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Publicado em 6 de março de 1996
Eles
não usam INSS
Para
aprovar a mudança na Previdência,
o governo conta com a força da bancada
do pijama, que tem 141 integrantes
e pensões de até 19 000 reais
Nesta quarta-feira, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso
(ex-professor da Universidade de São Paulo, aposentadoria
de 5 450 reais por mês) enfrenta sua hora da verdade no Congresso.
Elaborado pelo ministro Reinhold Stephanes (ex-funcionário
da prefeitura de Curitiba, aposentadoria de 3 000 reais por mês),
o projeto de reforma da Previdência chega ao plenário
da Câmara dos Deputados para debate. O projeto acaba com o
adicional de 20% a 40% que os funcionários públicos
recebem ao se aposentar e elimina as aposentadorias especiais para
juízes, procuradores, jornalistas e aeronautas. Na modificação
de maior impacto, o governo exclui da aposentadoria os 30 milhões
de brasileiros que pegam no batente sem carteira assinada, cria
mais exigências para quem se encontra na fila de benefícios
e não aponta nenhuma perspectiva de melhoria para a pensão
do brasileiro comum, que, ao envergar o pijama, embolsa em média
125 reais por mês.
Em
sua primeira fase de debates, a reforma da Previdência será
examinada pela Câmara dos Deputados, cujo presidente é
a estrela do PFL da Bahia, Luís Eduardo Magalhães
(ex-deputado estadual, aposentadoria de 2 000 reais, obtida quando
tinha 31 anos de idade, suspensa às pressas em outubro de
1994, depois de a pensão vir a público). Na etapa
seguinte, a discussão vai para o Senado, onde os trabalhos
serão dirigidos pelo presidente da Casa, o senador José
Sarney, do PMDB do Amapá (ex-diretor do Tribunal de Justiça
do Maranhão e ex-governador do Estado, duas aposentadorias,
que somam 15 100 reais). O brasileiro comum costuma aposentar-se
aos 52 anos de idade. Sarney conseguiu o feito de aposentar-se aos
40. Já faz, portanto, 26 anos que vestiu o pijama pela primeira
vez. Por isso, costuma-se dizer em Brasília que está
aposentado há tanto tempo que já poderia pedir aposentadoria
de sua aposentadoria.
A MAIOR
BANCADA - Com as máquinas ligadas para uma votação
renhida, disputada voto a voto, a reforma da Previdência encontrará,
em plenário, uma bancada imponente: a dos parlamentares aposentados,
que se revelou gigantesca num levantamento feito por VEJA nas duas
últimas semanas. VEJA ouviu 503 dos 513 deputados e todos
os 81 senadores - diretamente ou por meio de sua assessoria. O objetivo
era saber quantos congressistas são aposentados, quantas
aposentadorias têm e quanto embolsam no final do mês
- isso sem contabilizar a mordomia do Instituto de Previdência
dos Congressistas, IPC, em que se garante aposentadoria de 2 000
reais para quem completa oito anos de mandato, e que os parlamentares
recebem apenas no fim da carreira. A bancada dos aposentados tem
34 senadores e 107 deputados, num total de 141 políticos.
Eles
recebem, em média, proventos de 3 600 reais por mês,
quase trinta vezes mais do que a aposentadoria média do INSS,
e formam a maior bancada do Congresso. Maior que o PMDB, o partido
número 1 da Casa, e que tem 50% mais votos do que a bancada
dos ruralistas, considerada a mais bem articulada locomotiva de
interesses do Parlamento. Dessa turma, 115 engordam o salário
de deputado ou senador - 8 000 reais - com uma aposentadoria. Outros
22 possuem duas aposentadorias. Três parlamentares embolsam
três. São eles: os senadores Epitácio Cafeteira,
do PPB maranhense (ex-funcionário do Banco do Brasil, ex-governador
do Maranhão e ex-contribuinte do INSS, aposentadorias que
somam 11 000 reais), e Darcy Ribeiro, do PDT do Rio (ex-professor
da Universidade do Rio de Janeiro, ex-reitor da Universidade de
Brasília e ex-funcionário da Funai, com 6600 reais
mensais), e o deputado Alberto Silva, do PMDB piauiense (ex-engenheiro
da Estrada de Ferro Central do Brasil, ex-governador do Piauí
e ex-contribuinte do INSS, 6 400 reais por mês). O mais aquinhoado
é o deputado Franco Montoro, tucano paulista (ex-advogado
da Procuradoria de Assistência Judiciária do Estado,
ex-professor de direito da UnB, da PUC e da USP, 1 400 reais) que
faz jus a quatro aposentadorias, embora só receba uma, essa
de 1 400 reais, doando as demais. A faixa de campeão, no
entanto, vai para um ilustre integrante da família das duas
aposentadorias. É o deputado do PFL gaúcho Jair Soares
(ex-dentista da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
e ex-governador do Estado, 19 000 reais), que ganha cinco vezes
mais que a média dos demais colegas aposentados.
