

Encarar um inimigo desse porte é uma missão mais espinhosa do que a enfrentada pelos cientistas que descobriram os antibióticos, por exemplo, ou as vacinas contra a paralisia infantil e o sarampo. Nesses casos, a ciência tirou proveito das enormes diferenças entre as células humanas e as bactérias e os vírus. No câncer, essa diferença não existe. O tumor é produto humano, não um inimigo que ataca de fora, um invasor. Células malignas são células do próprio doente, apenas com algumas alterações.

CURA DISTANTE - Uma nova frente de batalha, que já contabiliza algumas vitórias importantes, é a genética oncológica, um ramo da medicina que utiliza as descobertas da engenharia genética para desvendar os segredos das células que sofrem mutações e fabricam o câncer. Até encontrar essa chave, os cientistas estavam no escuro. Ninguém conhecia os segredos da mutação do gene ou o processo pelo qual as proteínas rompem o equilíbrio de uma célula, permitindo o surgimento do tumor. “Estávamos na situação do mecânico que abre o capô do automóvel e não sabe para que servem todas aquelas peças”, compara Sérgio Simon.

O conserto, ou a cura completa do câncer, ainda está distante, mas uma nova rota foi traçada. A idéia mais radical da terapia genética é simplesmente corrigir o erro no coração da célula. Como se faz isso? Fabricando cópias de genes normais e implantando-as nas células em que foram detectados os defeitos. É como consertar o automóvel trocando a peça quebrada por uma nova em folha. A ciência investe também na produção de drogas que interrompam a angiogênese - a fase em que o tumor produz seus próprios vasos sanguíneos para poder crescer. Pelo menos nove inibidores de enzimas (que levam à criação das veias) estão sendo testados nos Estados Unidos, em programas experimentais conduzidos por centros de pesquisa e hospitais especializados em oncologia. No ano passado foram registrados progressos também nas pesquisas com o interferon, uma proteína natural capaz de matar células cancerosas, e com a interleucina, um grupo de moléculas produzidas em pequenas quantidades pelas células e tidas como eficazes para desencadear a ação do sistema imunológico.

ÁLBUM DE FAMÍLIA - Mas, por enquanto, o resultado mais expressivo - e prático - da genética oncológica são os exames de sangue que permitirão descobrir se uma pessoa é ou não portadora de um gene defeituoso capaz de provocar câncer. Já está provado que a propensão a alguns tipos de câncer é transmitida hereditariamente. É o caso de certas variantes do câncer de intestino (cólon), doença que em todas as suas formas registra 600 000 novos casos a cada ano, e 300 000 óbitos. Certas modalidades de câncer de mama, o maior assassino de mulheres a partir dos 50 anos, também decorrem de uma mutação que é passada de geração para geração. Quem olhar para o álbum de família e verificar a existência de pelo menos um parente de primeiro grau com essas doenças deve ficar atento. Os cientistas já isolaram três genes relacionados com o câncer de mama, todos batizados de BRCA, iniciais em inglês de câncer de mama. Também identificaram genes causadores do câncer de cólon e até o fim do ano deverá ser isolado o gene relacionado com o tumor da próstata. As implicações dessas descobertas são dramáticas. Uma mulher com expectativa de vida de 80 anos, e que tenha um resultado positivo no teste para o BRCA1, tem 85% de possibilidade de desenvolver um câncer de mama, explica Simon. Se o teste der negativo, o risco cai para 10%.

