| Junho de 2008 Sucessão
na ABL
Ricardo Chaves
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Uma das críticas mais freqüentes à Academia Brasileira de Letras (ABL) é que ela
raramente produz algo de relevância cultural - um argumento plausível, diga-se
de passagem. Uma das poucas oportunidades em que a instituição ganha espaço na
sociedade se dá às vésperas da escolha de um novo membro - um "imortal", como
são intitulados os ocupantes das 40 cadeiras da ABL. Nessas ocasiões, o valor
da obra dos aspirantes a imortal é colocado mais à vista dos brasileiros, embora,
ao que tudo indica, isso nem sempre determina a escolha do novo acadêmico. Entenda
como funciona o processo sucessório na casa e as fofocas e intrigas que cercam
a ABL, que segue alguns rituais criados há mais de cem anos por gigantes da literatura
como Machado de Assis.
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| 1. Como funciona
o processo de eleição de um "imortal"?? Uma vaga na ABL só é aberta
com a morte de um de seus 40 membros. Ao fim da chamada Sessão de Saudade, em
que o acadêmico morto é homenageado, é declarada oficialmente a vacância da cadeira.
A partir de então, os interessados podem se candidatar num prazo de 60 dias. É
preciso enviar uma correspondência à ABL com um currículo, formalizando o interesse.
As eleições ocorrem cerca de um mês depois do encerramento das inscrições. Não
há outra maneira de ingressar na Academia, ou seja, todos os interessados precisam
passar pelo processo eleitoral. | | | | •
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| 2. Quem
tem direito a votar? Inspirada no modelo da Academia Francesa,
a ABL é composta por 40 membros efetivos e perpétuos. Além desses, a Academia
possui 20 membros correspondentes estrangeiros. Mas apenas os efetivos podem votar
nas eleições. Portanto, caso haja apenas uma vaga em aberto, 39 integrantes têm
direito a voto. Os membros que não puderem comparecer à sede da ABL, no Rio, na
data da eleição têm a opção de votar por carta. | | |
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| 3. O
voto é aberto ou secreto? A eleição que define quem será o novo
imortal é realizada em votação secreta. Os membros da academia depositam seu voto
em uma urna, que é aberta pelo presidente da Casa. Oficialmente, ninguém deveria
revelar sua preferência. No entanto, em várias ocasiões, alguns membros declaram
abertamente sua intenção. Em alguns casos, a preferência por um candidato é tão
clara que é possível contabilizar seus votos antes mesmo das eleições. |
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| 4. Quantos
votos são necessários para eleger o novo membro? O novo membro
é eleito por maioria absoluta de votos - ou seja, metade mais um. Se o número
de membros efetivos for ímpar, a maioria absoluta será representada pela metade
do número superior àquele. Em outras palavras, em uma eleição de que participam
39 acadêmicos, o novo imortal será escolhido com 20 votos. |
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| 5. Qualquer
um pode se candidatar a uma vaga? De acordo com as regras da
Academia, para se candidatar é preciso ter nacionalidade brasileira e ter publicado
ao menos um obra de reconhecido valor cultural ou literário. Desde sua origem,
porém, a ABL previa a reserva de alguns assentos para "personalidades", pessoas
que se destacassem em outras áreas. Essa determinação foi expressa na correspondência
trocada, por exemplo, entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco às vésperas da criação
da instituição, em 1897. Isso significa que, na prática, o destaque em áreas políticas
ou sociais é levado mais em conta do que, de fato, suas obras literárias. Isso
explica a presença de personagens como Ivo Pitanguy, que como escritor é um ótimo
cirurgião plástico, ou o ilustre desconhecido Tarcísio Padilha. |
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| 6. Há
algum tipo de campanha antes da eleição? Não existe nenhum tipo
de campanha declarada. Mas normalmente observa-se uma certa adequação ao ritual
da ABL. Comparecer aos tradicionais chás de quinta-feira, participar de atividades
no Petit Trianon - o edifício sede -, escrever cartas, telefonar, enviar livros
ou visitar os imortais podem garantir mais popularidade ao candidato. Os imortais
dizem ainda que prezam pela discrição do candidato durante a campanha, mas costumam
se lançar com energia a conchavos durante o processo decisório. |
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| 7. É
preciso esperar uma vaga para fazer campanha? Sim, declarar-se
interessado antes mesmo da abertura de uma vaga é considerada uma atitude agourenta.
