Presidentes americanos
e o Brasil
 |
A posse de
Barack Obama deu início não só ao governo
do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
A cerimônia deu partida também a uma nova
fase nas relações entre a superpotência e
o mundo. Com o Brasil, esse diálogo é quase
sempre pacífico, mas poucas vezes profundo.
Entre os últimos moradores da Casa Branca,
o que mais se aproximou do país foi o democrata
Bill Clinton, fã do perfil intelectual do
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas
os distintos Luiz Inácio Lula da Silva, de
esquerda, e George W. Bush, de direita, também
se entenderam. Talvez pela dedicação quase
exclusiva dos EUA ao Oriente Médio, esse entendimento
não evoluiu para uma relação mais próxima
nem trouxe ganhos econômicos ao Brasil. Para
analisar os laços entre os dois países, VEJA.com
ouviu especialistas em diplomacia, política
e economia. Eles falaram das diferenças entre
republicanos e democratas, o que esperar da
era Obama e como ampliar as relações comerciais
com os americanos.
| |
 |
|
1.
Qual dos últimos presidentes americanos foi o mais
próximo do Brasil?
Apontar qual dos últimos moradores da Casa Branca
foi o mais generoso com a economia brasileira não
é tarefa fácil. Mas, de modo geral, o democrata
Bill Clinton (1993-2001) é apontado de forma mais
positiva entre os especialistas ouvidos por VEJA.com.
Clinton deu aval ao pacote de cerca de 40 bilhões
de dólares que o Fundo Monetário Internacional (FMI)
concedeu em 1998 ao Brasil, que então enfrentava
uma crise cambial, lembra Gunther Rudzit, professor
de política internacional do Ibmec São Paulo. Mario
Marconini, diretor de negociações internacionais
da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp)
e presidente do Conselho de Relações Internacionais
da Federação do Comércio do Estado de São Paulo
(Fecomércio), destaca outro ponto. "Clinton foi
importante politicamente, pois deu relevância estratégica
ao Brasil", afirma. "E, na área comercial, não bateu
de frente com o país." Clinton teve ainda destacada
uma terceira qualidade, benéfica não só para o Brasil.
Com um amplo programa de corte nos gastos públicos,
seu governo reduziu a dívida pública americana e
deu espaço para a expansão do setor privado. Ele
de fato cresceu, impulsionando a economia dos EUA
e, ao mesmo tempo, beneficiando as finanças do mundo
todo.
|
| | | • topo |
 |
 |
|
2.
Qual dos últimos presidentes americanos foi o menos
interessante para a economia brasileira?
A gestão de George W. Bush (2001-2009) talvez tenha
sido a menos interessante para o Brasil, já que
foi marcada por medidas protecionistas. Foi nesse
período que se estabeleceram os subsídios agrícolas
para os estados americanos. E foi em seu governo
que setores protecionistas como o de açúcar e o
têxtil obtiveram concessões - maneira de Bush obter,
no Congresso, a autoridade para negociar acordos
comerciais como Alca e Nafta. Mais: assim que assumiu,
George W. Bush definiu uma sobretaxa para os produtos
de aço importados pelos EUA. A medida gerou rusga
com o Brasil, mas acabou posta de lado após o 11
de Setembro. A partir daí, e das guerras com o Afeganistão
e o Iraque, Bush deslocou o foco para o Oriente
Médio. Uma das melhores coisas que fez pela economia
brasileira foi demonstrar apoio público ao nosso
etanol, ainda isso possa ser visto como apenas uma
estratégia para fazer sombra em Hugo Chávez.
|
| | | • topo |
 |
 |
|
3.
Como se deram os últimos ocupantes da Casa Branca
e do Palácio da Alvorada?
George H. W. Bush foi um presidente bastante neutro
em relação ao Brasil, com o qual não estabeleceu
nenhuma relação especial. Até porque seu foco estava
longe daqui, no Oriente Médio. No passado recente,
a maior aproximação se deu mesmo entre Bill Clinton
e FHC, a quem o marido de Hillary admirava pelo
lastro intelectual. Teria sido esse laço o que garantiu
o aval do então presidente americano ao socorro
dado ao Brasil pelo FMI em 1998, na opinião do professor
Rudzit, do Ibmec São Paulo. Em seguida, teve início
a era Lula e muitos temeram atritos entre o ex-metalúrgico
e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva e o republicano
e texano George W. Bush. Mas, para surpresa geral,
os dois se entenderam - ainda que não fosse um entendimento
capaz de gerar ganhos econômicos para o Brasil.
Para Rudzit, foi a canalização das atenções para
o Oriente Médio o que impediu que Bush aprofundasse
relações com Lula.
| | | | •
topo |  |
 |
|
4.
Qual era a relação entre os presidentes americanos
e brasileiros no regime militar (1964-1985)?
Muito se fala no apoio concedido pelos Estados
Unidos aos regimes militares latino-americanos,
mas a Casa Branca também incomodou os generais brasileiros.