Entrevistando
os 141 parlamentares de pijama, VEJA descobriu uma curiosidade política.
Eles ganham bem, já estão com uma velhice risonha
assegurada e ainda terão direito a pensão do IPC quando
o eleitorado resolver mandá-los de volta para casa. Se conseguirem
passar 32 anos em Brasília, terão direito a uma pensão
integral, de 8 000 reais. No debate sobre a Previdência, a
maioria dos já aposentados entra no plenário para
apoiar a proposta de passar a faca nos benefícios destinados
ao cidadão comum. Conforme o levantamento, noventa aposentados
do Congresso apóiam o projeto de reforma, 28 se declaram
indecisos e os demais são contra. Nem de longe são
números decisivos para uma votação - pois o
plenário das duas casas é formado por 594 parlamentares
-, mas não deixa de ser um sintoma das relações
que marcam o convívio dos políticos brasileiros e
seu eleitorado.
Existem
tubarões da aposentadoria nos dois campos do plenário.
Por motivos até hoje obscuros, Jair Soares entrou na discussão
da reforma como aliado do Planalto, que o instalou na presidência
da comissão encarregada de discuti-la, mas desentendeu-se
com o governo em clima de ópera-bufa e agora anuncia que
irá votar contra a proposta. A petista do Rio Maria da Conceição
Tavares (ex-professora da Unicamp e da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, aposentadoria de 8 200 reais) e o petista de São
Paulo Hélio Bicudo (ex-procurador, aposentadoria de 8 000
reais) apertarão o mesmo botão do placar eletrônico
que o ex-ministro milionário. Na fileira dos indecisos, senha
que no Congresso costuma identificar candidatos a um conveniente
acordo de última hora com o Planalto, encontra-se Sarney
e também o senador José Ignácio Ferreira, tucano
capixaba (ex-promotor público, ex-deputado estadual, aposentadoria
de 7 000 reais) que faz questão de dizer que está
refletindo sobre o tema.
Autor
do texto que será submetido a votação, o deputado
do PMDB do Amazonas Euler Ribeiro (ex-conselheiro do Tribunal de
Contas, aposentadoria de 6 000 reais) jura que defenderá
a proposta com unhas e dentes. Terá a seu lado uma galeria
de economistas de ar severo, como o deputado do PPB do Rio de Janeiro
Francisco Dornelles (ex-Receita Federal, aposentadoria de 6 500
reais) ou mesmo de irônica superioridade intelectual, como
Roberto Campos (ex-embaixador, aposentadoria de 4 200 reais). O
maior apoio ao governo vem do PPB e do PFL, justamente aquelas bancadas
que exibem as aposentadorias mais gordas: 4 290 reais. É
do perfil dessas duas legendas ser duro na hora de cortar gastos
e defender medidas austeras. Haja Custo Brasil - na aposentadoria
dos outros.
Não
há dúvida de que a Previdência brasileira necessita
de uma reforma, capaz de colocar sua contabilidade nos trilhos e
alavancar recursos para as próximas décadas (veja
quadro à pág. 25). Mas é uma lástima
que o assunto esteja sendo discutido num ambiente viciado, no qual
o Congresso se encontra numa situação confortável
demais para pedir sacrifícios a quem quer que seja. Nos Estados
Unidos, é proibida a acumulação de aposentadorias
públicas. A regra vale também para os políticos.
