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recente aumento nos preços do petróleo levou 11 de julho de 1979 Nem mesmo o ministro da Saúde, Mário Augusto de Castro Lima, que sempre tem uma piada engatilhada, animou-se a fazer graça, ao final da reunião ministerial da quarta-feira da semana passada. Três horas antes, sob o olhar severo do busto envernizado do marechal Deodoro da Fonseca, que domina a grande mesa da sala do Conselho de Ministros, no 3º andar do Palácio do Planalto, o presidente João Baptista Figueiredo convocara a nação a habituar-se com a "iminência de passar a viver sob uma economia de guerra". Os motivos da grave advertência tinham sido lançados ao mundo na semana anterior, em Genebra, quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) elevou o preço do barril de petróleo para uma faixa entre 18 e 23,50 dólares. E desta vez, ao contrário do que ocorrera durante a crise de 1973, o Brasil decidira acompanhar a preocupação dos demais países importadores. "Por seus reflexos no balanço de pagamentos, a questão energética passa a assumir prioridade máxima em meu governo", determinou Figueiredo, poucas linhas antes de anunciar a criação da Comissão Nacional de Energia (CNE) - o órgão que, na prática, dirigirá os destinos econômicos do país daqui para frente. A idéia de constituir a CNE começou a ganhar forma definitiva no início da semana atrasada. Na quarta-feira, 27 de junho, enquanto a OPEP caminhava para o aumento dos preços do petróleo, definiu-se a composição oficial do novo conselho. Ele seria presidido pelo vice-presidente da República, Antônio Aureliano Chaves de Mendonça, e teria a participação dos ministros da Agricultura, Fazenda, Transporte, Indústria e Comércio, Minas e Energia, Planejamento, Comunicação Social e do chefe do Gabinete Militar, além dos presidentes do Conselho Nacional de Petróleo (CNP), Petrobrás, Eletrobrás e de três cidadãos de "ilibada reputação e notório saber em assuntos energéticos". Tem-se como certa a indicação do empresário paulista Mário Garnero, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Especula-se sobre a participação do diretor- superintendente do Grupo Votorantim, Antônio Ermírio de Moraes. INDICAÇÃO DO MINISTRO - Embora já nesta quarta-feira a CNE se reúna para detonar os primeiros petardos poupadores de combustível - e o racionamento direto da gasolina não está entre eles -, é possível que, pelo menos no início, seus membros pouco façam além de referendar providências anteriormente decididas. Chaves, por exemplo, ficou sabendo que seria o czar da energia meia hora antes do discurso presidencial que o nomeou. Sua indicação, por sinal, nasceu de uma sugestão de Simonsen, provavelmente o mais importante municiador de Figueiredo na atual guinada energética. Com efeito, no desarrumado gabinete residencial de Simonsen foram produzidos dois documentos básicos para a localização da questão energética como epicentro dos problemas econômicos nacionais. Um deles, com o rótulo de "Secretíssimo", fundamentado inclusive em análises de áreas militares, alinha cenários de comportamento para o Brasil diante de uma eventual guerra no Oriente Médio. O outro, classificado como "Secreto", avalia, em termos econômicos, as opções de política econômica mais convenientes ao país. VENTO CONTRA - Decididos os novos caminhos, resta a alguns dos mais bem postados escalões governamentais e escritórios estatais amargar a derrota e um provável exílio. O ministro das Minas e Energia, César Cals, por exemplo, deve passar o bastão da política energética. De outro lado, na direção da Petrobrás, presidida por Shigeaki Ueki, começam a soprar os ventos do esvaziamento. Mais dramática, no entanto, é a situação da Nuclebrás. No discurso de Figueiredo não há sequer uma linha sobre o programa nuclear. E mais: o presidente da Nuclebrás, Paulo Nogueira Batista, não participou da CNE. Além disso, as novas alternativas passam, infalivelmente, por mais um round de austeridade nos gastos públicos. Participantes da reunião ministerial da quarta-feira passada impressionaram-se com o tom carregado da maioria das intervenções. Talvez sentindo o clima dominante, Simonsen iniciou a sua solicitando aos presentes que evitassem o desânimo e o pessimismo. "É um pedido difícil de ser atendido", observou, mais tarde, um ministro. Para ele, a exposição de Simonsen deixou entender que a inflação será maior que a prevista, o balanço de pagamentos chegará a níveis críticos e o crescimento econômico se reduzirá. Apesar da tentativa de injetar algum otimismo em seus pares, Simonsen terminou seu recado reforçando a tese do orador anterior, César Cals, ministro das Minas e Energia, com respeito à diminuição da dependência do petróleo árabe. E propôs a retomada das "alianças latino-americanas", sobretudo com o México, Venezuela e Argentina. Os demais ministros limitaram-se a aplaudir as decisões de Figueiredo e, no geral, a defender projetos setoriais. Eliseu Rezende, dos Transportes, falou de uma drástica redução do consumo de combustíveis nas regiões metropolitanas. João Camilo Penna, da Indústria e do Comércio, sugeriu um controle rígido do governo sobre o consumo de energia nas indústrias em paralelo ao incentivo à utilização de outras fontes que não o petróleo. E o general Walter Pires, do Exército, sugeriu o cancelamento da parada de 7 de Setembro. O ÚNICO RISCO - Segundo um dos ministros presentes, os participantes da reunião saíram com a impressão de que "uma economia de guerra é incompatível com a abertura política". Para um destacado articulador do Planalto, porém, o projeto político do governo só corre um risco de ser tumultuado. "O tumulto poderá acontecer se a oposição não compreender a gravidade do problema e quiser se aproveitar disso para nos atacar", garante ele. Contudo, como costuma lembrar o ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, dificilmente os planos econômicos do governo terão êxito se a população não estiver disposta a endossá-los. E esse endosso certamente passa pelo debate dos problemas, inclusive no Congresso. O que, evidentemente, não deverá retardar a adoção de medidas concretas para evitar um desastre energético no país.
