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PROFUNDIDADE: A Era Saddam Hussein Reportagens de VEJA |
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de agosto de 1990 O tirano joga bruto Saddam
Hussein, o inimigo público Tudo estava caminhando bem demais nos últimos tempos. Caiu o Muro de Berlim, a Guerra Fria acabou, as superpotências podavam seus arsenais e, mesmo em lugares remotos como a Mongólia, que realizou há duas semanas sua primeira eleição livre, povos emergiam de longas noites de opressão para saborear o gosto inebriante da democracia. Aqui e ali, em rincões esquecidos do Terceiro Mundo, como Libéria e Trinidad Tobago, na semana passada, conflitos periféricos continuavam a ceifar vidas e muitos ditadores ainda detinham as rédeas do poder. Mas não por muito tempo, segundo parecia, e de maneira alguma com força suficiente para abalar o pacífico equilíbrio mundial. Mais cedo ou mais tarde, acreditava-se, o mundo inteiro se renderia à marcha inexorável da História rumo a um futuro de paz, democracia e economia de mercado. No final da semana passada, esse cenário cor-de-rosa parecia fadado a se dissipar como um sonho de uma noite de verão. O desmancha-prazeres que destruiu a doce embriaguez do pós-guerra fria se chama Saddam Hussein, mora no palácio presidencial em Bagdá, a capital do Iraque, e acumulou em onze anos no poder absoluto um prontuário policial de dar inveja aos maiores vilões da nossa época. Numa guerra relâmpago, o ditador iraquiano invadiu e ocupou o Kuwait, botou o governo dos emires para correr, provocou uma alta do preço do petróleo e mostrou na prática que, mesmo com a oposição conjunta dos Estados Unidos e da União Soviética, não há hoje força política ou bélica capaz de barrar sua política expansionista no Oriente Médio. O Iraque de Saddam não é um Panamá de Noriega, onde os Estados Unidos possam entrar com um punhado de fuzileiros navais. Isso porque o ditador iraquiano tem o hábito de colecionar armas. Ele não coleciona garruchas e escopetas como os aficionados do ramo, mas mísseis balísticos, aviões de guerra, tanques sofisticados e as proibidas armas químicas - um vasto arsenal manuseado por um Exército de 1 milhão de soldados, ao qual deverá se incorporar, num prazo de cinco a dez anos, de acordo com os especialistas no assunto, a temível bomba atômica. Mesmo sem a bomba, Saddam é hoje o maior perigo para a paz mundial. Na madrugada da quinta-feira passada, o tirano de Bagdá despachou 60 000 soldados para engolir o vizinho Kuwait e, dessa maneira, colocar a quinta parte de todas as reservas mundiais de petróleo sob seu controle pessoal. No lugar da família real do Kuwait, que fugiu para o exílio, o invasor instalou um governo fantoche de "revolucionários árabes" e ameaçou transformar o Kuwait num "inferno" se algum outro país, inclusive os Estados Unidos, intercedesse militarmente para pôr fim à aventura iraquiana. VOLTA SOB CONDIÇÕES - Do ponto de vista militar, Saddam ganhou a parada, sem a menor sombra de dúvida. Os focos de resistência foram debelados em poucas horas, com a morte de aproximadamente 200 soldados kuwaitianos. Nenhum país interveio em socorro à vítima indefesa e, já na sexta-feira à noite, o Iraque anunciava que poderia levar suas tropas de volta para casa no domingo, deixando, é claro, seus prepostos no governo do Kuwait. "O retorno do antigo regime está fora de cogitação", dizia a nota oficial anunciando os planos de retirada. As retaliações econômicas anunciadas pelos governos ocidentais, as mais duras já adotadas contra algum país desde o fim da II Guerra, se mostram que ainda é cedo para Saddam Hussein comemorar a vitória, também são um sinal de que a aproximação entre os EUA e a URSS não é suficiente para exorcizar definitivamente