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'ouro negro'Entrevistas Jeremy
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5 de dezembro de 1973 Pronto, a crise chegou - exclamava um Papai Noel de traje surrado e óculos de lentes grossas, na elegante Quinta Avenida, no centro de Nova York, no final da semana passada. De fato minúsculos flocos brancos caíam mansamente entre os prédios numa agourenta manifestação do inverno, o primeiro a ser enfrentado, desde a última guerra, com os rigores de um racionamento geral de energia decretado pelo presidente Richard Nixon. Mas a pequena multidão de curiosos logo perceberia que as finas partículas acumuladas sobre os magros ombros do Papai Noel ainda não eram de neve e sim uma nova forma de poluição provocada pelo uso de asbesto numa construção vizinha, como eficiente protetor contra incêndios. No entanto, a crise do petróleo, decretada unilateralmente pela imposição do boicote seletivo dos países produtores árabes, desde a terceira semana de outubro último, está afetando o abastecimento das nações industrializadas. E as sociedades afluentes do ocidente, acostumadas à fartura, agora se mostram perplexas e frustradas com a escassez compulsória. Nas primeiras semanas o embargo articulado pelos responsáveis por 25% do fornecimento de 50 milhões de barris (de 159 litros) de petróleo consumidos diariamente pelo mundo foi recebido com descrédito. No entanto, atualmente, sete nações européias (Alemanha, Itália, Suíça, Holanda, Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo) vivem sem automóveis aos domingos. E a Alemanha se vê às voltas com um número sem precedentes de envenenamento por gasolina. São, na maioria, improvisados ladrões de tanques de automóveis bem abastecidos, inexperientes na prática de retirar o combustível mediante sucção através de um tubo. FAISÕES AO ÓLEO - Por isso, uma situação dramática, com eventuais ameaças diretas aos fornecedores árabes, começou a ser destilada, há duas semanas, nos rumores de um encontro secreto entre as grandes potências econômicas - Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Inglaterra. A reunião estaria marcada para a tarde do dia 22 de novembro, um sábado, em algum ponto do território francês. Naquele dia, o mininistro Valery Giscard d'Estaing, o aristocrático condestável das Finanças da França, estava no seu castelo de L'Etoile, recebendo para uma caçada em que foram abatidos 106 faisões, perdizes e coelhos. Seu colega japonês, Koichi Inamura, vice-ministro da Economia que substituía interinamente o infeliz Koichi Aichi, morto em meio a notícias de uma catástrofe na indústria de seu país, partia rumo a uma inocente viagem de inspeção pelos escritórios comerciais espalhados na Europa. O segredo da reunião, que efetivamente foi realizada na cidade de Tours, dissipou-se pela ação involuntária de Relmut Schmidt, o ministro alemão, que não pôde ocultar o seu avião executivo, com emblema oficial, após ter pousado ruidosamente no aeroporto coberto de neblina. Apenas 10 pessoas ocuparam o castelo d'Artigny, com seus 60 apartamentos de luxo, antiga fortaleza do século XI, reconstruído em 1912, pelo perfumista Coty, e depois transformado em hotel de classe, agora fechado por falta de hóspedes. Na manhã seguinte, juntava-se ao grupo o secretário do Tesouro Americano, George ShuItz, e o fleumático "Chancellor of Exequer" inglês, sir Anthony Barber. Cada participante levava apenas um assessor e na manhã de segunda-feira passada, quando todos deixaram o castelo, uma declaração falava em "reflexão sobre as características do futuro sistema monetário". Em tão vasto tema, possivelmente não deve ter faltado quem lembrasse aos seus ilustres pares as repercussões imediatas do aumento de 15 bilhões de dólares nos gastos globais com petróleo importado, desde que a cotação média de um barril, agora estimada em 5,2 dólares, dobrou em apenas oito meses. Nessa explosão que levará o preço médio, segundo observadores e funcionários de empresas petrolíferas, a 9 dólares por barril, a Nigéria aceitou, na semana passada, uma oferta de 16,40. Tais pressões inflacionárias nos países