O Plano Simonsen "Estabilizar em 1 milhão de barris diários o consumo de petróleo importado pode considerar-se um objetivo plausível de política energética?", pergunta o ministro-chefe da Secretaria de Planejamento, Mário Henrique Simonsen. E ele mesmo responde. "Tudo depende de como se comportem os preços da OPEP". Pergunta e resposta estão na página 13, 24º parágrafo, de "Notas sobre uma Política Energética para o Brasil". O documento, que se desdobra em 29 parágrafos, habita seletas gavetas de Brasília com a classificação "Secreto" no canto superior direito da primeira de suas dezoito páginas. Foi, sem dúvida, um dos principais relatórios em que se baseou o presidente João Baptista Figueiredo para seu discurso da última quarta-feira na reunião do CDE. VEJA teve acesso ao documento por meio de uma fonte e, junto a outra, conseguiu confirmá-lo. A seguir, os trechos principais das "Notas": Num momento em que se inicia um processo de abertura política, parece impossível, ou pelo menos pouco recomendável, desenvolver uma política econômica que exija da população enormes sacrifícios em nome de uma hipótese catastrófica quanto ao suprimento mundial de petróleo. Contudo, é preciso que, se o pior ocorrer, a nação não esteja desprevenida. Isso sugere que, em matéria de petróleo, o Programa Energético do governo se desdobre em três projetos: A) projeto básico, visando a elevar para 500.000 barris diários a produção da Petrobrás até 1985; substituir 25% do óleo combustível por carvão; elevar para 10,7 bilhões de litros anuais a produção de álcool; e acelerar os contratos de risco; B) projeto complementar, dependendo do resultado de novas pesquisas, prevendo, além da elevação da produção de álcool para 15 bilhões de litros por ano, o uso de substitutos do diesel, a maior substituição de óleo combustível por carvão e gás da Bolívia (que pode corresponder a 65.000 barris por dia); e C) projeto emergencial, a ser elaborado pelo Ministério das Minas e Energia, Seplan, EMFA e Conselho de Segurança Nacional, para a hipótese de redução abrupta, total ou parcial, nos suprimentos externos de petróleo. O projeto básico seria anunciado em pormenores, o complementar apenas em suas diretrizes gerais. O emergencial, evidentemente, seria de caráter secreto. Fórmulas para o racionamento - (...) a menos que se adote um verdadeiro esquema de economia de guerra, o Brasil não terá como se livrar, nos próximos anos, de forte dependência externa em matéria de suprimento de combustíveis fósseis. Os programas do álcool e do carvão e a expansão da produção da Petrobrás deverão diminuir a dependência relativa, mas dificilmente conseguirão reduzir de forma significativa o volume fisico das importações. O máximo de segurança nacional, aqui, entra em visível conflito com qualquer programa de melhoria da qualidade de vida brasileira. A vulnerabilidade do Brasil obviamente está na imprevisibilidade da evolução dos preços do petróleo, os quais são fixados não apenas por critérios de mercado mas sofrem enormes influências de ordem política e religiosa. A conclusão de que a OPEP pode anarquizar o balanço de pagamentos brasileiro é digna de nota. Apenas, a anarquia não se limitaria a nosso balanço de pagamentos, mas contaminaria todo o mundo importador de petróleo. As hipóteses, nesse caso, variam de uma acomodação geral das economias, com surtos de inflação, desequilíbrios de endividamento e minirrecessões temporárias, mas sem maiores catástrofes, tal como ocorreu após 1974; e, no outro extremo, com conotações apocalípticas, a eclosão de uma III Guerra Mundial. A solução drástica seria racionar o crescimento da demanda de combustíveis. Se, por exemplo, a demanda em 1985 fosse equivalente não a 1,8 mas a 1,4 milhão de barris diários, mantidas as demais hipóteses quanto à expansão da produção da Petrobrás, do programa de álcool e de carvão, a importação de petróleo bruto cairia a 600.000 barris por dia. O problema é como conseguir esse racionamento. Via preços, pode-se conseguir alguns resultados para a gasolina, mas poucos para o diesel e o óleo combustível, e os subprodutos inflacionários costumam ser terríveis. Por via direta, o racionamento é fácil no caso da gasolina, mas pode criar sérios pontos de estrangulamento em outros derivados. O único racionamento efetivo é via estagnação (ou semi-estagnação) econômica. Uma hipótese também terrível para a economia brasileira. Fontes básicas e testadas para o programa energético brasileiro são apenas cinco: a hidrelétrica, a nuclear, o petróleo, o carvão e o álcool (etanol). (...) Há que lembrar, por outro lado, que nem todas as idéias de política energética poderão ser postas em prática no atual governo. Assim sendo, é de se iniciar por aquelas já testadas, técnica e economicamente. Em matéria de geração elétrica, o caminho natural para o Brasil, até o fim do século, é o aproveitamento do potencial hidráulico. (...) Após o fim do século, a expansão deverá basear-se na fissão nuclear. Esse panorama parece ditar o ritmo que se deve imprimir ao programa nuclear. Ele é, no momento, um programa pouco econômico em termos de custo do quilowatt instalado. Seu valor, todavia, é o de aquisição de uma nova tecnologia, cujo domínio é indispensável para o futuro da economia brasileira e da segurança nacional. (...) Por linhas tortas está-se chegando ao resultado certo: o programa nuclear vai-se atrasando, em parte porque a Nuclebrás não dispõe de muitos recursos, mas sobretudo pelas dificuldades técnicas que estão até emperrando o funcionamento de Angra 1, uma usina de tecnologia convencional e importada num sistema de turn-key. DEFINIÇÕES SEM PRECONCEITOS - Em matéria de petróleo, a maneira mais simples e econômica de diminuir nossa dependência externa é aumentar a produção da Petrobrás. Deve-se notar que o petróleo está ficando mais caro e escasso, mas ainda será a principal fonte de energia, para o mundo ocidental, durante as próximas décadas. Pelo menos na bacia de Campos, há possibilidades de se aumentar a produção da Petrobrás em pelo menos 200.000 barris diários, e possivelmente em 350.000 barris por dia. ESSE AUMENTO DE PRODUÇÃO É O MAIS PRIORITÁRIO DOS ITENS DO PROGRAMA ENERGÉTICO. Na mesma ordem de idéias, é importante acelerar ao máximo a assinatura de novos contratos de risco, dispensando-se a exigência de que a concessão se limite a áreas cujas sísmicas já tenham sido levantadas pela Petrobrás. Do ponto de vista político isso se justifica sem maiores inquietações, pois o slogan "O petróleo é nosso" só vale se o petróleo existir e for conhecido. Do ponto de vista prático, os contratos de risco, embora não possam produzir milagres, multiplicam a capacidade de perfuração da Petrobrás. Como a auto-suficiência em petróleo por enquanto não passa de um sonho (embora a menor dependência possa ser uma realidade), é importante encontrar substitutos, não para seu consumo atual, mas para deter o acréscimo de consumo. Até agora só se conhecem dois substitutos economicamente dignos de confiança: o etanol, como substituto principal da gasolina, (...) e o carvão, como substituto do óleo combustível e da nafta para gás. (...) O melhor programa seria usar o etanol como substituto da gasolina no mercado interno. E manter as atuais proporções de refino, exportando os excedentes de gasolina (já que o preço da gasolina, no mercado internacional, é sensivelmente superior ao do óleo cru). É possível que, mantidas as atuais proporções de refino, isso gerasse excedentes demasiados de gasolina para comercialização. Ainda no caso, todavia, é melhor ajustar as proporções de refino com a maior produção de óleo diesel que usar o álcool como substituto do diesel. Um problema a ser definido sem preconceitos é o da interferência da Petrobrás no Programa Nacional do Álcool. Cabe aqui evitar extremismos: o de criar para a Petrobrás o monopólio, virtual ou de direito, da comercialização do álcool e de seu transporte; e o de tentar alijar a Petrobrás do sistema, o que seria simplesmente irrealista, pelo menos no que tange ao transporte e distribuição. A participação da Petrobrás, como acionista minoritário, em projetos de álcool não deve ser objeto de exageros (...) mas também não deve ser proibida a priori. Como também não há razão para, sob o slogan de que "O álcool é nosso", querer alijar do sistema as empresas multinacionais. Nenhum problema nacional está a exigir equacionamento tão urgente quanto a política energética. Partindo da observação de que a inflação é péssima, mas o impasse externo, mortal, e tendo em vista a escalada de preços praticada e ameaçada pela OPEP, não há, no momento, definição mais prioritária que a política energética.
