![]() ![]() |
![]() Galeria de fotos O
'ouro negro'Entrevistas Jeremy
Rifkin Fareed
ZakariaEm dia 50
anos de PetrobrasPerguntas & Respostas A
crise do produto |
7 de março de 1979 Um fantasma ronda o mundo: o fantasma carrancudo, bizarro e desconcertante do ayatollah Ruhollah Khomeini. Até poucos meses atrás, ele não era mais que um padre insatisfeito - um religioso muçulmano exilado, anônimo para a esmagadora maioria do planeta. Já se sabe agora o estrago que ele fez em seu país, o Irã. E a força vulcânica deste incontrolável ancião está longe de ser extinta. Na semana passada, mal passados quinze dias da parada final no Irã, quando se extinguiu o que restava do regime do xá Reza Pahlevi e se instalou a ordem do ayatollah, já era possível começar a discernir com nitidez o rastilho de pólvora espalhado por ele no mundo - atingindo paragens situadas muito além das fronteiras iranianas. Toda a nevrálgica região do Oriente Médio, para começar, parecia iniciar uma caminhada a galope para uma era de desestabilização. Uma guerra de fronteira estourou entre dois velhos inimigos, o Iêmen do Sul, de regime comunista, e o Iêmen do Norte, pró-ocidental. Diante disso, a geralmente comedida, discreta e importanve Arábia Saudita com grande carnaval anunciou o "alerta total" em suas Forças Armadas e chamou de volta um contingente de 1.200 homens que mantinha como força de paz no Líbano - os sauditas, já alarmados com as diabruras do ayatollah do outro lado do golfo Pérsico, agora ouviam o troar dos canhões no seu fianco sul. Várias outras capitais árabes davam sinais de angústia e preocupação. Contra esse pano de fundo, tomavam uma nova dimensão as velhas divergências entre os dois tradicionais protagonistas da área, Egito e Israel mergulhados numa nova rodada de negociações em Camp David, nos Estados Unidos. E o foguete disparado pelo ayatollah, responsável, em maior ou menor grau, por todos esses acontecimentos, ameaçava, depois de percorrer essa alucinada parábola, estacionar no bolso de cada um de nós, na forma de mais um súbito - talvez considerável - arranco nos preços do petróleo. PÂNICO - O petróleo - claro, impossível qualquer sacolejo nas areias do Oriente Médio, inundadas pelas piscinas milionárias do líquido negro, sem um tremor de norte a sul, de leste a oeste, no assustado mundo dos consurnidores. E, desta vez, pode ser um sacoleio daqueles grandes, de marcar época. Na semana passada, uma espécie de pânico petrolífero crescia a olhos vistos ao redor do planeta. Vai faltar? Os preços vão disparar? No Brasil, pela primeira vez, altas autoridades do governo - os ministros Mário Henrique Simonsen e Shigeaki Ueki - falaram na possibilidade de racionamento (veja a reportagem seguinte). Na Europa, convocavam-se para os próximos dias reuniões de emergência - como as da Agência Internacional de Energia, entidade que congrega as dezenove nações mais industrializadas do Ocidente, e a dos nove países membros da Comunidade Econômica Européia. Para se ter uma idéia do que ocorria no mundo do petróleo, tome-se como exemplo o ambiente que se observava, na semana passada, no porto holandês de Roterdam - principal terminal petrolífero da Europa. Ali também está instalado o principal centro do chamado "mercado livre" do petróleo - o produto oferecido para entrega imediata fora dos contratos a longo prazo e dos preços estipulados pela OPEP, a organização dos Países Exportadores de Petróleo. Em tempos normais, em Roterdam, negocia-se o petróleo a preços abaixo dos fixados pela OPEP. Mas a semana passada não eram tempos normais: eram tempos de delírio. E, enquanto a Arábia Saudita vendia seu barril a 13,33 dólares, de acordo com o estipulado no seio da OPEP, no mercado livre de Roterdam o óleo subia a 23 dólares o barril. Havia consumidores dispostos a pagar o que fosse para garantir seus