Na França, onde os políticos se aposentam após
37 anos e meio de serviço e não antes dos 65 anos
de idade, os proventos não ultrapassam um valor equivalente
a 2 700 reais. Também são mais equilibrados - a menor
aposentadoria paga no país vale a metade dessa quantia. Mais
dinheiro, só contribuindo para a previdência privada.
Chega
a ser divertido conversar com alguns aposentados profissionais às
vésperas da reforma da Previdência. Ouça-se
o campeão Jair Soares:
- Meus
mais de quarenta anos de trabalho justificam minhas aposentadorias.
Sou qualificado. Tenho quatro profissões, sou dentista, advogado,
corretor de imóveis e político. Fiz curso no exterior
e o Estado investiu em mim. Fui eleito com meu trabalho como governador.
Só estou cumprindo a lei.
Ouça-se
o vice-campeão José Sarney:
- Todas
as minhas aposentadorias foram requeridas dentro da lei. Isso é
da lei, se mudar a lei tudo bem, acato, não fui eu quem criou
a lei.
Ouça-se
Euler Ribeiro:
- Me
aposentei pela lei vigente hoje. Sou aposentado porque contribuí.
Não roubei, não existe nada de imoral. Não
fui eu que fiz as leis atuais.
Não
existe nada de ilegal na aposentadoria dos deputados e senadores.
Mas existe alguma coisa que incomoda nesse dinheiro que se recebe
a título de aposentadoria quando se segue trabalhando. Ainda
mais quando a aposentadoria, como a que Sarney recebe como ex-governador
do Maranhão, foi engordada por tantos reajustes com o passar
do tempo que se tornou até maior que o salário da
titular atual do cargo, sua filha, Roseana (o aposentado recebe
9 600 reais; a titular, 6 900 reais). Outro elemento desagradável
é quando esse trabalho rende, por si, um bom salário
de 8 000 reais, e quando se sabe que a idéia de aposentadoria
nasceu, no século passado, com a finalidade de amparar a
velhice e não de confortar a esperteza nem remunerar o privilégio.
"Aposentadoria é uma compensação para
o trabalhador que não teve sobras para guardar e garantir
um futuro tranqüilo e um benefício ao qual deveriam
ter acesso os que já não conseguem, por idade ou invalidez,
produzir o próprio sustento", lembra o jurista José
Alfredo Baracho, professor da Universidade Federal de Minas Gerais.
Procurado
por VEJA, o presidente do Congresso, Luís Eduardo Magalhães,
deu três versões diferentes sobre sua pensão
como deputado estadual. Na primeira, disse que jamais tocara no
dinheiro, e teria renunciado ao benefício em 1987, exatamente
no ano em que teria direito a recebê-lo. Numa segunda conversa,
Luís Eduardo contou que havia pensado melhor e admitiu que
recebeu a pensão por alguns anos, mas renunciara a ela "lá
por volta de 1991, 1992". Numa terceira versão, disse
que só parou de receber a pensão em outubro de 1994.
Nessa época, como se sabe, armava-se o grande vôo de
sua carreira - emplacar a presidência da Câmara com
o apoio de Fernando Henrique, já favorito no pleito presidencial
-, e a prudência recomendava que se evitassem vexames em público.
"Eu me confundi", explica Luís Eduardo. São
situações embaraçosas, mesmo quando a quantia
envolvida não é muito alta. O senador Antonio Carlos
Magalhães, pai de Luís Eduardo, tem aposentadoria
de 600 reais como "professor da faculdade de medicina"
da Bahia. Conta o folclore da campanha de 1990 que um adversário
prometeu entregar um automóvel zero-quilômetro a qualquer
pessoa que provasse ter sido aluna do senador. Ninguém apareceu
para pegar o carro.
O deputado
de Brasília Jofran Frejat (ex-legista do Instituto Médico
Legal de Brasília e ex-médico da Fundação
Hospitalar do Distrito Federal, 8 000 reais) explica sua aposentadoria
com o argumento da competência profissional:
- Para
ganhar o que ganho, a pessoa tem de estudar o suficiente para ser
aprovada no vestibular de medicina, fazer seis anos de curso, depois
outros dois de residência, fazer pós-graduação
no exterior, trabalhar 33 anos como médico, enfrentar quinze
anos de plantões no dia de domingo, ir trabalhar em dois
órgãos de saúde e tornar-se diretor de um deles.