O czar Aureliano Um
cargo valorizado para quem fez, na O vice-presidente Antônio Aureliano Chaves de Mendonça ainda parecia surpreso e encantado com a novidade durante o discurso do presidente Figueiredo, na reunião do CDE. Ele próprio só soube que iria dirigir a Comissão Nacional de Energia (CNE) momentos antes. E já na função de czar da energia, falou logo em seguida - "na maior alegria", como lembrou um dos presentes - sobre fontes alternativas como o carvão. Terminada a reunião, no entanto, Chaves, quem sabe avaliando o grau de responsabilidade que passaria a arcar nas decisões da política energética, escolheu a discrição. "O momento não é de falar, é de pensar", declarou ele. De fato, como toda função nova, a de czar brasileiro da energia traz uma razoável carga de dúvida quanto ao sucesso de seu ocupante. Por isso, no dia seguinte, Chaves se dedicou ao estudo do material sobre energia, incluindo o documento secreto de Simonsen, que ele ainda não conhecia. Sem dúvida, uma atividade que alterou toda a agenda do vice-presidente. Em seu gabinete de trabalho, um conjunto de cinco salas no 19º andar do edifício do Banco do Brasil, em Brasília, seus treze assessores diretos, assim que souberam, pela televisão, da nomeação do chefe, passaram a modificar a programação. Chaves encomendara um roteiro para uma visita a Minas Gerais, onde deveria ficar até esta quarta-feira. Agora, terá que intercalar na agenda as reuniões do grupo que vai estudar as opções da política energética brasileira. EXPERIÊNCIA PASSADA - Em todo caso, embora surpreendido pela escolha, o vice-presidente tem cacife para enfrentar sua nova tarefa. Com 50 anos, engenheiro formado pela escola de sua cidade natal - Itajubá - ele foi diretor técnico da então recém-nascida Eletrobrás. Em 1963, como deputado estadual, em seu primeiro mandato, começou a tratar de sua especialidade, a energia, nas comissões do Legislativo. Eleito deputado federal, em 1967, trabalhou literalmente em tempo integral na Comissão de Minas e Energia da Câmara. E chegou a advertir, antes da crise do petróleo, "que o crescimento da produção de combustíveis não acompanhará a demanda". Estourado nas discussões, inflexível e pouco dado a composições, ele tornou-se uma espécie de símbolo da falta de tato político. Mas nunca se preocupou em mudar. E ganhou outra vez, ao cruzar por acaso, logo no começo desta década, com o então presidente da Petrobrás, general Ernesto Geisel, a quem procurava regularmente para recolher a munição com que enfrentava, no Congresso, os ataques do MDB na questão do monopólio estatal do petróleo. Quando Geisel chegou à Presidência da República, seu já habitual interlocutor Chaves foi rapidamente alçado ao poder, como governador de Minas na safra que tomou posse em 1975. Nesse cargo, ele instalou um centro de tecnologia, com cerca de 100 técnicos, para desenvolver aplicações novas do carvão como fonte de energia. E foi o animador da instalação da primeira usina experimental para testar o aproveitamento do álcool de mandioca. Com essa bagagem, o atual vice-presidente dispõe, agora, das chaves para reabrir a porta de acesso ao primeiro escalão da política. Os políticos de seu partido, a Arena, receberam com visível desagrado, em novembro passado, sua observação de que a oposição tinha vencido as eleições parlamentares e não adiantava "tapar o sol com a peneira, mas reconhecer os números". A NOVA ROTINA - No primeiro momento, o comentário foi recebido com irritação pelos assessores de Figueiredo. E custou a Chaves uma temporada de isolamento, além de uma redução em sua cota de nomeações para os escalões principais do governo - por exemplo, seu indicado para o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), o engenheiro Fernando Fagundes Neto, candidato da Arena derrotado nas eleições para o Senado em Minas, ficou de fora depois de ter sido dado como um nome certo para o cargo. Por isso, convidado a jogar em seu próprio campo, Chaves tem agora a oportunidade de se reconciliar com o poder. Talvez fique para trás o expediente de rotina a que tinha se recolhido, com duas visitas semanais ao Congresso e a vida caseira, com a esposa, dona Minervina, e os três filhos, no Palácio Burity, isolada residência oficial de onde se avista o jardim do Palácio Alvorada. E, se de um lado os riscos de um fracasso como czar da energia sejam uma ameaça constante, Chaves pelo menos pode ter a certeza de que conquistou uma nova importância para a cadeira de vice-presidente, que a tradição republicana brasileira deixou abandonada.
