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Maio de 2008
Júri Popular
Quando crimes que causam
grande comoção nacional como o
assassinato de Daniela Perez, do casal Richthofen
ou a morte da menina Isabella Nardoni são
levados a júri popular, o país
volta sua atenção aos jurados
– as pessoas escolhidas em meio à sociedade
para dar um veredicto sobre o caso. Saiba como
é feita a seleção dessas
pessoas, como funciona a rotina delas quando
o julgamento se inicia e o que elas podem ou
não fazer durante esse tempo. Sem receber
pagamento por isso, milhares de jurados trabalham
anonimamente nos cerca de 1.300 julgamentos
realizados no Brasil anualmente. Aceitar o papel
de jurado é considerado um dever
cívico, assim como votar em eleição.
Quando um cidadão é sorteado
por algum tribunal, só consegue safar-se
com argumentos muito convincentes. Entenda:
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1.
Como são escolhidas as pessoas que formam o júri
popular?
O jurado pode se inscrever ou ser indicado para
a função. De toda forma, seu nome passa a constar
numa lista elaborada pelo juiz-presidente da Comarca.
Essa escolha pode variar de acordo com o tamanho
e o número de habitantes das cidades. Em regiões
maiores, como São Paulo, o magistrado envia a bancos,
empresas e repartições públicas ofícios em que solicita
a indicação de funcionários de idoneidade comprovada.
Já em cidades menores, essa lista é elaborada, muitas
vezes, pelo próprio juiz com o auxílio de terceiros.
Quem tiver interesse em ser jurado voluntário também
pode se inscrever no Tribunal do Júri de sua cidade.
Para tanto, deve apresentar cópia da carteira
de identidade e CPF, além de Certidão Negativa Criminal
e Atestado de Bons Antecedentes. Desta lista, a
cada processo, são sorteados 21 nomes que devem
comparecer ao julgamento. Essas pessoas são intimadas
a estar no Fórum no dia da sessão. Desses 21, apenas
sete são sorteados para compor o o Conselho de Sentença,
o grupo que ouve a acusação e a defesa para defininir
a culpa ou não do réu. Esse sorteio é feito pouco
antes do início do julgamento.
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2.
O que pode impedir alguém de se tornar um jurado?
Os nomes de todos os candidatos a jurado passam
por uma triagem do juiz-presidente para que se comprove
sua idoneidade moral. Não se escolhem jurados
pela posição social ou grau de instrução.
São verificados, principalmente, os antecedentes
criminais. A lista com todos os nomes que integram
o Corpo de Júri de uma cidade é publicada
em novembro, mas pode sofrer alterações
caso haja alguma reclamação sobre
determinada escolha. A lei não garante ao
jurado a prerrogativa de declinar da função,
mas as pessoas podem tentar fazê-lo explicando
ao juiz o que as impede de exercer a função.
Um caso de parente que esteja sendo julgado por
homicídio, por exemplo, pode ser considerado
um impedimento, bem como ser gestante, lactante
ou possuir alguma deficiência física
que o atrapalhe durante o julgamento, como a surdez.
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3.
O que impede um jurado de integrar um júri específico?
As pessoas podem ser impedidas de integrar um
júri caso seja comprovado algum parentesco
entre elas e o juiz, o promotor, o advogado, o réu
ou a vítima. Além disso, não
podem fazer parte do mesmo júri marido e
mulher, ascendentes e descendentes, sogro e genro
ou nora, irmãos, cunhados, tio e sobrinho,
padrasto ou madrasta e enteado. A cada jurado sorteado,
o juiz pergunta ao promotor e ao advogado de defesa
se o aceitam ou recusam. Há uma noção
corrente nos meios jurídicos de que engenheiros
e cidadãos de ascendência japonesa
são muitos rígidos em seus julgamentos
— a defesa costuma recusá-los. Já
os adeptos de religiões espíritas
seriam mais propensos a absolver os réus
— os promotores não costumam aceitá-los.
Se o réu é acusado de estupro
seguido de morte, dificilmente o advogado de defesa
admite no júri uma mulher, teoricamente inclinada
a chocar-se mais com o crime do que um homem. Promotor
e advogado de defesa têm direito a três
recusas cada um e não precisam explicar por
quê.
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4.
Os escolhidos podem se abster de comparecer ao tribunal?
Uma vez que foi intimada para a função,
a pessoa que não comparecer ao Tribunal poderá
responder por crime de desobediência. A recusa
do serviço do júri pode implicar também
perda de direitos políticos. Caso não
possa exercer a função, é prudente
que o escolhido para jurado explique sua situação
ao juiz, que decidirá pela sua dispensa ou
não.
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5.
Em quais casos o Tribunal do Júri pode ser convocado?
Os membros da sociedade podem julgar casos de
assassinato, tentativa de assassinato, aborto e
incentivo ao suicídio. Todos os crimes desse
tipo são levados a júri popular, exceto
nos casos de aborto em que a pena for igual a superior
a um ano, pois então o processo é
extinto e não há necessidade de julgamento.
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6.
De que forma a ostensiva cobertura da mídia pode
interferir na decisão dos jurados?