importadores podem instilar o vírus de uma nova guerra de desvalorizações monetárias, turvando o sonho da reorganização financeira internacional. Peregrinação Inesperada - Com idêntico cuidado e compreensível discrição, alguns emissários do Brasil, país ainda não visitado pelas atribulações do racionamento, começam também a se mover por roteiros significativos. Quando, no começo da semana passada, o general Araken de Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) admitiu a execução de planos para controle de consumo dos derivados do petróleo por particulares, suas preocupações estavam distantes do espanto que acompanhou todas as reações apressadas. Na verdade, ele interpretava fielmente o pensamento do chamado "conceito estratégico nacional", adotado desde 1970, que reinterpreta silenciosamente o caráter da missão fundamental da Petrobrás. Agora, sua função é a de garantir o abastecimento interno, atribuindo-se ao esforço pela auto-suficiência um papel relativo na política do monopólio. Por isso, as relações comerciais com os países árabes, de onde vêm 60% do petróleo consumido no Brasil (750.000 barris diários), exigem cuidados especiais. O ministro Paulo Nogueira Batista, chefe do Departamento Econômico do Itamaraty, na segunda-feira da semana passada, já não participava, em Brasília, do reinício das conversações sobre gás boliviano. Estava em Paris, para uma reunião no escritório da Braspetro, subsidiária da Petrobrás para negócios internacionais, que recebia também a visita de Shigueaki Ueki, presidente da empresa. Depois, eles seguiriam juntos para o Oriente Médio, numa peregrinação que deverá tomar toda esta semana e inclui escalas no Iraque, Arábia Saudita, Irã e Líbia. Esta aliança entre técnicos da Petrobrás e diplomatas é aparentemente indispensável nas negociações com países que assumiram - e quase sempre estatizam - o controle sobre a exploração do subsolo. Os resultados dessa fórmula, aplicada há dois anos, já não se podem conservar tão discretos como as conversações. O Banco do Brasil admite que a maior parte dos lucros de suas agências européias é recolhida das operações em que intervém a Braspetro. E a construção de uma usina siderúrgica em Abudabi, emirato do golfo Pérsico, com capacidade para 300.000 toneladas anuais, instalada pelo grupo paulista Bardella e financiada com recursos brasileiros, abre o caminho para a montagem de novas unidades em outros países. No caso, a Petrobrás estaria exercitando o princípio de que "o petróleo é de liquidez imediata, mas não pode ser trocado por qualquer coisa, exceto dinheiro", com o que estaria consolidando relações inegavelmente mais valiosas do que a mais solene declaração de neutralidade política. Contas geladas - Esta idéia, do incalculável valor comercial do petróleo, foi veladamente insinuada por Nixon em seu discurso de segunda-feira da semana passada, quando anunciou, em tom patético, o ingresso dos Estados Unidos no clube do racionamento. No paraíso da civilização motorizada, habitado por mais de cinqüenta milhões de automóveis, os postos de gasolina ficarão fechados, por um prazo indeterminado, de sábado à tarde até a manhã de segunda-feira. A velocidade máxima nas estradas foi reduzida para 80 km/h (88 para caminhões e ônibus), limite já adotado pela Alemanha e Holanda, E o fornecimento de óleo para sistema de aquecimento em casas e escritórios foi reduzido em 10%. Com estas restrições, o governo americano espera poupar 20% dos 6 milhões de barris de petróleo importados a cada dia - a produção interna é avaliada em 11 milhões. Em troca, Nixon disse que somente podia oferecer ao povo uma "união melhor para as famílias, que ficarão em casa nos fins de semana". O próprio presidente, que no verão mantinha acesa a lareira de sua sala de trabalho, para enfeitar o cenário, enquanto o aparelho de ar condicionado entrava com força máxima para absorver o inútil excesso de calor, encarregou-se de sugerir a chegada de "tempos mais duros", se perdurar o embargo das nações do Oriente Médio. E a situação dos estoques de energia, cada vez mais limitados ao petróleo desde que a extração de gás natural