Recessão econômica
Depois
que Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e a zona
do euro (pela primeira vez desde sua criação)
anunciaram ter entrado em recessão, em meados
de novembro foi a vez da segunda maior economia
do mundo, o Japão, admitir que sua economia
retraiu. No mesmo barco estão a Espanha e
os Estados Unidos, que aguardam a confirmação
dos dados para entrar no grupo. Uma crise
que no início parecia isolada, restrita apenas
ao mercado imobiliário americano, se propagou.
Agora, os efeitos do abalo chegam à economia
real e interrompem o crescimento econômico.
Entenda o que é uma recessão e como ela afeta
o cotidiano das pessoas.
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1.
O que é uma recessão econômica?
O conceito de recessão é bastante complexo. Costuma-se
dizer que uma recessão instala-se quando é registrada
uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) durante
dois trimestres consecutivos. O PIB representa a
soma de todos os bens e serviços produzidos no país.
Portanto, a diminuição no valor dele indica que
a demanda decresceu na maioria dos mercados. Economistas,
no entanto, contestam o uso do PIB como medidor
de uma recessão. De acordo com Robson Gonçalves,
professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas
(FGV), recessão significa uma capacidade ociosa
generalizada. “É preciso comparar o crescimento
do PIB com o crescimento da capacidade produtiva
das empresas”, explica ele.
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2.
O que pode provocar uma recessão?
Existem diversos fatores capazes de provocar uma
recessão. De forma geral, é possível dizer que ela
acontece quando a maioria dos setores da economia
entra em declínio. “A perda de confiança dos agentes
econômicos leva a uma adiamento de decisões, tanto
de investimento, por parte das empresas, como da
compra de bens duráveis, por parte das famílias”,
afirma Gonçalves. Com isso, entra-se num ciclo em
que as pessoas deixam de gastar e as companhias
deixam de produzir.
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3.
Ela pode trazer algum benefício para a economia?
Alguns economistas defendem que as recessões fazem
parte de um ciclo econômico natural dos mercados,
caracterizado por altos e baixos. Em 1942, um dos
economistas mais importantes do século passado,
Joseph Schumpeter, escreveu em seu livro Capitalismo,
Socialismo e Democracia que as recessões são um
"mal necessário" nas sociedades capitalistas. A
idéia de que elas são necessárias ainda é discutida
nos dias atuais. Na opinião de certos analistas,
sempre depois de uma expansão, acontece a retração.
Para eles, a principal função da recessão é limpar
a “gordura” do sistema. Eles acreditam, que sem
os excessos, as economias ficam “limpas” para o
próximo crescimento. Outros economistas, porém,
contestam essa teoria, argumentando que nem sempre
um grande crescimento vem acompanhado de uma grande
perda. Para o professor Robson Gonçalves, a recessão
tem, de fato, um lado positivo. “Ela obriga as empresas
a corrigirem a ineficiência que surgiu durante a
fase de expansão”, argumentou.
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4.
Qual foi a última vez que o Brasil entrou em recessão?
O país já passou por diversos ciclos de recessão.
O mais longo ocorreu na década de 1980, quando ocorreu
a transição do regime militar para a democracia.
No governo do presidente José Sarney, os brasileiros
enfrentaram longos períodos de inflação e hiperinflação.
Ao mesmo tempo, crescia a dívida externa. Com o
passar dos anos, em vez da situação melhorar, ela
piorava, e os produtos ficavam ainda mais caros.
Durante essa fase, o Brasil chegou a ter três moedas
diferentes (cruzeiro, cruzado e cruzado novo). Além
disso, vários planos econômicos foram criados com
o intuito de remediar a crise. Durante a chamada
"década perdida", o cotidiano das pessoas e o funcionamento
do setor produtivo eram outros. O cenário só foi
melhorar mesmo cerca de dois anos depois da queda
do presidente Fernando Collor de Mello, com o início
do Plano Real.
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5.
Os EUA já estão em recessão? Quando ocorreu a última?
Oficialmente, os Estados Unidos ainda não anunciaram
o início da recessão. Porém, segundo pesquisa da
Associação Nacional para Economia de Negócios (Nabe,
na sigla em inglês), a economia americana enfrenta
uma recessão "prolongada" que se “estenderá para
além do primeiro trimestre do próximo ano e verá
aumentos adicionais na taxa de desemprego”. De acordo
com os resultados da pesquisa, 96% dos consultados
disseram que os EUA estão em recessão. Para Gonçalves,
o governo dos EUA ainda não admitiu a recessão por
uma questão estratégica. “Se você insiste em falar
da doença, o paciente piora", compara ele. "Não
assumir a crise é uma tentativa de corrigir a expectativa.