estoques. APELO A ALÁ - Mas ainda não foi em Roterdam que se desenrolou o principal ato no drama petrolífero da semana passada - foi no Irã mesmo, o país de onde se irradia todo o atual esboço de crise. Ali, Hassan Nazih, novo presidente da Companhia Nacional Iraniana de Petróleo - a empresa estatal petrolífera do Irã -, fez seu primeiro discurso sobre as intenções do novo governo com relação à principal riqueza do país. E em seu pronunciamento, entre apelos a Alá e reverências ao ayatollah Khomeini, anunciou duas medidas sensacionais. Primeira: o Irã não mais negociará com o consórcio de catorze empresas ocidentais que, nos últimos 25 anos, foi responsável por parte da produção e da comercialização do petróleo do país. Segundo: o Irã, enquanto sua produção não for regularizada, não firmará contratos a longo prazo, mas oferecerá seu produto no "mercado livre" - aos terríveis preços de 18 a 20 dólares por barril. A primeira medida foi anunciada por Nazih sem economia de retórica. O novo czar do petróleo iraniano investiu contra as companhias como um bando especializado em "pilhagem", por anos e anos dedicado ao esporte de "apertar a garganta do Irã", e arrematou: "Com a ajuda de Alá, a palavra consórcio será eliminada do vocabulário iraniano". Por trás dos fogos de artifício da linguagem de Nazih, porém, talvez haja pouca consistência. Primeiro porque, segundo especialistas internacionais, o Irã teria pouca possibilidade de comercializar o seu petróleo sem o recurso às multinacionais. E segundo porque o próprio Nazih deixou aberta a porta para um reatamento com as companhias petrolíferas, embora sob outra roupagem - ao afirmar que, apesar de não querer mais ouvir a palavra "consórcio", poderá vir a negociar com qualquer companhia internacional, mesmo as integrantes da amaldiçoada associação, desde que elas se apresentem a título individual. PONTAPÉ INICIAL - De efeitos aparentemente mais próximos é a segunda das medidas de Nazih: a decisão de vender o petróleo a preços entre 18 e 20 dólares o barril - isto é, entre 4 e 6 dólares a mais do que o preço médio da OPEP. Com isso, o Irã deu uma poderosa mão à tendência altista que já se observa no mercado. E, para demonstrar que não faltarão compradores, mesmo com os preços renovados que agora oferece o Irã, Nazih anunciou que o país já tem um primeiro cliente: o Japão, para onde seguirá, nesta segunda-feira, um carregamento iraniano - o primeiro desde que, três meses atrás, sufocado pela crise política, o país entrou em colapso em sua produção petrolífera e deixou de exportar. Esse momento - aquele em que, por volta do Natal do ano passado, num dos instantes decisivos da rebelião iraniana contra o regime do xá, os trabalhadores do setor do petróleo entraram em greve e deixaram de bombear os cerca de 6,5 milhões de barris que o país produzia por dia - marca o pontapé inicial do atual rebuliço no mercado mundial de petróleo. Outros países - como a Arábia Saudita, o Kuwait e o Iraque - concordaram em elevar sua produção diária provisoriamente, de modo a compensar a falta do produto iraniano. Mas não muito: ainda assim, ficaram faltando 2 milhões de barris por dia no mercado mundial. E havia ainda outro dado a considerar: os países que elevaram sua produção só concordaram em fazê-lo com a condição de colocarem seu produto no "mercado livre", não de vendê-lo aos preços da OPEP. Assim, a Arábia Saudita, por exemplo, ao elevar sua produção de 8,5 milhões de barris por dia para 9,5 milhões, passou a vender o milhão adicional por 14,54 dólares o barril - 1,21 a mais do que seu preço normal. Faltava petróleo no mercado. Os países que concordaram em produzir um pouco mais passaram a vender mais caro. Elementar: o mercado livre tinha mesmo de sofrer o impulso que sofreu. BAIXA PRODUÇÃO - A escassez provocada no mundo pela falta do petróleo