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Como
estimular a distensão política 11 de dezembro de 1974 Graças a um frasco improvisadamente tapado com uma tira de esparadrapo, suficientemente pequeno para caber no bolso do ministro Shigeaki Ueki, das Minas e Energia, que o levou de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, para Brasília, o presidente Ernesto Geisel ofereceu ao país, na semana passada, as visões de um futuro de segura redenção política e econômica. Era a primeira amostra do petróleo descoberto no litoral fluminense, e com ela rompeu-se até mesmo a fria austeridade do 30o andar do Palácio do Planalto. Diante dos alvoroçados jornalistas reunidos em seu gabinete, onde raramente conseguem permanecer mais que 1 minuto, o presidente fez e respondeu a perguntas, posou para fotografias com o frasco diante do nariz, diagnosticou pelo cheiro as excelentes qualidades do petróleo e terminou quase com um apelo: "Vocês vão amanhã a Campos? Espero que gostem e façam boas fotografias. Espero que vocês acreditem". Àquela altura, certamente estava atendida a necessidade de provas convincentes para a grande descoberta e, se o óleo do pequeno frasco, subdividido em várias amostras menores, ainda circulou por todos os andares do Palácio do Planalto, foi apenas para atender à curiosidade dos funcionários. Pois os laboratórios da Petrobrás, no Rio de Janeiro, já haviam informado ser aquele um petróleo de bom rendimento, para a produção de gasolina, de qualidade superior ao produzido na Bahia, que tem a inconveniente tendência a se solidificar quando em contato com a temperatura ambiente. Faltou informar que, graças à oportunidade da descoberta, ele surgia com surpreendentes qualidades para lubrificar as engrenagens dos mecanismos da distensão política, que alguns supunham sob ameaça de emperramento devido aos resultados das eleições de 15 de novembro, incontrastavelmente favoráveis ao partido da oposição. É verdade que os homens do MDB não precisariam de outros estímulos, além dos próprios objetivos prometidos, para negociar com o governo os limites de ação capazes de tornar firme a caminhada, lenta e gradual, rumo ao pleno restabelecimento das franquias democráticas. Mas os números da vitória oposicionista pareceram capazes de provocar insatisfações dentro da área revolucionária, e conseqüentemente atrasos no programa. Em todo caso, o general Ernesto Geisel, recebendo livremente os jornalistas sem audiências marcadas na agenda, e com eles dialogando à vontade e alegremente, foi durante alguns minutos uma eloqüente e sugestiva imagem de distensão. Por isso, talvez a quarta-feira da semana passada tenha sido o dia mais feliz, nos quase dez meses de governo Geisel. Afinal, ninguém melhor do que o presidente conhece a força política do petróleo e a capacidade que tem a Petrobrás para aglutinar os sonhos de grandeza do país. E, se ainda estavam por calcular, com exatidão, os benefícios que seriam incorporados ao programa de desenvolvimento econômico, os rendimentos para o projeto político se mostraram fáceis de contabilizar. O principal deles, com efeito, foi fazer descer para um segundo plano os receios eventualmente provocados em áreas da Revolução pelos números eleitorais. Segundo um ex-presidente da Petrobrás, há pelo menos seis meses a empresa tinha certeza da existência de um vasto lençol de petróleo no litoral de Campos, e naturalmente essa certeza foi desde o início partilhada com o governo. No Palácio do Planalto, no entanto, julgou-se mais prudente reservar o anúncio oficial para quando fosse possível oferecer ao país cálculos precisos sobre as possibilidades de produção. Essa cautela, sem dúvida, custou à Arena uma boa parcela dos votos que desfalcaram suas bancadas no Senado, na Câmara dos Deputados e nas assembléias legislativas, e bem pode merecer uma parte razoável dos elogios tributados pelo MDB ao presidente, pela lisura dos métodos aplicados às eleições de 15 de novembro. Segredo descoberto - Mas ao governo, mais que capitalizar votos para o seu partido, interessava preservar acontecimento de tanta importância dos riscos de ser recebido ceticamente pela opinião pública, como simples anúncio destinado a um impacto de natureza meramente psicossocial em vésperas de eleição. Mesmo porque, na área do petróleo, o retrospecto ainda mantém vivo na memória nacional o fiasco do poço de Nova Olinda, perfurado em 1956 nos confins da floresta amazônica, para ser a redenção de todas as debilidades nacionais, e que jamais passou de uma grande fantasia. É verdade que na plataforma de Campos ainda não foram feitas todas as medidas indispensáveis para indicar com exatidão as riquezas que dela poderão ser extraídas. Daí a evidente má vontade com que os técnicos da Petrobrás encaram a euforia que subitamente tomou conta do país, estimulada por anúncios feitos diretamente no Palácio do Planalto pelo secretário de Imprensa, Humberto Esmeraldo Barreto. Simplesmente, o esquema de sigilo cuidadosamente montado em torno das pesquisas começou a apresentar vazamentos, e, entre desmentir um fato que sabia verdadeiro, para contê-los, ou confirmá-lo mesmo sem dispor ainda de todas as provas para serem exibidas publicamente, ao governo só cabia escolher o segundo caminho. Pois de nenhuma forma poderia permitir que o quadro, subitamente tornado novamente favorável aos projetos acalentados desde antes da posse, em março passado, escapasse ao seu controle direto. Afinal, não se tratava apenas de reativar estímulos políticos, capazes de reagir favoravelmente mesmo na ausência de provas mais conclusivas. Uma segunda e igualmente importante colheita de dividendos seria feita sob a forma de uma nova onda de entusiasmo na condução da política econômica. A rápida ativação dos negócios com ações da empresa nas bolsas de valores (seu valor subiu 61% só na segunda-feira da semana passada) representou apenas uma conseqüência lateral nos acontecimentos, mas dá medida de quanto o nome Petrobrás estimula a imaginação nacional. Mais diretos seriam os efeitos do júbilo extraído pelas sondas na plataforma de Campos sobre as nuvens pessimistas que começavam a encobrir os resultados acumulados em 1974 nas contas externas e ameaçavam as previsões de crescimento para o próximo ano. Os computadores do Banco Central anotam um saldo ligeiramente superior a 5 bilhões de dólares na coluna das reservas em moeda forte. E uma dívida que já se aproxima dos 19 bilhões de dólares. Exatamente há doze meses, os registros indicavam 6,5 bilhões de dólares para reservas e 12,8 bilhões na rubrica de contas a pagar. Como os banqueiros internacionais, mesmo os mais poderosos, jamais abandonaram sua vocação original de gerentes lotados na pequena agência da esquina, já se podiam notar sinais de redobrada cautela no exame dos pedidos de financiamento apresentados por clientes particulares do Brasil. Certamente, o cuidado em preservar a boa imagem da ficha cadastral erigida nos oito anos anteriores, de rápida expansão industrial, estimulou a draconiana ampliação dos controles sobre a importação, aplicada pelo governo desde a semana passada. Mas a suspeita realmente inquietante, de que a pequena retração nos negócios esperada para 1975 poderia persistir nos exercícios subseqüentes, morreu com os primeiros cálculos das reservas de petróleo descobertas em Campos. "Podemos gastar por conta", sugeria de Brasília um categorizado e entusiasmado funcionário do Ministério da Fazenda. "Vamos reprogramar nossos investimentos e, depois, reduzir as barreiras para artigos do exterior." Reservas dobradas - Há sólidas razões financeiras para justificar esta erupção de confiança. Na manhã da terça-feira passada, após trocar o paletó e a gravata por um colete salva-vidas, o ministro Shigeaki Ueki cavalgou um desajeitado helicóptero que o levou de Campos à plataforma de prospecção estacionada a 80 quilômetros da praia, sobre a "província petrolífera" de Garoupa, numa excursão de 25 minutos. Da longa visita de inspeção, que teve como única testemunha estranha ao pessoal técnico da Petrobrás a figura discreta do próprio presidente da empresa, general Araken de Oliveira, o ministro trouxe duas preciosas novidades: o vidro com amostras do novo petróleo, que seria apresentado no dia seguinte ao presidente Ernesto Geisel, e a informação de que as reservas estariam, segundo uma avaliação preliminar, na faixa dos 800 milhões de barris, o dobro do que se conhece atualmente em todo o país. E, sob o impacto dos primeiros testes de qualidade, Ueki chegou a estimar o valor do achado em 10 bilhões de dólares, multidão de zeros que o tornaria "capaz de sair sambando pela Esplanada dos Ministérios", como sugeriu na apoteótica entrevista coletiva que convocou logo ao chegar a Brasília. A tarefa de materializar o bilionário potencial subterrâneo de Campos exige tempo e, principalmente, muito dinheiro. Mas a simples multiplicação dos investimentos necessários à abertura da nova jazida foi encampada pelo ministro Mário Henrique Simonsen, da Fazenda, como a base de profecias inesperadamente otimistas. "Em 1975, o crescimento do Produto Interno Bruto ficará entre 9% e 10%", disse ele numa conferência para comerciantes, na quarta-feira passada, em Brasília, inflacionando pelo menos em 2% os cálculos que sua assessoria adotava a meia voz no início de novembro passado. Além disso, "o déficit na balança comercial será de 2 bilhões de dólares", menos da metade do prejuízo acumulado nos dez primeiros meses deste ano. Num período de graves conturbações na economia dos países ricos, quando as cotações das principais matérias-primas começam a exibir uma tendência a baixas incontroláveis - com exceção da soja e do açúcar -, as audaciosas metas brasileiras poderiam soar como uma inútil exibição de megalomania. Contudo, a existência do petróleo permite a materialização de sonhos quase impossíveis. Um saque moderado sobre as reservas internacionais, cujo futuro está garantido pela expectativa de cortes na despesa com importação de combustíveis, ajudaria a