A deputada
amazonense Alzira Ewerton, do PPB (ex-juíza do Tribunal Regional
Eleitoral do Amazonas, 6 000 reais), de 43 anos, aposentada há
três, diz que defende seu provento porque não quer
parecer hipócrita:
- Não
se pode querer que um aeronauta e um professor primário tenham
o mesmo tempo de aposentadoria que o engravatado da cidade. Não
se pode tratar todo mundo como igual. Sou contra a hipocrisia.
Alguém
é a favor da hipocrisia? Ninguém. O senador Esperidião
Amin, do PPB de Santa Catarina (ex-governador, 6 000 reais), explica
sua aposentadoria, ou, melhor, "verba de representação
por ter sido governador", como prefere dizer, da seguinte forma:
- Ela
(a verba de representação) diz que posso exercer com
tranqüilidade o cargo de governador, sem ter de roubar, vergar
a espinha, me submeter a interesses econômicos ou me preocupar
em fazer um bom negócio quando estou governando o Estado.
Nem
todo mundo acha esses 6 000 reais tão necessários
para não roubar nem vergar a espinha. Ex-governador do Rio
Grande do Sul, o senador do PMDB Pedro Simon também teria
direito à mesma "verba de representação"
de Esperidião Amin. Também poderia receber outra "verba
de representação" como ex-deputado. Mas Simon
não recebe nada. "Já usei a aposentadoria uma
vez, estava sem mandato e não tinha emprego. Mas agora não."
Também é instrutivo conversar com os deputados aposentados
sobre outro assunto. A situação do Instituto de Previdência
dos Congressistas, caixa de mordomias que entrou no debate em clima
de escândalo mas que, se depender do plenário e das
negociações da semana passada, irá ficar como
está.
Para
cada contribuição de 800 reais mensais que um deputado
coloca em sua contribuição ao IPC, o caixa do governo
coloca 1 600. Isso permite que, após oito anos de contribuição,
eles possam voltar para casa com uma aposentadoria de 2 000 reais
por mês, até o fim da vida. Com os cofres abarrotados
e um patrimônio de 140 milhões de reais, o IPC se permite
emprestar dinheiro a juros camaradas para que os deputados possam
comprar automóvel zero-quilômetro, sempre em 36 suaves
prestações. Também assegura pensão às
viúvas de parlamentares. Caso fiquem órfãos,
seus filhos têm direito a 50% da pensão paterna até
completar 21 anos. É uma injustiça. Se quisessem obter
uma aposentadoria semelhante mas, como qualquer cidadão,
fossem bater às portas de um fundo de previdência privada,
os deputados teriam de contribuir com 3 600 reais durante oito anos.
Já aposentadorias gigantes como de José Sarney e Jair
Soares, que não saem do IPC mas têm a mesma fonte original
- o cofre público -, não estão disponíveis
na maioria dos fundos privados de pensão. Como vivem com
o dinheiro de cidadãos de carne e osso, esses fundos sabem
como é difícil alguém planejar uma aposentadoria
nesse valor. Nos poucos bancos capazes de aceitar um cliente com
tantas pretensões, seriam cobrados 3 000 reais, durante longos
24 anos, para pagar uma pensão de 15 100 reais, como a recebida
por Sarney. Para se conseguir os 19 000 mensais de Soares, seria
preciso pagar 2 700 reais durante trinta anos.
Na
versão original do projeto de reforma da Previdência,
propunha-se a extinção do IPC. Ao passar pelas mãos
do relator Euler Ribeiro, essa proposta foi suprimida. Ele se diz
favorável à criação de fundo de pensão
para substituir o IPC, mas acha legítimo, em função
de acordos de plenário, que o governo dê a cada deputado
a quantia de 1 600 reais mensais. Sua idéia é tirar
o assunto de discussão nesta semana e deixar que o debate
seja feito mais tarde - época em que o eleitorado atingido
pela reforma da Previdência já não estará
prestando tanta atenção ao que se passa em Brasília.
Mas Euler acha inaceitável aposentar o trabalhador que não
pagou a Previdência e não suprimiu a proposta de excluir
os sem carteira assinada. "Aposentadoria não é
esmola. Só deve ganhar quem contribui", diz o relator.
