Protestos políticos
no Irã
AFP
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Em trinta anos
de estado islâmico, pouco ou quase nenhuma
mudança foi sentida no regime teocrático do
Irã. Contudo, as eleições para presidente
realizadas em junho de 2009 detonaram uma
onda de protestos no país, que provocaram
choques entre grupos no seio da população
e ao menos sete mortes. Os conflitos revelaram
ainda uma grande cisão interna, entre simpatizantes
de duas alas políticas. Desde então, a instabilidade
política na terra dos aiatolás tem chamado
a atenção de todo o mundo. Entenda o que está
por trás desses fatos.
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1.
O que detonou os recentes choques internos no Irã?
A disputa eleitoral polarizou-se severamente entre
o presidente iraniano, o ultra-conservador Mahmoud
Ahmadinejad, e seu principal oponente, o ex-primeiro-ministro
Mir Hossei Mousavi, um conservador moderado. Ahmadinejad
foi reeleito com 62,6% dos quase 40 milhões
de votos, mas Mousavi, que obteve 33,8% da preferência
do eleitorado, alegou fraude na apuração
e pediu a realização de nova votação.
A suspeita de fraude provocou protestos – concentrados
em Teerã – dos simpatizantes do ex-primeiro-ministro,
que rejeitaram o resultado das urnas, e dos eleitores
de Ahmadinejad, que celebraram sua vitória.
Mais de cem líderes de oposição
foram detidos no dia em que foi anunciado o resultado
da eleição, entre eles Mohammad Reza
Khatami, irmão do ex-presidente Mohammad
Khatami (1997-2005). Todos foram liberados no mesmo
dia.
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2.
Uma nova votação pode ser realizada devido à acusação
de fraude?
É improvável. A mais alta instância
legislativa do Irã, o Conselho de Guardiões,
se recusou a convocar um novo pleito. Contudo, o
Conselho afirmou que fará uma recontagem
dos votos.
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3.
Por que um assunto doméstico ganhou tanta importância?
Em primeiro lugar, porque dezenas de milhares de
iranianos saíram às ruas para protestar
– contra e a favor do governo –, um acontecimento
sem precedentes no país desde a Revolução
Islâmica, de 1979. Houve repressão
policial, choques e mortes. Não menos importante
é a preocupação acerca da instabilidade
no país, afinal o Irã é um
ator de peso no cenário das relações
internacionais. É o quarto maior produtor
mundial de petróleo e gás e exerce
grande influência sobre seus vizinhos do Oriente
Médio. A eleição guardava ainda
a expectativa de uma guinada na relação
de Teerã com os EUA, que, sob o comando de
Barack Obama, tentam restabelecer laços diplomáticos
com os iranianos, interrompidos desde 1979 – Ahmadinejad
recusa-se a fechar tal entendimento com Washington.
Para analistas, a tentativa de reaproximação
de Obama foi uma espécie de sinal que os
reformistas aguardavam para forçar a modernização
e a abertura do Irã, que vive um período
de conservadorismo e recessão econômica.
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4.
Qual é o perfil de Mahmoud Ahmadinejad?
Mahmoud Ahmadinejad, de 53 anos, foi governador
da província de Ardabil, no noroeste do país,
e prefeito da capital nacional, Teerã. Na
juventude, foi um ativo membro da Revolução
Islâmica e participou da invasão da
embaixada dos EUA em Teerã, episódio
que selou a interrupção das relações
diplomáticas entre os países. Conservador
linha-dura, é contrário a reformas
políticas e institucionais internas. No plano
externo, especializou-se em atacar os americanos
e o estado de Israel. Sobre os judeus, aliás,
tornou-se famoso por ofender a história e
defender o indefensável: a esdrúxula
versão de que o Holocausto – o assassinato
de cerca de 6 milhões de judeus pelos nazistas
na II Guerra Mundial – não aconteceu. A bravata
lhe valeu a condenação por parte de
nações de todo o mundo, incluindo
líderes islâmicos. Outro desafio ao
mundo foi o anúncio da criação
de um programa nuclear, o que resultou em sanções
econômicas impostas pelo Conselho de Segurança
da Organização das Nações
Unidas (ONU).
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5.
Quem é Mir Hossein Mousavi?
Mir Hossein Mousavi, de 68 anos, foi primeiro-ministro
do Irã entre 1981 e 1989, quando o presidente
era o atual líder supremo do país,
o aiatolá Ali Khamenei. Admirado pela habilidade
na condução da economia durante a
guerra com o Iraque (1980-1990), é considerado
de linha moderada. Ele é casado com Zahra
Rahnavard, ex-reitora da Universidade de Alzahra
e conselheira política do ex-presidente Mohammad
Khatami. Além de político, Mousavi
é pintor e arquiteto e atual presidente da
Academia de Artes Iraniana.
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6.
Quais as diferenças políticas entre Ahmadinejad
e Mousavi?
Ahmadinejad, que enfrenta acusações
de corrupção, é conhecido pela
postura conservadora, contrária ao diálogo
com os americanos, à qualquer abertura democrática
e à concessão de direitos às
mulheres. Seus eleitores são, em maioria,
pessoas mais velhas, de classe baixa e menor grau
de escolaridade.
Mousavi defende o programa nuclear do rival, visto
como fonte alternativa energética para o
país, e a manutenção do sistema
de governo vigente – no qual clérigos mulçumanos
xiitas fiscalizam os políticos eleitos. Mas
as semelhanças param por aí. Mousavi
é favorável a uma abertura no regime,
com mais direitos democráticos e às
mulheres e diálogo com os Estados Unidos.
Seus eleitores são, em maioria, representantes
da classe média, com maior grau de escolaridade.
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7.
Qual é o regime de governo do Irã?
Desde a Revolução Islâmica
de 1979 – em que religiosos xiitas, comunistas e
liberais derrubaram a monarquia do xá Reza
Pahlevi –, o Irã é regido por um sistema
de governo teocrático. Com o fim da monarquia,
o aiatolá Ruhollah Khomeini, que estava exilado
na França, regressou ao país e assumiu
o poder, tornando-se a autoridade máxima,
o líder supremo, da República islâmica.
Após a morte dele, em 1989, assumiu o posto
o aiatolá Ali Khamenei, no cargo até
hoje.
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8.
O que faz o líder supremo?
Ele é responsável por indicar o chefe
do Poder Judiciário, os comandantes das Forças
Armadas, os diretores das rádio e TVs e
seis dos 12 membros do Conselho dos Guardiões
– que, entre outra funções, escolhe
os candidatos que poderão concorrer às
eleições. No pleito deste ano, mais
de 4.000 iranianos tentaram o registro de candidato
à Presidente da República, mas apenas
quatro foram selecionados. O líder supremo
também pode destituir o presidente, caso
considere que este não esteja governando
de acordo com a Constituição. Ele
é escolhido para um cargo vitalício
pela Assembléia dos Peritos, única
instância que pode destituí-lo. Seu
poder é assegurado pela Constituição,
o que lhe garante direito de interferir em assuntos
econômicos, religiosos e culturais iranianos.
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9.
O aiatolá tem mais poder do que o presidentes?
Sim. No Irã, o presidente da República
é eleito pelo povo para um mandato de quatro
anos. Ele é o chefe do Poder Executivo e
seu cargo é equivalente ao de chefe de governo.
Ele é a segunda pessoa mais importante do
país, abaixo somente do líder supremo.
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