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PROFUNDIDADE: A Era Saddam Hussein Reportagens de VEJA |
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de janeiro de 1991 Saddam, o vingador Ao desafiar
o Ocidente a um duelo Nas últimas semanas, circula de boca em boca pelo mundo árabe uma profecia que faz parte de uma antiga lenda popular. Os beduínos da Arábia, diz a profecia, se unirão ao Egito e às forças do Ocidente numa guerra contra um homem chamado Saddam, que ao final matará todos os seus inimigos, um a um. Fiéis à idéia fatalista de que o futuro já está determinado pelas mãos divinas, muitos árabes interpretam a lenda como o sinal da vitória de Saddam Hussein na guerra iniciada dia 16. E festejam cada dia de resistência aos bombardeios aliados como um sinal de que o destino será cumprido. Aos olhos de milhões de muçulmanos, espalhados do Mediterrâneo ao Oceano Índico, o líder iraquiano é uma figura bem diferente daquela que, no resto do mundo, a maioria das pessoas ficou conhecendo a partir da invasão do Kuwait. No Ocidente, ele é visto como o ditador sanguinário que antes de dormir gosta de ver fitas de vídeo com os fuzilamentos ordenados por ele mesmo, o guerreiro cruel que jogou gases venenosos contra seu próprio povo, o conquistador megalomaníaco que anexou um país vizinho e, diante da reação internacional, prometeu inundar o deserto com o sangue de seus inimigos. Para o presidente americano George Bush, ele é um novo Hitler. Para muitos árabes - talvez a maioria -, ele é um herói pelo qual valeria a pena dar a vida. Desde que o Iraque lançou, no segundo dia da guerra, o primeiro míssil contra Israel, os palestinos da Jordânia e dos territórios ocupados estão em festa. Comemoram as explosões no território israelense com a alegria de um gol na Copa do Mundo. "Eu não consigo dizer o quanto estou feliz", festejava na semana passada uma jordaniana, mãe de dois filhos pequenos. "Pela primeira vez na minha vida, vejo vítimas em Tel Aviv como resultado do ataque de um país árabe." Naser Jafer, um jovem palestino que mora em Amã, a capital da Jordânia, também estava exultante. "O mundo dizia que Saddam Hussein era fraco", afirmou ele ao repórter do New York Times, Alan Cowell. "Hoje ele provou que não é." A corrente de apoio ao Iraque se estende até países distantes como a Argélia, palco de concorridas passeatas pró-Iraque, ou a Tunísia, onde aviadores desafiaram o governo ao oferecer seus serviços para operações suicidas contra navios dos Estados Unidos. DAVI E GOLIAS - Não são poucos, é verdade, os árabes que detestam Saddam Hussein, temem seu apetite expansionista e aplaudem a aliança montada contra ele. Mas, nas ruas, o sentimento predominante é de simpatia para com o tirano de Bagdá. Debaixo das toneladas de bombas despejadas diariamente sobre o Iraque, o Golias que entrou pisando duro no pequenino Kuwait com seu Exército de 1 milhão de homens ganhou a aparência de um valente Davi, que enfrenta com garra os vencedores da II Guerra Mundial. "Nós não gostamos de Saddam", afirmou uma iraquiana entrevistada pela revista Time em Amã. "Mas quando vocês, americanos, mandam tropas ao solo árabe para agredir nosso povo, temos o dever de apoiá-lo." Ao desafiar o mundo para um duelo desigual nas areias do deserto, Saddam se apresentou como um messias que veio resgatar os povos árabes dos séculos de dominação - primeiro, sob o jugo dos turcos otomanos, depois, nas mãos das potências ocidentais, apontadas como culpadas pela pobreza da maioria e pela injusta distribuição dos lucros do petróleo. No solo fértil do ressentimento, ele passou a encarnar, aos olhos de sua torcida, o conflito milenar entre o Islã e as Cruzadas, o Oriente e o Ocidente. Não por acaso, a bem azeitada máquina de propaganda de Bagdá há anos se esmera em retratar Saddam como o herdeiro de um passado de glórias. Ora ele é comparado a Nabucodonosor, o imperador da Babilônia que arrasou Jerusalém seis séculos antes de Cristo, ora a Saladino, o califa que infligiu aos cruzados sua pior derrota. DESCAMISADOS - Esperto como uma raposa, Saddam Hussein conseguiu camuflar o verdadeiro motivo da invasão do Kuwait - seus tentadores poços de petróleo e uma saída para o mar - sob o tríplice manto de amigo dos palestinos, sentinela da fé e redentor dos descamisados. Ao agredir um país milionário, onde a riqueza costuma ser medida pelo tamanho das limusines, Saddam fez um agrado às massas despossuídas do Oriente Médio. "Nós não gostamos dos kuwaitianos", afirmou o egípcio Mohamed Fawzy, morador do Cairo. "Eles estão sempre em boates e cassinos. Só pensam em dinheiro e em compras", acrescentou. Os países árabes onde é maior o apoio à aventura militar iraquiana são justamente os mais pobres, como o Egito, a Jordânia e as nações subdesenvolvidas do norte da África. Dez dias depois da invasão, o ditador iraquiano tirou da manga do colete um segundo trunfo de propaganda, ao vincular a ocupação do país vizinho à sempre inflamável questão palestina. É claro que ele não invadiu o Kuwait para libertar os palestinos. Mas, com o gesto demagógico, tocou numa velha ferida do mundo árabe, humilhado pelos sucessivos fiascos militares perante Israel. De quebra, conquistou o coração dos palestinos ansiosos por um defensor, diante do silêncio ocidental e da recusa israelense em negociar a saída dos territórios que ocupou depois da guerra de 1967. Para completar o figurino, Saddam Hussein, que implantou no Iraque um dos regimes mais laicos do mundo muçulmano, vestiu o manto da religião. Convertido, da noite para o dia, num furibundo fundamentalista, denunciou a presença de tropas "infiéis" no solo sagrado da Arábia Saudita, a guardiã dos lugares santos do islamismo, e lançou um apelo à guerra santa contra o Ocidente: "Salvem Meca e a tumba do profeta da ocupação estrangeira", afirmou, numa mensagem flamejante, dias depois da invasão do Kuwait. Há três semanas, já às vésperas da guerra, Saddam chegou a inscrever na bandeira verde, vermelha e branca do Iraque a frase que é a pedra e toque do islamismo: "Alá é grande". TUDO PELO SOCIAL - Para disputar a liderança do mundo árabe, Saddam Hussein conta com um trunfo, além de sua ambição sem limites e o poder de fogo de seu Exército: seu regime, brutal no trato com os opositores, proporcionou à população um nível de vida relativamente confortável. Os problemas de moradia foram resolvidos, o consumo médio de calorias aumentou 59% em vinte anos e o analfabetismo caiu de mais da metade para apenas 11%. Isso ajuda a explicar a entusiástica acolhida que Saddam Hussein exibe em suas aparições pela televisão. "Saddam não é um ditador", afirmava, na semana passada, com zelo profissional, o embaixador iraquiano em Brasília, Qais Tawfiq AI Mukhtar. "Um ditador não pode andar pelas ruas como ele anda", acrescentou. Morador de uma mansão a apenas 500 metros da Embaixada do Kuwait que ele diz não existir mais, Tawfiq não quer nem ouvir falar em derrota. "Só quero informações sobre as batalhas que vencemos", garante. Como o triunfo aliado é tido certo, muitos já se perguntam o que acontecerá com o mundo árabe depois que os iraquianos forem expulsos do Kuwait. Para o jornalista egípcio Lufti Kholi, do diário semi-oficial Al-Aliran, do Cairo, Saddam Hussein já garantiu um lugar na galeria dos heróis árabes qualquer que seja o desenlace do conflito. "Se os americanos matarem Saddam apenas para ter o Kuwait de volta, ele se tomará um mártir", afirma. "E, morto, será ainda mais forte do que vivo." O tirano de Bagdá, obviamente, não se meteu nessa aventura apenas de olho nos futuros livros de história. Sua aposta mais provável é prolongar ao máximo a guerra, causar o máximo de baixas nas hostes inimigas e, assim, emergir ainda mais forte na derrota. Há quem ache essa estratégia inviável. "Os árabes respeitam, acima de tudo, os vencedores", afirma o professor americano Richard Pipes, especialista no assunto, citando um provérbio árabe que recomenda "beijar a mão que não se consegue morder". "Hoje" - diz Pipes - "essa mão pertence aos Estados Unidos." A essa altura do campeonato, as previsões de um cenário tranqüilo para o Oriente Médio do pós-guerra são tão arriscadas como as profecias apocalípticas que apontam Saddam como predestinado a triunfar. A única certeza é de que, enquanto resistir, o ditador iraquiano só tende a reforçar sua aura de herói no mundo árabe. Na Jordânia, onde 60% da população é palestina, 412 meninos recém-nascidos receberam nos últimos seis meses o nome de Saddam, pouco comum naquele país. Só nos primeiros cinco dias depois do início da guerra, vieram ao mundo 22 Saddam. |