"Os informais têm de contribuir", completa.
AJUDA
À VIÚVA - Conhecido por seu talento para falar
ao povão com sua voz de cantor de bolero, o deputado Agnaldo
Timóteo, do PPB do Rio de Janeiro, não tem aposentadoria
alguma, mas está de olho no IPC. Chega a ficar alterado quando
ouve falar na possibilidade de que ele seja extinto, e até
faz ameaças. "Se isso for aprovado, voto contra a aposentadoria
proporcional para o funcionalismo público, só de vingança."
Agnaldo Timóteo fundamenta seu raciocínio: "Um
pedreiro pode virar deputado, mas nem todo deputado pode virar pedreiro".
Mesmo na bancada do PT, que tem posição fechada sobre
o IPC - é a favor de sua extinção -, há
quem vacile por causa da mesma fábula do pedreiro e o deputado.
A deputada Marta Suplicy, de São Paulo, confessa que não
está muito certa do que deve ser feito "em alguns casos".
Ela diz que tem andado "muito pensativa. Tem um deputado do
PT que é lavrador. Se o IPC for extinto, o que vai acontecer
com ele? Tem deputado muito pobre". Quanta pena, quanta solidariedade,
não com o lavrador, muito menos com o pedreiro. Os deputados,
unidos, jamais serão vencidos.
O IPC
foi fundado em 1963 e sua finalidade original nem era pagar aposentadoria
aos deputados. O que se pretendia, na época, era garantir
uma pensão às viúvas dos parlamentares que
morriam durante o mandato e acabavam sem ter como encher a geladeira.
Existe um episódio grave de corrupção na história
do instituto, em que um deputado chegou a dar um golpe de 10 milhões
de dólares e teve de renunciar ao mandato para não
ser cassado pelos colegas, mas também há casos bons
de ser lembrados. Cassado em 1964, sem dinheiro, perseguido e sem
emprego, o deputado Almino Affonso, hoje no PSDB, só pôde
sobreviver em função do instituto. Ele tinha feito
contribuições por um ano e nada poderia receber, mas
seus colegas de plenário, que não haviam sido cassados,
fizeram uma coleta para que seus oito anos de contribuição
fossem pagos e Almino pudesse manter-se à tona. "Foi
assim que levantei dinheiro para sair do país", lembra
Almino. Derrotado em sua última campanha, o veterano senador
Nelson Carneiro passou os últimos dias pagando as contas
do fim do mês graças à pensão que recebia.
"Sem o IPC, ele, um homem digno e pobre, teria passado fome",
lembra sua filha Márcia Carneiro.
Está
claro que os parlamentares, assim como qualquer outra pessoa, necessitam
de uma aposentadoria para encarar os últimos anos da existência.
Política é uma profissão, e não uma
distração - e no tempo em que não era assim,
quem podia dedicar-se aos negócios de Estado eram os aristocratas
e os senhores de escravos. O que não se compreende é
por que os parlamentares devam ter um regime de aposentadoria diferente
dos outros brasileiros nem o esforço para manter os privilégios
do IPC por parte do mesmo plenário que se dispõe,
quando examina a proposta em debate, a aprovar seus aspectos de
cunho positivo, como a eliminação de privilégios
para funcionários públicos, e mesmo negativos, como
a construção de dificuldades para a aposentadoria
do trabalhador mais desamparado. "Eles não se sentem
constrangidos em tomar decisões que vão modificar
- e muito - a vida das pessoas", afirma o cientista político
Jarbas Medeiros, da Universidade Federal de Minas Gerais. "É
a política patrimonialista, corporativa, no sentido da manutenção
dos privilégios, que prevalece", acrescenta o professor.