iraniano vai perdurar? Aqui repousa uma das chaves da questão. Por enquanto, o Irã permanece muito abaixo de seus níveis de produção na era do xá Reza Pahlevi: de seus poços têm saído apenas pouco mais dos 700.000 barris diários de que o país precisa para seu consumo interno - talvez justamente o pouco mais que começará a ser exportado para o Japão. Resta saber a que níveis os novos dirigentes do país pretendem recolocar a indústria do petróleo em funcionamento. Na semana passada, falava-se que a decisão seria de situar a produção em 4 milhões de barris por dia, dos quais 3,3 milhões para a exportação. Era uma informação extra-oficial: o regime do ayatollah ainda não anunciou formalmente quais as suas metas de produção. Em todo caso, é tido como seguro que o novo Irã não pretende voltar aos tempos dos 6,5 milhões de barris por dia, dos quais 5,8 milhões para exportação. Ou seja: o produto em oferta no mundo continuaria em déficit, com relação ao ano passado. A isso se junta um outro problema: conseguirão os iranianos, em curto prazo, recolocar em ação sua indústria petrolífera? Alguns especialistas sustentam que, com a debandada dos técnicos estrangeiros que trabalhavam no país, o Irã não terá capacidade de fazer subir seu petróleo a todo vapor. Os iranianos respondem que isso não é verdade: o país já teria um suficiente quadro entre seus próprios técnicos. Mesmo que a razão esteja do lado dos iranianos, porém, ainda sobra um outro problema, talvez o maior, e de natureza puramente política: os iranianos ainda não conseguiram pacificar seus trabalhadores do setor do petróleo. Hoje, as paralisações no trabalho continuam a assolar os poços do Irã. Entre os trabalhadores, mais se realizam reuniões políticas do que trabalho. Os operários sofrem forte influência das esquerdas do país. E as esquerdas continuam pressionando para que a revolução iraniana seja levada mais a fundo do que o ayatollah Khomeini, até o momento, se mostrou disposto a levá-la. EXCITAÇÃO NA ÁREA - Enquanto não se resolver essa parada puramente interna do Irã, não se terá igualmente uma idéia clara do que poderá ocorrer no mundo do petróleo. E, já que se fala em política - e na forma como ela poderá influenciar a produção e o mercado mundial do petróleo -, há ainda outras paradas fortes que se esboçam no Oriente Médio. A sombra do ayatollah iraniano foi vista até mesmo no conflito que estourou na península Arábica quando o marxista Iêmen do Sul resolveu abocanhar duas ou três cidades fronteiriças do vizinho Iêmen do Norte. É evidente que se trata de dois antigos inimigos, que já lutaram no passado e certamente vão voltar a lutar no futuro. Considera-se porém que dificilmente, sem a excitação provocada área pela revolução iraniana, os dois vizinhos entrariam agora em guerra. Na verdade, não se trata de países importantes. São duas entidades rústicas, feudais e, pior, que tudo, sem petróleo. Em todo caso, ocupam uma posição estratégica importante, ali na região onde passam os petroleiros que vão para o ocidente. E veja-se o que se passa na área. Do lado leste, os Iêmens têm Omã - onde há guerrilhas contra o emir local. Do lado oeste, do outro lado do mar Vermelho, têm a Etiópia, hoje dominada por um regime comunista. Aliás, o Iêmen do Sul, país onde há conselheiros soviéticos e cubanos, foi de importância logística fundamental como ponte para o auxílio cubano na guerra que ajudou a implantar o governo comunista na Etiópia e no combate que até hoje se trava contra os separatistas da Eritréia. Certamente foi tendo esse quadro na cabeça que o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Harold Brown, na semana passada, permitiu-se um raro momento de nervosismo, ao declarar que seu país recorrerá a todos os meios, inclusive os militares, se se tornar necessário proteger as rotas do petróleo. TRIPÉ DESFEITO - Nenhum país, porém, mostra tanto alarma com o que se passa no Oriente Médio, hoje em dia, como a poderosa,' milionária Arábia à dita. Pode-se dizer que, até a revolu,Çao iraniana, o equilíbrio da área rePousava num tripé: o dinheiro da Arábia Saudita, o Exército do Irã e o petróleo dos dois - respectivamente, o prikneiro e o segundo exportadores munoiais. Hoje, porém, não existe mais Exército do xá para, por exemplo, intervir, como o fez no passado, quando era o caso de sufocar guerrilhas em Omã. A Arábia Saudita se sente só e ameaçada. Daí o desespero que demonstrou na semana passada com a eclosão da guerra entre os dois Iêmens. E tem mais: a Arábia Saudita, também em seu flanco interno, tem motivos para sentir ligeiros calafrios. É verdade que o país tem uma sociedade em sua maioria ainda mergulhada no feudalismo, distante portanto da mais articulada população iraniana. Também é verdade que a Arábia não tem um regime tirânico e truculento como era o do xá no Irã, com sua Savak - a odiada polícia política - e seus métodos de tortura. Ainda assim, sobram alguns elementos potenciais de perturbação. Na Arábia Saudita vivem 300.000 palestinos - eles formam a elite administrativa e tecnocrática do país. E até que os palestinos não formam o contingente mais explosivo, hoje em dia, na alta taxa de 30% de estrangeiros que se incluem entre os 8 milhões de habitantes do país. Há ainda 1 milhão de iemenitas, do Iêmen do Norte e do Sul, trabalhando em sua maioria na indústria petrolífera - e não totalmente infensos à rivalidade que opõe seus respectivos Estados de origem. Por outro lado, considerando-se o componente religioso da população, há na Arábia Saudita 800.000 muçulmanos da seita xiita, exatamente a crença do ayatollah Khomeini, e por isso mesmo talvez mais facilmente seduzíveis pelo magnetismo do novo guia do Irã. HIPÓTESES - Talvez os sauditas exagerem, ao dimensionar os perigos internos e externos que vislumbram à sua volta. Mas a verdade é que têm medo. Nos últimos dez anos, a Arábia Saudita aumentou suas despesas militares a um ritmo assustador. No ano fiscal 1967/1968, Riad havia gasto com armas apenas 328 milhões de dólares. Já no ano fiscal 1977/1978 a despesa era de cerca de 10 bilhões de dólares. Nas últimas semanas, então, depois da revolução no Irã, começou uma correria. Conselheiros militares da Alemanha e da França foram importados para organizar divisões especializadas na repressão de manifestações de rua e na defesa da segurança das zonas petrolíferas. Paralelamente, uma espécie de cidade-fábrica de munições começou a ser montada em tempo recorde na região de Al Kharj, ao sul de Riad. Especiais sistemas de controles eletrônicos, com postos de escuta localizados a cada 1.000 metros, foram reforçados em torno dos campos petrolíferos. O regime do rei Khaled e do príncipe Fahd - o verdadeiro executivo do país - tem medo, ainda que não o diga expressamente, de uma revolução do tipo iraniano em suas fronteiras. E como ficaria o mundo, por exemplo, com uma greve nos poços de petróleo da Arábia Saudita? Mas aqui estamos no campo das hipóteses improváveis, altamente remotas - embora elas tenham sido freqüentemente exercitadas nas últimas semanas. Mais concreto é pensar, por exemplo, nos efeitos que poderia ter no Oriente Médio a atual rodada de negociações entre Egito e Israel em Camp David - onde estão reunidos, sob a mediação do secretário de Estado Cyrus Vance, os chanceleres Moshe Dayan, de Israel, e Mustafa Khalil, do Egito. NOVA POLÍCIA - O Egito está convencido de que, justamente por causa da turbulência espalhada na área pela revolução iraniana, este é o momento de fazer a paz. Um acordo egípcio-israelense contribuiria para estabilizar a área. Mais ainda, o Egito tem acenado com a possibilidade de, liberado seu Exército de guardar as fronteiras com