Em casos de comoção nacional, como
o da menina Isabella Nardoni, tudo o que se fala
a respeito do crime pode, de certa maneira, influenciar
o júri. Como explica o juiz Alberto Anderson
Filho, presidente do 1º Tribunal do Júri
de São Paulo, o perigo é que essas
pessoas podem iniciar o julgamento com conclusões
precipitadas sobre os fatos. Essa influência,
contudo, é limitada pelo fato de que esses
julgamentos constumam ocorrer alguns anos após
o crime, quando a cobertura do caso já "esfriou".
Dessa forma, os jurados tendem a se concentrar apenas
no que lhes é passado durante o julgamento.
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7.
Há casos em que a lei permite a anulação da sentença
do júri popular?
Sim. A lei prevê algumas hipóteses
de recurso da decisão do Tribunal do Júri,
mas apenas em situações previstas
no artigo 593 do Código de Processo Penal,
que são: ocorrência de nulidade (defeito
judicial); sentença contrária à
lei ou à decisão dos jurados, erro
ou injustiça no tocante à aplicação
da pena ou se a decisão dos jurados for manifestamente
contrária às provas. Com relação
ao mérito, porém, a decisão
dos jurados não pode ser modificada. A soberania
de veredicto do júri é garantida pela
Constituição.
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8.
O que ocorre caso a sentença seja anulada?
Reconhecido um equívoco ou uma arbitrariedade
no julgamento, o Tribunal de Justiça pode
anular a decisão, mas outro júri terá
de ser convocado para julgar novamente o caso. O
Tribunal de Justiça não pode simplesmente
absolver quem foi condenado ou condenar quem foi
absolvido pelo júri.
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9.
Como devem proceder os jurados durante o julgamento?
Durante a sessão, os sete jurados ficam
proibidos de conversar sobre o caso em questão
ou sobre qualquer outro processo. Eles podem, no
entanto, falar entre si sobre outros assuntos. No
mais, podem conversar apenas com o juiz, escrivão
ou oficial de justiça, caso tenham alguma
solicitação a fazer. Eles não
podem ter contato com o mundo exterior, não
podem telefonar nem receber telefonemas, ler jornal,
ouvir rádio ou assistir à TV, nem
mesmo nos intervalos da sessão. Oficiais
de Justiça se encarregam de vigiar os jurados
o tempo todo, acompanhando-os até mesmo
ao banheiro. Se a sessão se estende por dois
ou mais dias, os jurados têm de dormir nas
acomodações dos tribunais ou são
levados para hotéis nas proximidades. Continuam
sem poder comunicar-se nem com a família
— o tribunal se encarrega de avisar familiares.
Os oficiais de justiça permanecem nos quartos
até os jurados dormirem para garantir
que não irão conversar sobre o que
julgam. Caso se descubra que a incomunicabilidade
dos jurados foi quebrada, o julgamento será
imediatamente anulado e um novo processo instaurado.
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10.
O que é atribuição do jurado?
Durante a sessão, os sete jurados são
juízes de fato. Podem, portanto, mais do
que simplesmente ouvir as respostas de perguntas
formuladas pelo juiz, pela defesa ou pelo Ministério
Público, requerer diligências, inquirir
as testemunhas e se utilizar de quaisquer recursos
que os conduzam a um juízo preciso a respeito
da decisão a ser tomada. Qualquer solicitação
desse tipo deve ser previamente comunicada ao juiz.
É ao júri que se dirigem a acusação
e a defesa. Além disso, a decisão
dos jurados não precisa ser unânime
e o voto é secreto. O Tribunal do Júri
decide apenas se o réu deve ou não
ir para a cadeia, quem estipula a pena é
o juiz da sessão. O veredicto é dado
através das respostas dadas a um questionário
sobre o processo, elaborado pelo magistrado. Nele,
não se pergunta diretamente se o réu
é culpado ou não, mas sim se, por
exemplo, a vítima morreu de fato pelo motivo
que apontam os laudos da perícia.
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11.
Há algum benefício previsto para quem faz parte
do júri?
Pessoas que integraram um júri popular passam
a ter direito a prisão especial, em caso
de crime comum, até o julgamento definitivo,
bem como preferência, em igualdade de condições,
nas concorrências públicas, como empate
em concurso público. Os funcionários
públicos têm garantido o direito de
permanecer no emprego mesmo tendo de se ausentar
para julgar o caso. O tempo que o julgamento levar
é, para eles, uma licença remunerada.
Já para os demais trabalhadores, somente
é garantido que não seja descontado
da folha de pagamento nenhum dia que se passou no
tribunal.
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12.
O que fica à cargo do juiz em uma sessão de júri
popular?
Além de sortear os jurados, estabelecer
a pena e elaborar o questionário sobre o
processo, cabe ao juiz declarar a sentença
e zelar pela ordem no tribunal. Entre suas ações
estão: regular a polícia das sessões
e mandar prender os desobedientes, regular os debates,
nomear defensor ao réu - quando o considerar
indefeso -, mandar retirar da sala o réu
que, com injúrias ou ameaças, dificultar
o livre curso do julgamento, interromper a sessão
por tempo razoável, para repouso ou refeição
dos jurados e resolver as questões de direito
que se apresentarem no decurso do julgamento.
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