A dura vida de czar nos Estados Unidos Em pouco mais de cinco anos, três presidentes americanos nomearam cinco diferentes czares de energia. Todos eles com carta branca para tentar resolver os gigantescos problemas criados pela crise energética na economia dos EUA. E, pelo menos até agora, nenhum deles teve sucesso em seu empreendimento. John Love, eleito três vezes governador de Colorado e conhecido como administrador perfeito, foi o primeiro czar nomeado por Richard Nixon. Love não conseguiu durar seis meses no cargo. William Simon, seu sucessor, um conservador ferrenho e hábil administrador, só foi salvo do fracasso por uma promoção. Em plena crise de Watergate, e paralisado por ela, foi transferido para a Secretaria do Tesouro. O próximo foi John Sawhill, este já nomeado para o cargo pelo novo presidente Gerald Ford. Sua estratégia, porém, não demorou muito para ser derrubada. Sawhill pretendia obter uma redução apreciável no consumo de combustíveis por um aumento substancial de seus preços. Num país com uma frota de 149 milhões de automóveis, onde cada motorista corresponde a um eleitor, só poderia dar no que deu: o Congresso imediatamente se colocou contra a medida. E o próprio Ford acabou criticando-a, com os olhos nas eleições de 1976. Sawhill foi demitido sumariamente. FEITIÇO CONTRA FEITICEIRO - O novo czar, Frank Zarb, revelou-se tão impotente para apresentar soluções ao problema energético que a necessidade de uma política nesse campo se transformou numa das principais bandeiras eleitorais de Jimmy Carter, adversário vitorioso de Ford nas eleições. Carter tomou posse em janeiro de 1977. E até agora só conseguiu aprovar alguns itens de seu programa energético depois de dezoito meses de dura barganha com deputados e senadores. Assim, o feitiço agora ameaça voltar-se contra o feiticeiro: a crise do petróleo poderá transformar-se no principal fator de derrota de Carter em sua tentativa de reeleição em 1980. Se isso acontecer, o atual e todo- poderoso czar da energia dos EUA, James Schlesinger, terá percorrido o mesmo caminho árduo de seus antecessores. Arguto conhecedor dos corredores da Casa Branca, em Washington, Schlesinger contudo não é dos que desistem fácil de seus objetivos. Ele tem fama de corajoso e "durão" na capital americana. Uma auréola conquistada depois de inúmeros confrontos com os diversos lobbies americanos. Seja o Pentágono, a CIA ou os ecologistas, todos têm alguma reclamação contra esse czar, um dos maiores ídolos dos conservadores americanos. Mas, embora confiante, Schlesinger sabe que esse cerco poderá representar seu fim. Por isso confessou a VEJA, na semana passada, em tom quase de desabafo: "Esse emprego seria mais fácil se não houvesse tanta gente impedindo-me de fazer o que é necessário neste país para resolver os grandes impasses energéticos de nossa época".
Em busca de atalhos Na
reunião inaugural da CNE, os alvos principais Na reunião inaugural da CNE, nesta semana, que contará com a presença do presidente da República (ele presidirá a todos os encontros deliberativos), já deverá ficar claro que não serão poucos os desafios que a comissão terá de vencer. Para justificar as expectativas geradas após sua criação, na semana passada, essa sigla, nova em folha na constelação burocrática do país, terá de produzir muito, produzir bem e produzir rápido - o que está longe de ser fácil. Na verdade, a tarefa atribuída à Comissão é mais ampla e ambiciosa que a simples administração do problema energético. A ela caberá, de fato, encontrar os atalhos que levem o país a superar uma série de distorções acumuladas em seu desenvolvimento recente. E o primeiro teste desse desafio começará com a definição de objetivos a serem alcançados a curto e médio prazos, e as medidas de implantação imediata. Há, sem dúvida, opções mais ou menos óbvias - as antecipadas no documento secreto de Simonsen. E outras decorrentes do fato de que 70% do transporte de mercadorias, 90% do de passageiros e boa parte da atividade industrial do país dependem essencialmente do petróleo. Eis, portanto, o elenco de alternativas atualmente ao alcance da CNE e que provavelmente serão examinadas por ela nesta quarta-feira: Congelamento das importações de petróleo - A decisão em si já foi tomada na reunião do CDE na semana passada: o consumo agora passará a depender das importações e não o inverso. Falta apenas decidir se o teto dessas importações terá por base as compras realizadas no ano passado (931.000 barris/dia) ou se haverá uma folga, estabilizando-as em 1 milhão de barris/dia. Nesta primeira etapa, o que se pretenderia, pois, é evitar que o consumo do petróleo cresça. Ainda assim, seria tentado algo semelhante a um racionamento de fato. De qualquer forma, as refinarias receberiam cotas rígidas de óleo que seriam repassadas de forma igualmente fixa aos postos de abastecimento. Corte de 10% na oferta de óleo combustível e de 5% no óleo diesel - Trata-se de medida indispensável para que esses dois derivados atinjam um nível de economia já conseguido com a gasolina. Eles teriam sido eleitos os principais inimigos a ser vencidos nessa guerra energética. Cortes de até 50% no fornecimento, porém, estão descartados, uma vez que isso inevitavelmente levaria o país à recessão. Em todo caso, diversas autoridades governamentais admitem que mesmo essa redução prevista não evitará um certo desaquecimento setorial da economia. Afinal, ramos industriais importantes, como o de cimento, produtos alimentícios e siderurgia, consomem, sozinhos, mais de 40% de todo o óleo combustível gasto pelo país. Nova política de preços - Não deverá ser anunciada agora. Mas já estão em andamento estudos para novos aumentos em agosto. Os óleos diesel e combustível sofrerão um reajuste substancial num primeiro passo da já decidida retirada total, e gradual, dos subsídios. Em contrapartida, é provável que a gasolina tenha um reajuste inferior ao que incidirá sobre esses derivados. Estímulos ao carvão e ao álcool - Serão apontados definitivamente como os dois substitutos do petróleo economicamente mais viáveis. O carvão, de imediato, deverá substituir o óleo combustível nas indústrias de cimento - elas consomem 25% do total gasto pelo país com esse derivado. O empresário José Ermírio de Moraes Filho, do Grupo Votorantim, admite que essa substituição pode ser completada em seis meses sem custos muito onerosos. "Para isso, porém", diz ele, "é preciso que seja assegurado o fornecimento do carvão." O programa para ampliar a oferta de carvão custaria aproximadamente 2,3 bilhões de dólares e estão previstos subsídios para estimular a indústria na fase de substituição. A dinamização do Proálcool, igualmente, é considerada indispensável agora para viabilizar o congelamento das importações de petróleo sem maiores sacrifícios. Os 10,7 bilhões de litros previstos para 1985 corresponderiam a uma economia de 170.000 barris/dia. Contratos de risco e craqueamento - O petróleo nacional continuará sendo encarado como a alternativa mais barata ao petróleo importado. As áreas de contrato de risco serão ampliadas e a entrada do setor privado nacional na prospecção será estimulada. Gradualmente, a estrutura de refino do país deverá ser adaptada também de modo a se obterem quantidades sempre maiores de derivados pesados (óleos diesel e combustível). Tecnicamente há possibilidade de se extrair até 80% desses derivados por barril (atualmente, eles representam 56,2% de cada barril). Mistura de gasolina ao óleo diesel - Estuda-se a adição de gasolina e nafta ao diesel na proporção de 20% a 25%. Para isso seria utilizado o excedente de gasolina obtido com as medidas de racionalização. Racionalização de gasolina - Os postos de gasolina, além de receberem cotas fixas, deverão ser fechados também aos sábados. E, diariamente, o fechamento será antecipado para as 19 horas. Medidas mais duras de racionamento não devem ser tomadas por enquanto.