BATER
O PONTO - Existem aposentados e aposentados. Uma linha divisória
é aquela que marca a pessoa que trabalhou, fez uma carreira
e recebeu seus direitos e aquela que embolsa pensões sem
que ninguém se lembre do dia que aparecia para bater o ponto
na repartição. Num caso, a pessoa está usufruindo
um direito legítimo - o que se pode debater é se deveria
fazer isso ou não. No outro, é muito diferente. O
deputado Jair Soares entrou na Assembléia Legislativa do
Rio Grande do Sul, em 1962, como dentista. Só que, no ano
seguinte, já tinha virado assessor de deputados e não
parou mais. Cinco anos depois, tornou-se presidente do Departamento
de Compras do Estado, dali foi secretário de Administração,
depois ocupou a Saúde, em 1978 elegeu-se deputado federal
e, no ano seguinte, virava ministro da Previdência. Em 1982,
aposentou-se como dentista da Assembléia e até hoje
é difícil contabilizar quantas cáries obturou
na vida. Mas é doloroso saber que só daí o
deputado extrai, sem anestesia, uma pensão de 12 800 reais,
uma das mais altas do funcionalismo público gaúcho.
A partir
desta semana, quando a temperatura do plenário ultrapassar
até mesmo a de Brasília, estará em jogo o destino
da primeira reforma que mexe diretamente com o bolso de muitos brasileiros.
O que se votou, no ano passado, foram princípios teóricos
- privatização, quebra de monopólios -, e não
medidas que terão conseqüências diretas na vida
de cada um, futura ou presente. Em 1995, o ano terminou do jeito
que começou, mas em outubro de 1996 haverá eleições
municipais nas quais um terço da Câmara, calcula-se,
quer disputar uma vaga de prefeito. Aquilo que, por convenção,
ainda se chama de oposição até já preparou
uma estratégia para tentar derrubar o projeto do governo.
Especialista em textos legais, o deputado Miro Teixeira, do PDT
do Rio de Janeiro, argumentará que as novas regras de aposentadoria
conduzirão, a médio prazo, ao achatamento do valor
dos benefícios. "Os critérios de correção
são muito vagos", critica. Vai ser uma parada desanimadora,
e o argumento não sensibilizou muita gente até aqui.
A ação do governo tem-se revelado mais eficiente.
Até porque entrará mais uma vez em campo empregando
todas as armas disponíveis. Para atrair os últimos
recalcitrantes, na semana passada o Planalto decidiu suspender qualquer
ataque aos marajás do IPC, dando a impressão de que
o mais importante, na reforma, será mesmo tungar sem piedade
o bolso do velhinho sem amparo.
Deputado
Jair Soares (PFL-RS) - Ex-presidente da comissão que
examinou a reforma. Duas aposentadorias: 19 000 reais por mês.
Com o salário na Câmara: 27 000 reais por mês.
Posição sobre a reforma: contra
Senador
José Sarney (PMDB-AP) - Presidente do Congresso. Duas
aposentadorias: 15 100 reais por mês. Com o salário
no Senado: 23 100 reais por mês. Posição sobre
a reforma: indefinido
Deputado
Euler Ribeiro (PMDB-AM) - Relator da proposta de reforma da
Previdência. Uma aposentadoria: 6 000 reais por mês.
Com o salário na Câmara: 14 000 reais por mês.
Posição sobre a reforma: a favor
Deputado
Roberto Magalhães (PFL-PR) - Duas aposentadorias: 5 600
reais por mês. Com o salário na Câmara: 13 600
reais por mês. Posição sobre a reforma: a favor
Deputada
Maria da Conceição Tavares (PT-RJ) - Duas aposentorias:
8 200 reais por mês. Com o salário na Câmara:
16 200 reais por mês. Posição sobre a reforma:
contra
Senador
Epitácio Cafeteira (PPB-MA) - Três aposentadorias:
11 000 reais por mês. Com o salário no Senado: 19 000
reais por mês. Posição sobre a reforma: contra
Senador
Esperidião Amin (PPB-SC) - Uma aposentadoria: 6 000 reais
por mês. Com o salário no Senado: 14 000 reais. Posição
sobre a reforma: a favor
Senador
Darcy Ribeiro (PDT-RJ) - Três aposentadorias: 6 600 reais
por mês. Com o salário no Senado: 14 600 reais por
mês. Posição sobre a reforma: a favor
Deputado
Hélio Bicudo (PT-SP) - Uma aposentadoria: 8 000 reais
por mês. Com o salário na Câmara: 16 000 reais