manter o ritmo acelerado dos negócios ainda que o nível das vendas ao mercado externo, um dos pilares do chamado "modelo brasileiro", viesse a exibir uma crise temporária. Tranqüilo como nunca esteve desde que assumiu o Ministério, em meio à tempestade inflacionária que prenunciava todo seu vigor no final de março passado, Simonsen ousou incursionar durante sua palestra brasiliense por territórios raramente compensadores: o custo de vida crescerá, segundo ele, entre 18% e 20% no benfazejo ano de 1975. Aplicada ao comportamento recente dos preços, a informação não parece absurda. No entanto, ao divulgá-la, o governo corre o desagradável risco de ver algumas cotações puxadas até o novo "limite". É bem verdade que a demarcação de um ponto de referência para a inflação já foi incorporada às tradições de convivência entre o Estado e os empresários. Mas a restauração do clima de euforia teria sido motivo suficiente para se cancelarem práticas que em anos recentes produziriam resultados constrangedores. De qualquer forma, as derradeiras dúvidas sobre a duração dos bons ventos soprados da plataforma continental foram dissipadas após a emissão de um precioso boletim metereológico no Oriente Médio. Apenas duas semanas atrás, uma expedição econômica brasileira, chefiada por Shigeaki Ueki e pelo ministro João Paulo dos Reis Velloso, do Planejamento, espalhava projetos de investimentos pelas principais capitais do mundo árabe. E, mesmo com as revelações de uma iminente conquista de auto-suficiência na extração do petróleo, fato que destrói a melhor arma de negociação dos ricos exportadores do golfo Pérsico, um consórcio de empresas financeiras sauditas, libanesas e do Kuwait anunciava a compra de 25 milhões de dólares em títulos do Tesouro brasileiro, numa operação que estará concluída nesta quarta-feira. Os primeiros frutos - Pela primeira vez, o lançamento de obrigações por uma nação em desenvolvimento foi inteiramente absorvido pelos donos dos petrodólares, sem a tradicional intervenção de conselheiros ou sócios selecionados entre banqueiros europeus ou americanos. Isoladamente, tal aplicação é demasiado modesta para neutralizar os efeitos de um ano desastroso no comércio exterior do país. Mas a ocasião do negócio e seu caráter pioneiro reforçam a idéia de que o Brasil é interessante como alternativa para investimentos, em razão de seu mercado potencial com 106 milhões de pessoas. E não pela fraqueza de seus estoques energéticos. A compreensão desta oportuna lição comercial sugere, talvez, uma conseqüência pouco mencionada para as descobertas do petróleo. Em julho passado, quando se despertava o metafórico debate sobre os chamados "contratos de serviço", que a Petrobrás poderia assumir com empresas multinacionais para acelerar o ritmo da prospecção nas áreas submarinas, o desconhecimento do local exato e do teor das possíveis jazidas dava aos candidatos a trabalhar no Brasil uma posição dominante e segura nas discussões para a partilha das descobertas. Agora, a confirmação dos estoques coloca o monopólio estatal em condições de escolher os parceiros e de determinar as taxas. Essa perspectiva chega a animar o senador da Arena de Alagoas, Luís Cavalcanti, um dos raros parlamentares que sustentam, no Congresso, a conveniência da abertura do monopólio do petróleo. "Agora, mais do que nunca", afirma Cavalcanti, "não há nenhum risco nos chamados contratos de serviço. Não seria nada demais que a nação aproveitasse este momento e desse áreas imensas, não na costa do Brasil, onde está o filé do petróleo, mas que déssemos Goiás, o pantanal de Mato Grosso, a Amazônia. Me parece que isso viria apressar extraordinariamente nossa ascensão como potência econômica. Seria um ato de coragem". Essa coragem, ele acredita, garantiria ao Brasil "mais e mais petróleo", e depressa. Mas é exatamente isso que mais atemoriza o senador Jarbas Passarinho, da Arena do Pará, ao contrário de Cavalcanti, um intransigente defensor do monopólio: "A meta agora é a preservação de nossas reservas, pois o petróleo é uma fonte de energia esgotável em trinta anos, a prevalecerem o consumo e as jazidas atuais". Passarinho fala com a autoridade de quem já foi dirigente da Petrobrás, mas é possível duvidar de seus números, pois a empresa sequer conseguiu calcular com exatidão as reservas descobertas. Em todo caso, suas palavras encontram decidido apoio nas fileiras oposicionistas. "O monopólio estatal do petróleo, que sempre defendemos, deve ficar de vez ratificado", proclama em voz baixa e pausada o senador Amaral Peixoto. E o deputado Ulysses Guimarães complementa: "Afinal, se durante tanto tempo ele prevaleceu, dispondo a Petrobrás de parcos recursos, não teria sentido agora estabelecer contratos de risco com empresas estrangeiras para a prospecção". Talvez hoje essa providência soasse até mesmo como uma injustiça. Nascida em 1953, a empresa estatal, nos sonhos de alguns dos visionários que a conceberam, seria capaz de abastecer o país de petróleo poucos anos depois. Foram necessários vinte anos para conquista de know-how, e o estímulo de uma crise mundial, para que se chegasse à possibilidade de auto-suficiência. "Estamos colhendo agora os primeiros frutos. Já somos auto-suficientes em derivados, já há perspectivas de atendermos nossas necessidades de petróleo bruto e já estamos exportando tecnologia, como fizemos no Oriente Médio. Daqui para frente, as perspectivas são melhores ainda", garante Euzébio Rocha, hoje um professor de direito de 56 anos sempre pronto a falar de política. Em 1953, era um dos líderes do PT13 mais chegados ao presidente Getúlio Vargas, e foi quem negociou com ele a votação da lei 2.004, incorporando ao projeto do governo, que criava a Petrobrás, a tese do monopólio estatal proposta pela oposição udenista. O senador Gustavo Capanema, então líder da bancada da maioria e expoente dos métodos conciliatórios cultivados pelo PSD mineiro, a que pertencia, lembra: "A maioria e a minoria, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal, se uniram para essa obra comum de grande alcance nacional". Assim, a Petrobrás, nascida de uma longa e agitada campanha popular, começada ainda durante o governo do marechal Eurico Gaspar Dutra, quando foi marcada por lances de extraordinária violência, acabou transformada num poderoso elemento de concórdia política. Isso talvez explique ter o monopólio se mantido intocado, mesmo durante os vinte anos em que o contínuo crescimento e o fortalecimento da empresa por ele responsável não se traduziram na descoberta de petróleo em quantidades suficientes para atender às necessidades do país. Mesmo detendo o monopólio de um produto inexistente, nesses vinte anos a Petrobrás cresceu com invejável vigor, a ponto de tornar-se capaz de praticamente arrebatar à iniciativa privada um dos raros setores da exploração do petróleo abertos ao seu domínio: o refino. Na distribuição dos derivados, para a qual entrou decididamente depois de 1969, ela já conquistou um terço do mercado. E no controvertido campo da prospecção, o know-how acumulado nos fracassos permitiu, a partir de 1972, o início de um ambicioso programa de pesquisas nas terras áridas do Oriente Médio (Líbia, Egito e Iraque). Naquela altura, os trabalhos em subsolo brasileiro tomavam o rumo da plataforma submarina, onde a tecnologia especializada e o regime de longos turnos no mar acabaram se transformando numa barreira à adaptação dos profissionais formados na época das perfurações em terra. A transferência de equipes montadas com estes funcionários experientes para as concessões no exterior completou perfeitamente a estratégia de diversificação imaginada com habilidade na diretoria anterior da Petrobrás. Planos agora viáveis - A consolidação de tantas vitórias táticas assegurou-lhe, no ano passado, o 59º lugar, pelo faturamento (equivalente a 2,3 bilhões de dólares) entre as empresas estabelecidas fora dos Estados Unidos. Quanto ao lucro realizado, colocou-se no quinto lugar (356 milhões de dólares). Foi, sobretudo, uma demonstração de eficiência administrativa, pois esses resultados foram alcançados com um quadro de 36.000 empregados, enquanto sua congênere mexicana, a Pernex, conseguiu lucro de 13 milhões de dólares com 78.000 empregados. Uma tão significativa diferença constitui, sem dúvida, exuberante testemunho da importância que o capital estatal assume na economia brasileira. E, nesse cenário, o extraordinário reforço patrimonial obtido com as novas jazidas litorâneas pela empresa que já liderava a hierarquia industrial do país cobre de evidências uma idéia do professor Edmar Bacha, chefe do departamento de economia da Universidade de Brasília, que sugere a existência de "rupturas entre a vocalização privatista do governo, que fala e age em torno do setor privado, enquanto sem alarde aumenta sua participação nos negócios". A tendência à rápida expansão de companhias estatais tem sido motivo de graves apreensões no mundo empresarial e, sobre ela, é justo supor que ainda serão prestados esclarecimentos. De imediato, porém, as perspectivas de riqueza abertas com o petróleo compõem uma valiosa ajuda para os desafios assumidos pelos responsáveis da atual administração. Assim, diante da característica fragrância do frasco levado a Brasília por Shigeaki Ueki, um funcionário desabafou seu regozijo, ao reconhecer que a "benigna descoberta viabilizou o II Plano Nacional de Desenvolvimento". Na verdade, o diagnóstico é modesto, pois o que se viabilizou foi muito mais. Além de todas suas inegáveis conseqüências sobre a economia nacional, o petróleo, desde o começo da semana passada, quando foram sepultadas as desconfianças quanto à sua quantidade e qualidade, passou a figurar na primeira linha de todos os exercícios de planejamento levados a efeito no país. E com ele a Petrobrás, subitamente detentora de tesouros que ameaçam preencher todos os desejos acalentados por seus idealizadores, há mais de vinte anos, se coloca em posição de, ainda uma vez, reaglutinar a opinião pública em torno de objetivos comuns.
