Referendo da reeleição
na Venezuela No poder há dez anos, o presidente venezuelano Hugo Chávez acredita
que ainda não teve tempo suficiente para consolidar sua “revolução bolivariana”.
No decorrer desse período, o coronel já mudou o nome, a Constituição e até mesmo
o fuso horário do país. Não contente, Chávez pretende continuar no poder até,
pelo menos, 2021. Para isso, quer que os venezuelanos aprovem uma emenda constitucional
que abrirá caminho para reeleger-se sem limite de mandatos. A ideia já foi rechaçada
pelo povo uma vez, mas, em uma manobra que contraria a Constituição, o coronel
organizou um novo referendo, marcado para o dia 15 de fevereiro. Saiba o que está
em jogo na votação e quais são os riscos do poder perpétuo nas mãos de Chávez.
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| 1. Qual é o
principal objetivo do referendo na Venezuela? O governo quer aprovar
uma emenda constitucional que daria ao presidente Hugo Chávez e a todos os ocupantes
de cargos eletivos da Venezuela, como os governadores e prefeitos, a possibilidade
de se reeleger indefinidamente. Para que isso seja possível, é preciso que sejam
modificados cinco artigos da Constituição do país. Os cidadãos responderão no
dia 15 se concordam com a alteração do texto desses artigos para “ampliar os direitos
políticos de venezuelanos e venezuelanas”, nas palavras de Chávez. |
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| 2. O
que Chávez pretende se conseguir o poder sem limites? Sepultar de
uma vez por todas a democracia na Venezuela. Chávez tem sistematicamente usado
os instrumentos da democracia para reduzir a influência da oposição e impor uma
política que se assemelha, cada dia mais, com um regime ditatorial. Em dez anos,
ele já nacionalizou empresas de eletricidade, telecomunicação, alimentos, aço
e petróleo. As consequências do aumento da participação estatal na economia se
fazem sentir. As estatizações de empresas de telefonia e eletricidade deterioraram
o serviço prestado à população. As estatizações afugentam os investidores: o risco
país da Venezuela é o mais alto entre os mercados emergentes. A Justiça foi aparelhada
por chavistas e a imprensa, censurada e ameaçada, num claro gesto ditatorial.
Aparentemente, ninguém vai impedir Chávez de prosseguir com sua marcha tresloucada
na Venezuela. Tanto ali quanto em Cuba - e em todos os outros lugares onde a experiência
já foi testada - a construção do socialismo coincide sempre com a destruição dos
países nos quais o sistema é implantado. | | |
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| 3. Por
que realizar o novo referendo é uma manobra inconstitucional? A
consulta é ilegal visto que a Constituição venezuelana (escrita pelo próprio Chávez)
impede que uma reforma política rechaçada pela população seja submetida a novo
voto no mesmo governo. Pouco depois da derrota no primeiro referendo, Chávez “autorizou"
os seus simpatizantes a recolher assinaturas para conseguir uma emenda constitucional
para permitir a reeleição presidencial sem limites. | | |
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| 4. Essa
é a primeira manobra arbitrária de Hugo Chávez? Não. Em julho de
2008, ele colocou em vigor, por decreto, um pacote com 26 leis rejeitadas pela
população no mesmo referendo em que lhe foi negado o direito à reeleição indefinida.
Entre os decretos consta a criação de uma milícia em pé de igualdade com as Forças
Armadas, mas diretamente subordinada à Presidência da República. Um outro coloca
o setor alimentício sob controle do estado, que poderá decidir até quais produtos
serão enviados a cada região do país. Numa reedição tardia da fracassada economia
centralizada soviética, o presidente se dá o direito de decidir que alimento deve
ser produzido ou comercializado. O empresário que não quiser cooperar com o governo
se arrisca a cumprir pena de dez anos de prisão. | | |
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| 5. Como
o coronel conseguiu aprovar essas leis? Por que ainda estava em vigor
no país a Lei Habilitante, que permitiu ao presidente governar a Venezuela por
decreto durante um ano e meio. Desde que Chávez assumiu o poder, uma em cada três
leis foi aprovada dessa maneira, sem passar pelo crivo do Congresso. O texto completo
das 26 leis só foi divulgado dias depois da promulgação. | | |
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| 6. Por que
Chávez tem tanta pressa para que o novo referendo seja realizado? Com
o barril de petróleo, seu principal combustível político, a menos de 40 dólares,
o valor mais baixo em anos, Chávez quer ir às urnas antes que a economia venezuelana
entre em recessão. A exemplo de outros populistas históricos, há no arsenal do
presidente venezuelano dois recursos básicos: o nacionalismo sem vergonha e distribuição
assistencialista do que quer que seja - alimentos, remédios, gasolina subsidiada,
dinheiro em espécie. Para ocultar a inflação mais alta do continente, de 30% ao
ano, o governo subsidia alimentos importados. A Venezuela, apesar das férteis
terras, importa 80% do que come. O desequilíbrio é pago pela PDVSA, mas a estatal
já começa a sentir a crise - vários de seus fornecedores não recebem há meses. |
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| 7. Quais são
os argumentos do coronel para se manter no poder? Chávez insiste
que a sua proposta de instalação de um regime de "socialismo do século XXI" está
"apenas em fraldas" e, por isso, ele deve continuar na presidência depois de 2012.
