| Março de 2007 Luta
sectária no Iraque Há pouco mais de um ano,
um atentado terrorista mudava a história do Iraque. Ao contrário
das explosões que acontecem quase todos os dias no país, essa não
matou nem feriu ninguém. Deu início, contudo, a uma violenta disputa
entre os principais grupos religiosos do país - que agora está mergulhado
no que muitos dizem ser uma verdadeira guerra civil. O brutal confronto entre
xiitas e sunitas tem solução? Entenda o assunto:
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1. Qual é a
diferença entre muçulmanos xiitas e sunitas? Xiitas e sunitas integram
os dois principais grupos do Islã. A divisão entre eles surgiu no ano de 632,
logo depois da morte de Maomé, e tem origem na disputa pelo título de "califa",
ou líder máximo da nação muçulmana. Os seguidores se dividiram entre o primo de
Maomé, Ali ibn Abi Talib, e um amigo do profeta, Abu Bakr - que acabou se tornando
o califa, por ter apoio da maioria. Anos depois, Ali ainda se tornaria o califa,
antes de ser assassinado perto de Kufa, no atual Iraque, em 661. A nova disputa
pela sucessão marcou a divisão formal entre os grupos. | | |
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2. Qual
foi o primeiro episódio de violência entre as facções? Os xiitas
(palavra surgida do termo shi'at Ali, ou "seguidores de Ali"), defendiam que o
filho do califa morto, Hussein, assumisse. Os sunitas (termo proveniente de sunnah,
"tradição", referência ao chamado "caminho do profeta") defendiam a posse de Mu'awiyah,
então governador da Síria. Os grupos se enfrentaram numa batalha ocorrida perto
da atual cidade iraquiana de Karbala. Em 10 de outubro de 680, Hussein foi decapitado
pelos rivais. Sua morte, porém, não acabou com o movimento xiita. Pelo contrário:
seu martírio o transformou num símbolo de resistência aos opressores, atraindo
mais seguidores ao grupo. | | | | •
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| 3. Quem
são os sunitas e xiitas hoje? Os sunitas se consideram o ramo
ortodoxo do Islã. Formam o grupo majoritário: entre 85% e 90% dos
muçulmanos do mundo são sunitas. Eles veneram todos os profetas
mencionados no Corão, mas Maomé é sempre a figura central.
Já os xiitas somam cerca de 170 milhões de seguidores e são
maioria no Irã, Iraque, Bahrein e Iêmen. Têm grandes comunidades
também no Afeganistão, Índia, Paquistão, Azerbaijão,
Índia, Kuwait, Líbano, Catar, Síria, Turquia, Arábia
Saudita e Emirados Árabes Unidos. Sua fé tem um forte elemento messiânico
e seus clérigos praticam uma interpretação independente e
mutável dos textos islâmicos. | | |
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| 4. No
que os xiitas e sunitas são iguais? No que diferem? Além
da crença no mesmo deus, sunitas e xiitas compartilham vários elementos
comuns, como vestuário e culinária. As diferenças, porém,
são numerosas, e variam de região para região. Os xiitas,
por exemplo, têm tradição de independência de seus líderes
religiosos em relação às autoridades políticas. Já
os sunitas submetem suas lideranças e escolas de religião ao controle
estatal. No Iraque, os dois grupos diferem em vários aspectos do cotidiano.
Suas mesquitas têm características distintas, assim como suas orações.
Decorações nas casas e até adesivos colados nos carros diferenciam
fiéis dos dois grupos. | | | | •
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| 5. Qual
é a origem da atual disputa entre as facções no Iraque?
A luta sectária iraquiana tem raízes muito profundas e antigas.
A divisão entre os grupos é alimentada por séculos de desigualdade
social, política e econômica, pela dura repressão contra os
rivais, por numerosos casos de violência. Mas o quadro caótico do
Iraque no pós-guerra foi perfeito para detonar a guerra. Há o forte
desejo de vingar os crimes do tirano Saddam Hussein, um sunita; os freqüentes
atentados terroristas praticados pelos seguidores do ex-ditador; as retaliações
violentas dos integrantes da milícia xiita do clérigo radical Moqtada
Al Sadr; a interferência dos vizinhos xiitas do Irã. |
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| 6. Xiitas
e sunitas estão em conflito desde o início da guerra? Não.
