23 de abril de 1997
Lições da longa marcha descalça

Depois da caminhada, do protesto e
da festa, chegou a hora da política

A rebeldia é a marca do MST. Os sem-terra não aguardam quietinhos as decisões da Justiça. Não fazem lobby para modificar as leis no Congresso. Não, nada disso. Eles tomam as terras primeiro, conversam depois. São gente brava, que invade o terreno onde se funda a ordem capitalista: a propriedade privada. Mas o final da marcha deles, na quinta-feira, em Brasília, foi uma maravilha. Pela primeira vez desde as manifestações pela saída de Fernando Collor, a capital serviu de palco para uma manifestação, de 40.000 pessoas, que contava com simpatias generalizadas.

Maiores que eles mesmos, os sem-terra servem de símbolo para o Brasil pobre e atrasado. A sua marcha, que lentamente foi chamando a atenção de todo o país, teve um quê de épico, ecoou as manifestações de Mahatma Gandhi pela independência da Índia. É difícil ficar contra eles, mesmo sabendo que seus métodos políticos têm um cerne antidemocrático. Afinal, são gente honesta, que quer trabalhar a terra, educar os filhos. E, com tanta terra sobrando, eles vagam, como assombrações, desde o tempo de Antonio Conselheiro. Como antipatizar com uma organização que leva, para o encontro com o presidente da República, uma sambista, um cacique com borduna e um bispo de bigode?

Depois de um clamoroso erro de cálculo e de educação política, de desprezar o poder de mobilização dos sem-terra, de falar de "primitivismo" e de "utopia regressiva" mesmo quando as pesquisas de opinião informavam que 80% da população quer a reforma agrária, o governo sentou-se à mesa para conversar. Teria sido melhor se, nesse momento, em vez de oratória, já tivesse medidas concretas para anunciar. Mas já é um passo. Toda vez que colocam os pés em palácio, os sem-terra ficam longe das pancadas e dos tiros da polícia. E é bom que, nem que seja de vez em quando, as realidades do Brasil pobre e atrasado possam ter vez e voz nos palácios.

Passada a marcha, a manifestação, a festa e a audiência, resta a pergunta: o que fazer? O que fazer com eles, os sem-terra, os pobres, os sem-nada? Responder à pergunta é dizer que Brasil se quer construir. Agora que foi dado o primeiro passo, está mais fácil seguir adiante na marcha que realmente interessa: a da resolução política do problema dos pobres que querem trabalhar e não têm condições.


O príncipe e os pés-rapados

Fernando Henrique recebe os sem-terra,
mas não promete reforma agrária

Expedito Filho

O Palácio do Planalto nunca promoveu uma audiência como a de sexta-feira à tarde. É provável que muita água role debaixo da ponte até que ocorra outra parecida. Estavam presentes uma sambista e um índio, mas um bispo de bigode foi barrado na última hora. No 3º andar, em torno da mesa oval de seu gabinete, o presidente Fernando Henrique reuniu-se com cinco ministros. No térreo, no horário combinado, apareceram os sem-terra, de camisa empoeirada e bonezinho vermelho. Nenhum usava sandálias Havaianas, uns poucos calçavam sapatos de couro, a maioria estava de tênis. Ninguém vestia paletó e gravata, mas o representante dos índios, o cacique Gerson de Souza Melo, dos pataxós - tribo que vive na região onde Pedro Álvares Cabral desembarcou, no sul da Bahia -, portava cocar de penas azuis e uma borduna.

O pessoal de cima queria receber 23 sem-terra. O de baixo queria entrar no gabinete com 26. Quando os do térreo concordaram em reduzir a comitiva, puderam tomar o elevador. Mas, lá em cima, queriam, de novo, entrar com os 26. A poucos metros da porta da sala do presidente, João Pedro Stedile, o principal dirigente do MST, ouviu um apelo de Milton Seligman, secretário executivo do Ministério da Justiça. "Assim não dá", disse Seligman. "Vocês vão ter de ceder pelo menos em um." Ao que Stedile respondeu: "Cá entre nós, qual a diferença de um a mais ou um a menos?" Seligman insistiu, e o bigodudo bispo dom Luiz Bassegio, num gesto de caridade cristã, abriu mão de sua vaga e o cacique pataxó pôde entrar - sem a borduna.