Todos sabem que o país está mal, então vamos falar
da saída da recessão.” A última vez que a economia
americana sofreu um grande abalo foi em 2001, depois
do ataque de 11 de setembro. Além da tragédia, havia
os efeitos do estouro da bolha tecnológica. Na ocasião,
os gastos dos consumidores tiveram a maior queda
em 15 anos e também houve um crescimento substancial
nos pedidos por seguro-desemprego. Só naquele ano,
1 milhão de trabalhadores foram demitidos. No total,
a economia dos Estados Unidos já sofreu onze recessões
desde o fim da II Guerra Mundial.
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6.
O que acontece quando um país está em recessão?
Há uma redução na geração de renda e um corte pesado
nas vagas do mercado de trabalho. Em alguns países,
os trabalhadores podem até não perder o seu emprego,
mas podem ter seus salários reduzidos. De acordo
com Gonçalves, depois da Grande Depressão, iniciada
com o Crash da Bolsa, em 1929, os economistas aprenderam
que o estado tem um papel fundamental na economia.
“O estado toma a frente no mercado, restaura a confiança
das empresas e ele próprio gera a demanda.” O professor
da FGV explicou que, entre as possíveis ações do
governo para combater uma recessão estão os cortes
de impostos e juros e o aumento dos gastos públicos.
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7.
Qual a diferença entre recessão e depressão?
“A depressão é caracterizada pela recessão somada
à deflação”, resume Gonçalves. Para ajudar na compreensão
da diferença entre as duas, existe uma frase antiga,
sempre reproduzida nessas situações: “Uma recessão
é quando o seu vizinho perde o emprego; já uma depressão
é quando você perde o seu”. Alguns especialistas
garantem que a depressão pode ser diagnosticada
quando o PIB do país declina mais de 10%. No entanto,
segundo Gonçalves, não é possível caracterizar uma
depressão com um único medidor. O professor da FGV
lembra que, depois da crise de 1929, nenhum período
da história econômica mundial chegou a ser classificado
dessa forma. “Nos anos 1990, o Japão chegou a ter
sinais de depressão, mas o governo conseguiu reverter
o quadro.”
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8.
Qual país sofreu a recessão mais duradoura?
Nos últimos 46 anos, a Alemanha foi o país que
mais permaneceu sob contração da atividade econômica.
Entre 1962 e 2007, ela ficou 144 meses em recessão.
Em segundo lugar estão o Japão e a Itália, com 99
meses cada. A terceira posição ficou para a Índia,
com 83 meses.
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9.
Qual órgão deve diagnosticar se o país está em recessão?
No Brasil, órgãos como o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), o Departamento Intersindical
de Estatísiticas e Estudos Sócio Econômicos (Dieese)
e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)
podem detectar uma recessão. Nos Estados Unidos,
existe um órgão cuja função é julgar quando o país
entra em declínio econômico: o Business Dating Committee,
do Bureau Nacional de Pesquisa Econômica (NBER).
Para isso, ele avalia cinco indicadores: emprego,
produção industrial, renda pessoal total, vendas
da indústria e PIB mensal. Na Alemanha, quem anuncia
a recessão é o Escritório Federal de Estatísticas.
A mesma função tem o Instituto Nacional de Estatística
e Estudos Econômicos (INSEE) na França, e a Agência
de Estatísticas Nacionais, na Grã-Bretanha.
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10.
Quais são as efeitos de uma recessão nos EUA para
o Brasil?
Segundo o professor Gonçalves, o principal canal
de contágio são os mercados externos. Com uma recessão
nos Estados Unidos, o mercado para as exportações
do Brasil fica menor. Ele lembra, porém, que o comércio
exterior responde por menos de 20% do PIB brasileiro.
Uma solução, segundo ele, seria buscar outros parceiros
comerciais, como a China, por exemplo. Outro problema,
que já vem tirando o sono dos empresários brasileiros,
é a escassez de crédito. Com menos liquidez na economia
mundial, é mais difícil conseguir capital, que também
fica mais caro. Além disso, dependendo dos índices
de alta do dólar, as importações podem ficar mais
caras e, como conseqüência, a inflação poderá aumentar.
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11.
Como uma recessão afeta o cotidiano das pessoas?
Com a confiança do consumidor reduzida e a incerteza
aumentando, as pessoas preferem poupar e pagar dívidas
a consumir. Além disso, elas sentem na pele a ameaça
do desemprego, adiam a troca do automóvel e cancelam
a viagem de férias. Segundo Gonçalves, não há outro
jeito: uma recessão “reduz o bem-estar material
das pessoas”, mesmo daquelas que permanecem com
seus empregos.
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