e carvão se mantém estacionária há três anos, só não é mais grave porque o velho "Old Farmer's Almanac", que registra todas as temperaturas diárias a partir de 1972, assegura um inverno menos rigoroso do que o comum. Ainda assim, as reservas de latas de gasolina, usadas no sistema de aquecimento residencial, estão esgotadas em toda a área de Washington, apesar dos insistentes avisos pela televisão de que um galão (4,5 litros aproximadamente de gasolina armazenado) pode produzir gases explosivos com o poder de destruição de uma carga de 5 quilos de dinamite. Garantias individuais - Para o Brasil, que depende do petróleo para suprir 50% de sua demanda de energia (a média mundial se aproxima de 42%), as conseqüências de um racionamento perseguiriam as eufóricas estimativas de expansão econômica. Mas a possibilidade de corte parece remota e está sendo, na verdade, negada enfaticamente pelos países exportadores. Em Brasília, o embaixador Jihad Karam, do Iraque, cujo governo é talvez o mais zeloso guardião no cumprimento do embargo, lembrou a VEJA, usando seu dialeto nacional meticulosamente traduzido por um intérprete, que "há uma diferença entre nações amigas, neutras e inimigas. O Brasil está incluído entre os neutros e já recebeu, através da Petrobrás, garantias a respeito dos acordos petrolíferos". E, justificadamente, as preocupações iraquianas, segundo o embaixador, não incursionam sequer remotamente pelas relações do governo brasileiro com Portugal, "assunto de competência dos dois países, apesar da nossa posição favorável ao movimento de libertação da África", fato que chegou a estimular especulações sobre pressões indiretas com o fornecimento. Mas as dificuldades para o abastecimento podem chegar pela tortuosa e incontrolável elevação dos preços. Com a produção interna estagnada e importações crescentes (ver o gráfico), a economia brasileira poderia sofrer, eventualmente, da falta de recursos para comprar o petróleo que lhe é ofertado. Em outubro último, as cotações médias, incluindo frete e seguro, estavam acima de 4,50 dólares por barril, segundo técnicos da Petrobrás. Na semana passada, assinavam-se contratos de compra por 7 dólares. Como no próximo ano as compras estão estimadas em 1,5 bilhão de dólares - o dobro deste ano -, o assunto petróleo, delicado balanço entre as necessidades industriais e um previsível recrudescimento da batalha contra a inflação, poderá se transformar no principal tema econômico do primeiro ano do novo governo. Amigos, amigos - Aliás, as tensões registradas na Europa durante as quatro últimas semanas confirmam que o petróleo já é o tema mais importante da economia mundial. E o será provavelmente por muito tempo, enquanto não se esgotarem as jazidas do Oriente Médio. E isso não deverá ocorrer antes de 2055, mesmo projetando todas as estimativas de aumento das exportações, como demonstram saber os próprios árabes. O mais autoconfiante dos atuais feiticeiros da energia, o xeque Ahmed Yamani, ministro do Petróleo da Arábia Saudita, o segundo país exportador com 3,7 milhões de barris diários - 30% a menos do que o primeiro nos últimos três anos, o Irã -, demonstrou a extensão do poder na semana passada, na Dinamarca e Inglaterra. Usando uma frota de cinco Cadillacs Eldorado, que consomem um litro de gasolina em cada 3 quilômetros rodados, Yamani seguiu do aeroporto para um hotel no centro de Londres, onde pagou 300 dólares diários pela suíte presidencial, conjunto de aposentos com paredes recobertas de veludo, mas sem aquecimento para economizar óleo combustível. Lá, ele anunciou que a apressada mudança da política oficial da Inglaterra - agora apoiando debilmente a posição árabe - colocou o país na categoria de isentos do embargo de 5%, aplicado desde outubro, passando a fazer companhia a França e Espanha. Depois, Yamani foi rezar num dos raros templos londrinos livres da proibição de aquecer o recinto com sistemas que utilizam o óleo. Essa viagem, que acabou com tolerantes acenos de Yamani em conversar inclusive com representantes da Holanda - o mais atingido dos países europeus pelo embargo -, registrou ironicamente o fracionamento