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Janeiro de 2009
Presidentes americanos
e o Brasil


Reuters

A posse de Barack Obama deu início não só ao governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. A cerimônia deu partida também a uma nova fase nas relações entre a superpotência e o mundo. Com o Brasil, esse diálogo é quase sempre pacífico, mas poucas vezes profundo. Entre os últimos moradores da Casa Branca, o que mais se aproximou do país foi o democrata Bill Clinton, fã do perfil intelectual do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas os distintos Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, e George W. Bush, de direita, também se entenderam. Talvez pela dedicação quase exclusiva dos EUA ao Oriente Médio, esse entendimento não evoluiu para uma relação mais próxima nem trouxe ganhos econômicos ao Brasil. Para analisar os laços entre os dois países, VEJA.com ouviu especialistas em diplomacia, política e economia. Eles falaram das diferenças entre republicanos e democratas, o que esperar da era Obama e como ampliar as relações comerciais com os americanos.

1. Qual dos últimos presidentes americanos foi o mais próximo do Brasil?
2. Qual dos últimos presidentes americanos foi o menos interessante para a economia brasileira?
3. Como se deram os últimos ocupantes da Casa Branca e do Palácio da Alvorada?
4. Qual era a relação entre os presidentes americanos e brasileiros no regime militar (1964-1985)?
5. Houve semelhança entre os governos de George Bush e George W. Bush?
6. Há diferença, no campo econômico, entre republicanos e democratas?
7. E Barack Obama, o que se pode esperar de sua relação com o Brasil?
8. O que o Brasil e o governo Lula podem oferecer a Obama?
9. Os Estados Unidos ainda representam um bom parceiro comercial?
10. Há espaço para ampliar a relação comercial com os americanos?

1. Qual dos últimos presidentes americanos foi o mais próximo do Brasil?

Apontar qual dos últimos moradores da Casa Branca foi o mais generoso com a economia brasileira não é tarefa fácil. Mas, de modo geral, o democrata Bill Clinton (1993-2001) é apontado de forma mais positiva entre os especialistas ouvidos por VEJA.com. Clinton deu aval ao pacote de cerca de 40 bilhões de dólares que o Fundo Monetário Internacional (FMI) concedeu em 1998 ao Brasil, que então enfrentava uma crise cambial, lembra Gunther Rudzit, professor de política internacional do Ibmec São Paulo. Mario Marconini, diretor de negociações internacionais da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e presidente do Conselho de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio), destaca outro ponto. "Clinton foi importante politicamente, pois deu relevância estratégica ao Brasil", afirma. "E, na área comercial, não bateu de frente com o país." Clinton teve ainda destacada uma terceira qualidade, benéfica não só para o Brasil. Com um amplo programa de corte nos gastos públicos, seu governo reduziu a dívida pública americana e deu espaço para a expansão do setor privado. Ele de fato cresceu, impulsionando a economia dos EUA e, ao mesmo tempo, beneficiando as finanças do mundo todo.

 
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2. Qual dos últimos presidentes americanos foi o menos interessante para a economia brasileira?

A gestão de George W. Bush (2001-2009) talvez tenha sido a menos interessante para o Brasil, já que foi marcada por medidas protecionistas. Foi nesse período que se estabeleceram os subsídios agrícolas para os estados americanos. E foi em seu governo que setores protecionistas como o de açúcar e o têxtil obtiveram concessões - maneira de Bush obter, no Congresso, a autoridade para negociar acordos comerciais como Alca e Nafta. Mais: assim que assumiu, George W. Bush definiu uma sobretaxa para os produtos de aço importados pelos EUA. A medida gerou rusga com o Brasil, mas acabou posta de lado após o 11 de Setembro. A partir daí, e das guerras com o Afeganistão e o Iraque, Bush deslocou o foco para o Oriente Médio. Uma das melhores coisas que fez pela economia brasileira foi demonstrar apoio público ao nosso etanol, ainda isso possa ser visto como apenas uma estratégia para fazer sombra em Hugo Chávez.

 
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3. Como se deram os últimos ocupantes da Casa Branca e do Palácio da Alvorada?

George H. W. Bush foi um presidente bastante neutro em relação ao Brasil, com o qual não estabeleceu nenhuma relação especial. Até porque seu foco estava longe daqui, no Oriente Médio. No passado recente, a maior aproximação se deu mesmo entre Bill Clinton e FHC, a quem o marido de Hillary admirava pelo lastro intelectual. Teria sido esse laço o que garantiu o aval do então presidente americano ao socorro dado ao Brasil pelo FMI em 1998, na opinião do professor Rudzit, do Ibmec São Paulo. Em seguida, teve início a era Lula e muitos temeram atritos entre o ex-metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva e o republicano e texano George W. Bush. Mas, para surpresa geral, os dois se entenderam - ainda que não fosse um entendimento capaz de gerar ganhos econômicos para o Brasil. Para Rudzit, foi a canalização das atenções para o Oriente Médio o que impediu que Bush aprofundasse relações com Lula.

 
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4. Qual era a relação entre os presidentes americanos e brasileiros no regime militar (1964-1985)?