Apesar das divisões e rivalidades, o país tinha enormes comunidades
mistas, onde sunitas e xiitas conviviam de forma pacífica. Os radicais
de ambos os lados já se enfrentavam, mas a população em geral
não participava dessa guerra sectária. Um grande exemplo disso foi
a tragédia da morte dos fiéis xiitas numa peregrinação
em 31 de agosto de 2005, em Bagdá. Centenas deles caíram ou pularam
no riuo Tigre depois de uma grande confusão perto de uma mesquita. Quase
1.000 peregrinos morreram, mas os sunitas que moravam às margens do rio
arriscaram suas vidas para salvar os outros fiéis. | | |
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| 7. Qual
foi o grande estopim do conflito? O atentado contra a mesquita xiita
de Al Askari, em Samarra, em 22 de fevereiro de 2006. A explosão, provocada
por terroristas sunitas ligados à rede Al Qaeda, não feriu nem matou
ninguém. Mas a cúpula dourada do templo, um dos locais mais sagrados
para os xiitas em todo o mundo, foi destruída. Nos dias seguintes ao ataque,
várias mesquitas sunitas foram atacadas e centenas de corpos foram encontrados
nas ruas. Os tiroteios e atentados entre os grupos tornaram-se freqüentes.
Líderes políticos e religiosos de ambos os grupos defenderam a reconciliação
entre xiitas e sunitas, mas isso nunca ocorreu. | | |
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| 8. O
que aconteceu desde então? A escalada de ódio entre
os grupos continuou. Um ano depois do atentado, o número de mesquitas sunitas
atacadas pelos xiitas chegava a 168. Dez líderes religiosos foram mortos
e quinze foram seqüestrados. Esquadrões de extermínio mataram
várias centenas de pessoas - tornou-se comum a polícia encontrar
pilhas de cadáveres nos bairros sunitas e xiitas. Para muitos especialistas,
a situação constitui um quadro de guerra civil - o que os americanos
negam. Apesar das promessas dos líderes iraquianos, a mesquita de Samarra
ainda não foi reconstruída. | | |
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| 9. O
que está em jogo na luta sectária no país? A
divisão dos grupos pode ser religiosa, mas o objetivo final é essencialmente
político. Tanto xiitas como sunitas tentam conquistar o poder no pós-guerra
iraquiano - para o primeiro grupo, a luta é por controlar o país
e vingar as perseguições do regime de Saddam Hussein; para a segunda
facção, a meta é retomar o controle e impedir que a ocupação
americana reduza a influência sunita. O conflito também pode repercutir
nos outros países do Oriente Médio. Isso explica as tentativas do
Irã, um regime radical xiita, de interferir no conflito e tentar reproduzir
a revolução de 1979 no país vizinho. | | |
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| 10.
Há perspectiva de resolução do conflito iraquiano? Não,
pelo menos por enquanto. A brutalidade do choque sectário contaminou não
só os radicais de ambos os lados, mas também as pessoas comuns -
vítimas, parentes e testemunhas das carnificinas diárias ocorridas
no país. Além disso, a rivalidade cada vez mais acirrada se reflete
também nas autoridades xiitas e sunitas que fazem parte do governo e do
congresso. A relação entre as duas comunidades mudou completamente,
e poucos acreditam que esse quadro mudará nos próximos anos, mesmo
que os americanos consigam reduzir a violência e avançar a reconstrução. |
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| 11.
Como é a relação entre os grupos nos outros países? Em
algumas nações muçulmanas, os xiitas e sunitas vivem totalmente
segregados - em muitos locais não há casamentos entre seguidores
dos dois grupos, como ocorria freqüentemente até pouco tempo atrás
no Iraque. Em muitos países com grandes comunidades xiitas, esse grupo
forma a população mais pobre, e se considera a parcela mais oprimida
e discriminada da sociedade. Em algumas nações com maioria sunita
conservadora, o ódio aos xiitas é defendido abertamente. O Paquistão
tem um longo histórico de confronto entre os grupos. No Líbano a
convivência também é complicada, em função das
atividades do grupo radical xiita Hezbollah. | | |
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