do Mercado Comum Europeu, outrora exemplar associação de nações interessadas no desenvolvimento harmônico. Na França, que recebe 80% do seu petróleo do Oriente Médio e tem estoques abundantes, denunciava-se o aparecimento de um mercado negro na Bélgica, capaz de pagar até 20 dólares por barril, para depois contrabandeá-lo para a Holanda. Na própria Inglaterra, a British Petroleum, velha fortaleza dos interesses imperiais do golfo Pérsico, relacionada numa lista de empresas sonegadoras, tinha depois a sua inclusão fracamente desmentida. Na Alemanha, falava-se que a elevação de 100% no preço do petróleo, já efetivado desde abril último, fez aumentar, por exemplo, em 40%, o preço do alumínio produzido na França, tradicional exportadora de metais nobres para todos os vizinhos. O acúmulo de insinuações e rumores atingiu o auge na quinta-feira da semana passada, quando Alec Douglas-Home, ministro das Relações Exteriores da Inglaterra e cavaleiro do império, foi acusado no Parlamento de ter vendido o país aos árabes, da mesma forma como Chamberlain capitulou diante dos nazistas, em 1938. Saga oriental - De qualquer forma, a situação européia se assemelhava, no final da semana passada, após as concessões de Yamani, a um cálido oásis se comparada com a do Japão. Neste país, calcula-se que um corte de 5% no fornecimento do petróleo (fonte de 75% da enorme demanda energética japonesa) seria suficiente para reduzir o crescimento do Produto Nacional Bruto a irrisórios 5,5% em 1974. Nem mesmo a humilde rendição do governo de Tóquio, representante da terceira e menos armada das potências econômicas, perante a inflexibilidade árabe, foi considerada tão grave como o espectro de um desastre que não se conhecia desde o final da Segunda Guerra. Funcionários do Ministério das Finanças revelam que o país não pode suportar um corte superior a 10% nos fornecimentos de petróleo. E mesmo agora, quando as nações que promovem o embargo parecem pouco inclinadas a elevar as restrições, prepara-se um plano de emergência para suportar uma possível catástrofe. Ele inclui, de início, o congelamento dos projetos de reforma urbana, docemente acalentados pelo primeiro-ministro Kakuei Tanaka e que custariam 7 bilhões de dólares numa primeira etapa. Se o Japão, menos ameaçado depois de uma clara condenação dirigida a Israel, faz planos para suportar um desastre iminente, os Estados Unidos, de seu lado, manejam estatísticas para comprovar uma onda de desemprego, com taxas próximas de 20% registradas nos anos de grande depressão que sucederam a crise de 1929. Mas, objetivamente, 3 milhões de barris - a metade de suas importações diárias - vêm da Venezuela, exportador apenas interessado em desfrutar dos opulentos aumentos de preço. Assim, na prática, há apenas notícia do fechamento da divisão de carroçarias Fisher (automóveis grandes) da General Motors. E em algumas indústrias petroquímicas fala-se na redução do número de empregados, que seria confortavelmente compensada pela construção das primeiras unidades para extração do xisto no vale do rio Colorado. Trata-se de uma alternativa para o petróleo, viável pelo encarecimento da matéria-prima tradicional. As reservas americanas de óleo, na forma de xisto, estimadas em 600 bilhões de barris, seriam superiores às de todos os países árabes em conjunto. E a montagem das primeiras usinas para produzir 100.000 barris diários devem cobrir tranqüilamente o investimento inicial de 250 milhões de dólares, o dobro de uma refinaria comum, desde que as cotações se mantenham em alta. Improvisação útil - Para a indústria brasileira, cujo crescimento se apóia, em boa parte, no sucesso das fábricas de automóveis, a corrida pelo xisto, matéria-prima também abundante no sul do país e cujo óleo é um eficiente sucedâneo do petróleo, tem um grande significado. Representa a consagração do modelo energético que explora a versatilidade até agora incomparável dos combustíveis líquidos: do petróleo se podem extrair 7.000 derivados e subprodutos. Em todo caso, nos tempos de escassez, algumas fontes prosaicas de calor voltam a ser estudadas. No nordeste, por exemplo, a casca