A
longa jornada para chegar Venturas
e desventuras da Petrobrás Arrancada de sua rotina pelas retumbantes notícias a respeito do campo fluminense de Garoupa, a prospecção do petróleo no país proporcionou discretos momentos de exaltação em pontos isolados do território nacional, na semana passada. Ainda que não tenham a grandeza nem o impacto da descoberta de Campos, ganham certamente alguma importância no esforço maciço que a Petrobrás realiza para conduzir o país à auto-suficiência no abastecimento do petróleo. Algumas amostras, dessas conquistas: Terça-feira passada, 25 dias depois de iniciar a perfuração do poço D-14, na Fazenda Cedro, a 233 quilômetros de Vitória (ES), a sonda nº 42 da Petrobrás bateu numa camada de rocha impregnada de petróleo, a 1.044 metros de profundidade. Para surpresa de técnicos e operários, já familiarizados com as tímidas manifestações d petróleo daquela área, o jato quente desta vez apareceu na superfície com bastante força, a ponto de produzir um esguicho mais alto do que a torre da sonda. Os testes realizados logo a seguir deixaram boa impressão a respeito do óleo, mas somente daqui a cinco semanas é que se poderá ter a idéia do potencial do poço, localizado a apenas 2 quilômetros do furo imediatamente anterior (D-13), onde fora registrada mais uma descoberta um mês atrás. Até agora, em oito anos de trabalho em terras capixabas, a Petrobrás perfurou 21 poços, sendo catorze na Fazenda Cedro, que já produz e é tida como bastante promissora. Há quatro meses, desde que a Petrobrás construíra uma estrada carroçável de 3 quilômetros nas terras cultivadas de cana do município de São Miguel dos Campos, a 68 quilômetros de Maceió, a sonda nº 40 da empresa vinha perfurando o poço Jequiá-01. Na tarde de terça-feira passada, finalmente, o petróleo apareceu na superfície. "Primeiro foi o gás, que queimou uma meia hora, depois foi o óleo, que subiu pelo mesmo cano. Houve até um momento de fogo, mas eles apagaram logo. Então pegou a chegar gente da Petrobrás", descreveu o camponês Antônio de Góis, que no exato momento adubava o canavial a menos de 20 metros da sonda. Em São Miguel dos Campos, logo correu a nova de que "a 40 acertou um". A região, com dezesseis poços produtores, já é considerada pelo menos um campo de desenvolvimento, com perspectivas que melhoram à medida que surgem novos poços férteis como o Jequiá-01. As notícias entre a população dão conta de que outros poços serão abertos na região. "Vai ficar como tábua de pirulitos. Vão furar em todo canto", conta a sitiante Marinita Bernabé, ainda inconformada com a impossibilidade de colher os frutos do seu mandiocal, recentemente indenizado para dar lugar a mais um poço. Nas últimas horas de quarta-feira passada, os extenuados trabalhadores da plataforma P-3, encarregada de perfurar o poço SES-30, a 19 quilômetros da costa sergipana, defronte à foz do rio Vaza Barris, alegraram-se mais uma vez com o surgimento de petróleo, de mistura com gás natural, tal como ocorrera alguns dias antes, quando a sonda atingira a profundidade de 2 944 metros. Indícios semelhantes também foram registrados no poço SES-29, localizado mais perto da costa (5 quilômetros), a 2 145 metros de profundidade. "Sergipe com mais petróleo", bradou a manchete de um jornal de Aracaju, enquanto a Petrobrás dizia em cautelosa nota que os dois poços se encontram em fase de avaliação, para definir a sua produtividade e a viabilidade de sua exploração comercial. Um dado favorável em torno de Vaza Barris é que o óleo se apresenta em rochas idênticas às dos campos próximos de Dourado, Mero e Guaricema, este o primeiro descoberto na plataforma continental brasileira, em 1968, e bom produtor desde o ano passado. Uma batalha naval - Em comparação com o enorme trabalho que se estende desde a bacia do Acre, nas vizinhanças das jazidas petrolíferas encontradas na Amazônia peruana, até a bacia de Pelotas, próxima das reservas exploradas pela Argentina no campo de Rivadávia, essas descobertas podem se afigurar como pequenas. São na realidade pequenos pontos no mapa nacional, ainda sem grandes manchas negras representando reservas conhecidas de petróleo, que a Petrobrás procura preencher desde a sua criação em 1953. O caso é que o extenso trabalho de prospecção da empresa, iniciado a partir das escassas pesquisas anteriores à lei do monopólio, permite concluir que se aproximam os tempos de achados mais expressivos. Garoupa, onde se perfura apenas o poço pioneiro, pode ser o primeiro deles. Os conhecimentos armazenados pelos técnicos não deixam dúvidas de que existe petróleo no Brasil. Sabe-se mesmo, com alguma precisão, onde ele pode estar escondido. Os furos que as sondas realizam na terra e no mar, seguindo as informações elaboradas pelo computador da Petrobrás no Rio, não são projéteis disparados ao deus-dará. Os geólogos comparam esse trabalho a um jogo de batalha naval, em que muitos tiros costumam sair errados, principalmente no início, mas nem por isso são considerados perdidos, pois ajudam a delimitar os esconderijos mais prováveis das jazidas. Acertar no alvo seria apenas uma questão de tempo. Atrás de cada furo existe uma considerável infra-estrutura montada pela retaguarda dos geólogos. Tornando-se o campo de Garoupa como exemplo, pode-se dizer que o mapa da área onde o navio-sonda "Petrobrás II" realiza hoje o seu jogo de batalha naval começou a ser delimitado em 1942, quando o geólogo Alberto Ribeiro Lamego, formado pela Royal School of Mines, de Londres, recebeu do governo brasileiro a incumbência de iniciar uma série de pesquisas para atualizar a carta geológica do país. Durante mais de um ano ele recolheu amostras da formação rochosa de uma área de aproximadamente 100.000 quilômetros quadrados, na região de sua terra natal hoje em evidência. Eram tempos bem mais duros do que hoje, como lembra Lamego, aposentado e morando no Rio, num apartamento no bairro do Flamengo: "Minha equipe se resumia a mim. O meio de locomoção de que dispunha era um cavalo e todo o equipamento com que podia contar era meu fiel martelo". O folheto em que ele condensou suas observações perdeu-se em alguma gaveta do Ministério das Minas e Energia. Para ele, todavia, havia indícios da existência de "um espesso pacote sedimentar", que continuaria para dentro do mar, tendo sua base alojada na plataforma marítima, com "grande profundidade". Essa intuição começou a ser confirmada a partir de 1967, quando a bacia de Campos foi incluída nos planos de levantamento aerofotomagnético do litoral brasileiro. Era ainda o tempo em que a Petrobrás realizava seus maiores esforços de pesquisa em terra, embora já começasse a pensar no fundo do mar, seguindo o rastro deixado por companhias internacionais que apostavam grandes recursos no estudo das plataformas litorâneas desde o final da década de 50. Segundo os técnicos, a pesquisa geológica em terra ou no mar é semelhante, variam apenas os equipamentos. Além dos levantamentos magnetométricos, que procuram delimitar as feições das bacias sedimentares (existem catorze na plataforma continental brasileira), o mapa preliminar é completado pelos estudos de sísmica, que determinam as diferentes estruturas de rochas existentes no fundo das bacias. Providos desses mapas e perfis, os geólogos precisam essencialmente determinar o local do furo, ou furos, em busca de possíveis camadas petrolíferas, mais ou menos sugeridas pelos levantamentos. Nessa batalha naval, um jogo de tentativa e erro que pode provocar bons ou maus resultados, depende-se, porém, muito pouco da sorte. Garoupa foi atingido no 13º poço perfurado no litoral de Campos. A primeira vez que se perfurou a costa brasileira foi em 1968, a 80 quilômetros de Vitória, onde a plataforma Vinnegarron, construída pelo Estaleiro Mauá, do Rio, e plantada sobre uma lâmina de água de 50 metros, lançou sua sonda a 5.000 metros. Nada encontrando, foi para a costa sergipana, onde na terça-feira 13 de agosto daquele ano localizou uma ponta do campo de Guaricema, que produz atualmente 9.100 barris diários de petróleo. A medida que ia concluindo os mapas, a Petrobrás intensificava o lançamento das sondas perfuradoras. Em 1969 dois novos campos foram atingidos perto de Guaricema - Dourado e Ponta dos Mangues. Em 1970, Camorim, igualmente próximo. Saudado euforicamente, Caioba veio em 1971, tornando-se em 1974 o segundo poço produtor do solo submarino. Somando, no ano passado, as descobertas de Robalo (AL) e Ubarana (RN), e este ano Mero (SE) e Garoupa, são nove os campos submarinos encontrados pela Petrobrás. Sete estão concentrados na pródiga bacia Alagoas-Sergipe, mais ou menos no ponto onde o rio São Francisco se lança ao mar. Não longe dali estão os poços SES-29 e SES-30, com indícios de óleo deixando entrever, talvez, um novo campo, embora a Petrobrás não adiante nenhuma conclusão. A cronologia das descobertas na plataforma continental, que se acumulam à medida que a pesquisa avança, dá aos técnicos a convicção de que a Petrobrás está "esquentando", isto é, chega cada vez mais perto de alvos significativos. E na verdade, como dizia o geólogo-chefe da empresa, Carlos Walter Marinho Campos, "fizemos apenas um arranhão na plataforma", onde os poços até hoje perfurados chegam a cerca de duzentos, em pouco mais de seis anos. A necessidade de encontrar petróleo no país, depois da crise energética desencadeada a partir de outubro de 1973, levou a Petrobrás a concentrar seus esforços em cinco bacias tidas como altamente favoráveis, em regiões que correspondem à foz de grandes rios (veja o mapa). Além disso, continuam os investimentos nas bacias terrestres, inclusive em locais outrora esquecidos, como Nova