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Junho de 2009
Protestos políticos no Irã

AFP

Em trinta anos de estado islâmico, pouco ou quase nenhuma mudança foi sentida no regime teocrático do Irã. Contudo, as eleições para presidente realizadas em junho de 2009 detonaram uma onda de protestos no país, que provocaram choques entre grupos no seio da população e ao menos sete mortes. Os conflitos revelaram ainda uma grande cisão interna, entre simpatizantes de duas alas políticas. Desde então, a instabilidade política na terra dos aiatolás tem chamado a atenção de todo o mundo. Entenda o que está por trás desses fatos.

1. O que detonou os recentes choques internos no Irã?
2. Uma nova votação pode ser realizada devido à acusação de fraude?
3. Por que um assunto doméstico ganhou tanta importância?
4. Qual é o perfil de Mahmoud Ahmadinejad?
5. Quem é Mir Hossein Mousavi?
6. Quais as diferenças políticas entre Ahmadinejad e Mousavi?
7. Qual é o regime de governo do Irã?
8. O que faz o líder supremo?
9. O aiatolá tem mais poder do que o presidente?

1. O que detonou os recentes choques internos no Irã?

A disputa eleitoral polarizou-se severamente entre o presidente iraniano, o ultra-conservador Mahmoud Ahmadinejad, e seu principal oponente, o ex-primeiro-ministro Mir Hossei Mousavi, um conservador moderado. Ahmadinejad foi reeleito com 62,6% dos quase 40 milhões de votos, mas Mousavi, que obteve 33,8% da preferência do eleitorado, alegou fraude na apuração e pediu a realização de nova votação. A suspeita de fraude provocou protestos – concentrados em Teerã – dos simpatizantes do ex-primeiro-ministro, que rejeitaram o resultado das urnas, e dos eleitores de Ahmadinejad, que celebraram sua vitória. Mais de cem líderes de oposição foram detidos no dia em que foi anunciado o resultado da eleição, entre eles Mohammad Reza Khatami, irmão do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005). Todos foram liberados no mesmo dia.

 
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2. Uma nova votação pode ser realizada devido à acusação de fraude?

É improvável. A mais alta instância legislativa do Irã, o Conselho de Guardiões, se recusou a convocar um novo pleito. Contudo, o Conselho afirmou que fará uma recontagem dos votos.

 
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3. Por que um assunto doméstico ganhou tanta importância?

Em primeiro lugar, porque dezenas de milhares de iranianos saíram às ruas para protestar – contra e a favor do governo –, um acontecimento sem precedentes no país desde a Revolução Islâmica, de 1979. Houve repressão policial, choques e mortes. Não menos importante é a preocupação acerca da instabilidade no país, afinal o Irã é um ator de peso no cenário das relações internacionais. É o quarto maior produtor mundial de petróleo e gás e exerce grande influência sobre seus vizinhos do Oriente Médio. A eleição guardava ainda a expectativa de uma guinada na relação de Teerã com os EUA, que, sob o comando de Barack Obama, tentam restabelecer laços diplomáticos com os iranianos, interrompidos desde 1979 – Ahmadinejad recusa-se a fechar tal entendimento com Washington. Para analistas, a tentativa de reaproximação de Obama foi uma espécie de sinal que os reformistas aguardavam para forçar a modernização e a abertura do Irã, que vive um período de conservadorismo e recessão econômica.

 
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4. Qual é o perfil de Mahmoud Ahmadinejad?

Mahmoud Ahmadinejad, de 53 anos, foi governador da província de Ardabil, no noroeste do país, e prefeito da capital nacional, Teerã. Na juventude, foi um ativo membro da Revolução Islâmica e participou da invasão da embaixada dos EUA em Teerã, episódio que selou a interrupção das relações diplomáticas entre os países. Conservador linha-dura, é contrário a reformas políticas e institucionais internas. No plano externo, especializou-se em atacar os americanos e o estado de Israel. Sobre os judeus, aliás, tornou-se famoso por ofender a história e defender o indefensável: a esdrúxula versão de que o Holocausto – o assassinato de cerca de 6 milhões de judeus pelos nazistas na II Guerra Mundial – não aconteceu. A bravata lhe valeu a condenação por parte de nações de todo o mundo, incluindo líderes islâmicos. Outro desafio ao mundo foi o anúncio da criação de um programa nuclear, o que resultou em sanções econômicas impostas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

 
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5. Quem é Mir Hossein Mousavi?

Mir Hossein Mousavi, de 68 anos, foi primeiro-ministro do Irã entre 1981 e 1989, quando o presidente era o atual líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Admirado pela habilidade na condução da economia durante a guerra com o Iraque (1980-1990), é considerado de linha moderada. Ele é casado com Zahra Rahnavard, ex-reitora da Universidade de Alzahra e conselheira política do ex-presidente Mohammad Khatami. Além de político, Mousavi é pintor e arquiteto e atual presidente da Academia de Artes Iraniana.

 
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6. Quais as diferenças políticas entre Ahmadinejad e Mousavi?

Ahmadinejad, que enfrenta acusações de corrupção, é conhecido pela postura conservadora, contrária ao diálogo com os americanos, à qualquer abertura democrática e à concessão de direitos às mulheres. Seus eleitores são, em maioria, pessoas mais velhas, de classe baixa e menor grau de escolaridade.

Mousavi defende o programa nuclear do rival, visto como fonte alternativa energética para o país, e a manutenção do sistema de governo vigente – no qual clérigos mulçumanos xiitas fiscalizam os políticos eleitos. Mas as semelhanças param por aí. Mousavi é favorável a uma abertura no regime, com mais direitos democráticos e às mulheres e diálogo com os Estados Unidos. Seus eleitores são, em maioria, representantes da classe média, com maior grau de escolaridade.

 
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7. Qual é o regime de governo do Irã?

Desde a Revolução Islâmica de 1979 – em que religiosos xiitas, comunistas e liberais derrubaram a monarquia do xá Reza Pahlevi –, o Irã é regido por um sistema de governo teocrático. Com o fim da monarquia, o aiatolá Ruhollah Khomeini, que estava exilado na França, regressou ao país e assumiu o poder, tornando-se a autoridade máxima, o líder supremo, da República islâmica. Após a morte dele, em 1989, assumiu o posto o aiatolá Ali Khamenei, no cargo até hoje.

 
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8. O que faz o líder supremo?

Ele é responsável por indicar o chefe do Poder Judiciário, os comandantes das Forças Armadas, os diretores das rádio e TVs e seis dos 12 membros do Conselho dos Guardiões – que, entre outra funções, escolhe os candidatos que poderão concorrer às eleições. No pleito deste ano, mais de 4.000 iranianos tentaram o registro de candidato à Presidente da República, mas apenas quatro foram selecionados. O líder supremo também pode destituir o presidente, caso considere que este não esteja governando de acordo com a Constituição. Ele é escolhido para um cargo vitalício pela Assembléia dos Peritos, única instância que pode destituí-lo. Seu poder é assegurado pela Constituição, o que lhe garante direito de interferir em assuntos econômicos, religiosos e culturais iranianos.

 
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9. O aiatolá tem mais poder do que o presidentes?

Sim. No Irã, o presidente da República é eleito pelo povo para um mandato de quatro anos. Ele é o chefe do Poder Executivo e seu cargo é equivalente ao de chefe de governo. Ele é a segunda pessoa mais importante do país, abaixo somente do líder supremo.

 
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