de babaçu, um coco em que tudo se aproveita, é tão densa e concentrada que "produz um carvão de primeiríssima qualidade, com poder calorífico vizinho ao do carvão de pedra", como argumenta o governador do Piauí, Alberto Silva. Seu Estado extrai 1,5 milhão de toneladas anuais de babaçu, e sua casca só está sendo efetivamente aproveitada para aterrar os alagados e alimentar fogões de caboclos que desconhecem os debates energéticos. Somada a produção do Maranhão, o babaçu poderia oferecer uma quantidade de carvão semelhante à de minas subterrâneas de Santa Catarina. Quem sabe a um custo menor. Em outra direção, o engenheiro Eduardo Celestino Rodrigues, dono de uma grande empreiteira paulista e antigo professor de Transportes da Universidade de São Paulo, tem novas sugestões. Como principal alternativa a curto prazo - dentro de um esquema detalhado que inclui reformulação dos transportes de carga e até a construção de centrais nucleares -, ele sugere o retorno aos velhos tempos da mistura de álcool, em grandes proporções, à gasolina. "Na época da guerra, usávamos 42% de álcool", lembra Celestino Rodrigues, com seu estilo singelo adequado ao autor do tradicional "900 Exercícios de Física". "Agora a média nacional está em 3,2% e, para elevar este nível, basta aumentar a capacidade de tanque dos veículos, porque o consumo do álcool é duas vezes maior que o de gasolina". Como se pode destilar rendosas quantidades da cana-de-açúcar ou do milho, a economia final deste combustível (hoje vendido a 69 centavos contra 88 da gasolina comum) pagaria folgadamente o investimento para modificar o reservatório dos automóveis. Um jovem estudante paulista, Carlos Alberto Benicasa, de 20 anos, levou a idéia aparentemente ao exagero, ao adaptar seu Galaxie para rodar inteiramente movido a álcool. Com um pequeno alargamento na entrada do carburador ("gigleur") e a adaptação de um turbo-compressor comprado num ferro-velho por 50 cruzeiros, o possante devorador de gasolina andou, dias atrás, por alguns quarteirões, a 80 km/h, sem aquecer o motor ou "bater pinos". Átomos em alta - Mas a remodelação do automóvel, talvez o subproduto mais utilitário da era do petróleo, já não comove tão intensamente as engrenagens das sociedades industrializadas. É o que demonstra a reação dos índices da Bolsa de Valores de Nova York. Duas semanas atrás, no auge do pânico provocado pelo embargo, caiu 46 pontos em dois dias, na maior baixa desde os dias apocalípticos de 1929. A indústria automobilística - seguida por outros setores envolvidos na crise de energia, como produtos químicos e linhas aéreas - liderou a queda. E ainda foi possível desvendar minúsculas tonalidades: a General Motors comportou-se pior do que a American Motors, que concentra sua produção em carros pequenos. Ainda haverá reações inteligentes, como a da própria General Motors americana, que planeja, numa de suas divisões mais discretas - fábrica de velas de ignição -, uma campanha publicitária vigorosa para ensinar os motoristas a melhorarem o rendimento dos motores pela correção dos vícios mais comuns na direção. Ou expedientes ingênuos, como o de certos motoristas ingleses que, à simples notícia da distribuição de cartões de um racionamento agora indefinidamente adiado, lançaram-se à caça de velhos automóveis, consumidores inveterados de gasolina. Com isso, eles procuram garantir uma cota mais generosa, porque a quantidade seria calculada em função do consumo do carro. De qualquer modo, os fluidos materialistas da insuperável Wall Street guiam-se instintivamente na direção da resposta definitiva para o impasse energético, visível desde que a pulverização do mercado petrolífero antecipou a necessidade de novas soluções, cuja busca era até então displicentemente postergada: os investidores mais experientes buscaram a proteção das empresas entretidas com a pesquisa da energia nuclear. E, mais uma vez, ressurgiram, algo arranhadas pelas lutas contra encampações no Oriente Médio, mas intactas na capacidade para detectar os melhores negócios do mundo, um grupo de sete empresas chamadas de "majors". Como dominaram o cenário da exploração do