Olinda do Norte, a 14 quilômetros de Manaus, onde há muitos anos a população local festejara a descoberta de óleo, considerado porém, na época, não comercial. Hoje as pacatas ruas de Nova Olinda continuam impregnadas de monotonia, pois seus 13.000 habitantes, mesmo convencidos de que vivem "em cima do petróleo", desconfiam dos freqüentes anúncios sobre a iminente fase de exploração de suas reservas. Em novembro passado, o governador amazonense João Walter de Andrade convocou uma entrevista coletiva em Manaus para confirmar mais uma vez que Nova Olinda tem petróleo. Em silêncio, a Petrobrás mantém duzentos homens operando duas sondas no município. Na selva amazônica - Com esse discreto procedimento, a empresa quer evitar ondas de euforia semelhantes à ocorrida em junho de 1973 em Pinhão, um município produtor de soja e trigo no Paraná, onde o prefeito Atílio Chaves chegou a prever "uma mudança em poucos anos" graças ao petróleo, enfim não encontrado ao cabo de 3.000 metros de perfuração. A sonda que operou por alguns meses em Pinhão, na realidade, realizava um trabalho de rotina que se efetua em todas as bacias, seguindo o cronograma de pesquisas da Petrobrás. O fato de não haver jorrado petróleo em Pinhão não significa que as perfurações jamais sejam feitas por ali. Pelo contrário, é possível que a torre volte a ser vista em algum ponto da região, pois a Petrobrás tem fundadas esperanças de conseguir bons resultados na bacia do Paraná. Entretanto, a área terrestre mais promissora da atualidade, a julgar pelos esforços da empresa, está localizada nos confins ocidentais da Amazônia, na bacia do Acre, onde os mapas elaorados pelo projeto Radam em 1972 oferecem maiores chances na tentativa para acertar alguma extensão das jazidas localizadas em rochas semelhantes na Amazônia peruana e colombiana. Desde maio se realizam perfurações na fronteira, numa faixa próxima do rio Javari. Além disso, a Petrobrás parece empenhada na reativação de campos antieconômicos até o início da crise do petróleo. É o que aconteceu especialmente na região de São Miguel dos Campos, no interior alagoano, onde se realiza praticamente um jogo de cartas marcadas. Numa madrugada de junho passado, a sonda nº 41 da Petrobrás perfurava o poço Furado-16, quando uma insurgência de gás, e especialmente de petróleo, chegou a estourar as curvas protetoras de 2 polegadas de espessura das tubulações, num fenômeno sem precedentes na região. Durante os três dias em que os técnicos precisaram lutar para sanar o incrível vazamento, os cem moradores da Fazenda Conceição foram evacuados, protegidos e alimentados. "Não se via nada. Parecia uma neblina, mas era tudo gás, que apitava mais que usina de açúcar", conta o cortador de cana José Braz Sobrinho, há onze anos morador nas proximidades dos poços de Furado, cuja exploração se intensificou nos últimos três anos. Embora a produção alagoana de petróleo esteja na modesta média diária de 1.500 barris, São Miguel dos Campos já vem sentindo os efeitos da presença dos 92 funcionários da Petrobrás. A empresa, que gasta ali cerca de 1 milhão de cruzeiros mensais, é apontada pelos moradores da cidade como responsável por uma desenfreada alta imobiliária que faz qualquer aluguel custar "mais caro do que em Maceió". Dirigindo-se aos poucos para o sul, a Petrobrás reencontra os caminhos trilhados em 1963, quando seus geólogos chegaram até o pontal do Peba, no extremo sul alagoano, a poucos quilômetros do recém- descoberto campo de Mero, na plataforma submarina, depositário de razoável fé do pessoal da empresa. ‘A fera de Caioba’ - Descoberto em junho passado, Mero, cujo poço pioneiro deu uma vazão estimada de 9.400 barris diários, é um dado alentador nas perspectivas de crescimento da produção obtida na plataforma continental. Ao lado do ainda mais jovem Garoupa fluminense, é um estímulo a mais para os técnicos que se preocupam em reduzir a distância que vai da descoberta à produção comercial, situada internacionalmente na média de quatro anos, embora possa chegar a apenas dois anos, como ocorreu em Guaricema. Problema que se inclui entre os estudos do Centro de Pesquisas da Petrobrás, um edifício com sabor de ficção científica mantido na ilha do Fundão, no Rio, a redução dessa distância é extremamente dificultada pela escassez de equipamentos. Atualmente, qualquer pedido leva pelo menos dois anos para ser atendido. Por isso, a partir da confirmação do potencial de campos como Mero, Garoupa, Ubarana e outros, acredita-se que a empresa precisará intensificar as negociações necessárias para obter helicópteros, barcos de apoio, plataformas e navios-sonda. De acordo com os técnicos, há fábricas brasileiras que podem se desenvolver por força das encomendas da companhia - a Construtora Mendes Jr., de Minas, está construindo três plataformas semi-submersíveis de concreto protendido que serão usadas em campos nordestinos (essas plataformas são novidade em todo o mundo: as primeiras experiências foram realizadas no início de 1973, no mar do Norte, pela empresa francesa Campeon Bernard, com quem a Mendes Jr. formou um consórcio). De qualquer forma, mesmo que consiga reunir o equipamento necessário e adequado, a Petrobrás não está livre de problemas operacionais, como os que atrasaram o início da produção do campo de Caioba. A presença de gás natural associado ao petróleo tem reduzido a capacidade de exploração de seus poços, considerados talvez os mais problemáticos do país, além de perigosos. "Caioba é uma fera", dizia à VEJA, na semana passada, o engenheiro Milton Pustilnik, brasileiro de 34 anos que supervisiona os trabalhos na PCB-1 (Plataforma de Caioba nº 1). Apesar das dificuldades para segurar a feroz pressão do gás, o campo de Caioba produz atualmente 12.000 barris diários de óleo, devendo chegar a 20.000 em 1975. Pustilnik está convencido de que os problemas serão resolvidos, acabando com os sobressaltos que eventualmente assustam todos os que trabalham na plataforma produtora e no navio que lhe serve de permanente apoio - por uma certa ironia do destino, trata-se do velho "Garoupa II", que outrora, na II Guerra Mundial, participou da esquadra invasora da Normandia, compondo a legendária história do Dia D. O fim do romantismo - O solitário dia-a-dia em tal ambiente, como se pode perceber, não tem certamente os contornos poéticos que alguns relatos mais entusiastas procuram lhe atribuir. Na sexta-feira passada, com setenta homens a bordo, menos da metade de sua lotação, o navio-sonda "Petrobrás II" parecia em plena atividade em cima do furo pioneiro de Garoupa. Atendendo aos jornalistas levados até ali pela Petrobrás, o engenheiro de perfuração Aroldo Andreatta, paranaense de 45 anos com quinze de experiências em terra e no mar, dizia cheio de entusiasmo: "Nada temos para esconder. O povo brasileiro tem que saber a verdade: o petróleo é bom e a descoberta é sensacional. Só não vamos pôr o carro adiante dos bois". Na realidade, esse é um dos poucos momentos de alegria reservados a homens enterrados num cotidiano que se resume a "trabalhar e dormir", com ligeiros intervalos para jogos mais recreativos do que a batalha naval da caça ao petróleo. Na PCB-1, de Caioba, todos trabalham em turnos contínuos de sete, catorze e 28 dias, com igual período de descanso, gozado em terra. Somados trinta dias de férias regulamentares, passam no mar apenas cinco meses por ano, recebendo salários compensadores (1.900 cruzeiros para o trabalhador menos qualificado). Antônio Magalhães de Lima, um simpático crioulo que em 1939 tomou banho de óleo no poço pioneiro de Lobato, nas terras baianas, diz ter-se acostumado a tudo na plataforma. Mas, no fim de cada turno de duas semanas, a primeira coisa que faz ao voltar a terra é saborear uma cerveja gelada, "para desabafar". Só depois vai reunir-se à família. A rotina por um lado, a sofisticação tecnológica por outro, praticamente liquidaram o romantismo, na saga recente da pesquisa do petróleo no Brasil. Porém ainda se encontram em plena atividade velhas rochas de formação mais antiga, como o pesquisador gaúcho José Anélio Saraiva, 57 anos, que atravessou as três últimas décadas afirmando a existência de petróleo abundante no subsolo de sua terra natal, Pelotas. Desde que leu "O Poço do Visconde", de Monteiro Lobato, não mais abandonou seu amor pela geologia. De leituras, observações e furos feitos pessoalmente com minúsculas sondas - esta semana promete vasculhar a lama que se deposita no fundo da lagoa do Fragata, mediante o emprego de uma broca de 30 metros construída na oficina de um amigo -, Saraiva arranjou material suficiente para escrever dois livros, ambos inéditos. Com o último, que se intitula "Petróleo Não É Refrigerante", pretende "atrair a atenção popular para um problema sério". O pitoresco comportamento sondador e literário de Saraiva não significa, porém, que ele seja um visionário como tantos do passado: "Com 80% de possibilidades, o petróleo da bacia de Pelotas está lá no Atlântico, numa distância de 40 a 60 quilômetros da costa", afirma. No início deste ano, a Petrobrás concluiu uma solitária perfuração na bacia gaúcha, porém a 110 quilômetros da costa. Para um pesquisador sem diploma universitário, ainda que provido de laboratório particular, até que não se trata de uma indicação despropositada. No fundo, é possível que o seu nome, certamente um dos últimos que se poderiam associar aos de autodidatas como Monteiro Lobato, venha um dia ainda a se depositar na bacia do folclore, onde, aos poucos, vai se sedimentando a história romântica da exploração do petróleo no Brasil. As camadas mais recentes, e bem mais pragmáticas, já pertencem à história da Petrobrás.
O
tesouro que já tinha No
delta dos rios, a boa pista Os geólogos brasileiros, ao contrário do público em geral, não se mostraram surpresos diante da animadora descoberta de petróleo na plataforma marítima de Campos. Muitos deles vêem no êxito do navio-sonda "Pctrobrás II", ao perfurar o poço 1-RJS-9A, a confirmação de uma probabilidade científica formulada há muito tempo. Realmente, não é de hoje que os textos de geologia sugerem a existência de grandes reservas minerais nas terras submersas que se estendem desde a linha da costa até uma profundidade de aproximadamente 200 metros. E, mais ainda, estima-se que as reservas marinhas de petróleo são três vezes superiores às existentes nos continentes. Por isso, desde o início da década passada, a pesquisa e a exploração petrolíferas se voltaram decididamente para o mar. É o que ocorre com os americanos em relação à sua plataforma. Os soviéticos, por sua vez, esperam encontrar no oceano Ártico o equivalente à metade das atuais reservas mundiais. Enquanto isso, a Inglaterra deverá investir, até 1982, cerca de 13 bilhões de dólares nas prospecções do mar do Norte. No caso particular de Campos, porém, havia razões a mais para que os geólogos do Brasil confiassem na descoberta de um campo petrolífero. Uma delas é o fato de a região se encontrar no delta do Paraíba do Sul, onde esse velho rio deposita no mar sedimentos carregados desde as proximidades da cidade de São Paulo. "Em sua constituição geológica, os deltas apresentam rochas potencialmente geradoras e armazenadoras de petróleo, ou seja, arenitos e calcários", ensina o professor Francisco Alves, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo e ex-funcionário da Petrobrás. "Os geólogos passaram a encarar com muita seriedade as promessas dessas regiões após a descoberta de grandes reservas petrolíferas no delta do Níger, na África, e no do Mississípi, no golfo do México." Só mesmo furando - Segundo Alves, o Brasil possui outros cinco deltas promissores ao longo de seus 850.000 quilômetros quadrados de plataforma. São eles: os do rio Doce, Jequitinhonha, São Francisco (onde já se encontrou petróleo), Parnaíba e Amazonas. As razões por assim dizer estritamente geológicas das excelentes perspectivas dos deltas se relacionam com a própria origem do petróleo. De acordo com as teorias mais recentes, o petróleo resultaria da decomposição de microrganismos vegetais e animais no fundo dos mares ou em lagunas de elevada salinidade. Essa acumulação, entretanto, necessita de um longo período (o petróleo de Campos deve ter cerca de 100 milhões de anos) e de condições absolutamente especiais, como a completa ausência de oxigenação. Depois de formado, por ser um fluido de baixa densidade, o petróleo tende a migrar então ascensionalmente até encontrar uma rocha porosa e permeável - arenitos e calcários - coberta por uma outra praticamente impermeável, que vai funcionar como uma espécie de tampão indevassável. Posteriormente, fortes pressões geológicas produzirão na rocha-reservatório - normalmente disposta em camadas de centenas de metros - pronunciadas dobraduras, em cujos interstícios o petróleo se alojará à espera das sondas exploradoras. Como ainda não se conhece qualquer propriedade física ou química que permita o descobrimento do petróleo através de uma análise da superfície, a ciência moderna desenvolveu técnicas exploratórias - geológicas, geofísicas e geoquímicas - para mitigar os riscos dos trabalhos de sondagem, já que a prova definitiva da existência ou não do óleo só pode ser obtida com a perfuração. Essas técnicas proporcionam informações prévias da região a ser explorada, de suas estruturas ou "alçaponamentos". Mesmo assim, ainda que situado em regiões comprovadamente favoráveis, nada garante que um novo poço produza efetivamente petróleo. "No final das contas, na hora de escolher o local da perfuração, o geólogo precisa de um pouco de sorte", observa Alves. Dos 4.708 poços exploratórios abertos nos EUA durante a primeira metade de 1960, 87 % se revelaram secos. Antes do 1-RJS-9A, a Petrobrás perfurou dez poços na plataforma de Campos, mas até o final da semana passada não havia esclarecido se resultaram secos, de baixa ou de alta qualidade. Das poucas informações científicas liberadas pelas autoridades, é de se concluir que os trabalhos do navio-sonda "Petrobrás II" foram precedidos de exaustivas pesquisas sísmicas. A técnica consiste em provocar pequenos terremotos pela explosão de cargas de dinamite, registrados por sismógrafos de alta precisão, instalados em pontos diferentes. Tais instrumentos fornecem dados a respeito da profundidade, do relevo e da estrutura das camadas de rochas capazes de conter petróleo, justificando a instalação de uma torre de perfuração, no caso de um navio-sonda. A etapa seguinte foi a de levar o "Petrobrás II" ao ponto mais recomendável e imobilizá-lo sobre as águas com o auxílio de pesadas âncoras. Como sempre, tratou-se de uma operação decisiva, auxiliada por mergulhadores, pois uma leve oscilação do navio-sonda no momento da perfuração poderia ser desastrosa para o conjunto de hastes em cuja extremidade se encontra a broca giratória. Excetuado esse cuidado, as técnicas de perfuração de poços submarinos e terrestres diferem muito pouco. Alguns meses depois de iniciados os trabalhos de sondagem, fragmentos de rocha trazidos à superfície pelo natural refluir de uma lama injetada para resfriar o conjunto de hastes revelaram aos geólogos a presença do calcário e, em seguida, do festejado petróleo de Campos. A vantagem do calcário - Os técnicos consideram prematura qualquer especulação em torno da capacidade do poço 1-RJ-92. Até o último dia 3, o "Petrobrás II" havia perfurado 350 metros de uma camada de calcário, "dos quais cerca de 110 apresentam bons indícios de petróleo". Mas os trabalhos apenas serão encerrados na profundidade de aproximadamente 3.800 metros e só então será possível uma avaliação definitiva de seu potencial. De qualquer forma, parece alentadora a circunstância de a rocha- reservatório ser calcário (o petróleo do recôncavo baiano ocorre em arenito), que abriga cerca de 60% das atuais reservas mundiais. Ela tem a vantagem de possuir grande capacidade de armazenamento (porosidade) e de produção (permeabilidade), características que contribuiriam para proporcionar petróleo abundante. Evidentemente, a Petrobrás ainda tem problemas extremamente complexos a resolver, de caráter científico e técnico. Entre eles, o da perfuração de novos poços, a delimitação do novo campo, o difícil escoamento de sua produção pela distância da costa e a eventual construção de plataformas fixas numa lâmina de água de aproximadamente 120 metros de profundidade. Em todo caso, seguindo uma tendência internacional, a clássica plataforma apoiada no fundo do mar deverá ceder seu lugar a um engenho flutuante, como um navio provido de piloto automático (para impedir os desvios) ou uma plataforma de pés repousados sobre flutuadores submarinos, soluções mais aconselhadas em profundidades superiores a 100 metros.
O petróleo tipo exportação Enquanto o Brasil vivia a expectativa do petróleo, o editor Sebastião Gomes Pinto visitava a Venezuela e o Equador, únicos exportadores de petróleo do continente "Até as 8 da manhã de ontem os venezuelanos tinham em caixa, disponíveis, 842 milhões de bolívares na Tesouraria Nacional. Em meio à algaravia milionária que vive o país em decorrência da alta de preços do petróleo tem-se a impressão de que muitas pessoas perderam a noção de certos mecanismos através dos quais se administra o dinheiro pertencente à coletividade. Fala-se em milhões e milhões e vamos acumulando cifras até ficarmos aturdidos..." Ao publicar esta nota, no último dia 21 de novembro, o jornal El Nacional, de Caracas, não podia ser mais preciso ao definir a situação da Venezuela como uma "algaravia milionária". Algaravia, literalmente, significa "maneira árabe de falar". No entanto, o fato de o Tesouro contar, naquela manhã, com os mencionados 842 milhões de bolívares, ou seja, cerca de 200 milhões de dólares, dificilmente poderia chocar os leitores do El Nacional, embora, para um país de menos de 12 milhões de habitantes como a Venezuela, se tratasse de uma cifra razoavelmente alta. Em termos proporcionais, o Brasil, no início de novembro, tinha em caixa apenas pouco mais de metade dessa quantia e ainda assim foi obrigado a despejar, ou "desovar", como dizem os especialistas, quase todas as suas reservas para evitar uma recessão da economia. Acontece que, para os venezuelanos, cifras astronômicas transformaram-se quase numa rotina, já que, afora artigos mais alentados sobre beisebol, o que se encontra nos jornais nos últimos tempos são notícias sobre milhões que foram ou que serão investidos neste ou naquele projeto. Ainda não se têm informações oficiais de que eles estejam comprando ilhas nas costas dos Estados Unidos, como fez o Kuwait, ou adquirindo ações de empresas da mais nobre tradição germânica. Mas sabe-se que nos últimos dias uma missão de economistas venezuelanos andou pelas terras áridas do golfo Pérsico tratando com seus atuais parceiros da grande aventura dos petrodólares, da aplicação dos recursos das exportações em determinados tipos de empreendimentos. De qualquer maneira, reservando cerca de 50% dos impostos sobre o petróleo explorado no país pelas companhias estrangeiras para o chamado Fondo de Inversiones, criado em junho passado, a Venezuela estaria em condições de aplicar, em ilhas, ações ou onde bem entendesse - e na verdade já está aplicando -, uma quantia estimada por um alto funcionário do governo em aproximadamente 12 bilhões de bolívares ou 3 bilhões de dólares. Numa recente mesa-redonda nos estúdios da Venevisión, o ministro Gumersindo Rodríguez, encarregado do principal órgão de planejamento do país, deixou inclusive escapar suas esperanças de que só os juros que engordarão as aplicações do fundo de inversões deverão somar, no final de 1975, mais de 10 bilhões de bolívares, ou seja, 2,5 milhões de dólares. É só assinar o cheque - Nenhum dos entrevistadores do ministro pareceu surpreso com essa informação. E ele continuou sendo bombardeado por perguntas sucessivas sobre questões que certamente deveriam ter muito maior importância para o público telespectador, como as divergências surgidas entre os técnicos a respeito das vantagens e desvantagens da construção em Caracas de um metrô, de um mono-rail, ou da ampliação da rede de free-ways que cortam a cidade. O fato de o ministro revelar algumas cifras espantosas sobre o orçamento da nação não interessou absolutamente a seus interlocutores. Na verdade, para uma grande camada da população da Venezuela, até mesmo em círculos governamentais obrigados