Lixo espacial
A colisão entre
um satélite russo e outro americano em meados
de fevereiro reacendeu o debate sobre os riscos
do acúmulo de lixo espacial para a humanidade.
Desde o lançamento do Sputnik, o primeiro
objeto a entrar em órbita, em 1957, a evolução
tecnológica permitiu que naves, foguetes e
outras centenas de satélites explorassem o espaço
tranquilamente. Após perderem a utilidade,
porém, esses objetos permaneceram no mesmo
local e passaram do status de exploradores
para o de poluidores espaciais. Atualmente,
cerca de 17.000 destroços com mais de 10 centímetros
giram em torno do Planeta Terra, provocando
colisões e danificando naves (na imagem acima, uma montagem feita em computador mostra o acúmulo do lixo ao redor do planeta). Saiba as consequências
disso e quais são as possíveis soluções para
a realização de uma “faxina no espaço”.
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1.
O que é lixo espacial?
O lixo espacial é composto detritos de naves, combustíveis,
satélites desativados, lascas de tinta, combustível,
pedaços de mantas térmicas e foguetes, objetos metálicos
e até mesmo ferramentas perdidas por astronautas
durante as suas explorações espaciais. “O que existe é
uma grande nuvem de objetos dos mais variados tamanhos e pesos,
desde um grama até toneladas”, explicou Petrônio
Noronha de Souza, chefe do laboratório de Integração
e Testes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe).
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2.
Quando surgiu? Como está a situação atualmente?
O grande precursor do acúmulo de detritos no espaço
foi o Sputnik, o primeiro satélite artificial da
Terra, lançado em 1957 pela antiga União Soviética.
Hoje em dia, com a evolução tecnológica, há cerca
de 800 satélites ativos em órbita. Enquanto isso,
segundo o chefe do laboratório do Inpe, a órbita
se tornou um “vasto lixão espacial”. De acordo com
dados divulgados em 2008 pela Nasa, a agência espacial
americana, foram contabilizados no espaço aproximadamente
17.000 destroços acima de 10 centímetros, 200.000
objetos com tamanho entre 1 e 10 centímetros e dezenas
de milhões de partículas menores que 1 centímetro.
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3.
Então a evolução tecnológica só serviu para “poluir”
o espaço?
Não necessariamente. Para Souza, a contrapartida
da sujeira produzida pela evolução da tecnologia
foi o benefício que ela trouxe para sociedade. “Não
podemos dizer que tudo é lixo e apenas nos causa
mal. Tudo que está lá sempre teve um propósito,
nada foi colocado só para poluir. O lixo acumulado
é um preço que se paga em função de um beneficio
adquirido”, lembra ele.
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4.
O que acontece com os detritos que ficam no espaço
e ninguém retira?
Nem tudo o que foi colocado no espaço permanece em
órbita. Souza explicou que os detritos vão paulatinamente
perdendo altitude e, mais cedo ou mais tarde, caem
na Terra. Segundo o chefe do laboratório do Inpe,
detritos que estão em altitudes baixas caem mais
rápido, em meses. Já os mais altos permanecem por
décadas. “Quando um satélite é lançado, ele permanece
lá por meses ou anos e, ao final da vida útil, é
simplesmente desligado. Ao ser desligado, o satélite
deixa de ser usado e se transforma em lixo.
É como se alguém abandonasse um carro e o deixasse ali.
Porém, é viável pegar um carro velho e levar para
o pátio. E no caso do satélite não existe um pátio”,
compara Souza.
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5.
É possível ser atingido por um pedaço de satélite,
por exemplo?
Essa possibilidade existe, mas a chance de ser atingido é reduzidíssima. Desde o início da
corrida espacial, foram inúmeros os registros de
quedas de detritos em diversas localidades, como
os Estados Unidos, a Austrália e a África. Conforme Souza, porém, muitas vezes o lixo acaba queimando
antes de cair na Terra. Quando consegue atravessar
a atmosfera, o lixo espacial ainda enfrenta a probabilidade
de cair no mar, já que os oceanos ocupam 75% da
Terra. “Nunca vai acontecer uma tempestade de lixo
espacial, a física não permite isso. É ficção científica”,
esclarece o especialista.
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6.
Na pior das hipóteses, quais são os riscos do acúmulo
de lixo espacial?
O cenário mais remoto, porém fisicamente demonstrável,
é a Síndrome de Kessler. A hipótese, apresentada
por um físico da Nasa, sustenta que haverá um momento
em que o espaço terá tantos detritos que será impossível
utilizá-lo para as necessidades da humanidade. Isso
porque, quando dois objetos se chocam, eles geram
mais fragmentos, multiplicando assim o número de
elementos em órbita. “Isso lembra uma reação em
cadeia, em que choques vão gerando choques e mais
choques, como se quase tudo que estivesse em orbita
criaria um cinturão e inviabilizaria completamente
o uso do espaço”, diz Souza.