Israel, desempenhar ele o papel antes desempenhado pelo Irã, de polícia do mundo do petróleo. Até mesmo, para demonstrar suas intenções, o presidente egípcio Anuar Sadat enviou, nas últimas semanas, um punhado de assessores militares a Omã, como faria o xá. E os Estados Unidos, aparentemente, mostram-se sensibilizados com as posições egípcias. Resta saber se os israelenses cederão - eles que, até agora, raciocinando de maneira totalmente inversa, têm pregado que a instabilidade no Irã é um motivo a mais para não renunciar aos territórios ocupados nem estender a mão com demasiada pressa aos inimigos árabes. De qualquer forma, a estabilização geral do Oriente Médio é uma questão política, em que o número de imponderáveis não poderia ser maior - e que, por isso mesmo, não pode ter solução a curto prazo. Já a correlata parada do petróleo, para as economias ocidentais, é um caso de emergência - que precisa ser enfrentado já. Na França, o presidente do Sindicato dos Postos de Gasolina, Jean Leloup, prognosticou que dentro de um mês a gasolina poderá ser racionada. Nos Estados Unidos, a Texaco anunciou que cerca de 1.000 postos de gasolina estão sendo fechados, enquanto companhias aéreas como a National Airlines e a TWA vêm cancelando dezenas de vôos. E à escassez do petróleo iraniano no mercado, mais as pressões do mercado livre, é preciso acrescentar um novo elemento, previsto para os próximos dias: um aumento também nos preços dos contratos a longo prazo, decretado pela OPEP. ‘SUPONHA QUE...’- De fato, a organização dos produtores já marcou uma reunião extraordinária - ela deverá começar no próximo dia 26, em Genebra. E parece quase inevitável que uma nova alta seja decidida - apesar de todas as pressões em contrário da parte dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. "Suponha que você seja um conselheiro econômico de um dos países da OPEP e que os EUA venham lhe dizer que um aumento a mais significará a ruína das economias que importam petróleo", escreveu John Anderson, comentarista do The New York Times. "Você poderá responder que nos últimos oito anos a OPEP multiplicou seus preços por seis e que essas economias continuam crescendo. Você também poderá observar que em 1973 os EUA importavam apenas 6,3 milhões de barris diários, e que agora importam 9 milhões, mesmo se o preço passou de 4 dólares para 15 dólares. Como um economista você concluirá que os americanos estão dispostos a aumentar seu consumo de energia sem se incomodar com as advertências de seu presidente nem com o preço." Ou seja: um aumento de preços, no final da semana passada, já era dado como favas contadas ao redor do mundo. De quanto será o aumento? O alemão Guido Brenner, delegado da Comunidade Econômica Européia para problemas de energia, arrisca um palpite: os países da OPEP decidirão, em Genebra, um aumento entre 22% e 24% ao longo de 1979, acrescentando, dessa forma, entre 7,5% e 9,5% aos 14,55% de aumento escalonado que haviam previsto em sua última reunião, realizada em fins do ano passado. CRISE DE PREÇO - Guido Brenner também pintou, na semana passada, um quadro do que significará esse aumento para a Europa Ocidental. As despesas com petróleo da comunidade aumentarão, este ano, em 10 bilhões de dólares. Como consequência, haverá mais inflação e mais desemprego. E o crescimento médio das economias desses países, previsto inicialmente para 3,5% em 1979, não deverá atingir essa marca: ficará nos 2,5%. Enfim, uma situação semelhante à de 1973, logo em seguida à guerra do Yom Kippur e à quadruplicação dos preços do petróleo - embora menos drástica. Como aquela, esta deverá acabar resultando, basicamente, numa crise de preços - não de escassez. É claro que foi a escassez que acabou empurrando os preços. Mas a escassez é momentânea - provocada pela saída de cena do petróleo iraniano. E, mesmo que