Segundo ele, mudar de ginete ou capitão quando ainda não estão consolidadas as
etapas de maturação iniciais de um processo é sumamente arriscado. Além disso,
Chávez argumenta que, sem ele, haverá uma guerra civil na Venezuela. |
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| 8. Quais são
as ações da oposição para impedir a reeleição indefinida? A oposição
acusa Chávez de querer perpetuar-se no poder e de violar princípios constitucionais.
Os oposicionistas argumentam que a alteração constitucional ameaçaria a alternância
de poderes na Venezuela. Mas os adversários do presidente ainda não têm um líder
nacional que os aglutine e se apresente como alternativa a Chávez, cuja popularidade
permanece em torno de 60%. Na política venezuelana, a oposição pode muito pouco.
Os partidários de Chávez controlam a totalidade das cadeiras na Assembleia Nacional,
última guarida institucional dos não-alinhados ao presidente. O coronel qualifica
seus opositores como "colonialistas" e os acusa de representar "o contrário à
pátria". Em um claro aviso antidemocrático, Chávez disse à oposição que “não se
equivoque, pois essa é uma revolução pacífica, mas também armada”. |
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| 9. Chávez tem
o apoio de toda a população? Não. Um bom exemplo disso são os protestos
de estudantes universitários. Um influente movimento estudantil de oposição voltou
ao centro do cenário político venezuelano, mobilizando-se contra a proposta de
eliminar os limites à reeleição. A militância estudantil foi um dos principais
fatores que levaram à derrota no primeiro referendo. A disputa pela aprovação
ou não da reeleição no novo referendo está tensa e tem sido marcada por confrontos
entre jovens opositores e simpatizantes de Chávez nas ruas de Caracas. O próprio
Chávez já concluiu que seu pior inimigo são os universitários. Por isso, mandou
reprimir as marchas estudantis. À polícia ordena jogar “gás do bom” contra quem
desafiá-lo nas ruas. Reuniões nas universidades são atacadas impunemente por grupos
paramilitares pró-governo armados com lacrimogêneo. Alguns carros de dirigentes
são incendiados - sempre com cuidado, para não deixar mortos ou feridos graves.
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| 10. Chávez
poderá ocupar o papel de Fidel na América Latina? Faltam ao coronel
venezuelano a respeitabilidade e as circunstâncias históricas que deram transcendência
a Fidel Castro. Como disse a VEJA o historiador venezuelano Elias Piño, da Universidade
Andrés Bello, em Caracas, "em termos de ideias e de capacidade para elaborar um
conceito ideológico, Chávez não conseguiria suceder a Fidel". |
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| 11. O que
pensa o presidente Lula a respeito da reeleição indefinida? Lula
diz apoiar a proposta de reeleição ilimitada para presidente e outros cargos eletivos
na Venezuela, desde que a decisão seja do povo. Ele, no entanto, ressaltou que
essa ideia não deve ser aplicada ao Brasil e disse que quer eleger seu sucessor.
Para o presidente, não se deve comparar o projeto venezuelano com o Brasil, já
que cada país tem seu "próprio processo democrático". “No dia em que o povo não
quiser mais, ele não vai votar em Hugo Chávez, vai votar em outro e vai ser a
mesma Constituição que vai permitir que possa ter mais de um mandato, mais de
dois mandatos, mais de três. Da minha parte, tenho toda a compreensão de que o
povo venezuelano queira aprovar o referendo”, afirmou Lula. Segundo o presidente,
o Brasil ainda não está preparado para pensar em reeleição sem limites, pois tem
uma democracia recente. | | | | •
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