Linguagem de
internet e celular
Um estudo
realizado no ano passado por um professor universitário na
Austrália revelou que os jovens, se têm facilidade
para escrever mensagens de maneira abreviada,
podem não ter tanta habilidade assim para
lê-las. Quase metade dos 55 estudantes envolvidos
demorou duas vezes mais para ler do que para
escrever mensagens do tipo “Vc q tc?”. Por
que então a linguagem simplificada virou praxe
entre quem usa a internet e costuma mandar mensagens de texto pelo telefone celular? A professora Maria Teresa
de Assunção Freitas, da Universidade Federal
de Juiz de Fora (UFJF), sugere algumas possibilidades.
Ela é autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes
na Internet e na Escola.
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1.
Por que as pessoas abreviam a linguagem na web?
Para a professora Maria Teresa de Assunção Freitas,
são dois os principais motivos da abreviação de
palavras: o primeiro, a facilidade de se escrever
de modo simplificado, e o segundo, a pressa. Esta,
por sua vez, está ligada a outras duas razões: a
economia (mandar uma mensagem maior pelo celular pode custar mais) e o desejo de reproduzir virtualmente
o ritmo de uma conversa oral. “É para acelerar o
bate-papo, que na internet, em chats e programas
de mensagem instantânea, acontece em tempo real”,
explica a especialista. “No celular, há o agravante do teclado, que
é menor, e do preço, que é maior.” Uma terceira
causa seria o desejo do adolescente de pertencer
a um grupo: ele pode adaptar a sua escrita à linguagem
da comunidade de que quer fazer parte - com o uso dos termos adaptados, ele adere
aos códigos do grupo.
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2.
Onde e por quem essa linguagem abreviada é mais
usada?
Os principais autores da escrita simplificada são
os jovens e, entre eles, os adolescentes. Eles fazem
uso desse tipo de linguagem no celular e na internet,
especialmente em canais de relacionamento, como
o Orkut e o MSN. “Mas essa linguagem teve início
nos chats”, afirma a professora Maria Teresa, que
já realizou uma pesquisa na área, também começando pelas
salas de bate-papo virtuais. Nos e-mails, segundo
ela, a escrita abreviada tem menos lugar porque
se trata de um meio de comunicação assíncrono, ou seja, a informação é enviada em intervalos irregulares:
uma pessoa envia uma mensagem para outra, mas não
sabe quanto terá uma resposta. É um ritmo parecido
com o da tradicional troca de cartas. No celular,
a linguagem abreviada fica restrita aos torpedos,
que são escritos.
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3.
Por que essa linguagem tem mais adeptos entre os
adolescentes?
Os adolescentes têm grande facilidade de se adaptar
aos símbolos de um novo código, pelas características
da própria idade. Não é de hoje que colegas de escola
trocam bilhetinhos durante a aula. Longe das vistas
do professor, trocam papéis amassados ou dobrados
- se é que hoje não o fazem por celular ou mesmo
pela internet, nos colégios onde o computador é
instrumento de ensino. É próprio do adolescente
criar código. No celular, porém, a adesão à linguagem
simplificada é maior, devido à dificuldade de digitar
no pequeno teclado do aparelho telefônico. Jovens
adultos e adultos também vêm passando a utilizá-la.
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4.
Isso já acontecia antes em outros meios?
Sim, mas de modo diferente. O telegrama é
um meio de comunicação que faz uso da linguagem
abreviada, mas segue um código mais formal, mais
atento às regras ortográficas cultas. Não é usual,
por exemplo, trocar “assim” por “axim” ou “endosso”
por “endoço”. O telégrafo, aliás, chegou a fazer
uso do Código Morse, que, com pontos e traços, facilitava
a transmissão da mensagem. O texto era transmitido
de forma codificada pelo telegrafista, que se colocava
como intermediário entre emissor e receptor. Depois,
a mensagem era transportada por navio, trem ou avião
(mais tarde). Nas conversas pela internet ou pelo
celular, essa figura não está presente, o que permite
uma maior intimidade entre as partes envolvidas
no diálogo. Além disso, a escrita da internet está
contaminada pelos ares de sua época: ela é uma forma
própria ao suporte em que se deita. “O contexto
gera formas novas de utilizar a linguagem”, afirma
a professora Maria Teresa.
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5.
A escrita abreviada e simplificada prejudica a compreensão?
Quando duas pessoas dominam o mesmo código, não
costuma haver dificuldade na troca de mensagens.