o Irã não volte a produzir nos mesmos níveis de antes, hoje já há outras fontes de petróleo - como o mar do Norte, o Alasca e, sobretudo, o México, que desponta como novo potentado entre os futuros abastecedores mundiais. DIFÍCIL TRAVESSIA - Mas a questão do preço não é menos dolorosa. Que fazer para enfrentá-la? Os países desenvolvidos do Ocidente, na semana passada, já esboçavam uma estratégia. Depois de uma reunião de dois dias da diretoria da Agência Internacional de Energia - a entidade que congrega os países consumidores ricos - foi proposto aos países-membros, para começar, que cortem suas importações de petróleo na ordem de 2 milhões de barris diários - exatamente a quantidade que está faltando no mundo com a retirada do petróleo iraniano da praça. Essa medida, tomada coordenadamente pelos países industrializados, seria um esforço para acalmar o mercado livre e persuadir os países da OPEP a moderarem seus aumentos de preço. Nos Estados Unidos, o secretário de Estado assistente para Assuntos Econômicos, Richard Cooper, disse que os EUA seriam responsáveis por metade do corte: 1 milhão de barris diários, ou 5% de seu consumo. Os demais países também seriam aquinhoados com um corte significando, em média, 5% de seus respectivos consumos. Mas como enfrentar essa redução? Nos Estados Unidos, segundo Cooper, não há outra solução: será preciso reduzir o consumo. O governo americano cogita, atualmente, de fechar os postos de gasolina: aos domingos, baixar os termostatos nos edificios públicos e, em certos setores da economia, substituir a energia, fornecida pelo petróleo por gás natural - produto do qual o país está bem servido atualmente. Mas uma decisão final ainda não foi tomada. Programas mais drásticos de corte de consumo deverão ser adotados pela Suécia e pela Nova Zelândia - os países da Agência Internacional de Energia que mais vêm sofrendo os efeitos da conjuntura atual. Mas nem todos os países precisarão cortar seu consumo. A Alemanha Ocidental, por exemplo, poderá lançar mão das reservas que tem em estoque. E a Inglaterra e a Noruega deverão aumentar suas próprias produções no mar do Norte, para fazer frente aos 5% a menos que comprarão. Dessa forma, o mundo desenvolvido preparava-se para o buraco que o ayatollah Khomeini cavara às suas frentes. Restava o problema dos países mais frágeis do mundo em desenvolvimento. Para esses, como sempre, a travessia poderá ser mais dificil. O Brasil é um deles.
O futuro indefinido O
Brasil ainda não sabe o que vai O horizonte energético brasileiro ficou ainda um pouco mais nebuloso a partir da última semana. Como ocorreu de resto com quase todos os governos dos países importadores de petróleo, as autoridades brasileiras, ao mesmo tempo que acentuavam os tons do panorama enigmático, preferiam não arriscar qualquer palpite ou previsão de medidas de longo prazo para enfrentar problemas futuros. Mesmo reticentes a uma análise de maior fôlego, todas as vozes coincidiram, porém, em explicar o motivo de tanta precaução. É que a tempestade, para valer, pode desabar enfim no próximo dia 26, em Genebra, quando os treze países-membros da OPEP estarão reunidos e poderão decidir uma nova e generalizada alta dos preços do petróleo. O que fazer daqui até lá? A decisão do Irã, de não mais vender o seu óleo às catorze multinacionais que há 25 anos exportavam o petróleo do país, preferindo negociá-lo diretamente com os consumidores através da NIOC -National Iranian Oil Company -, na verdade apenas acentuou a pressão na caldeira. Não se sabe ainda, em profundidade de detalhes, se, quando, como e onde tal decisão vai doer no Brasil. Mas, como admitiu na quinta-feira passada, em Brasília, o vice-presidente da Petrobrás, Paulo Vieira Belloti, "o mercado hoje é comprador". O que, em bom português, significa que há uma escassez internacional. BOTES