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Setembro de 2007
Protestos em Mianmar



Os protestos pacíficos de um grupo de monges budistas em um pequeno país asiático estão atraindo a atenção do mundo todo. Em suas marchas diárias, os monges defendem a liberdade e a democracia – desafiando os líderes de um violento regime militar que governa o país há duas décadas. A seguir, as origens – e as conseqüências – do movimento em Mianmar.


1. Onde fica Mianmar e qual é a história recente do país?
2. O que motivou a atual onda de protestos populares?
3. Por que os monges budistas se envolveram nos protestos?
4. O que ocorreu depois que os monges entraram no movimento?
5. Por que a participação dos monges é tão significativa?
6. Como a junta reagiu aos protestos dos monges budistas?
7. Com a repressão, os monges e civis desistiram dos protestos?
8. Qual é a perspectiva para o país em meio às manifestações?
9. O que aconteceu na última vez que a junta militar foi desafiada?
10. Há risco de repetição da tragédia ocorrida duas décadas atrás?

1. Onde fica Mianmar e qual é a história recente do país?

Localizada no Sudeste Asiático, a antiga Birmânia é banhada pelo Oceano Índico, no Golfo de Bengala. Faz fronteira com Bangladesh, Índia, China, Laos e Tailândia. Ex-colônia britânica (1824-1886), foi província da Índia até a independência, em 1948. Durante 26 anos, entre 1962 e 1988, Mianmar viveu sob um regime comunista liderado pelo general Ne Win. Em 1988, uma junta militar tomou o poder – e ainda hoje governa com mão-de-ferro. A oposição ganhou as eleições realizadas em 1990, mas a junta não entregou o poder – ao contrário, a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1991, está há anos confinada em prisão domiciliar. O país, que era chamado de Birmânia antes do golpe de 1988, é dividido por grupos étnicos e complicado por persistentes movimentos guerrilheiros. Outro grave problema é o tráfico de drogas, principalmente ópio.

 
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2. O que motivou a atual onda de protestos populares?

Em agosto, a junta militar decidiu dobrar o preço da gasolina e do diesel e quintuplicar o preço do gás usado nos ônibus públicos. Todas as tarifas de transporte dispararam – e o preço dos alimentos também aumentou. No dia 19 daquele mês, cerca de 400 pessoas realizaram a primeira manifestação pública contra os militares em vários anos – dezenas de ativistas foram detidos. Os protestos, contudo, se espalharam pelo país, em cidades como Rangoon e Sittwe.

 
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3. Por que os monges budistas se envolveram nos protestos?

O uso da força pelas tropas do governo para acabar com um protesto pacífico na cidade de Pakokku, no início de setembro, fez com que os monges aderissem de vez ao movimento. Naquele dia, pelo menos três monges ficaram feridos. No dia seguinte, os budistas deram um prazo para que a junta militar pedisse desculpas pela repressão violenta ao protesto. Quando o prazo terminou, em 17 de setembro, os monges passaram a realizar grandes manifestações pacíficas nas ruas. Além disso, deixaram de prestar qualquer tipo de serviço ou assistência religiosa aos militares e suas famílias.

 
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4. O que ocorreu depois que os monges entraram no movimento?

Os religiosos budistas passaram a promover protestos diários nos principais templos do país. As manifestações eram pacíficas e buscavam fragilizar a junta militar. Com o passar dos dias, os protestos ganharam ainda mais força e atraíram a atenção da população civil, que passou a marchar ao lado dos monges e a aplaudir o movimento. Os monges decidiram declarar suas intenções no dia 21 de setembro: prometeram continuar realizando protestos diários até que a junta militar que governa o país deixe o poder. Os líderes da Aliança de Monges Budistas de Mianmar dizem que a junta é "inimiga do povo" e querem que "a ditadura militar seja varrida do país".

 
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5. Por que a participação dos monges é tão significativa?

Porque o país abriga centenas de milhares deles em seus monastérios, e porque os monges budistas são figuras muito reverenciadas pela população de Mianmar. Os monges já têm grande histórico de participação nos processos políticos do país, e a realização das marcas pró-democracia são o maior desafio enfrentado pela junta desde o golpe de 1988. Os especialistas acreditam que uma repressão violenta contra o movimento poderia dar início a uma grande revolta nacional contra o governo militar.

 
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6. Como a junta reagiu aos protestos dos monges budistas?

Nos primeiros dias de manifestações, não houve qualquer tipo de interferência das forças de segurança, que acompanharam os protestos à distância. Em 24 de setembro, porém, os líderes militares avisaram que estavam prontos para "entrar em ação" contra os manifestantes. Na madrugada do dia 25, um toque de recolher foi anunciado e as forças de segurança se mobilizaram em Rangoon. Em 26 de setembro, começou a repressão violenta aos protestos. A polícia usou gás lacrimogêneo e bastões para tentar impedir a manifestação dos monges. Os civis também entraram em confronto com os policiais.

 
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7. Com a repressão, os monges e civis desistiram dos protestos?

Não. Pelo contrário: tanto os budistas como os ativistas civis desafiaram abertamente as advertências do governo militar e insistiram nas manifestações. As tropas oficiais elevaram a brutalidade de suas ações e, no dia 28 de setembro, a imprensa estatal de Mianmar anunciou que pelo menos nove pessoas já haviam morrido nos confrontos. Testemunhas afirmam que os soldados e policiais invadiram monastérios, quebraram portas e janelas, espancaram monges e prenderam milhares deles. Os monges pediram que os civis se afastassem e deixassem os protestos para eles. Não adiantou: os civis insistiram em participar.

 
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8.Qual é a perspectiva para o país em meio às manifestações?

Poucos acreditam que o pedido de desculpas do governo – o motivo inicial dos protestos – seja suficiente para conter as manifestações. Os especialistas da região dizem que a onda de protestos agora reivindica principalmente uma mudança no governo. Uma das marchas dos monges passou pela casa da líder oposicionista Aung San Suu Kyi, símbolo da luta pela democratização do país. Integrantes do partido de oposição à junta, a Liga Nacional pela Democracia, também estariam participando dos protestos – no início, estavam afastados.

 
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9. O que aconteceu na última vez que a junta militar foi desafiada?

Em agosto de 1988, a decisão do governo de desvalorizar a moeda local provocou um grande levante popular. A medida fez com que as economias das pessoas sumissem do dia para a noite. Naquela época, os protestos começaram entre os estudantes e se espalharam entre os monges e o resto da população civil. Em 8 de agosto de 1988, centenas de milhares de pessoas foram às ruas para exigir a queda do governo. A reação brutal das tropas oficiais provocou cerca de 3.000 mortes e destruiu o movimento de oposição em Mianmar.

 
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10. Há risco de repetição da tragédia ocorrida duas décadas atrás?

Para muitos analistas, sim, pois a junta militar não estaria disposta a permitir as manifestações da oposição – o que representaria um grande risco à manutenção de seu poder. Os países vizinhos e as grandes potências, porém, tentam impedir que a escalada de conflitos continue. O governo da China, por exemplo, pede moderação, calma e estabilidade em Mianmar. Mas o governo dos Estados Unidos – através do presidente George W. Bush, que falou sobre a luta pela democratização de Mianmar na abertura da Assembléia Geral da ONU – estaria estimulando o movimento para acabar com o brutal regime militar do país.

 
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