Afinal, ficaria a impressão de que o candidato espera pela morte de um dos imortais.
Um episódio relacionado ocorreu com o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, que
enviou à ABL uma carta informando o desejo fazer parte da Academia. Os membros
consideraram a manifestação grosseira e imperdoável. | | |
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| 8. Quem
não for eleito pode se candidatar de novo? Sim. Isso já aconteceu
diversas vezes. Inclusive com o hoje imortal Paulo Coelho. Ele não foi eleito
da primeira vez que se candidatou. De volta ao páreo em 2002, bateu o cientista
político Hélio Jaguaribe por 22 votos a 15. A disputa foi uma das que mais mexeu
com a Academia e também com a opinião pública. Insatisfeitos com a candidatura
do "Mago", críticos literários lançaram um desafio à Academia: ou rejeitavam Coelho,
por entender que ele não tinha cacife para figurar em uma Academia de Letras séria,
ou o aceitavam, reconhecendo que a instituição em si é que não era séria. A ABL
aceitou Coelho, alegando que ele daria visibilidade nacional e internacional à
Casa, por tratar-se de um best seller. | | |
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| 9. Qual
o ritual de posse do novo 'imortal'? A posse do novo imortal acontece
no salão nobre do Petit Trianon. O novo membro veste, então, o tradicional fardão,
traje verde-escuro, bordado a ouro e acompanhado por um chapéu de veludo preto
com plumas brancas. É padrão que os discursos de posse se restrinjam a tecer loas
aos ex-donos da cadeira que o novo imortal passa a ocupar. Mas há exceções. Uma
delas ocorreu na posse do diplomata Roberto Campos, em 1999, que atacou duramente
seu antecessor, o dramaturgo Dias Gomes. Mais: ele classificou de ridícula a celeuma
ideológica em torno de sua eleição, na qual a viúva de Dias Gomes, Bernadeth Lyzio,
fez campanha para que o marido, conhecido por suas posições de esquerda, não fosse
sucedido por um homem "de direita". Outro episódio sobre a posse já está ligado
ao campo sobrenatural. Eleito para a Academia em 1963, Guimarães Rosa protelou
o quanto pôde a cerimônia. Ele dizia que, empossado, morreria em seguida. De fato,
o autor de Grande Sertão: Veredas morreu três dias após assumir seu assento,
em 1967. | | | | •
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| 10.
Alguém já se recusou a participar da disputa? Grandes nomes como
Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector nunca se candidataram. Já o escritor
Monteiro Lobato tentou em 1926. Decepcionado com a derrota, se negou a aceitar
uma indicação para a candidatura em 1944. Com o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso aconteceu uma situação diferente. Após a morte de Roberto Marinho, em
2003, a viúva Lily manifestou o desejo de que o sociólogo tomasse posse da cadeira
do falecido. FHC agradeceu e disse que não disputaria a indicação. A briga ficou
entre o escritor Fernando Morais e o vice de FHC, Marco Maciel, que venceu. Há
ainda aqueles que saíram da disputa para favorecer alguém - ou entraram nela para
atrapalhar. Nas duas situações, o exemplo é o mesmo: o jornalista Joel Silveira.
Em 2000, ele renunciou à candidatura em favor do jurista Raimundo Faoro. No ano
seguinte, apresentou seu nome em protesto à chapa de Zélia Gattai, que queria
assumir a cadeira deixada pelo marido, Jorge Amado. A candidatura de Zélia dividiu
a ABL, mas a viúva levou a melhor. | | | | •
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| 11.
Afinal, o que significa ser um "imortal"? O termo imortal foi retirado
da Academia Francesa. A palavra foi retirada da frase À l'immortalité,
que está estampada no selo oficial da Academia. Na versão brasileira, ser imortal
significa ser ou já ter sido membro da Casa de Machado de Assis. Além de ter garantidos
para o resto da vida os famosos chás e bolinhos das tardes de quinta-feira, nas
quais os acadêmicos trocam amenidades e, às vésperas de eleições, farpas. |
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| 12.
Afinal, qual é a função da ABL? Oficialmente, as funções da Academia
Brasileira de Letras são zelar pela língua portuguesa e divulgar a literatura
nacional de alto nível. Assim, ela faz publicações de livros, distribui prêmios,
elabora dicionários, analisa e referenda mudanças gramaticais ou ortográficas
do idioma. Porém, as críticas de que há tempos a Casa de Machado de Assis não
produz algo de relevância cultural são procedentes. | | |
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