a adotar como mandamento número 1 a determinação do presidente Carlos Andrés Pérez, de "administrar a abundância com o espírito da escassez", é quase impossível evitar um comportamento levemente irresponsável diante da nova situação. Num departamento do governo é possível ouvir-se um funcionário dizer que, para indenizar as companhias estrangeiras que exploram minério de ferro no país, o único trabalho do presidente da República será o de "assinar um cheque de uns 400 ou 500 milhões de bolívares". Assim também quando se fala sobre as indenizações que deverão ser pagas às companhias estrangeiras que exploram o petróleo é possível ouvirem-se comentários levemente maliciosos insinuando que as indenizações serão pagas pelas próprias companhias. Como? É muito simples. Basta aumentar um pouco mais o preço do petróleo que evidentemente continuará sendo vendido às companhias. Com efeito, desde que, num dia de dezembro do remotíssimo ano de 1922, ocorreu o pirotécnico e histórico "reventón" do poço de petróleo Barroso 2, próximo a Maracaibo - durante nove dias e nove noites, sem que ninguém pudesse contê-lo, o Barroso 2 mandou para os céus uma quantidade estimada em 100.000 barris a cada 24 horas -, a Venezuela jamais se encontrou diante de esperanças tão grandes de desenvolvimento econômico quanto agora. Há no entanto uma diferença substancial. Cinco anos depois da erupção do Barroso 2, 73 empresas das mais variadas e nebulosas origens estavam fazendo buracos no chão da Venezuela, estimuladas por uma frase igualmente histórica do então todo- poderoso ditador e general José Vicente Gómez: "Ustedes conocen el petroleo. Nosotros no somos más que novicios". Hoje, um ano depois do reventón de preços provocado pela crise mundial, uma comissão especial criada pelo presidente Andrés Pérez dá forma definitiva a uma "lei de reversão" da indústria petrolífera, a grande arma jurídica que será voltada contra as companhias provavelmente ainda em 1975. Não se pode negar aos juristas venezuelanos uma vasta experiência no trato das filigranas da legislação petroleira. Afinal, durante muitos anos, as escolas de direito da Venezuela e alguns de seus professores foram acusados de preparar seus alunos mais brilhantes para defenderem os interesses das empresas estrangeiras de qualquer tipo de investida do governo. O país petroleiro - Ainda assim, no entanto, é perceptível na Venezuela um clima de tensão diante do que está para acontecer. De uma certa maneira, nota-se que mesmo alguns venezuelanos ilustres se sentem ainda um pouco como os "novicios" de que falava Gómez. Evidente que o longo convívio com sondas, cabrias ou equipamentos de prospecção sísmica - e naturalmente com os chamados "gringos" - não foi totalmente inócuo na formação do temperamento e na criação de certas idiossincrasias tipicamente venezuelanas. Ao contrário, segundo alguns estudiosos dos problemas do país e do seu povo, a Venezuela teria se transformado numa autêntica "cultura do petróleo". Outros, sem ir tão longe, falam na existência de um país petroleiro dentro do território nacional, um país com poder quase absoluto sobre vastas áreas e dominado por uma espécie de "exército invasor". Nesse país, até a língua tem características próprias, forjada da mistura algo subserviente do espanhol com o inglês, dando origem ao que um sociólogo venezuelano chama de "anglo-petroleiro". Os vigilantes que à noite percorrem as instalações dos campos, os "watchmen" das companhias, passam a ser os "guachimanes". Os operários negros vindos das Antilhas para trabalhar nos poços - e que geralmente falavam inglês - passam a ser os "maifrends", para os venezuelanos, porque era assim que os gringos os chamavam nos cabarés rústicos onde, aos sábados à noite, a distância social e a rígida hierarquia das companhias de petróleo se diluíam nas mesas de jogo ou nas salas de baile. Até mesmo as prostitutas mais notórias dos velhos tempos das "cidades- petróleo" - acampamentos ou grandes favelas que brotavam nos limites dos campus - não escapavam de uma estreita relação entre as suas funções e a atividade petroleira. De acordo com o tipo físico ou conforme sua habilidade profissional, passavam a ser conhecidas como "la tubería", "las quatro válvulas", "la cabria", "la remolcadora", etc... É claro também que a influência do "anglopetrolês" não se limitaria aos do campo de petróleo. As concessões de petróleo na Venezuela chegaram a atingir, por volta de 1970, uma área de 2,5 milhões de hectares. E, embora 90% dessas vastidões permanecessem completamente ociosas, ela se transformou numa das maiores produtoras e exportadoras do mundo (hoje é a terceira, superada apenas pela Arábia Saudita e pelo Irã). Nem sempre, é verdade, o país do petróleo dentro da Venezucla conseguia manipular os cordéis das decisões políticas. Por volta de 1945, quando Rómulo Betancourt chegava a quebrar seus cachimbos golpeando a mesa presidencial nos acessos de exaltação nacionalista, as companhias estrangeiras na Venezuela foram obrigadas a aceitar a aplicação da lei do "fifty-fifty", ou seja, metade das receitas do petróleo deveriam ir para o Estado. Por algum estranho fenômeno geológico, sempre que ocorriam tais tipos de exaltação, seja na Venezuela ou em qualquer outro país do continente, o petróleo diminuía seu ímpeto e deixava de jorrar com tanta abundância. Na Venezuela, no entanto, as camadas subterrâneas parecem ter-se acomodado pouco tempo depois, quando Betancourt foi substituído pela ditadura do general Marcos Pérez Giménez. A presença do generoso militar - ele concedeu às companhias mais de 800.000 hectares de concessões -, somada ao fechamento do canal de Suez, fez os negócios crescerem num ritmo alucinante. Calcula-se que, apenas nos anos de 1956 e 1957, 1,23 bilhão de dólares foi abarrotar os cofres do governo. Afora outras aplicações difíceis de serem detectadas, uma parte desse dinheiro serviu somente para transformar Caracas ou numa "Versalhes moderna", segundo um historiador venezuelano, ou numa "moderna Babilônia de cimento e aço", segundo outro. Uma nova Caracas - Quando historiadores comparam Caracas com Babilônia ou Versalhes talvez sejam movidos apenas pela tentação de reafirmar a discutida teoria de que a história se repete. No entanto, aqui mesmo na América do Sul, em Quito, capital do Equador, parece estar ocorrendo de fato uma repetição nítida, visível e quase palpável do que aconteceu com Caracas. O prefeito de Quito, um planejador urbano treinado nos Estados Unidos, tem se dedicado nos últimos tempos à construção obstinada de viadutos e passagens subterrâneas, tendo mesmo se aventurado a cortar a cidade de apenas 650.000 habitantes com uma free-way que liga o centro ao aeroporto. Para isso contou com os recursos de uma fonte inesperada de riqueza para a outrora "República de bananas" do Equador: o petróleo, que um consórcio formado entre a Texaco e a Gulf encontrou e está explorando nas selvas do oriente do país. É com visível entusiasmo que um empresário equatoriano dizia dias atrás que a velha cidade de San Francisco de Quito, onde ainda existem bairros tipicamente espanhóis e igrejas com altares inteiramente revestidos de ouro, está hoje cada vez mais parecida com a Caracas do início da década de 50. E é também com enorme interesse que os especialistas em petróleo do Equador, sejam funcionários do Ministério de Recursos Naturais ou simples jornalistas, procuram informar-se com seus colegas venezuelanos sempre que um deles despenca em Quito para algum simpósio ou conferência internacional sobre assuntos econômicos ou problemas energéticos. Essas reuniões estão se tornando muito freqüentes em Quito, como eram em Caracas há vinte anos. No Equador, a riqueza do petróleo ainda é praticamente insignificante se comparada com a da Venezuela. O país exporta pouco mais de 200.000 barris diários - apenas o suficiente para ingressar na OPEP ocupando um modestíssimo 12º lugar, o último entre os felizes proprietários de jazidas. Com poços nas selvas da Amazônia equatoriana e um oleoduto que sobe a mais de 4.000 metros para atravessar a cordilheira e desemboca no porto de Esmeraldas, no norte do país, o Equador serve como exemplo muito característico para uma definição tradicional do que o petróleo representou durante décadas para os países subdesenvolvidos: uma riqueza que ninguém vê, que sai do fundo do poço, entra por um cano e desaparece no horizonte no bojo de um navio- tanque. Mesmo invisível, porém, o petróleo está presente em Quito. Não se chegou ainda ao estágio de Caracas, onde o consumo desenfreado e quase gratuito de gasolina de alta octanagem – "la buena", como dizem os venezuelanos, que pagam por ela menos de 10 centavos de dólar - faz com que os postos de serviço exalem o desagradável odor de um boxe de corrida de Fórmula 1. Mas em Quito, indiscutivelmente, está sendo escrito mais um capítulo importante da história do petróleo sul-americano. Recentemente, depois de visitar Quito e de se encontrar com o jornalista equatoriano Jaime Galarza, autor de alguns livros onde desfilam as mais ignominiosas personagens e as mais incríveis negociatas praticadas até há pouco tempo nos bastidores da política do petróleo, o escritor Julio Cortázar escrevia a um amigo: "Eu e Jaime conversamos muito sobre o ‘Festín’ (‘El Festín del Petróleo’, um dos livros de Galarza) e sobre outros petróleos deste continente. . . Aprendi muita coisa que espero me seja útil na França". Realmente, assim como os hotéis de luxo de Quito, que atingem o extraordinário índice de ocupação de 96% dos seus aposentos, servem como expressivo sinal exterior da força do petróleo num país como o Equador, uma visita ao centenário "penal García Moreno", onde Jaime Galarza cumpre pena de prisão acusado de ter sido autor intelectual de um assalto com finalidades subversivas, pode ser bastante instrutiva para um estudioso de assuntos relacionados ao petróleo. Segundo voz corrente em Quito, Galarza continua confinado às úmidas paredes do "penal" menos por sua possível e jamais confessada participação em assaltos e mais por ter se transformado num desses homens inconvenientes aos olhos de alguns interesses. Não se trata propriamente de interesses do governo do Equador. O festim do petróleo - Afinal, desde que o atual governo militar derrubou a ditadura de Velasco Ybarra, Jaime Galarza passou a inclusive defender a política petroleira implantada no país há dois anos pelo presidente Guillermo Rodríguez Lara. De acordo com seus propósitos "nacionalistas revolucionários", o presidente obrigou o grupo Texaco-Gulf a aceitar o Estado como sócio em seus negócios. "O Festim do Petróleo" mereceu inclusive uma observação simpática do ex-ministro de Recursos Naturais do Equador, o oficial de