por mês. Posição sobre a reforma: contra
Deputado
Francisco Dornelles (PPB-RJ) - Uma aposentadoria: 6 500 reais
por mês. Com o salário na Câmara: 14 500 reais
por mês. Posição sobre a reforma: a favor
Deputado
José Aristodemo Pinotti (PMDB-SP) - Uma aposentadoria:
6 000 reais por mês. Com o salário na Câmara:
14 000 reais por mês. Posição sobre a reforma:
contra
Senador
José Ignácio Ferreira (PSDB-ES) - Uma aposentadoria:
7 000 reais por mês. Com o salário no Senado: 15 000
reais por mês. Posição sobre a reforma: indefinido
Deputado
Roberto Campos (PPB-RJ) - Uma aposentadoria: 4 200 reais por
mês. Com o salário na Câmara: 12 200 reais por
mês. Posição sobre a reforma: a favor
Senador
Hugo Napoleão (PFL-PI) - Uma aposentadoria: 6 000 reais
por mês. Com o salário no Senado: 14 000 reais por
mês. Posição sobre a reforma: a favor
Deputado
Franco Montoro (PSDB-SP) - Quatro aposentadorias: 5 400 reais
por mês. Com o salário na Câmara: 13 400 reais
por mês. Posição sobre a reforma: a favor
A mudança inevitável
Apesar
de os parlamentares desfrutarem aposentadorias obesas, que não
lhes dão muita autoridade para mexer com as esquálidas
aposentadorias dos outros brasileiros, eles têm a obrigação
de reformar a Previdência Social. Hoje, o sistema até
que se sustenta, pois nos últimos cinco anos só registrou
um rombo de caixa em 1995 e, assim mesmo, de menos de 1% da sua
arrecadação. Também chama a atenção
que obtenha esse resultado apesar de bancar benefícios para
mais de 15 milhões de pessoas, muitas das quais não
contribuíram com a Previdência durante todos os anos
em que trabalharam. O problema é que, a cada ano que passa,
a Previdência piora. Atualmente, são 2,3 trabalhadores
na ativa para sustentar um aposentado. Já é uma relação
alarmante e, se nada for feito, ficará ainda mais calamitosa.
Em 2030, pelas projeções demográficas, haverá
1,1 trabalhador na ativa para um na inatividade. Diante disso, constata-se
que uma Previdência sem reforma é crise certa no futuro.
"Ninguém duvida que precisamos mudar, mas a questão
é como e o que mudar", diz o deputado Miro Teixeira
(PDT-RJ), que não tem nenhuma aposentadoria.
A proposta
em debate no Congresso pretende aliviar essa crise adiando o ingresso
dos trabalhadores na fila dos aposentados. Hoje, os brasileiros
se aposentam aos 52 anos, em média. Com a reforma, passarão
a vestir o pijama quatro anos mais tarde, aos 56. Quando a aposentadoria
por tempo de serviço foi criada, na década de 40,
o brasileiro vivia, em média, 50 anos. Hoje, a expectativa
de vida é de 67 anos, para os homens. Isso quer dizer que,
pelos moldes atuais, os aposentados ficam quinze anos recebendo
benefício - que, em média, é de 125 reais por
mês. Começando a aposentadoria mais tarde, esse período
é reduzido para onze anos. É difícil convencer
alguém a diminuir o período de gozo da sua aposentadoria,
mas é preferível ter uma Previdência que garanta
onze anos a não ter garantia nenhuma.
Além
disso, o projeto prevê a substituição da aposentadoria
por tempo de serviço pela que leve em conta o tempo de contribuição
- no caso, 35 anos. É uma forma de forçar parte dos
trabalhadores informais, que já representam 60% da mão-de-obra,
a contribuir com a Previdência para ter direito à aposentadoria.
É uma conta bem-acabada na matemática, pois desobriga
a Previdência de pagar a quem não deu sua contrapartida,
mas pode produzir injustiças, já que alguém
que pegou no batente por 35 anos sem carteira assinada corre o risco
de ficar sem aposentadoria. "Para evitar isso, coloquei no
meu projeto a possibilidade de o indivíduo comprovar, administrativa
ou judicialmente, que trabalhou", explica o relator da reforma
da Previdência, deputado Euler Ribeiro. Ou seja: ainda será
possível aposentar-se com 35 anos sem carteira assinada,
mas é certo que será um processo mais difícil
- como sabe qualquer pessoa que já encarou a fila de uma
repartição apenas para pedir uma informação.
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