Não ao racionamento Por
enquanto, no caso da gasolina, só causaria Na quarta-feira da semana passada, em seu pronunciamento transmitido pela cadeia de rádio e televisão, o presidente João Baptista Figueiredo alertou para a necessidade urgente de os brasileiros mudarem seus hábitos diante da crise energética. É bem possível que, logo em seguida, diversos de seus ouvintes tenham se dirigido aos postos de abastecimento para encher os tanques de seus automóveis. Embora hipotética, seria, afinal, uma reação compreensível diante da ameaça que veio embutida naquele pedido: a perspectiva do racionamento de gasolina. Para desfazer possíveis equívocos, no dia seguinte, diversos ministros da área econômica afastaram, pelo menos de imediato, essa possibilidade. Mas nenhum deles a descartou para o futuro, como um recurso eficaz, embora extremo, de economia de combustível. Nessa primeira ofensiva da guerra energética, porém, existem boas razões para que as autoridades não concentrem suas baterias em busca de uma diminuição do consumo de gasolina. Em primeiro lugar, porque o crescimento de sua demanda, da ordem de 6% ao ano, traduziria uma situação estacionária do mercado. E qualquer medida mais dura conseguiria apenas aumentar o excedente desse produto, ampliando assim a defasagem entre sua economia e o gasto com os demais derivados. Mas não seria apenas o encalhe técnico da gasolina que estaria enfraquecendo a posição dos que defendem seu racionamento. Ocorre que essa é uma medida não apenas antipática mas também de difícil aplicação. E, mais que isso, de conseqüências imponderáveis. Pode, por exemplo, em vez da paz energética perseguida, provocar o caos social nas grandes concentrações urbanas. Nas circunstâncias atuais, ela seria capaz de paralisar a economia, atrasar entregas de produtos de abastecimento e inviabilizar o comparecimento ao trabalho. E isso por uma razão muito simples: o país depende essencialmente de veículos movidos com derivados de petróleo para o transporte individual, coletivo e de carga. SEM COMPENSAÇÃO - Além disso, o carro, nas grandes cidades, desempenha papel fundamental como meio de locomoção. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, os automóveis são responsáveis por 34% das 16 milhões de viagens realizadas diariamente por uma população de mais de 12 milhões de habitantes. Proibir o estacionamento de carros nos centros das capitais, portanto, como pretende o ministro dos Transportes, Eliseu Rezende, poderia causar sérios transtornos. Ainda que isso viesse a acelerar o tráfego dos ônibus, estes não poderiam compensar o déficit de milhões de viagens/dia que tal medida acarretaria. Em São Paulo, esse déficit já é de 2 milhões de viagens/dia e os 13.000 ônibus aí existentes estão com sua lotação esgotada. A implantação acelerada de uma rede nacional de trolebus - São Paulo deverá ter 200 deles até 1980 - poderia atenuar esse impasse. Mas ainda não eliminaria um déficit ponderável. ÚLTIMO RECURSO - No resto do Brasil, esse quadro desafiador mantém-se praticamente inalterado. O país todo possui apenas 30.000 quilômetros de ferrovias (apenas 10% delas eletrificadas) contra 200.000 de rodovias. Compreensivelmente, por isso mesmo, apenas 16% da carga nacional é transportada pelas estradas de ferro. Um dado que por si só evidencia o caos em que seria transformado o abastecimento brasileiro, após um racionamento drástico de gasolina e óleo diesel. O abandono generalizado dos transportes coletivos nos últimos anos, e a situação atual das ferrovias, moldou assim um quadro onde as opções são limitadas e os riscos, crescentes. E, dentro desse contexto, a dependência criada em relação ao automóvel é tal que, mesmo a redução de quase 40% no consumo de gasolina por veículo, de 1973 a 1978, acabou sendo anulada, em parte, pelo crescimento da frota em 75%, nesse período. Assim, é bastante possível que a idéia do racionamento drástico da gasolina e do óleo combustível continue a dividir os ministros da área econômica por algum tempo. Pelo menos, até que ocorram situações extremas, como a de aumentos insuportáveis nos preços do petróleo ou o embargo puro e simples de seu fornecimento. Então o país seria empurrado, definitivamente, para uma economia de guerra.