Marinha Gustavo Jarrín Ampudia – "o livro tem muito de verdade", declarou Ampudia num debate na televisão, pouco antes de ser afastado do cargo há cerca de três meses. Além disso, embora talhado ao feitio militar, o governo equatoriano é suficientemente tolerante para permitir que mais de 5.000 adeptos do maoísmo teórico se reúnam regularmente no estádio universitário da capital. Ou ainda que os ônibus que circulam pelas poeirentas estradas do oriente, onde a Texaco-Gulf extrai petróleo, ostentem na traseira fotos do falecido Che Guevara, tamanho poster. Rodríguez Lara, segundo seus opositores mais moderados, teria mesmo conseguido implantar no Equador um regime militar "quase institucionalizado". Pelo menos é assim que um líder da democracia cristã, que como os demais políticos está em gozo do que os equatorianos chamam de "vacaciones", define seu governo. Outro líder da oposição chega a comparar o presidente a "uma palmeira que se levanta sobre uma planície de vegetação rasteira e insignificante". De fato, a única árvore mais ou menos encorpada na paisagem política equatoriana, o empreendedor ministro Jarrín Ampudia, foi remetida para Londres, com as modestas funções de adido naval. Nem mesmo os mais atentos e bem informados especialistas em política do país conseguiram entender por que razões o chefe do governo teria dispensado os serviços de um auxiliar que chegara a ocupar o cargo de presidente da OPEP e que recebia em sua casa, em Quito, personalidades do calibre do xeque Ahmed Yamani, todo- poderoso ministro de Petróleo da Arábia Saudita. Razões de política interna, o medo de que Jarrín pudesse se transformar também numa palmeira, podem ter influído na decisão do presidente. Mas também se admite em Quito, com toda naturalidade, que, assim como Jaime Galarza, Jarrín tenha sido incluído numa espécie de "lista negra" elaborada por entidades misteriosas. É possível. Galarza, por exemplo, insistia em denunciar entre outros escândalos a espantosa concessão para a exploração do riquíssimo manancial de gás do golfo de Guaiaquil a um misterioso senhor com o expressivo nome de Shannon Wolfe que, por meio de meia dúzia de testas-de-ferro equatorianos, conseguiu praticamente se transformar em dono de todos os recursos do subsolo do litoral do Equador. Esses testas-de-ferro eram uma dona de casa, um comerciante semi-analfabeto, o motorista particular do sr. Wolfe. Um deles, conforme se comprovou mais tarde, apresentou-se e ganhou a concorrência pelas concessões utilizando documentos falsos. Jarrín Ampudia, por seu lado, insistia muito na necessidade de o governo do Equador ampliar sua participação no consórcio Texaco-Gulf que atualmente é de 25%, uma posição minoritária bastante desconfortável. Além disso, em seus discursos fazia constantes referências ao lendário e controvertido dr. Mohamed Mossadegh, primeiro-ministro do Irã, que no ano de 1951 teve um sonho absurdo. Mossadegh sonhou que a Anglo-Iranian Co. devia ser nacionalizada. Como se sabe, quando Mossadeghi acordou, já não era ministro de Estado. No entanto seu sonho hoje poderia definido como premonitório. O amanhã é hoje no continente - Na verdade, os próprios empresários internacionais parecem estar definitivamente convencidos, como diz um alto executivo de uma indústria automobilística que tem linha de montagem em Caracas, de que, "nas relações com os países em desenvolvimento, é mais conveniente ceder um pouco de terreno do que abandonar o campo definitivamente". De uma certa maneira é o que diz claramente a prestigiosa revista Fortune em seu número de agosto, ao publicar um alentado artigo sobre as relações entre os EUA e os demais países do continente com o significativo título: "Subitamente, é amanhã na América Latina". É claro que nos casos específicos de Equador e Venezuela, o petróleo terá de desempenhar um papel preponderante nesse alvorecer repentino. No Equador, por exemplo, independentemente de quantos por cento o governo poderá comprar de ações da Texaco-Gulf (na realidade, nem mesmo os 25% de capital do Estado foram ainda integralizados) ou seja, independentemente do verdadeiro teor de "nacionalismo revolucionário" do atual governo -, sente-se que a grande preocupação no momento é o que se convencionou chamar de "semeadura" do petróleo. Ou seja, aplicação dos recursos ainda invisíveis do subsolo em projetos de desenvolvimento. Procuram-se bons executivos - O problema não é dos mais fáceis, especialmente dada a carência de recursos humanos no país. Nas últimas semanas, numa prova de que está definitivamente disposto a abandonar o antigo processo que eles chamam de "palanca" (a alavanca, o cartucho, o apadrinhamento) que sempre vigorou nas repartições públicas do país, anúncios de meia página saíram nos jornais de Quito solicitando funcionários executivos de alto nível para trabalharem junto à representação do Equador na OPEP. Ao mesmo tempo, o governo divulgava que em menos de um ano aprovou 541 projetos de desenvolvimento econômico "que se acumulavam nas prateleiras dos ministérios ao longo de quase 150 anos de vida republicana", como disse o presidente Rodríguez Lara. Ainda assim, como um poço inesgotável, a reserva monetária atingia níveis jamais imaginados. Até o dia 13 de setembro, faltando ainda três meses para encerrar o ano, havia um saldo de 34 milhões de dólares, cifra quase catorze vezes maior que os modestos 27 milhões de dólares obtidos durante todo o ano de 1971. Inevitavelmente, por trás desse depósito de dinheiro, ergue-se o fantasma de uma inflação incontrolável, flagelo econômico que nos últimos quinze ano era praticamente ignorado pelos equatorianos, e que deve atingir este ano níveis próximos a 30%. E, enquanto as estatísticas oficiais admitem que existem no país mais de 1,2 milhão de desempregados ou sub- empregados, a Cia. de Água e Esgotos de Quito adquiriu um computador caríssimo, de terceira geração, que só funciona 10 minutos por dia. A refinaria estatal que está sendo construída em ritmo ultra-acelerado consumirá mais de 100 milhões de dólares, e oferecerá emprego apenas para 120 empregados. Ou seja, um investimento de mais de 830.000 dólares por empregado. Não, não é fácil semear o petróleo. Especialmente quando, à velocidade natural que se exige para a movimentação de um dilúvio de dinheiro, se somam as mais variadas pressões internas e se levantam dúvidas seguidas quanto à própria capacidade do país de assumir essa responsabilidade. De certa maneira é o que acontece na Venezuela. Recentemente, quando os recursos do fundo de inversões chegavam perto dos 10 bilhões de bolívares, no Parlamento e na imprensa vozes extremamente preocupadas começaram a indagar por que esse departamento do governo necessitava utilizar-se do trabalho de sessenta funcionários e o que estavam fazendo esses sessenta indivíduos, uma vez que o fundo parecia tão imóvel quanto uma gigantesca barra de ouro. Um ministro de Estado foi obrigado a vir a público para tranqüilizar a nação afirmando que o reconhecidamente eficiente Bank of America levou cem anos para manejar recursos de tal magnitude. Nos elevadores e banheiros - Quanto ao número de funcionários não houve maiores explicações. Afinal, apesar de se dizer extremamente preocupado com os gastos improdutivos, Carlos Andrés Pérez tem sido obrigado a algumas pequenas concessões. Quando tornou obrigatória a presença de ascensoristas nos elevadores dos edifícios públicos, ainda que esses elevadores fossem automáticos, e determinou que todas as toaletes de restaurantes e sanitários públicos deveriam ser permanentemente atendidos por um pretenso técnico em assuntos de asseio, Pérez foi chamado de "brilhante gênio keynesiano". Na verdade, ele estava tentando enfrentar, ainda que com medidas de reduzido impacto, o problema do desemprego, que também é considerado grave na Venezuela. A presença de funcionários em banheiros onde existem secadores de mão de ar quente acionados por um simples apertar de botão é realmente um tanto incômoda, especialmente quando o banheiro tem apenas o espaço suficiente para um usuário, como costuma acontecer. Também deve ter sido bastante incômodo para os responsáveis por uma estação de TV de Caracas o encontro com os representantes do governo no qual foram propor entusiasmados que se iniciassem as transmissões em cores no país, já que existiam na Venezuela equipamentos necessários e mais de 8.000 receptores. Para surpresa de ambas as partes, constatou-se que nem os transmissores e nenhum dos 8.000 aparelhos haviam passado pela alfândega. As cores evidentemente foram proibidas na TV, já que oficialmente não existiam na Venezuela receptores adequados. O fim, onde tudo começou - O contrabando - e existem lanchas ultrapossantes especializadas nesse serviço, uma delas, apreendida pela polícia, equipada com cinco formidáveis motores colocados um ao lado do outro - ou o hábito bastante difundido de não se pagarem as prestações das casas e apartamentos do Banco Obrero - o BNH venezuelano -, alegando o morador do imóvel simplesmente a sua condição de membro inscrito na Acción Popular, o partido do governo, como se isso lhe desse certos direitos, são alguns hábitos que permanecem vigentes no país. "É o que eu chamo de ‘facilismo’", explica um experimentado jornalista político de Caracas. Esse "facilismo" - outra característica de um país petroleiro - seria ainda decorrente das estruturas dos campos e das "cidades do petróleo", onde todos os serviços, desde o policiamento até o abastecimento de água, ou a venda de gêneros alimentícios, ficavam por conta da companhia. O destino da Venezuela está irremediavelmente atrelado ao petróleo. Na já famosa Faja Petrolífica del Orinoco, área reservada para futuras explorações, os técnicos da Companhia Venezuelana de Petróleo (a CPV é a quinta companhia em volume de produção concorrendo com um frondoso lote de 23 empresas privadas) já concluíram que ali se encontra o maior depósito de petróleo do hemisfério ocidental. Um cálculo muito preliminar fala em 700 bilhões de barris de petróleo. Embora se trate de um tipo de óleo de difícil exploração - o chamado petróleo pesado -, é certo que dentro de pouco tempo o Orinoco poderá estar produzindo em larga escala. De qualquer forma, o país parece estar cansado dessa dependência exclusiva do subsolo. Afinal, no ritmo atual de produção, de cerca de 3.200 barris diários, as reservas de petróleo "leve" poderão estar esgotadas já no início da próxima década. Certamente por isso é que o presidente Pérez, num discurso recente pronunciado em Maracaibo, onde a história do petróleo começou, tenha declarado solenemente: "Estamos hoje encerrando o ciclo do petróleo na costa oriental do golfo. E iniciando o desenvolvimento agropecuário da região".