petróleo no período limitado pelas duas guerras mundiais e começaram a perder sua força quando o abastecimento e a extração passaram a ser considerados um assunto de Estado, elas buscam reconquistar a liderança atualmente num terreno pouco visitado pelos concorrentes menores. Na segunda semana de novembro último, a Exxon, que perdeu 27% de suas reservas de petróleo, quase todas na Líbia, registrava a patente mundial para um sistema de preparação do urânio com raios laser. Ele torna 50% mais barata a produção de matéria-prima para os reatores nucleares clássicos, como são 80% dos 77 em funcionamento no mundo todo para geração de energia elétrica. E a Shell, conglomerado anglo-holandês, participa da Gulf Atomic, que desenvolveu um novo tipo de reator, valorizado agora pelo maior poder de gerar calor em quantidade e temperatura suficientes para produzir aço sem a presença do carvão mineral. As ações destas duas empresas subiram moderadamente nos dias da crise, juntamente com a British Petroleum, dona de fortes participações nos campos do Alasca e mar do Norte, que tem a reserva mais animadora de toda a região enlaçada com certa solidez pelo mundo ocidental. Fim de época - As limitações destes derradeiros cofres de combustível são, porém, incômodas. As jazidas do mar do Norte, ainda não completamente medidas, deverão produzir, dentro de uma década, pouco mais de 2 milhões de barris diários, ou um terço das exportações atuais do Irã. E o custo definitivo da abertura de todos os campos poderia chegar a 350 bilhões de dólares, como estima o cauteloso Chase Manhattan Bank, de Nova York. Com uma fração desses recursos, ou seja, 25 bilhões de dólares, seria possível, segundo um grupo de cientistas alemães consultados por VEJA em Bonn, antecipar a solução técnica dos reatores regeneradores - produziriam energia elétrica a partir da fusão de dois átomos de hidrogênio esperada para o final do século, se forem mantidas as verbas atuais de pesquisa. Com essa fonte ilimitada de energia, a demanda mundial seria satisfeita enquanto se pudesse recolher a água do mar, depósito de incalculáveis quantidades dos dois tipos de hidrogênio - deutério e trítio - necessários para a reação. Ela tornaria ainda conhecido universalmente o segredo da produção de bombas de hidrogênio e o seu controle. E sem monopólios políticos, a humanidade poderá se transformar. Talvez a gênese dessas mudanças esteja ocorrendo neste instante, quando pessoas anônimas tratam febrilmente de inventar adaptações para assegurar o seu direito de transporte individual. Hoje é um "pedal car" imaginado por um americano para enfrentar a atual crise. Em tempos remotos, foi um tosco veículo que se metamorfosearia em possantes máquinas movidas a gasolina. Um e outro são expressões de uma única motivação, que pode marcar exatamente o início e o fim da época mais gloriosa do petróleo,
Estoque é normal no Brasil No seu gabinete em Brasília, o general Araken de Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Petróleo (CNP) - que dita a política petrolífera da qual a Petrobrás é o órgão executor -, concedeu na semana passada uma entrevista a André Gustavo Stumpf, de VEJA. Tranqüilo e bem disposto, sobre o racionamento, ele chegou até a comentar: "Faz bem andar de bicicleta". VEJA
- Que resultados trouxe a política da Petrobrás no exterior? VEJA
- E a prioridade para a prospecção dentro do país? VEJA
- Existe, portanto, uma visível limitação à
pesquisa aleatória? VEJA
- O projeto Radam auxilia, de alguma forma, a localização
de lençóis petrolíferos na Amazônia? VEJA
- Anunciou-se, recentemente, o interesse de companhias petrolíferas
norte-americanas em explorar, junto com a Petrobrás, a plataforma continental.
Qual a reação do governo? VEJA
- Qual é a política petrolífera brasileira em relação
aos árabes? VEJA
– O Brasil pode vir a proibir o tráfego de veículos aos domingos,
seguindo o exemplo europeu? VEJA
- Qual a capacidade de estocagem de petróleo no Brasil? VEJA
- O CNP tem medidas de emergência prontas para a eventualidade de
um corte no fornecimento? VEJA
- Quais as alternativas, na eventualidade de um racionamento?