E DIQUES - A Petrobrás, que é hoje a maior empresa compradora de óleo do mundo, é certo, já encontrou novos fornecedores para substituir parte das compras que efetuava do Irã -estimadas, antes da crise, em 200.000 barris por dia este ano. O Iraque, por exemplo, concordou em bombear 100.000 barris adicionais para atender, em regime de emergência, às necessidades, brasileiras. Além disso, o fato de a Petrobrás ter negociado, mesmo antes, sempre diretamente com a NIOC, sem a intermediação das grandes companhias, injeta um pouco de otimismo nas autoridades - esperançosas de que essa tradição se converta em favores especiais por parte do governo Bazargan. Mas, mesmo esses poucos botes salva-vidas não podem ser confundidos com um dique capaz de enfrentar uma eventual tempestade provocada pela alta geral dos preços. O fato é que, se a interrupção das entregas do petróleo iraniano foi acudida até agora, nem por isso tal serviço de pronto-socorro substitui a tranqüilidade de contratos estáveis de longo prazo. A qualquer momento, os 100.000 barris adicionais do Iraque podem atingir a cotação de 18 a 20 dólares cada um, ao invés dos atuais 14. E não haverá, no caso, a quem reclamar. Isto porque a OPEP, talvez para evitar uma implosão da sua unidade, com a decisão do Irã, afirmou, também na última quinta-feira, em Viena, que os seus membros podem elevar individualmente os seus preços. RISCOS DE UM NOCAUTE - Os responsáveis pela Petrobrás reconhecem a frágil provisoriedade em que se baseiam os suprimentos brasileiros atuais, bem como as ameaças que pairam sobre o futuro de seus estoques. Por isso enviam, nesta segunda-feira, uma comissão especial de alto nível para negociar acordos de longo prazo com o Irã. Dará certo essa corrida contra o tempo em busca de fornecimentos regulares e a bom preço, antes da reunião do próximo dia 26? Em Brasília, hoje, ninguém tem certeza de nada. Daí porque, talvez, ao longo da última semana, mesmo contra a vontade, tanto Simonsen e Ueki como presidente do Conselho Nacional do Petróleo, general Oziel de Almeida Costa, foram requisitados para raciocinar em torno de hipóteses desagradáveis - mas, quem sabe, realistas. Por exemplo: se houver uma alta drástica dos preços do petróleo ao longo deste ano, até atingir 20 dólares o barril, o que fará o Brasil, que compra no exterior oito em cada dez barris que consome? Em termos simples, essa cifra - 20 dólares - coloca sobre o país uma nuvem preta. Afinal, em 1973, os preços do óleo foram quadruplicados. E, se saltassem agora dos 14 dólares atuais para 20, a OPEP estaria exigindo bem menos, ou seja, 43% a mais por barril. "Uma coisa é você levar um murro em boas condições físicas; outra é você levar um segundo soco depois de já ter apanhado bastante", comparou Simonsen na semana passada. O futuro todo poderoso ministro-chefe da Secretaria de Planejamento do governo Figueiredo quis assim lembrar um aspecto fundamental. A quadruplicação dos preços em 1973 deu-se sobre um quadro de cotações irrisórias. Agora, entretanto, o mundo já vive sob o signo do fim da energia barata. E, portanto, cada novo reajuste pesa muitas vezes mais. Se o mercado spot - vendas livres sem contrato, com preço à vista e entrega imediata, uma espécie de leilão internacional - acabar servindo, por exemplo, como parâmetro para fixar um novo patamar de 18 a 20 dólares por barril, o Brasil, seguramente, chegará a um déficit comercial jamais experimentado em sua história. Simplesmente, nesse caso, o custo da compra de óleo ao longo de um ano pularia dos 4,5 bilhões de dólares de hoje para 8 bilhões. E, naturalmente, o preço da gasolina teria que ser reajustado na mesma proporção - cerca de 40%. E o déficit final do país em conta corrente, na melhor das hipóteses - a seca não permite otimismo em relação às exportações agrícolas -, explodiria