o fantasma da guerra e da chantagem militar da superfície do planeta. De certa forma, a ação de Saddam no Oriente Médio na semana passada tem parentesco com a de governos europeus no início do século, quando eles invadiam países vizinhos e colheram, no final das aventuras, a I Guerra Mundial. A aposta de Saddam é alta: ao assumir,pessoalmente ou através de um governo títere, o controle do 1,6 milhão de barris de petróleo que o Kuwait produz por dia, ele passa a deter nada menos que 20% das reservas mundiais do combustível 10% no país invadido e mais 10% no próprio Iraque. Com isso, o "Ladrão de Bagdá", como já começa a ser conhecido pelo mundo afora, se habilita a disputar o controle dos preços internacionais do produto, colocado a serviço de sua ambição de dominar todo o Oriente Médio. Uma situação nova, cujo grau de perigo podia ser medido, no final da semana, pela queda generalizada nas Bolsas de Valores e pelo aumento médio de 20% nos preços internacionais do petróleo. "Com o Iraque de posse de uma parcela maior no mercado do petróleo, não haverá como evitar os preços mais altos, com transtornos para toda a economia mundial", afirmou a VEJA o especialista francês Pierre Terzian, em Paris. BALÃO DE ENSAIO - Escaldado pelos oito anos da guerra contra o Irã, que terminou empatada em 1988 com o macabro placar de quase 1 milhão de mortos se somadas as baixas dos dois lados, Saddam Hussein aplicou contra o Kuwait a lição que aprendeu na guerra do golfo: só atacar o inimigo com a certeza de que ele é mais fraco. Na luta contra o Irã, o ditador iraquiano tentou aproveitar a confusão da derrubada do xá Reza Pahlevi pelos fanáticos muçulmanos xiitas para abocanhar urna fatia do vizinho, mas se deu mal. Os aiatolás iranianos, no comando de um país com 50 milhões de habitantes e um Exército poderoso, embora desorganizado, reagiram com uma fúria insuspeitada e quem acabou ficando na defensiva foi o próprio Iraque. Com o Kuwait, Saddam preferiu não correr riscos. Embora mais rico do que Alemanha Ocidental, com uma renda o capita de 14 000 dólares por ano, o Kuwait é tão pequeno quanto o Estado brasileiro o Sergipe. A capital, que também se chama Kuwait, é repleta de arranha-céus e shopping centers e, do 1,9 milhão de habitantes do país, apenas 650 000 nasceram lá mesmo - dois terços da população são conctituídos por imigrantes, quase todos de outros países árabes, encarregados dos serviços pesados que os endinheirados kuwaitianos não querem fazer. Eles também não pagam impostos, comem do bom e do melhor graças aos subsídios à governo à importação de alimentos e, claro, com tanto dinheiro não se sujeitam à dureza do serviço militar - seu liliputiano Exército tem apenas 20 300 homens. Saddam, evidentemente, tinha esse número na cabeça quando deflagrou a invasão. 0 Kuwait inteiro tem menos combatentes do que apenas uma das três divisões de 30 000 soldados que o Iraque havia deslocado para a fronteira na semana anterior, quando promoveu uma arrogante exibição de músculos para forçar o emir do Kuwait, Jaber Ahmed Sabah, a reduzir a cota nacional nas exportações de petróleo e, assim, viabilizar o aumento de preço que estava sendo discutido pelo cartel de países produtores, a Opep. Ninguém acreditava, então, que Saddam chegaria ao ponto de cumprir a ameaça de invasão, e reação internacional foi pífia naquele momento. Na prática, porém, a manobra intimidante funcionou como um sucedido balão de ensaio para a ofensiva fulminante desfechada na semana passada. PASSEIO DE TANQUE - Numa cópia em escala reduzida da blitzkrieg que levou Adolf Hitler a dominar metade da Europa no início da II Guerra, Saddam gastou apenas uma noite e uma manhã para ocupar o Kuwait, na invasão deflagrada apenas 24 horas depois de rompidas as negociações entre os dois países na capital Saudita, Jidá. O emir do Kuwait já concordado em pagar os 2,4 bilhões de dólares como compensação pelo que Saddam diz ter sido "roubado" pelos vizinhos e até em perdoar parte da dívida contraída pelo Iraque nos tempos da guerra contra o Irã, mas não aceitou entregar ao insaciável vizinho a estratégica ilha de Bubiyan, que lhe dá condições de acesso ao Golfo Pérsico. Era a senha para o tirano de Bagdá. Na madrugada de quinta-feira as forças iraquianas entraram no Kuwait como se estivessem fazendo um passeio. Os 125 quilômetros bem pavimentados que separam a fronteira da capital kuwaitiana foram percorridos em clima de festa: os tanques do Iraque, 350 no total, carregavam bandeiras e os soldados gritavam "Alá é grande" ao entrar na capital. A invasão pegou o Kuwait completamente desprevenido - o sono dos moradores da capital só foi interrompido pelos vôos rasantes de caças Mirage iraquianos, que iniciavam o bombardeio do palácio do emir. Ao amanhecer, as forças invasoras irromperam na cidade e, depois de algumas horas de combate, ocupavam o palácio semidestruído. O emir, chefe da família real que governa o Kuwait há 240 anos, só teve tempo de fugir, de helicóptero, para a Arábia Saudita. Seu irmão, o xeque Falid, não teve a mesma sorte. Ele era vice-presidente da Federação Internacional de Futebol, a Fifa, e ficou famoso durante a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, por invadir o gramado durante o jogo entre o Kuwait e a França, na tentativa de anular um gol dos adversários. Morreu ao tentar defender o palácio dos invasores, agora bem mais poderosos que os jogadores franceses. IMPASSE - A invasão do Kuwait foi tão rápida que os países que poderiam fazer alguma coisa para conter o Iraque se limitaram, num primeiro momento, a observar os acontecimentos, bestificados. A reação no mundo árabe não poderia ser mais desanimadora: a Arábia Saudita, cuja posição geográfica a torna séria candidata a receber a visita dos tanques iraquianos, limitou-se a fazer um bisonho apelo ao diálogo. A Jordânia justificou a invasão e a maioria preferiu endossar a convocação, pela Síria, de uma reunião de cúpula da região. Do lado do Ocidente, houve sobretudo perplexidade. Apenas dois dias antes da invasão, um alto funcionário do Departamento de Estado americano, John Kelly, estava tentando convencer o Congresso de que seria um erro impor sanções econômicas ao regime de Bagdá. "O Iraque é a maior potência na região", argumentava Kelly. Consumada a ocupação do Kuwait, as potências ocidentais se defrontavam com um dilema. Ficar de braços cruzados, com uma reação meramente retórica, enquanto um governo terrorista ameaça uma região estratégica e põe em risco o abastecimento de petróleo, equivaleria a abrir as portas do Golfo Pérsíco para o voraz apetite de Saddam. Já uma ação militar em defesa do país invadido, conforme pediram os próprios dirigentes kuwaitianos, seria uma temeridade. "Não estou considerando tal tipo de ação", afirmou Bush, indagado da hipótese militar. "E não a discutiria em público se estivesse", arrematou, ambíguo. Na sexta-feira à noite, estimulado por uma pesquisa de opinião pública segundo a qual 81% dos americanos apoiariam uma ação militar contra o regime de Saddam, Bush resolveu engrossar o tom de suas declarações, ao advertir que os EUA estavam prontos a intervir caso o Iraque se recuse a libertar os catorze americanos presos como reféns durante a ocupação do Kuwait ou na hipótese de uma agressão à Arábia Saudita. Para mostrar que não estava para brincadeira, Bush despachou mais um porta-aviões, o Eisenhower, para reforçar a frota de seis navios de guerra que já havia sido colocada de prontidão perto do mar territorial iraquiano. Na madrugada de sábado, o Pentágono anunciava o deslocamento de mais uma esquadra, com 2 000 fuzileiros navais. MALVINAS E APARTHEID - Bush, no entanto, está perfeitamente consciente da imensa distância entre suas palavras e a ação. A verdade é que a decisão de Saddam Hussein de lançar suas tropas contra o Kuwait estava longe de ser um ato de um general embriagado, como foi a ocupação das Ilhas Malvinas pelos militares argentinos em 1982. Ele calculou que ninguém se atreveria a um confronto direto com a mais poderosa máquina de guerra do Oriente Médio. Mesmo Israel, que há alguns anos reduziu literalmente a pó a primeira tentativa de Saddam fabricar a bomba atômica, com o bombardeio do reator nuclear iraquiano de Osirak, dificilmente poderia repetir a proeza, dada a tecnologia bélica hoje em mãos do regime de Saddam. Se o ditador iraquiano tentasse pôr em prática a bravata de "incendiar metade de Israel com armas químicas", os israelenses certamente varreriam o Iraque do mapa com as armas nucleares que construíram na surdina. Já numa guerra convencional, a opinião dos especialistas é de que Israel está bem preparado para se defender do Iraque, mas não para tomar a iniciativa do ataque. O que o tirano de Bagdá talvez não contasse é com o grau de repulsa que sua investida provocou no mundo inteiro - e as conseqüências daí decorrentes. Na Europa Ocidental, nos EUA e no Japão, os governos foram praticamente unânimes em anunciar retaliações que transformam o Iraque e o governo de fancaria instalado no Kuwait em verdadeiros párias internacionais - suas contas bancárias foram congeladas até mesmo na Suíça e na Alemanha, onde está depositada boa parte do seu dinheiro, e todo o comércio com os dois países do Golfo, suspenso, inclusive as importações de petróleo. Nas Nações Unidas, o Conselho de Segurança, formado por quinze membros, aprovava, com a abstenção do Iêmen, um país árabe não muito longe do Iraque, a adoção de um embargo econômico completo contra o regime de Saddam, a menos que suas tropas se retirassem imediatamente do Kuwait. O único país a sofrer tal punição foi, nos anos 70, a racista Rodésia, depois rebatizada, sob um governo negro, como Zimbábue. Nem mesmo a África do Sul, com seu execrado apartheid, sofreu sanções de tal envergadura. SEM TELEFONE - O ato mais significafivo de repúdio à agressão iraquiana na semana passada foi a declaração conjunta do chanceler soviético, Eduard Shevardnadze, e do secretário de Estado americano, James Baker. "Hoje, os governos da União Soviética e dos Estados Unidos dão um passo sem precedentes, chamando a comunidade internacional a juntar-se a nós na imediata suspensão das vendas de armas para o Iraque", afirmou Shevardnadze, reunido com o colega americano em Moscou. Para um pessimista, esse apelo pode soar como um mea-culpa tardio e inútil. As duas superpotências, afinal, estão entre os países que mais venderam armas a Saddam. Nesse seleto clube, aliás, se inclui como sócio de carteirinha o Brasil, para quem o Iraque se tornou uma espécie de bazar onde os exportadores brasileiros têm topado todo tipo de mercadoria, algumas lícitas, como frangos e Passats, outras nem tanto armamentos, munições, obscuros contratos de obras públicas com a empreiteira Mendes Jr.. Para um otimista, a declaração em Moscou será certamente um sinal alentador de que os perigos que rondam as esperanças de paz neste final de século podem ser conjurados. Pela primeira vez, soviéticos e americanos adotam uma posição comum diante de uma crise internacional. Se nem isso segurar o ensandecido manda-chuva iraquiano, aí sim o mundo poderá se lembrar, com saudade, dos bons tempos da Guerra Fria, quando pelo menos os botões da bomba atômica estavam fora do alcance de malucos como Saddam Hussein. |