Energia: outras soluções Atualmente, a demanda de energia pelo Brasil é uma fração modesta (0,2%) das necessidades mundiais, equivalente a 230 milhões de kw/ hora a cada dia. Contudo, a taxa de expansão do consumo, estabilizada em torno de 11% ao ano - o dobro da média calculada nas nações desenvolvidas -, assegura que o país irá duplicar, antes do fim da década, o gasto diário, hoje estimulado em 500 milhões de kw/hora. Ou seja, o desenvolvimento acelerado acena com uma inquietante dependência externa no abastecimento de combustíveis, especialmente petróleo. E a contrapartida possível, a longo prazo, está no aproveitamento de novas fontes, como a energia nuclear. Eis a situação dos principais estoques internos: Petróleo - O consumo de 1973 está estimado em 250 milhões de barris (no mundo inteiro, serão 20 bilhões), que fornecerão a metade da energia necessária para mover o país. A reserva oficialmente aproveitável está na Bahia e no litoral de Sergipe, de onde se pode extrair 1,1 bilhão de barris. Mas a Petrobrás retira apenas 6% do estoque em cada ano de exploração, como aliás recomenda a experiência das empresas multinacionais. Nessa velocidade, os poços se esgotarão em 1990, caso as sondagens e prospecções, que consumirão 1, 2 bilhão de cruzeiros no próximo ano, não dêem bons resultados. Agora, as áreas de maior interesse para a Petrobrás estão na foz do rio Paraíba, no Estado do Rio. Na região amazônica, frustrado Eldorado petrolífero dos anos 50, resultados animadores eram anunciados, em Manaus, na semana passada, por técnicos em ação às margens dos rios Urariá e Abacaxis, afluentes do Madeira. Nessa incursão pela selva, a Petrobrás começa a entrar nas áreas indígenas, onde nem sempre é bem recebida. Na segunda semana de novembro passado, uma de suas equipes envolveu-se num movimentado atrito com funcionários da Fundação Nacional do Indio (Funai), no município de Coari. Nos próximos meses, deverão se iniciar explorações no delta do Amazonas. Energia elétrica - Neste ano, a demanda ultrapassará os 52 bilhões de kw/h, assegurada pelo suprimento abundante de usinas ainda em início de operação regular, como a da Ilha Solteira (SP). Mas no início da próxima década, todo o potencial da região centro-sul estará esgotado. Restarão, quase intatos, os recursos do rio São Francisco. E os desníveis ainda pouco conhecidos da bacia amazônica, cujas reservas inexploradas dificilmente ajudariam a aplacar o déficit das regiões mais desenvolvidas, pela impossibilidade econômica de se transportar eletricidade a grandes distâncias - a corrente teima em aquecer os cabos, consumindo no transporte boa parte do rendimento. Xisto - Na última década do século passado, o engenheiro belga Auguste Collon registrou, com sua caligrafia meticulosa, as primeiras referências sobre a bacia de Irati, como é chamada a imensa língua de rochas negras, a 300 quilômetros da costa, desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Como uma imensa torta mil-folhas, essa formação armazena, nos desvãos de suas lâminas, uma pequena quantidade de óleo. Em média, 2 toneladas de xisto ofereceriam um barril de petróleo, segundo Collon. Hoje, a Petrobrás explora uma usina-piloto em São Mateus (PR), centro mais fértil da jazida que pode confirmar esta proporção. Haveria, então, uma quantidade equivalente a 94 bilhões de toneladas de petróleo - a terceira reserva do mundo. O custo da extração, estimado em 6 dólares por barril, torna possível o início imediato da operação comercial em São Mateus, onde se projeta uma unidade para recolher 60.000 barris diários. Energia nuclear - As areias monazíticas do litoral do Espírito Santo guardam 28.000 toneladas de tório, combustível atômico utilizado nos reatores mais modernos do mundo. Com 90 toneladas anuais se poderia, hoje, abastecer usinas capazes de fornecer toda a energia elétrica consumida no país. E se forem adicionadas as reservas recentemente descobertas em Araxá (350.000 toneladas), será possível atender a essa demanda projetada nos próximos três séculos. O urânio de Poços de Caldas (6.300 toneladas) tratado numa usina de beneficiamento, cuja construção exigiria 1 bilhão de dólares, forneceria a fração nobre de combustível nuclear necessária para manter a reação - semelhante à das bombas atômicas - em processo de permanente atividade. | ||
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