No gabinete, depois de rápida saudação e cumprimentos, Stedile disse que não estavam ali para uma troca de gentilezas. "Somos de um movimento de oposição ao governo", disse. "Então é bom que fique claro que as críticas partem de um movimento de oposição", rebateu Fernando Henrique, dando início a um tipo de diálogo que marcou todo o encontro - o que um falava, o outro rebatia. Foi assim durante uma hora e vinte minutos dessa audiência, como se estivessem vivendo uma fábula da História. Ao apresentar quem o acompanhava, Stedile fez questão de apontar para Antonio Carlos Spis, o presidente da Federação Única dos Petroleiros, que o governo enfrentou com tanques no ano passado. "O senhor e o seu governo maltrataram muito o Spis e os petroleiros", disse Stedile. Em seguida, apresentou a sambista Beth Carvalho, e houve um diálogo memorável:

- É uma artista e intelectual, e o senhor, como intelectual, sabe que são importantes. Pena que o senhor deixou de escrever - provocou Stedile.

- Eu não deixei de escrever. Você é que parou de ler - respondeu FHC.

Depois disso, Ênio Bonemberg, um sem-terra gaúcho de 32 anos que agora vive em Minas Gerais e andou 700 quilômetros a pé, leu um documento chamado Manifesto dos Caminhantes. Num tom contundente, lá pelas tantas Ênio disse: "Passamos por mais de 150 povoados e cidades. E vimos que eles também falaram mal do seu governo. Não se iluda com as pesquisas de popularidade. Isso é igual a campanha de sabão em pó". Em seguida, falou um dos mais aplicados dirigentes do MST, Gilmar Mauro, que é tão suave nas maneiras como firme nas propostas: "O Ministério da Reforma Agrária é um ministério de marketing". Beth Carvalho leu um manifesto de artistas a favor da reforma agrária, dando a Fernando Henrique a chance de usar o seu truque retórico por excelência - o de incorporar o argumento do adversário. Ele disse que até assinaria o manifesto dos artistas, mas esclareceu que não estavam ali para discutir questões gerais da economia. "Aqui não é o foro adequado, e para discutir isso precisa-se de dados", afirmou. Em seguida, defendeu seu governo: "Não aceito dizerem que não estamos fazendo nada. Podemos até estar fazendo mal, mas estamos fazendo alguma coisa".

Em busca de um exemplo da atividade do governo, o presidente falou do Lumiar, que prevê equipes de assistência técnica aos assentados. Fernando Henrique disse que o Lumiar já recebeu 21 milhões de reais no ano passado e terá mais 60 milhões de reais neste ano. Lembrou que seu governo distribuía renda, que era pouco, mas pelo menos revertia a tendência de os ricos ficarem mais ricos e os pobres mais pobres. Depois, afirmou que concordava com tudo o que os sem-terra disseram sobre reforma agrária. "Até me alio, mas temos de ter propostas concretas dentro da realidade e do orçamento." Fernando Henrique propôs a formação de uma "comissão" entre governo e sem-terra para discutir a reforma agrária. Depois que ele terminou de falar, sempre fazendo questão de cobrar dados e números concretos, Stedile disse: "Presidente, o senhor está mal informado. Esse projeto Lumiar nem saiu do papel". Em seguida, o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, pediu a palavra para dizer que, de fato, o projeto Lumiar ainda estava em gestação.

A audiência de sexta-feira terminou assim, marcando o fim de uma jornada em que o governo pagou o preço de se fazer de morto diante de um movimento que tinha o apelo de falar a milhões de brasileiros. A semana mostrou o governo de Fernando Henrique numa situação poucas vezes vista - sofrendo uma derrota política, obrigado a abandonar posições, a se desdizer. "Não convém que um foragido da polícia, acusado de homicídio, seja recepcionado no Palácio do Planalto em audiência", vazou a assessoria de imprensa do Planalto, referindo-se ao líder José Rainha Júnior. Ele foi um dos 25 sem-terra recebidos no palácio na sexta-feira. "Não permitiremos acampamentos na Esplanada dos Ministérios", disseram. As barracas de lona foram montadas, e ali 1.500 sem-terra irão dormir e cozinhar até 1º de maio. O governo também não queria foices nas manifestações - elas apareceram.

Na véspera da audiência, quando uma passeata de 40.000 pessoas - apenas 2.000 sem-terra - desfilou pela Praça dos Três Poderes, o presidente e seus ministros fizeram o possível para fingir que nada tinham a ver com o assunto. Durante toda a manifestação, Fernando Henrique ficou em seu gabinete, no Planalto. A fachada do prédio se debruça sobre a Praça dos Três Poderes, mas, como o gabinete presidencial fica numa lateral, Fernando Henrique pôde argumentar: "Não, não vi. Inclusive daqui não dá para ouvir nada", disse, depois, a fotógrafos. O ministro da Agricultura, Arlindo Porto, só despachou pela manhã. Um pouco antes do almoço, retirou-se do ministério. Foi para casa e não voltou. No final da tarde, embarcava para São Paulo sem ver a manifestação. O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, despachou normalmente, mas, na hora do almoço, enquanto estudantes faziam barulho debaixo de sua janela, mudou-se para outra sala para não ser incomodado.

O ministro dos Transportes, Alcides Saldanha, até que penou no trânsito quando ia para casa almoçar. O trajeto, normalmente feito em quinze minutos, no dia da manifestação consumiu-lhe uma hora. Quando voltou, aproveitou a agenda livre para resolver pequenos problemas e ler documentos que estavam acumulados em sua mesa. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, limitou-se a um comentário exagerado: "Parece maio de 68, na França". Na terça-feira, porém, Malan protagonizou uma cena e tanto. Quando uma passeata de metalúrgicos estacionou em frente do ministério gritando palavras de ordem contra o desemprego, Malan almoçava com assessores e convidados. Pelas tantas, o barulho atrapalhava qualquer conversa. A reação do ministro foi uma surpresa: nenhuma. Malan continuou falando baixo, como sempre, embora fosse quase inaudível.

Em outubro do ano passado, a Embaixada do Brasil no México informou, via Itamaraty, que os sem-terra brasileiros tinham anunciado, num encontro internacional patrocinado por guerrilheiros zapatistas, que fariam uma marcha do interior do Brasil até Brasília. Várias colunas se mobilizariam de cada canto do país para um grande ato pela reforma agrária. O governo apostou que era bravata, até porque a decisão de patrocinar a aventura fora comunicada num congresso em plena floresta, com militantes, homens e mulheres, mascarados, à imagem do folclórico subcomandante Marcos e seu cachimbo. O máximo que o governo providenciou foi um monitoramento das atividades do MST, sob a responsabilidade do chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Alberto Mendes Cardoso. Militar de fala gentil, o general Cardoso tinha sido destacado pelo presidente Fernando Henrique para visitar Eldorado dos Carajás depois do massacre do ano passado. Ali, o general conversou com lideranças locais e, de lá para cá, fez visitas a sete acampamentos e áreas de conflito. Em paralelo, encomendou aos 900 homens que trabalham nas doze agências regionais da inteligência do governo uma atenção especial com os sem-terra. Todos os dias, às 6 horas da tarde, um relatório de trinta páginas aterrissava na Casa Militar, dando conta, entre outros assuntos, das atividades do MST. Dessas trinta páginas, o general operava a confecção de um resumo de seis a oito páginas, que enviava ao presidente, às 8 horas da noite.

Homem de confiança do presidente, o general Cardoso tinha um controle minucioso do que aconteceu nos dois meses que durou a marcha dos sem-terra. Sabia, por exemplo, que as colunas, que começaram infladas pelo entusiasmo, aos poucos, com a exaustão, os problemas de indisciplina e de saúde dos caminhantes, minguavam. A um mês da chegada dos sem-terra a Brasília, o general dizia: "Agora são apenas 2.000 sem-terra andando". Estava certo. As três colunas que chegaram a Brasília somavam pouco mais de 1.500 homens, mulheres e crianças sujos, maltratados e com os pés em frangalhos dentro de sandálias de borracha. As informações do general vinham do gabinete do coronel da reserva Ariel da Rocha De Cunto, chefe da Subsecretaria de Inteligência. Comandando uma rede de agentes, colaboradores, informantes, consultores e infiltrados, o coronel mantinha o Palácio do Planalto em dia com as andanças dos sem-terra. Recrutados nos acampamentos, os informantes do governo embolsam a quantia de 200 reais por mês. O MST sabe de sua existência e tem razão em protestar contra ela - já que os fazendeiros, que dispõem de armas bem mais poderosas, não são vigiados com a mesma atenção. Mas o que se fez com um estudante, um metalúrgico e uma professora, na semana passada, foi uma estupidez autoritária. Sem dar aos suspeitos a chance de se defender e se explicar, o MST submeteu os três a uma vexatória sessão de execração pública.

Mesmo confiando que a marcha dos sem-terra não contaria com a presença de mais de 10.000 pessoas, Brasília preparou uma bela recepção policial-militar: um esquema de segurança que envolveu 5.000 soldados do Exército aquartelados e 4.000 PMs da capital nas ruas. Foi há pouco mais de três meses que o governo começou a negociar a presença do MST em Brasília. Os próprios sem-terra tiveram a idéia de procurar a vice-governadora do Distrito Federal, Arlete Sampaio, para discutir como seria a manifestação. Cobrado pelo MST, que reivindicava um apoio claro do governo petista à marcha, o governador Cristovam Buarque disse que não podia: "Sou governador de Brasília, e a cidade tem gente de direita e de esquerda. Não posso".

Cobrado pelo governo federal, que queria saber o que sua PM iria fazer para impedir qualquer baderna, Cristovam lançou a teoria da segurança relativa: "Se eles vierem com paus, a gente vai com revólver. Se vierem com revólver, a gente vai com metralhadora. Se vierem de metralhadora, a gente vai de bazuca". O governador esqueceu que sem-terra gosta, mesmo, é de foice, e só para mostrar para fotógrafos. Seligman, que falava pelo governo nessa negociação, disse que o Planalto não queria as foices. Cristovam lembrou que não se podia proibir os sem-terra de ostentar uma ferramenta de trabalho que também é seu símbolo político. A discussão só se resolveu quando o presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães, interferiu, com uma raposice: "Deixa uns 200 sem-terra irem com foice. Eles se juntam, posam para fotos e está tudo bem". Assim foi.

Na segunda-feira passada, a apenas três dias da chegada da marcha, um encontro providencial aplacou as dúvidas restantes sobre as intenções dos manifestantes. Um jantar na casa do diretor da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, em homenagem à escritora sul-africana Nadine Gordimer, ativista dos direitos humanos e Nobel de Literatura, reuniu em uma mesma mesa o novo secretário de Direitos Humanos, José Gregori, Milton Seligman e João Pedro Stedile. "É preciso muita atenção com os provocadores. Vocês têm a perder, os radicais, não", advertiu Gregori. "Tudo será muito tranqüilo, na lei, com ordem", assegurou Stedile.

Até a semana passada, imaginava-se dentro do Palácio do Planalto que a questão da terra tinha sido artificialmente inflada pelo massacre de Eldorado dos Carajás, quando dezenove sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar paraense. Depois, quando em vez de refluir, a demanda pela reforma agrária recrudesceu, a culpa foi da novela O Rei do Gado, que colocou trabalhadores sem-terra glamourizados no horário nobre da Globo. O ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, era telespectador assíduo da novela de Benedito Ruy Barbosa. Até telefonemas foram trocados entre os dois. A preocupação do ministro era que o folhetim pudesse tornar atraente demais o MST. Ele queria que a novela retratasse um movimento pela terra bem-comportado, dentro das regras do jogo tucano. Ou seja, nada de invasão de sedes do Incra, bandeiras vermelhas e conflitos no campo.

Na quarta-feira, quando se fechavam os termos da reunião que ocorreu na sexta no Palácio do Planalto entre governo e sem-terra, os líderes do MST exigiam que Jungmann fosse colocado a escanteio. Fora da reunião, portanto. A amigos, Jungmann costuma dizer que anda no fio da navalha. Odiado pelo MST, ele também enfrenta resistências na área econômica do governo, que fecha a mão na hora em que a conversa é liberar mesmo poucas verbas para assentamentos. Seguindo a toada presidencial, Malan e o ministro do Planejamento, Antônio Kandir, nunca fizeram segredo de suas convicções em relação à reforma agrária: é dinheiro perdido.

Em conversas privadas, Jungmann diz sofrer com a arrogância de partes do governo, que subestimam a reforma agrária. Há um mês, em encontro com o presidente Fernando Henrique, o ministro da Reforma Agrária reclamou de seu isolamento dentro do governo. Choramingou que nem nos episódios de violência contra o trabalhador rural tinha apoio de colegas de ministério. "Ninguém vem em meu auxílio. Nem o Jobim, que é ministro da Justiça. Eu fico me desgastando sozinho", reclamou. Fernando Henrique concordou, mas ponderou que Jobim estava deixando o governo e não poderia expor-se. No mesmo encontro, porém, apontava um cenário otimista, ao menos para FHC. Dizia que, com a perspectiva de reeleição, o quadro da reforma agrária mudara. A marcha dos sem-terra perderia visibilidade, depois cairia na passagem. Num almoço com o presidente no Alvorada, traçou esse quadro e sugeriu ao presidente que aceitasse receber a marcha, já que, com o tempo, ela se desmancharia no ar. Errou feio. A marcha não cresceu com os sem-terra. Não era deles a maioria das vozes que gritavam na Esplanada dos Ministérios. Era de metalúrgicos, desempregados, funcionários públicos, estudantes. Pouco importa. Nunca a reforma agrária chegou tão perto do poder.

 
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