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7.
Na prática, como os detritos espaciais poderiam
afetar a vida do homem?
Para a saúde do planeta Terra, o lixo espacial
não tem a menor importância, já que representa uma
quantidade de massa insignificante, segundo explicou
o chefe do laboratório do Inpe. A grande afetada,
caso o espaço fosse inutilizado, seria a sociedade.
Os satélites que atualmente estão em órbita, por
exemplo, são responsáveis por transmitir dados,
sinais de televisão, rádio e telefone, sem contar
os equipamentos que observam a Terra, fornecem informações
sobre mudanças climáticas, podem antecipar fenômenos
naturais e fazer o mapeamento de áreas. “O grande
problema do lixo espacial está lá em cima: é a probabilidade
desses fragmentos danificarem equipamentos necessários
para o homem”, explicou o especialista brasileiro.
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8.
É possível fazer uma “faxina espacial”?
“Limpar o espaço não é como limpar um terreno baldio.
Não existe tecnologia para remover esses objetos
em órbita, porque a limpeza não é viável”, diz
Petrônio Noronha de Souza. Ele explica que a tecnologia
não existe de fato - há apenas algumas idéias. A concretização desses métodos,
contudo, exige um gasto tão astronômico que a viabilidade
técnica acaba sendo questionada.
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9.
Quais métodos já foram apresentados?
A seguir, algumas das formas já propostas para tentar tirar o lixo do espaço:
Redes: Sistema de redes gigantes, que formaria
um cesto capaz de capturar os detritos e jogá-los
mais para baixo.
Lasers: Instalar canhões de laser em alguns
pontos estratégicos e disparar contra o lixo, para
desviar sua órbita para mais perto do planeta. Com
isso, o lixo queimaria até desaparecer.
Fios: Cabos condutores de cobre poderiam
ser acoplados a satélites desativados para que eles
pudessem ser atraídos pelo campo magnético da Terra.
Espuma: Um painel de espuma seria colocado
na rota dos detritos. Assim que os objetos passassem
por ele, teriam sua velocidade reduzida, caindo
de volta no planeta.
Braço: Uma espécie de nave não-tripulada,
guiada por radares e câmeras, seria equipada
com braços robóticos para coletar os detritos.
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10.
Há alguma alternativa para evitar que os satélites
que estão em órbita não se tornem lixo espacial?
Sim. O chefe do laboratório do Inpe explica que,
para evitar que as centenas de satélites em atividade
se transformem em lixo espacial ao fim de suas atividades,
é preciso programá-los para que eles sigam em direção
às chamadas órbitas-cemitério. Assim, os satélites ficariam
em lugares bem distantes da Terra, sem oferecer
riscos de colisões. De acordo com a Nasa, a cada
ano, cerca de 200 pedaços de lixo espacial com mais
de 10 centímetros entram no espaço.
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11.
Por que o uso das órbitas-cemitério não é tão comum?
Muitas vezes isso não ocorre por razões financeiras.
De acordo com Souza, um satélite é projetado para
permanecer em órbita por cerca de quatro anos. Retirá-lo
de lá antes de se auto-desligar para movê-lo em
direção a outro lugar significa interromper um trabalho
que custa caro. Se a empresa demora muito, acaba
ficando tarde demais. Souza explica que, ultimamente,
as operadoras de telecomunicações, que possuem posições
orbitais muito bem determinadas, têm se interessado
em alterar a rota para as órbitas-cemitério. Isso
ocorre porque, se o satélite continuar no mesmo
local, pode vir a atrapalhar a instalação de um
novo.
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12.
As agências espaciais se preocupam com esse tema?
A maioria das organizações possui um núcleo para
tratar de assuntos relacionados ao lixo espacial.
Em 1986, a ESA, agência espacial europeia, criou
um grupo para analisar e estudar os detritos no
espaço. Neste ano, a ESA investiu 64 milhões de
dólares em um programa chamado Conscientização da
Situação Espacial. Já a Nasa criou, em 1997, o
Centro de Estudos de Órbita e Re-entrada de Destroços.
Além dessas, há também a Inter-Agency Space Debris
Coordination Committee (IADC), que se propõe a ser
um órgão internacional que coordena atividades relacionadas
a assuntos ligados ao lixo espacial. O IADC agrega
agências espaciais de países como Alemanha, Índia,
China e Japão. As organizações costumam recomendar
práticas ideais, mas que dificilmente são adotadas,
já que não são imposições legais. “As organizações
não têm força de lei. Somente fazem sugestões que
as nações adotam ou não”, explica
Souza.
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13.
O Brasil também tem sua parte de responsabilidade
na “poluição do espaço”?
Segundo Souza, o Brasil possui dois satélites de
coleta de dados e mais três satélites em conjunto
com a China. “Nenhum desses cinco dispõe de um sistema
para que seja feita sua remoção em órbita. Por isso,
o Brasil não pode se eximir.”
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