Um falso remédio Apesar
de todos os problemas, reduzir o nível Uma inflação não inferior a 45%. Um déficit em transações correntes não inferior a 8 bilhões de dólares. Importações de petróleo não inferiores a 6,5 bilhões de dólares. Eis aí um quadro capaz de arrepiar os cabelos de qualquer administrador econômico - e de provocar irresistível desejo de fazer uma recessão. Afinal, com ela, as importações se reduzem e as exportações costumam aumentar. Em certos casos, até a inflação acaba cedendo. Essa é a ficha da economia brasileira, prevista para o final do ano. Na verdade, de todos os indicadores econômicos, o melhor ainda deverá ser a taxa de crescimento do produto interno bruto - algo em torno de 6%. Mas, de outro lado, é certo que o ministro- chefe da Secretaria de Planejamento, Mário Henrique Simonsen, não tem se esforçado para manter a atividade econômica em ritmo febril. Em geral, ele tem procurado puxá-la para baixo. Aos dois cortes nos gastos públicos já realizados em 1979, deve-se, agora, somar a redução adicional que será decidida nesta semana. Em conjunto, mais de 100 bilhões de cruzeiros estão deixando de irrigar a economia. SINAIS INQUIETANTES - Além disso, vigoram, em sua plenitude, as medidas de restrição à compra de bens duráveis - do automóvel ao ferro elétrico. Assim, fazem sentido algumas previsões mais pessimistas. "De acordo com projeções estatísticas dos índices de crescimento industrial, emprego e liquidez, há indícios de que em dois meses eles estarão revelando sinais de desaceleração", analisa o economista Ruben Almonacid, da Universidade de São Paulo. "Já estamos na recessão", garante o líder empresarial paulista Cláudio Bardella. "O nível de emprego cresce a menos de 3% ao ano desde o terceiro trimestre de 1977", diz o economista Adroaldo Moura da Silva, do Instituto de Pesquisas Econômicas da USP. Tradicionalmente vacinada contra reduções no nível de produção, a indústria automobilística ainda espera crescer entre 5% e 6%, em 1979. Mas começa a perceber sinais inquietantes. Normalmente, o início do segundo semestre é fraco no mercado de automóveis. Contudo, segundo Bernhard Eland, diretor de vendas da Volkswagen, a venda de carros usados já está caindo entre 40% e 50%. "Esse é um alerta que nos preocupa", reconhece ele, confirmando que metade dos quase 40.000 funcionários da empresa estão em férias antecipadas desde esta segunda-feira. RISCOS MENORES - Em meio a compreensíveis incertezas, há, no entanto, lugar para mensagens até certo ponto otimistas. "Não podemos nos deixar contaminar por um espírito derrotista e jamais devemos entrar em pânico, mesmo porque esse não é o caso", afirma um poderoso empresário paulista. "Os riscos da recessão são menores porque haverá investimentos no programa energético". O próprio Bardella concorda com essa análise. Em sua opinião, a economia brasileira, que se encontrava sem perspectivas, ganha, depois da última quarta-feira, alguns novos horizontes. "Sempre disse que as dificuldades da economia brasileira, inclusive a inflação, eram apenas manifestações do problema energético", lembra Bardella. De fato, mesmo antes da aplicação das novas medidas de economia de combustível, é possível encontrar exemplos animadores. Apesar dos custos iniciais, a substituição do óleo combustível pelo carvão, na indústria de cimento, pode resultar em benefícios maiores que a simples redução no consumo de óleo. Desde 1976, em sua fábrica de Morrete (RS), o Grupo Matarazzo utiliza carvão. "No início", revela Maria Pia Matarazzo, presidente do grupo, "nossa rentabilidade era 20% inferior à dos concorrentes, mas, hoje, com o aumento nos preços do óleo, a fábrica inverteu a tendência e rende 20% mais que as outras". Em todo caso, para que isso aconteça é preciso investir. Num clima de recessão, reduz-se, a curto prazo, o consumo de petróleo. Mas, ao mesmo tempo, colocam-se os investimentos em quarentena. E, desse modo, pode-se condenar ao fracasso o mais bem-intencionado programa energético.
Depois de Mr. Link A
Petrobrás, maior empresa do país, Trata-se de um dos quarenta maiores conglomerados industriais do mundo. Com mais de 40.000 empregados e interesses espalhados, direta ou indiretamente, por 37 empresas de vários países, faturou, no ano passado, 240 bilhões de cruzeiros, obtendo o excelente índice de 13,3% de lucro sobre as vendas. "A Petrobrás é, de fato, uma grande empresa", admitiu, certa vez, um de seus mais ferozes críticos, o venerando economista Eugênio Gudin. Com uma ressalva: "Mas só do chão para cima". Ele resumia, nesse dito célebre, o mais genuíno e fundamental drama da empresa, historicamente malsucedida na função para a qual foi criada em 1953: encontrar petróleo no Brasil. De fato, os números dos últimos anos são de desanimar o mais inflamado nacionalista. Mais de um quarto de século após sua criação, a Petrobrás produz hoje 17% do petróleo consumido pelo Brasil. Em 1978, por exemplo, produziu 157.000 barris menos que em 1977 - diferença insignificante se o país não estivesse dramaticamente empenhado em reduzir sua dependência em relação ao suprimento externo de óleo. Essa defasagem foi dramaticamente agravada na última década. De 1969 a 1978, a produção cresceu apenas 10% enquanto o consumo aumentou mais de 110%. Mais ainda que a demanda, no entanto, tem aumentado o poder de fogo dos críticos da Petrobrás e do monopólio estatal da produção de petróleo - e este fogo nunca foi tão cerrado quanto nas duas últimas semanas, justamente no momento em que se anunciava ao país a necessidade de uma "economia de guerra". O fim ou o abrandamento do monopólio tem sido defendido ou, pelo menos, admitido, com freqüência cada vez maior, por personagens de variada influência no país, como o governador paulista Paulo Salim Maluf, o economista carioca Carlos Geraldo Langoni e os ministros Mário Henrique Simonsen e Said Farhat, da Comunicação Social. Aumentar a produção da Petrobrás, contudo, continua sendo a principal preocupação energética do governo - o que está, inclusive, expressamente assinalado no documento de Simonsen, que serviu para orientar as últimas discussões ministeriais sobre energia. OS PARCEIROS - Ao visitar, na sexta-feira, a Plataforma SS-6, em Campos, o próprio presidente João Baptista Figueiredo pediu aos deputados da Arena do Rio de Janeiro que ajudem a difundir uma imagem positiva da Petrobrás. No mesmo dia, Farhat diria, em Brasília: "Para o governo, a melhor forma de participação da iniciativa privada na prospecção e exploração de petróleo é o contrato de risco". Também em Brasília, o ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, admitiu os contratos de risco