Muito se fala no apoio concedido pelos Estados Unidos aos regimes militares latino-americanos, mas a Casa Branca também incomodou os generais brasileiros. Considerado um presidente fraco internamente, Jimmy Carter (1977-1981) foi atuante no exterior, inclusive em relação ao Brasil. "Carter foi o primeiro presidente americano a falar de direitos humanos, numa época em que vivíamos sob o governo dos militares", diz Marconini, da Fiesp e da Fecomércio. Esse discurso acabou causando um esfriamento nas relações entre os dois países. De acordo com Rudzit, do Ibmec, a pressão pela redemocratização provocou "um mal-estar político". Mas, no campo econômico, não houve grandes mudanças. Elas viriam com Ronald Reagan (1981-1989), que assumiu o governo sob forte inflação e altas taxas de desemprego. Para reverter a situação de crise, Paul Volcker, então presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, jogou para cima a taxa básica de juros americana, que chegou a ultrapassar 20% em certos momentos. "Os bancos privados americanos que emprestavam aos países latinos também elevaram seus juros. Com isso, as dívidas externas explodiram, e a América Latina inteira entrou em crise", explica Rudzit. Além de contribuir para a recessão brasileira, Reagan reclamaria do país que abrisse seu mercado - o que só viria a acontecer com Fernando Collor. Com a nova pressão americana, agora no campo econômico, surgem também novos atritos políticos.

 
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5. Houve semelhança entre os governos de George Bush e George W. Bush?

Sim. De maneira geral, os dois se dedicaram mais a campanhas militares no Oriente Médio do que a fazer política com a América Latina. O primeiro Bush liderou uma coalizão internacional contra Saddam Hussein, que havia invadido o Kuwait e ameaçado o mundo com uma enorme crise de petróleo. O segundo derrubou Saddam. "Tanto o primeiro Bush como o segundo tiveram uma postura de caubói. A política externa deles foi um pouco nessa linha de 'eu posso, eu aconteço'", analisa o vice-presidente de análises e estudos da Associação Nacional dos Executivos de Administração, Finanças e Contabilidade (Anefac), Andrew Frank Storfer.

 
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6. Há diferença, no campo econômico, entre republicanos e democratas?

Em teoria, republicanos são mais liberais que democratas. Desse modo, o pendor ao protecionismo demonstrado pelo segundo presidente Bush o deixaria distante do tradicional perfil de seu partido - que seria bem representado por Ronald Reagan e sua luta pela abertura de mercados. Para muitos, porém, essa divisão entre republicanos pró-mercado e democratas mais reativos ao livre comércio já não faz sentido. "Hoje em dia, não cabe esse maniqueísmo", diz Marconini, da Fiesp e da Fecomércio.

 
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7. E Barack Obama, o que se pode esperar de sua relação com o Brasil?

Já que, na prática, os perfis atribuídos a democratas e republicanos nem sempre vingam, não dá para saber ao certo o que o Brasil deve esperar da era Obama. Seja como for, diz Marconini, é difícil que Obama venha a defender o livre comércio como teoricamente o faria um republicano, já que se elegeu com o apoio dos sindicatos, dedicados a proteger empregos. No entanto, diz o representante da Fiesp e da Fecomércio, alguma boa novidade pode surgir no setor energético. Ao menos, seria sensato se os EUA firmassem uma aliança com o Brasil para fazer do etanol uma commodity e criar um mercado mundial para ele. A medida seria boa para os americanos, já que o etanol de milho "não é sustentável nem do ponto de vista financeiro nem do ponto de vista ambiental" e o milho tem papel relevante na cadeia proteica dos EUA - tanto na alimentação das pessoas como dos animais, servindo de matéria-prima às rações. E seria ótima para o Brasil, pois, com um risco menor de desabastecimento desse mercado, haveria mais países interessados em adotar o etanol como matriz energética.

 
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8. O que o Brasil e o governo Lula podem oferecer a Obama?

Para Mario Marconini, o país tem bastante a oferecer ao novo presidente dos Estados Unidos. Na área energética, que muito interessa a Obama, tem a tecnologia dos biocombustíveis. Na área social, também querida do novo dirigente americano, tem programas de distribuição de renda internacionalmente reconhecidos. E, no que tange à política externa, tem papel de liderança entre os países da América do Sul, interlocutores dos EUA. "Obama tem uma visão de mundo multilateral, e o Brasil certamente vai ter um lugar importante nesse quadro."

 
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9. Os Estados Unidos ainda representam um bom parceiro comercial?

A situação já foi melhor. A participação dos EUA na balança comercial brasileira vem caindo. Com uma política externa Sul-Sul, voltada a outras economias emergentes e à diversificação dos destinos das exportações, Lula passou a firmar parcerias com países da América Latina e da África, entre outros, e as relações com os EUA passaram a um segundo plano. Nesse cenário, o superávit brasileiro nas transações com os americanos despencou. Em 2007, segundo a Fiesp, ele foi de 6,34 bilhões de dólares, valor que murchou para 1,79 bilhão de dólares no ano passado.

 
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10. Há espaço para ampliar a relação comercial com os americanos?

Sim. Mas não só de política americana se faz a relação EUA-Brasil. Quanto ao que o país de Obama pode oferecer ao Brasil, tudo depende da condução que Lula e o próximo ocupante do Palácio da Alvorada der à política externa. Na opinião de Frederico Turolla, professor de economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o Brasil entra na era Obama com uma postura que não está aberta aos eventuais benefícios da nova gestão democrata. "O Brasil refocou a agenda, diversificando alvos de exportação e desviando o olhar de um grande cliente, os EUA", lamenta. "Deveríamos voltar a olhar para esse cliente, que é a maior economia do mundo e a mais propensa a adquirir bens de alto valor agregado."

 
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