em 9 bilhões de dólares. BALÃO DE ENSAIO – "A situação pode ficar pretíssima", ecoou funestamente, no começo da semana passada, o general Oziel de Almeida. "Talvez seja hora de começarmos a pensar em racionamento". Ao contrário do que tem ocorrido ultimamente, a pessimista avaliação do presidente do CNP seria encampada, se bem que de forma relutante, até pelo ministro Ueki, para quem tudo está sempre normal. Mas a aparente coesão das autoridades ligadas ao setor energético, vislumbrada no início da semana, seria desmentida logo em seguida. Já na sexta-feira, o general Oziel, preocupado com as repercussões de suas declarações dentro e fora do governo, realizava um significativo recuo. Racionamento? "Agora eu só ouço, não falo nada", afirmou ele ao ser procurado pela imprensa. Segundo esclareceu a VEJA um técnico ligado ao CNP, o general, ao lembrar publicamente o racionamento, tentara sensibilizar setores governamentais para que expusessem seus pontos de vista claramente, quanto à política energética a ser seguida pelo país neste momento. Foi, portanto, uma espécie de "balão de ensaio" - que, aliás, ele sistematicamente lança sempre que se torna crítico o problema do abastecimento. ‘PERGUNTEM AO OZIEL’ - Tanto no Ministério das Minas e Energia como no da Fazenda, a eventualidade do racionamento não seria, na verdade, descartada. Mas, desde logo, porta-vozes do segundo escalão das duas áreas afirmavam que essa possibilidade não pode ser planejada, "pois depende de uma hipotética situação de emergência". E o ministro Ueki encontrou uma fórmula mais sugestiva para manifestar a sua desaprovação às teses do general Oziel. Quando indagado sobre qual seria a atitude do governo frente à ameaça dos proprietários de empresas de ônibus de retirarem uma parte dos coletivos de circulação (em represália pela redução , já em vigor, de 5% do seu abastecimento de óleo diesel), ele respondeu taxativo: "Perguntem ao Oziel, perguntem ao Oziel". O corte de 5% no fornecimento de óleo diesel às empresas de transporte coletivo, bem como a redução de 10% do volume de óleo combustível distribuído à indústria, embora tenha entrado em vigor na quinta-feira passada, não reflete, ainda, uma linha de coerência entre os artífices da política energética brasileira. Certo, Simonsen concordou em discutir as características de um eventual racionamento - embora descarte as "simonetas" pelo seu conteúdo inflacionário. Mas daí a se tomar um aliado do general Oziel a distância parece ser grande. Perplexo, ou apostando que a situação não ficará assim tão ruim no mercado internacional, o governo não anuncia a possibilidade de nenhum pacote de medidas mais severas para conter o consumo - viveu-se assim até ho je, talvez dê para assim continuar vivendo. AS ALTERNATIVAS - O fato crucial é que o Brasil consome muito petróleo - e não consegue produzi-lo. E ainda não encontrou uma alternativa ideal. "O álcool jamais substituirá inteiramente o petróleo", admitiria na sexta-feira o ministro da Indústria e do Comércio, Ângelo Calmon de Sã. E completaria: "O que se pretende com o álcool é basicamente atender à demanda adicional, mas ele pouco ou quase nada resolverá numa eventual crise de abastecimento". Se nem as próprias autoridades acreditam na eficácia do álcool como alternativa do petróleo, qual é, enfim, o caminho que propõem? A pergunta é colocada sempre que afloram crises, como a de 1973 e a de agora - e sua resposta tem sido um quebra-cabeça não apenas no Brasil mas em todo o mundo. Tempestades vêm e passam, é certo. Mas nas próximas semanas há possibilidades objetivas de o país ser colocado cara a cara, de novo com um cruel aperto nos preços do petróleo - e estará tão equipado para enfrentá-lo como estava cinco anos e meio atrás. | ||
| copyright © Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados | |||