EM PROFUNDIDADE: A Era Saddam Hussein
Reportagens de VEJA


    8 de agosto de 1990
A lógica do alucinado

Delírios babilônicos do frio ditador

Reza a historiografia oficial iraquiana que Saddam Hussein, 53 anos, começou sua carreira política como pistoleiro profissional - e nada indica que tenha abdicado de seu ímpeto inicial. Em 1979, quando assumiu o poder total no Iraque, derrubando o general Ahmed Hassan al-Bakr, do qual era a eminência parda desde o golpe de 1968, fuzilou pessoalmente 22 de seus antigos colaboradores, condenados por "conspiração" contra o regime. Cruel, mas calculista e esperto, Saddam nunca perdeu tempo matando aqueles que detesta - como os judeus ou os comunistas -, concentrando seu poder de fogo nos que podem significar uma ameaça a seu poder pessoal. Ao contrário de outros extremistas, Saddam demonstrou que sempre soube quando parar, o que ajuda a entender sua longevidade no poder de um país difícil de governar, cravado no coração de uma das mais turbulentas regiões do mundo.

Desconfiado da própria sombra e obcecado por questões de segurança, Saddam sofreu vários atentados, embarcando em um processo de isolamento cada vez maior. Hoje, ele vive cercado por dezenas de guarda-costas no palácio do governo, em Bagdá, com a mulher, Saffida, sua prima de primeiro grau e mãe de seus cinco filhos. O ditador iraquiano costuma dizer que não tem amigos, apenas agentes ou inimigos, e, no mais típico estilo mafioso, apóia-se em seus parentes para gerir os negócios de Estado. Grande admirador de uniformes, embora não tenha formação militar, ele escolheu como "número 2" do regime o ministro da Indústria Militar, Hussein Kamil al-Majid, que não por acaso é marido de sua filha Ghard. Seus familiares podem fazer virtualmente de tudo: Uday, um de seus filhos, há dois anos matou um guarda-costas a pauladas, mas nada sofreu.

A personalidade do tirano de Bagdá, na qual confluem traços de maluquice com os de um hábil articulador político, suscita julgamentos contraditórios. "Saddam Hussein é um homem com um ego enorme", analisou a especialista em assuntos iraquianos, Phoebe Marir, durante uma recente audiência no Congresso amencano. "Ele é um político e um tático habilidoso, que possui uma acurada compreensão da dinâmica de sua sociedade." A pedido do Mossad, o serviço secreto israelense, um grafólogo analisou em julho a letra de Saddam, sem saber de quem se tratava. "Este homem deve ser internado imediatamente. Toma decisões de forma apressada e manifesta uma tendência para mudanças radicais de ânimo. Está disposto a adotar decisões extremas, tem tendências violentas e é perigoso para seu meio ambiente", sentenciou o grafólogo.

HERDEIRO DO IMPERADOR - Se o ditador iraquiano adota o estilo tribal-mafioso para governar, o culto à personalidade instaurado por ele no país nada fica a dever ao estilo stalinista dos velhos tempos. Nas escolas, as criancinhas desde cedo aprendem a entoar o sugestivo refrão "Saddam, Saddam, daremos nosso sangue por você". Imensos painéis com seu retrato são espalhados em quase toda esquina de cidades do país, gerando até uma piada popular: "Qual a população do Iraque? Resposta: 34 milhões, sendo que são 17 milhões de pessoas e 17 milhões de retratos de Saddam". Um dos painéis mais exóticos é aquele em que o ditador aparece dando as mãos ao imperador Nabucodonosor (reinado: 605-562 a.C.), que colocou os judeus no cativeiro. A mensagem não poderia ser menos sutil: Saddam se vê como continuador e herdeiro de Nabucodonosor, um militar e estadista do qual se dizia "não ter oponentes até onde a vista alcança".

Uma das primeiras providências para se equiparar ao antigo soberano foi mandar construir, às margens do Rio Eufrates, uma réplica do antigo palácio da Babilônia, incluindo os celebérrimos jardins suspensos que Nabucodonosor edificou em homenagem à sua mulher, Amytis. Recentemente, a "descoberta" de uma árvore genealógica de sua família trouxe uma grata revelação: Saddam seria um descendente direto do profeta Maomé. Por trás dos delírios de grandeza e megalomania, contudo, está um dirigente político que nada tem de folclórico nem pode ser classificado no mesmo nível de um coronel Kadafl ou de um general Noriega. Em menos de dois anos, na surdina, o "descendente" de Maomé fez de seu país a maior máquina de guerra do Oriente Médio e suas jogadas políticas, longe de ser rompantes, fazem parte de uma estratégia pensada com frieza.

Antes de invadir a Europa, à cata do "espaço vital" germânico, Adolf Hitler assinou um pacto de não-agressão com a União Soviética, imobilizando um inimigo poderoso. Saddam Hussein, aplicado aluno de História, primeiro encarregou-se de assinar há meses um pacto semelhante com a Arábia Saudita, principal potência da região, para depois ocupar o nanico Kuwait. Durante a guerra contra o Irã, sua habilidade política lhe valeu o apoio de todos os países árabes exceto Líbia e Síria - e da maioria dos países ocidentais, além da União Soviética, os mesmos que hoje são ameaçados por esse Rambo das Arábias que se voltou contra seus criadores.

Depois de dois anos de relativo sossego, a partir do cessar-fogo com o Irã, Saddam voltou a agitar a região em março passado, quando mandou enforcar, como espião, Farzad Bazoft, repórter britânico que trabalhava para o jornal inglês The Observer. Dias depois, agentes iraquianos eram detidos no Aeroporto de Londres quando tentavam contrabandear equipamentos eletrônicos que serviriam como detonadores para bombas atômicas - um dos projetos mais queridos ao ditador. No mesmo aeroporto, 298 toneladas de tubos de aço polido foram apreendidas semanas depois, pouco antes de seu embarque para o Iraque, sob a suspeita de serem peças para a fabricação de um supercanhão com mais de 150 metros de comprimento. Saddam jura que os tubos eram para um oleoduto. Mas, como afirma outra piada de grande circulação entre os motoristas de táxi de Bagdá, "isto é um carro, porém, se Saddam disser que é uma bicicleta, é uma bicicleta".

TRIBO NO PODER - De origem camponesa e humilde, Saddam nasceu em Tikrit, ao norte de Bagdá. Nove meses depois, seu pai morria, e ele passou a ser criado por um tio. Em 1959, Saddam participou, ao lado de outros militantes de seu partido, o Baath, de uma conspiração para matar o então primeiro-ministro, Abdeck Karim Kassem. Descobertos pela polícia, Saddam e seus comparsas fugiram para o Egito, onde o futuro ditador estudou Direito. Só voltou ao Iraque em 1968, quando um golpe de Estado recolocou o partido no poder. Autoritarismo e tribalismo são dois componentes essenciais do Oriente Médio, e Saddam Hussein não foge à regra. Seus conterrâneos de Tikrit ocupam desde 1968 a maior parte dos postos-chave do governo e do Exército. "Não seria exagerado afirmar que os tikritis governam o Iraque através do Baath, mais do que o Baath governa através dos tikritis", observa Hanna Batatu, historiador iraquiano.

Apesar dessa predominância tribal, Saddam buscou disfarçá-la. Uma de suas providências, em meados dos anos 70, por exemplo, foi abreviar seu nome original, Saddam Hussein al-Tikrit, extirpando a origem do clã. Mesmo após a mudança do nome de Saddam, o serviço árabe da Rádio de Israel continuou referindo-se a ele como "al-Tikrit" durante anos para irritá-lo e lembrar aos iraquianos o caráter tribal de seu regime. Na semana passada, Saddam se comportava como um chefe tribal atacando a aldeia vizinha. Só que comandava um país e colocava os países ricos em estado de alerta.


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