com empresas privadas nacionais e até com empresas estatais, embora advertisse: "O monopólio é lei e só o Congresso Nacional pode revogá-lo". No Rio de Janeiro, um ex-presidente da Petrobrás, general Idálio Sardenberg, foi enfático: "Espero que o monopólio não caia e tenho toda a confiança em que o presidente Figueiredo não tem o menor interesse nesse sentido". Mas nem os cuidados mais ou menos generalizados em preservar o instituto legal do monopólio conseguem esconder o fato de que a Petrobrás tem sido paulatinamente esvaziada em seu papel, outrora intocável, de carro-chefe da luta pela auto-suficiência em energia. A empresa desviou-se, a partir do fim dos anos 60, de sua tarefa principal de localizar e produzir petróleo para se entregar a uma gama variada e lucrativa de negócios - que tanto poderia ser a fabricação de fertilizantes como a venda de frangos ao Iraque. Deflagrada a crise de energia, a partir dos aumentos dos preços do petróleo, os parceiros começam a surgir: multinacionais do petróleo por meio dos contratos de risco, empresas alemãs pelo programa nuclear e até empresas privadas nacionais pelo Proálcool. ÁREA CONTESTADA - Nem por isso deixa de ter importância o papel reservado à Petrobrás nos próximos esforços energéticos do país. O aumento da produção da bacia de Campos e a participação, ainda que minoritária, da empresa no Proálcool estão nos planos apresentados por Simonsen. Cabe, pois, à Petrobrás recolocar-se no panorama energético brasileiro, redirecionando sua bem- sucedida agressividade empresarial para o objetivo mais imediato do país que é o de livrar-se da incômoda dependência de fornecedores externos de energia. Para isso, certamente ela terá de contar com um pouco mais de sorte que a que a levou a encontrar o que Simonsen chama, em seu documento, de "invejável campo petrolífero no Iraque". Funcionários do governo admitem que a remuneração da Braspetro - a subsidiária da Petrobrás que descobriu o óleo - seria de 130.000 barris diários, pouco mais de 10% do consumo brasileiro. Mas isso depois que o campo iraquiano estivesse produzindo, o que exigiria um investimento de mais de 1 bilhão de dólares da Braspetro - extremamente arriscado, no caso, pois o campo está numa região da fronteira iraquiana contestada pelo Irã. Assim, o próprio Iraque explorará o petróleo descoberto pela Braspetro, vendendo ao Brasil, a título de compensação, uma quantidade ainda não acertada de óleo com um desconto de 30% no preço. É certamente um bom negócio, mas poderia ter sido melhor, o que o torna frustrante. Como frustrante tem sido, até agora, a falta de resultados dos contratos de risco. Mas para ela existe uma explicação de Paulo Vieira Belotti o mais importante diretor da Petrobrás e presidente de suas principais subsidiárias: "Ficou demonstrado que nossas condições não são tão favoráveis quanto as de outros países". É quase uma síntese do que disse, há anos, o jamais esquecido geólogo americano Walter Link, trazido ao Brasil pelo primeiro presidente da Petrobrás, general Juracy Magalhães - e transformado num dos grandes traumas nacionais ao setenciar, ao final de seu trabalho, que por aqui não havia óleo. Parece, assim, que o espectro de Mr. Link continua rondando o petróleo brasileiro - para o que talvez muito contribua o fato de o Brasil ter perfurado, em toda sua história, pouco mais de 5 poços enquanto apenas os Estados Unidos perfuram anualmente 20.000.
‘Marines’ em ação? Uma
intervenção armada dos EUA para garantir seus "Aqui estamos nós, em plenos Estados Unidos, sendo estrangulados", rugia o caixeiro viajante Tom La Penna na fila de um posto de gasolina de um cidade de Nova Jersey, dias atrás. Comentando o racionamento já em vigor em seu Estado, ele resmungava, sentado ao volante de um guloso Chevrolet Caprice: "O maior país do mundo, esganado por alguns xeques árabes. . ." La Penna não era, por certo, o único cidadão americano a sentir-se assim. Com a implantação de um início de racionamento em diversos Estados do leste - veículos com placa ímpar não podem ser abastecidos em dias pares, e vice versa -, os Estados Unidos têm vivido, nas últimas duas semanas, o "pânico da gasolina". Filas nos postos tornaram-se parte da paisagem - e, com elas, espasmo de violência, com gente normalmente pacata praticando quebra-quebras e a trocando tiros. Colheitas inteiras perdem-se nos campos. Aqui e ali, por falta de transporte, o abastecimento de alguns produtos essenciais começa a faltar. A combinação explosiva entre reservas de petróleo em baixa e preços em disparada seria para alguns, como a revista Newsweek, "a questão mais emocional na política americana desde o Vietnã". Não é de se estranhar, pois, que na cabeça de muita gente - inclusive na de políticos - volte à tona uma velha e aparentemente superada idéia: o mais simples seria desembarcar marines em regiões produtoras vitais para garantir o fluxo do petróleo. Depois da tragédia do Vietnã, pode parecer uma rematada loucura pensar-se numa "guerra do petróleo" desencadeada pelos Estados Unidos. E, realmente, ainda não há um movimento significativo de opinião pública que leve a hostilidade aos árabes a tal ponto. Mas no Congresso, por exemplo, não é difícil encontrar um senador que, em caráter particular, defenda uma "solução militar" para a questão do petróleo. Além disso, a constatação objetiva de que existem condições para uma guerra é algo que tem ultrapassado as fronteiras americanas. Pouco antes de viajar a Washington, no começo do mês passado, o chanceler alemão Helmut Schmidt lembrou, com todas as letras: "Se a energia nuclear não for desenvolvida rapidamente e em âmbito suficiente, a corrida pelo petróleo e o gás natural poderá transformar-se no único motivo para uma guerra". No maior comprador de petróleo do mundo não-desenvolvido, o Brasil, a hipótese de uma guerra mundial, mesmo considerada remota, também é levada em conta no relatório "secretíssimo" do ministro Simonsen. E opiniões favoráveis a uma "solução militar" surgiram de cabeças respeitadas como a do ex-ministro da Fazenda Eugênio Gudin. Num artigo publicado na semana passada em O Globo, Gudin aconselha: "O único meio que eu conheço de responder à guerra, política ou econômica, é a própria guerra". SITUAÇÃO IDEAL - O que não se pode negar é que existem premissas teóricas fortes para a hipótese de uma guerra. Se um ficcionista se dedicasse a montar uma situação ideal para um conflito armado, ele dificilmente encontraria um modelo mais completo e acabado que o atual: países pequenos e fracos militarmente impondo preços cada vez mais altos a uma matéria-prima indispensável às grandes potências ocidentais