Considerado um presidente fraco internamente, Jimmy
Carter (1977-1981) foi atuante no exterior, inclusive
em relação ao Brasil. "Carter foi o primeiro presidente
americano a falar de direitos humanos, numa época
em que vivíamos sob o governo dos militares", diz
Marconini, da Fiesp e da Fecomércio. Esse discurso
acabou causando um esfriamento nas relações entre
os dois países. De acordo com Rudzit, do Ibmec,
a pressão pela redemocratização provocou "um mal-estar
político". Mas, no campo econômico, não houve grandes
mudanças. Elas viriam com Ronald Reagan (1981-1989),
que assumiu o governo sob forte inflação e altas
taxas de desemprego. Para reverter a situação de
crise, Paul Volcker, então presidente do Federal
Reserve (Fed), o banco central dos EUA, jogou para
cima a taxa básica de juros americana, que chegou
a ultrapassar 20% em certos momentos. "Os bancos
privados americanos que emprestavam aos países latinos
também elevaram seus juros. Com isso, as dívidas
externas explodiram, e a América Latina inteira
entrou em crise", explica Rudzit. Além de contribuir
para a recessão brasileira, Reagan reclamaria do
país que abrisse seu mercado - o que só viria a
acontecer com Fernando Collor. Com a nova pressão
americana, agora no campo econômico, surgem também
novos atritos políticos.
|
| | | • topo |
 |
 |
|
5.
Houve semelhança entre os governos de George Bush
e George W. Bush?
Sim. De maneira geral, os dois se dedicaram mais
a campanhas militares no Oriente Médio do que a
fazer política com a América Latina. O primeiro
Bush liderou uma coalizão internacional contra Saddam
Hussein, que havia invadido o Kuwait e ameaçado
o mundo com uma enorme crise de petróleo. O segundo
derrubou Saddam. "Tanto o primeiro Bush como o segundo
tiveram uma postura de caubói. A política externa
deles foi um pouco nessa linha de 'eu posso, eu
aconteço'", analisa o vice-presidente de análises
e estudos da Associação Nacional dos Executivos
de Administração, Finanças e Contabilidade (Anefac),
Andrew Frank Storfer.
|
| | | • topo |
 |
 |
|
6.
Há diferença, no campo econômico, entre republicanos
e democratas?
Em teoria, republicanos são mais liberais que democratas.
Desse modo, o pendor ao protecionismo demonstrado
pelo segundo presidente Bush o deixaria distante
do tradicional perfil de seu partido - que seria
bem representado por Ronald Reagan e sua luta pela
abertura de mercados. Para muitos, porém, essa divisão
entre republicanos pró-mercado e democratas mais
reativos ao livre comércio já não faz sentido. "Hoje
em dia, não cabe esse maniqueísmo", diz Marconini,
da Fiesp e da Fecomércio.
| | |
| • topo |
 |
 |
|
7.
E Barack Obama, o que se pode esperar de sua relação
com o Brasil?
Já que, na prática, os perfis atribuídos a democratas
e republicanos nem sempre vingam, não dá para saber
ao certo o que o Brasil deve esperar da era Obama.
Seja como for, diz Marconini, é difícil que Obama
venha a defender o livre comércio como teoricamente
o faria um republicano, já que se elegeu com o apoio
dos sindicatos, dedicados a proteger empregos. No
entanto, diz o representante da Fiesp e da Fecomércio,
alguma boa novidade pode surgir no setor energético.
Ao menos, seria sensato se os EUA firmassem uma
aliança com o Brasil para fazer do etanol uma commodity
e criar um mercado mundial para ele. A medida seria
boa para os americanos, já que o etanol de milho
"não é sustentável nem do ponto de vista financeiro
nem do ponto de vista ambiental" e o milho tem papel
relevante na cadeia proteica dos EUA - tanto na
alimentação das pessoas como dos animais, servindo
de matéria-prima às rações. E seria ótima para o
Brasil, pois, com um risco menor de desabastecimento
desse mercado, haveria mais países interessados
em adotar o etanol como matriz energética.
| | |
| • topo |
 |
 |
|
8.
O que o Brasil e o governo Lula podem oferecer a
Obama?
Para Mario Marconini, o país tem bastante a oferecer
ao novo presidente dos Estados Unidos. Na área energética,
que muito interessa a Obama, tem a tecnologia dos
biocombustíveis. Na área social, também querida
do novo dirigente americano, tem programas de distribuição
de renda internacionalmente reconhecidos. E, no
que tange à política externa, tem papel de liderança
entre os países da América do Sul, interlocutores
dos EUA. "Obama tem uma visão de mundo multilateral,
e o Brasil certamente vai ter um lugar importante
nesse quadro."
| | | | •
topo |  |
 |
|
9.
Os Estados Unidos ainda representam um bom parceiro
comercial?
A situação já foi melhor. A participação dos EUA
na balança comercial brasileira vem caindo. Com
uma política externa Sul-Sul, voltada a outras economias
emergentes e à diversificação dos destinos das exportações,
Lula passou a firmar parcerias com países da América
Latina e da África, entre outros, e as relações
com os EUA passaram a um segundo plano. Nesse cenário,
o superávit brasileiro nas transações com os americanos
despencou. Em 2007, segundo a Fiesp, ele foi de
6,34 bilhões de dólares, valor que murchou para
1,79 bilhão de dólares no ano passado.
| | | | •
topo |  |
 |
|
10.
Há espaço para ampliar a relação comercial com os
americanos?
Sim. Mas não só de política americana se faz a
relação EUA-Brasil. Quanto ao que o país de Obama
pode oferecer ao Brasil, tudo depende da condução
que Lula e o próximo ocupante do Palácio da Alvorada
der à política externa. Na opinião de Frederico
Turolla, professor de economia da Escola Superior
de Propaganda e Marketing (ESPM), o Brasil entra
na era Obama com uma postura que não está aberta
aos eventuais benefícios da nova gestão democrata.
"O Brasil refocou a agenda, diversificando alvos
de exportação e desviando o olhar de um grande cliente,
os EUA", lamenta. "Deveríamos voltar a olhar para
esse cliente, que é a maior economia do mundo e
a mais propensa a adquirir bens de alto valor agregado."
|
| |
| • topo |
 |
 |
|
|
|