Os investimentos em Garoupa Dentro de três ou quatro anos, quando o petróleo de Campos estiver chegando, finalmente, às bombas de gasolina da região centro-sul, a Petrobrás já terá aplicado mais de 5 bilhões de cruzeiros nos preparativos para explorar sua generosa jazida submarina. Fora da empresa, na euforia pelos bons resultados colhidos no poço pioneiro de Garoupa, o peso desse investimento foi temporariamente esquecido. Mas, ao repassar friamente os relatórios de despesas com pesquisas em plataforma continental, os técnicos da empresa estatal podiam, no começo da semana passada, permutar orçamentos de cifras inusitadas para as condições brasileiras. O relatório anual da Petrobrás para 1973 revela que o conjunto dos recursos imobilizados na investigação de novas reservas locais, compra de navios, ampliação das refinarias e sondagens no Oriente Médio atingiu, naquele ano, 3,7 bilhões de cruzeiros. Em 1974 estão sendo gastos 1,8 bilhão na prospecção interna. Agora, somente a abertura de Garoupa irá consumir pelo menos 1,5 milhão de cruzeiros anuais, até 1979, prazo para a conclusão das obras definitivas de transporte por oleoduto. Certamente, a empresa tem o crédito necessário no mercado internacional. Mas a dimensão do projeto sugere meditação. PREÇOS DE URGÊNCIA - Se a produção futura de Campos alcançar os esperados 350.000 barris/dia, o investimento básico na extração e transporte poderá superar os 3 bilhões de cruzeiros. A primeira etapa, de pesquisas geológicas e abertura do poço agora festejado, custou aproximadamente 100 milhões de cruzeiros. A sondagem eletrônica do subsolo marinho, realizada por navios especializados, é a única operação que sai mais barata na plataforma continental que em terra firme. Essa pequena vantagem foi anulada, em Garoupa, pela existência de doze furos provavelmente "secos", um dispendioso saldo negativo que a Petrobrás teve de cobrir até que o 1-RJS-9A, atualmente em fase final de perfuração, mostrasse o caminho das reservas. Os gastos com a operação de uma plataforma móvel podem chegar a 250.000 cruzeiros por dia. Na fase seguinte, da demarcação das jazidas, serão necessárias cinco plataformas fixas e, pelo menos, seis meses de perfuração. O aluguel de tais estruturas e sua manutenção ao largo do litoral do Estado do Rio de Janeiro irão consumir outros 100 milhões de cruzeiros. Avaliada a reserva, se ingressará no período mais dispendioso: o da preparação de trinta furos produtivos, com vazão individual de 5.000 a 6.000 barris diários. Para armazenar essa coleta serão construídos, de início, reservatórios semi submersos em concreto, imaginados para funcionar como postos de abastecimento a navios encarregados da operação de transporte. A escavação e revestimento dos poços, somados ao custo dos tanques, estão orçados em 2,7 bilhões de cruzeiros. E o reforço da frota de petroleiros de cabotagem exigiria outros 200 milhões. A escolha de uma técnica aparentemente precária para a extração das jazidas de Campos traria, como compensação, a possibilidade de antecipar para dois anos o intervalo entre a descoberta e o aproveitamento do óleo. Tradicionalmente, a construção de um oleoduto submarino demora o dobro. ESCOAMENTO - Contudo, a implantação do oleoduto, como um sistema duradouro de escoamento da produção, se tornará obrigatória no período subseqüente, liberando as plataformas -tanques para outros campos pioneiros. Na área de Garoupa, localizada a 80 quilômetros da costa, o mar tem mais de 100 metros de profundidade. E a montagem de canalizações tratadas para suportar altas pressões, mais o terminal terrestre, custará 2 bilhões de cruzeiros. A derradeira etapa, de obtenção dos derivados comerciais, é a que apresentará a menor despesa. Ocorre que o plano de construção de refinarias, manejado desde o final da década passada, é resultado das estimativas de consumo - e não da produção nacional. Assim, a duplicação das instalações de Paulínea (SP) e as obras de novas unidades em São José dos Campos (SP) e Curitiba (PR) estão sendo financiadas por esquemas próprios. Dessa maneira, com o orçamento total de 5,1 bilhões de cruzeiros, a conquista da jazida de Campos representa um investimento de 15.000 cruzeiros por barril/dia de extração normal. No Oriente Médio, onde as condições são as melhores possíveis, o valor cai para 2.000 cruzeiros. Enquanto no mar do Norte, encapelado e mais profundo, chega-se a 60.000 cruzeiros. Comparando esses valores com o volume possível de produção, o óleo bruto de Garoupa, numa estimativa preliminar, custaria menos de 3 dólares por barril produzido. Sem dúvida, um custo altamente vantajoso: seu preço médio internacional é de 9,70 dólares.
Se
for preciso, teremos Os
milhões de barris de óleo que podem sair de O xisto lembra uma massa folhada, de cor cinza-escuro, quebradiça e amorfa. Chamado cientificamente do folhelho pirobetuminoso, seu interesse - nesta época de crise do petróleo - vem crescendo pelo que pode representar a alternativa enquanto se espera pelo aproveitamento de novas fontes energéticas, como a solar e a nuclear. No Brasil, o xisto se concentra na formação de Irati, que se estende de São Paulo até o Uruguai, quase sem interrupção. No mundo todo, sua reserva é estimada atualmente em 2 trilhões de barris de óleo, isto é, três vezes mais que a quantidade de petróleo já conhecida. No entanto, por ser antieconômica pelos métodos atuais, a exploração de suas jazidas é pouco praticada. Em grande escala, ela só é realizada na China e na União Soviética (onde existe o xisto de mais alto teor de óleo). Com os preços do petróleo quadruplicados em relação à média de 1972, os Estados Unidos, detentores da maior reserva, iniciaram, desde o ano passado, estudos mais intensos visando a seu aproveitamento. A história do xisto brasileiro, no entanto, começa em 1951, com a criação, pelo governo federal, da Comissão de Industrialização do Xisto Betuminoso (CIXB), subordinada ao Conselho Nacional do Petróleo, com o objetivo de proceder a estudos sistemáticos no vale do Paraíba, em São Paulo. Incorporada em 1954 à Petrobrás, com o nome rebatizado para Superintendência de Industrialização do Xisto (SIX), sua tentativa inicial foi a de desenvolver um projeto de extração utilizando técnica e equipamentos soviéticos em Tremembé, no mesmo vale do Paraíba. O projeto fracassou em conseqüência do alto teor de água (33%) contido no xisto da região. Daí por diante, a Petrobrás concentrou seu trabalho na formação de Irati. Começou por eleger a região de São Mateus do Sul (PR), cujas jazidas numa área de 74 quilômetros quadrados encerrariam reservas de 650 milhões de barris de óleo, 10 milhões de toneladas de enxofre, 4,5 milhões de toneladas de gás liqüefeito de petróleo e 22 milhões de metros cúbicos de gás combustível leve. Na implantação da usina-piloto de São Mateus do Sul, que começou a funcionar efetivamente este ano, a Petrobrás investiu 150 milhões de cruzeiros. Ali, empregando o "processo Petrosix", uma das cinco mais promissoras técnicas de exploração existentes no mundo, e inteiramente desenvolvida pela empresa estatal desde 1967, cerca de 2.200 toneladas diárias de xisto, com teor médio de óleo de 7,3%, se transformam em 1.000 barris de óleo. Nessa tarefa, como nos outros sistemas conhecidos, o Petrosix se defronta com um sério problema de cuja solução depende a viabilidade do projeto. Compensa ou não? - A questão é saber se a energia disponível como produto final toma-se compensatória diante do consumo energético empregado. Por exemplo, nos Estados Unidos, onde os estudos se encontram mais adiantados, um consórcio de empresas envolvido com a exploração de generosas reservas do Colorado afirma que o investimento de uma unidade de energia, no processo, resulta em dez unidades obtidas do aproveitamento do xisto. Neste caso, o custo de 1 barril de óleo chegaria a 5 dólares. No entanto, uma multinacional de petróleo, incidentalmente envolvida na exploração de uma área vizinha, chegou à conclusão de que o balanço energético era nulo, tornando qualquer esforço a utilização do xisto totalmente inútil. A divergência parece ter sido equacionada por uma pesquisa do próprio governo americano, que concluiu ser possível obter, como resultado, duas vezes e meia a energia investida na fabricação. Assim, o custo do barril de óleo ficaria em torno dos 12 dólares, tornando o desenvolvimento do processo uma simples questão de eficiência. No caso de São Mateus, como se obtêm outros derivados ao mesmo tempo, a extração do óleo se tornaria vantajosa. De qualquer modo, até março os técnicos da Petrobrás deverão concluir os estudos de viabilidade comercial do empreendimento. Se o parecer for favorável, até o fim da década estará funcionando a primeira usina brasileira de extração comercial do óleo do xisto - orçada em 300 milhões de dólares (22 bilhões de cruzeiros atuais), com capacidade de produção diária de 60.000 barris de óleo, 880 toneladas de enxofre, 490 toneladas de gás liqüefeito de petróleo e 2 milhões de metros cúbicos de gás combustível. E o minério processado, que tem o mesmo volume original, apenas com 20% a menos de peso, poderá ser recolocado no lugar de onde foi retirado. No momento, os resíduos estão sendo depositados dentro de um lago artificial, o que permite verificar também a possível poluição causada pelos restos da matéria-prima explorada. Nas proximidades das comportas dessa represa os funcionários de São Mateus dizem ter visto diversos peixes, "de até meio quilo", nadando em suas águas. Além disso, eles revelam que no fundo do lago estão brotando plantas aquáticas, o que poderia provar a natureza não poluente do refugo da usina. O engenheiro Carlos Egídio Bruni, superintendente da SIX, que estuda ainda a instalação de outras duas usinas - em Dom Pedrito e São Gabriel (RS) -, antecipa em função de tudo isso que o processo Petrosix é economicamente viável. E lembra que, mesmo com recentes descobertas de petróleo, o xisto não diminui de importância. "Na pior das hipóteses", afirma ele, "teremos uma reserva energética capaz de suprir nossas necessidades por um longo período, já que uma avaliação preliminar de nossas jazidas revelou um potencial de 800 milhões de barris de óleo". | ||
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