e, simultaneamente, tornando o produto escasso a elas no mercado pelo não- aumento da produção. Tome-se o caso da OPEP, cujo petróleo é consumido em 70% pelos "sete grandes" países capitalistas. O preço- teto do petróleo estabelecido na recente reunião de Genebra - 23,50 dólares - é dez vezes superior ao vigente antes da guerra árabe- israelense de 1973. Só nos últimos seis meses, houve um aumento de 50% no preço oficial - e, com tudo isso, devido à instabilidade no Irã e outros fatores, o mundo ocidental ainda está diante de um déficit diário de 2 milhões de barris. O caso específico dos Estados Unidos, a maior potência militar e econômica do planeta, é ilustrativo do outro lado da moeda. Os americanos, de um gigantesco consumo diário de 18,9 milhões de barris de petróleo, têm que importar 8,5 milhões - o que é quase um terço da produção de toda a OPEP somada. E sua vulnerabilidade em relação ao cartel dos países produtores pode ser medida pelo fato de que apenas o aumento decretado em Genebra representará, até o final do próximo ano, 2% a mais de inflação, uma queda de 2% no crescimento do Produto Nacional Bruto e 800.000 novos desempregados. ‘CONSIDERAÇÕES NOVAS’ - Com tudo isso, a verdade é que a questão de uma "guerra do petróleo" deixou de ser acadêmica, de ser tema de pessoas estranhas aos centros de decisão nos Estados Unidos. O presidente Jimmy Carter admitiu haver "considerações novas" para enfrentar a interrupção nos suprimentos e, em vez de especificá-las, disse que preferia deixar que a imprensa especulasse sobre elas. Carter não falava a um grupo de generais numa reunião secreta mas a repórteres, diante de câmaras de televisão, a bordo do jato presidencial há dez dias, na viagem de volta da Coréia aos Estados Unidos. O secretário da Defesa, Harold Brown, por sua vez, não dispensou o assunto como discussão hipotética e irresponsável, mas admitia dialogar a respeito do assunto, na quarta-feira passada, também diante de câmaras de televisão. E, há três semanas, às vésperas de assumir o comando das tropas da OTAN na Europa, o ainda chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, general Bernard W. Rogers dava contornos concretos a todas essa considerações ao informar que o Exército elaborava planos para uma "força de ataque rápido" de 110.000 homens para "responder a crises" no golfo Pérsico e outros "pontos quentes" fora do âmbito da OTAN. Uma das unidades a integrar essa força seria a 82ª Divisão Aerotransportada, sediada em Fort Bragg, Carolina do Norte - que, juntamente com outras unidades militares americanas, tem tido treinamento de guerra de deserto em regiões áridas da Califórnia e do Arizona. Naturalmente, há um toque de fantasia nisso tudo - e os árabes são os primeiros a chamar a atenção para a "irrealidade" de tais hipóteses. Para o ministro do Petróleo da Arábia Saudita por exemplo, xeque Ahmed Zaki Yamani, tais preliminares seriam de pouco valor prático para as superpotências. "Se tem gente pensando numa ocupação física dos campos petrolíferos, podem esquecer", disse ele, numa entrevista publicada por Newsweek na semana passada. "A sabotagem de certo equipamentos- chave de um campo pode deter a produção por anos. Sejam sérios".
Idéias para uma guerra do petróleo Georg Sieber, um alemão de 44 anos, psicólogo, tornou-se mundialmente conhecido quando se soube que ele previra o massacre de onze atletas israelenses durante as Olimpíadas de Munique, em 1972. Entre 62 situações de conflito possíveis, imaginadas pela equipe de Sieber para a polícia antes dos Jogos, a de número 21 admitia a possibilidade de terroristas palestinos invadirem os alojamentos israelenses. Com inacreditável coincidência de detalhes, foi o que aconteceu no dia 12 de setembro de 1972, nove meses após a elaboração do estudo. Na semana passada, ele concordou em fazer para Carlos Struwe, correspondente de VEJA em Bonn, um exercício livre de futurologia sobre cenários de uma eventual guerra do petróleo. As elaborações de Sieber: No passado, já correu muito sangue e já foram feitas guerras por riquezas que estavam sendo necessitadas de forma muito menos premente que o petróleo será necessário dentro de alguns anos. Mas a moderna estratégia militar evoluiu e a discussão nuclear recíproca exige hoje um refinamento muito maior do que ocorria antigamente para não pôr em perigo um delicado equilíbrio de forças. Por isso, não acho que haverá uma simples guerra grosseira, em que uma ou mais nações industrializadas declarem guerra a um membro da OPEP antes de invadi-lo e tomar seu petróleo. A moderna potência industrial que decidir buscar à força petróleo caro ou escasso arquitetará uma forma de intervenção que, pelo menos aparentemente, não colida com o Direito Internacional. Assim, antes de mais nada, seria criado um pretexto para a intervenção. É possível, por exemplo, apoiar e mobilizar um grupo contestatório minoritário no país em que se deseja intervir, convencendo esse grupo a tomar posse do petróleo nacional a que tem direito. Depois, é só esse grupo afirmar durante algum tempo que está sendo oprimido pelo governo central, fazer um pouco de "guerra fria" local e já a minoria poderia chamar a "ajuda" da potência industrializada em questão. Em princípio, imagino três cenários possíveis de intervenção: 1) A tomada de uma ou mais plataformas de extração de petróleo nas águas litorâneas. Está provado que uma ilha artificial - como uma plataforma marítima - é uma das coisas mais difíceis de proteger. Ela é vulnerável de todos os lados, e também pelo ar. Além disso, nas plataformas normalmente só se encontram operários, incapazes de se defender - e, é claro, todas as plataformas não podem ser constantemente protegidas por tropas. Depois de tomada a plataforma, a minoria do país assaltado, a qual se alega querer ajudar, passaria e receber um pagamento ou qualquer outro tipo de compensação do país interventor pelo petróleo retirado. 2) Campos de petróleo em terra firme, em regiões fronteiriças, seriam ocupados à força, sob pretexto de ajuda a minorias com litígios de fronteiras, reivindicações territoriais ou algo assim. Em tais casos, a intervenção não seria tão fácil como numa plataforma no mar. 3) Este é um cenário menos provável, mas não inteiramente impossível. Seria o caso de assaltos a depósitos de petróleo ou o aprisionamento de superpetroleiros em alto- mar, recorrendo-se a pretextos semelhantes aos dos cenários anteriores. Um outro pretexto poderia ser o de responder à desapropriação ou estatização de empresas da nação interventora pelos países- sedes dos depósitos ou dos petroleiros. | ||
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