Os exames, que estarão disponíveis nos Estados Unidos no fim deste ano, custarão até 1 500 dólares e provavelmente serão acessíveis a brasileiros através do setor de oncologia do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Não há dúvida de que esses exames terão um futuro atribulado - e com certeza desatarão pencas de controvérsias de ordem ética e legal. Mas abrem, de qualquer modo, a porta para a detecção precoce da doença, pois quem obtiver no teste um resultado positivo ficará de antena ligada para qualquer anormalidade. “Enquanto não houver avanços mais significativos na prevenção e no tratamento do câncer, a chave para a cura continuará sendo o diagnóstico precoce do tumor”, opina o professor Giannotti. Ele está certo. Num país como o Brasil, o perfil do câncer ainda está marcado pela falta de informação sobre a doença e pela dificuldade de acesso a diagnósticos - não é por acaso que as filas dos ambulatórios públicos estão repletas de mulheres com câncer de colo de útero, tumor facilmente diagnosticável com um teste simples e barato, o papanicolaou. “Isso, sim, tem cura”, diz Giannotti.


Cleiton Machado, 31 anos
Gerente comercial da TV Bandeirantes, Cleiton é um sobrevivente de longa data: descobriu que tinha câncer no testículo aos 20 anos, em 1984. Logo extirpou o testículo direito. Mas o câncer já se tinha espalhado para o abdome. Voltou à mesa de cirurgia para retirar quatro tumores e enfrentou seis meses de quimioterapia. Perdeu 20 quilos, mas sobreviveu. Não tem mais câncer

Orácio de Matos, 64 anos
Em janeiro de 1993, depois de cuspir sangue, Orácio, gerente de vendas numa firma de São Paulo, descobriu que tinha um tumor de 6 centímetros de diâmetro no pulmão direito. Fumante havia 45 anos, Orácio procurou o Hospital do Câncer, onde lhe extirparam 25% do pulmão e o submeteram a seis meses de quimioterapia. Hoje, ele segue sua rotina de trabalho, pescarias e passeios com o único neto


Marília Silberberg, 53 anos
Com antecedentes de câncer na família, a dona de casa Marília já fazia exames de mama antes dos 50 anos. Mesmo assim teve, em 1993, um tumor maligno no seio esquerdo, que extraiu. Após uma cirurgia de reconstituição mamária, fez três meses de quimioterapia, um autotransplante de medula e 25 sessões de radioterapia. “Pensei que ia morrer”, diz. Com o apoio do marido e dos filhos, voltou à tona: “Hoje, penso mais em aproveitar a vida”

Ana Gomes, 23 anos
Paulistana, Ana tinha 4 anos quando enfrentou o diagnóstico do raro câncer de rim (tumor de Wilmes). Ela agüentou uma cirurgia e dois anos de quimioterapia. Um mês depois, os médicos acharam outro tumor - no fígado. Precisou extrair 30% do órgão e encarar um ano adicional de quimioterapia. Hoje, Ana é química formada pela USP. “Aprendi a não desistir de lutar contra a doença”, diz


A fumaça que mata

O cigarro é causa direta de 30% de
todos os tipos de câncer no mundo

O cigarro é o maior assassino do século. Três em cada dez mortes por câncer se devem ao vício de fumar. Em números, isso significa 1,2 milhão de óbitos por ano, no mundo inteiro. Incluídas as mortes associadas a doenças circulatórias, como as cardíacas, o cigarro mata 3 milhões de pessoas por ano, o equivalente à população de duas Curitibas. O cigarro causa 95% dos casos de câncer de pulmão e está ligado a tumores das vias aéreas (boca, língua, lábios, garganta, laringe, faringe, esôfago), do pâncreas, dos rins, da bexiga e do colo do útero.

O risco de morrer de câncer de pulmão é 22 vezes maior para fumantes que para não fumantes. Quem fuma um maço ou mais por dia perde, em média, quinze anos de vida. Cada tragada joga no pulmão 4 000 substâncias químicas, 43 delas comprovadamente cancerígenas. “Fumar é a maneira mais segura de antecipar a morte”, diz o cancerologista Dráusio Varella, que perdeu um irmão de 45 anos, também oncologista, fumante, com câncer de pulmão. A maioria dos fumantes sabe disso, mas mesmo assim se considera a salvo. “Nunca achamos que vai acontecer conosco”, explica Varella. Quando acontece, é tarde demais para abandonar o vício.