Mas uma pessoa que nunca empregou uma linguagem
como a que os adolescentes usam na internet pode
achá-la uma loucura à primeira leitura. “Pais e
mães podem pensar que é uma escrita errada, quando
não é: é uma escrita feita para um suporte próprio,
adaptada para uma determinada situação. Não há erro
de ortografia, embora essa linguagem desobedeça
à regra culta”, defende Maria Teresa. Dentro daquele
sistema, explica a professora, a substituição de
“ss” por “ç” faz sentido e não representa um erro.
É claro também que, como demonstrou a experiência
realizada na Austrália, pode haver maior dificuldade
em ler a mensagem em voz alta do que escrever de maneira
reduzida - especialmente se quem lê em voz alta não
domina bem o código que está lendo.
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6.
Há padrões de escrita para internet e celular?
A linguagem abreviada, especialmente a da web,
segue os padrões da oralidade. Ela substitui uma
conversa ou um bate-papo. “O interlocutor está presente
e em tempo real, apesar da distância”, diz Maria
Teresa. “Para andar mais rápido, se escrevem oxítonas
com acento agudo sem acento e com ‘h’ no final,
como ‘cafeh’, e se firmam acordos tácitos para uso
de determinadas palavras, como ‘vc’ em vez de ‘você’
ou ‘tc’ em vez de ‘teclar’.” Outros elementos que
fazem parte desse sistema são as representações
de emoção, geradas para compensar a ausência física
do interlocutor: "risos", "rs", "eheh", ":)", ":(", "[]", etc.
Há diversas fontes na internet, como sites específicos e,
o próprio MSN, onde usuários dessa linguagem
podem copiar símbolos ou emoticons para depois usá-los
em suas mensagens.
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7.
Essa escrita vicia?
Muitos adolescentes ouvidos por Maria Teresa, em
sua pesquisa, demonstraram saber separar as coisas.
“Eles sabem que na escola não podem escrever da
mesma forma que na internet”, diz ela. “Essa linguagem
é um gênero novo de discurso, e os usuários sabem
disso, sabem que é algo diferente do que está no
livro ou em outro lugar.” Para a professora, uma
prova de que os adolescentes sabem separar as coisas
é que, quando o canal de filmes pago Telecine criou
a sessão Cyber Vídeo, com legendas que se apropriavam
do internetês, houve uma forte reação dos próprios
adolescentes contra o método. “Eles diziam que não
era linguagem própria para o cinema, que era linguagem
de internet.” Dirigida ao público teen, a experiência
do Telecine não foi mesmo para frente: estreou em
2005 e já no ano seguinte saiu do ar.
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8.
Essa linguagem pode modificar a língua que falamos?
É possível que essa linguagem venha, no futuro, a modificar
a língua que falamos. Já começamos a incorporar,
no português do Brasil, os termos da informática e
da internet, como "deletar", "caps lock", "control+c",
"control+v", "control+z". Há muita gente rindo em voz
alta como na web: “eheheh”. “A língua é uma coisa
viva, porque falada. Só a língua morta, como é o
caso do latim, permanece estática. Há palavras do
português que sumiram, enquanto outras foram incorporadas.
A língua é dinâmica, se transforma sempre”, diz
Maria Teresa.
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9.
A internet faz o adolescente ler menos?
Pelo contrário. A pesquisa da professora da UFJF
mostra que a internet está levando o adolescente
a ler e a escrever mais. O texto escrito foi redescoberto
como forma de comunicação, e a leitura ganhou novos
formatos. Há uma espécie de letramento digital.
“A leitura é hipertextual: baseada no hipertexto,
na utilização de links. Cada um faz a sua leitura,
não precisa ser linear, enquanto o livro é geralmente
linear”, pondera ela. Em resumo, no meio digital
o leitor tem mais autoria na leitura - ele faz o
seu próprio percurso, a sua seleção. E lê de maneira prazerosa,
lúdica. “Isso é capaz de aproximar o adolescente
da literatura. Há sites em que eles escrevem poesia,
até de modo coletivo, e outros onde podem baixar
e-books.”
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10.
Exemplos da linguagem da internet
A "linguagem" da internet também
fornece informações sobre o estado
de espírito de quem escreve. Confira algumas
amostras.
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ACRÔNIMOS
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| Riso |
rs (abreviação
de 'risos') ou kkkkkk |
| Gargalhada |
lol (iniciais
de "laughing out loud", ou "rindo
muito", em português) |
| Pensando
ou assimilando |
hmmm ou
huuum |
| Logo
que der |
asap (inciais
de "as soon as possible", ou
"assim que possível",
em português) |
| Já
volto |
bbs (inciais
de "be back soon", ou "volto
logo", em português) |
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Fonte: Microsoft (fabricante do
MSN Messenger) e Maria Teresa de Assunção Freitas,
professora da Universidade Federal de Juiz de Fora
(UFJF) e autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes
na Internet e na Escola
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