| Maio de 2007 Irlanda
do Norte
Em 8 de maio de 2007, uma histórica
cerimônia em Belfast deu início a um novo governo de união na província britânica
da Irlanda do Norte. Depois de décadas de conflitos sanguinolentos, os protestantes
do Partido Unionista Democrático e os católicos do Sinn Fein concordaram em dividir
o poder (na foto, a primeira reunião do governo, com o vice-premiê católico Martin
McGuinness e o premiê protestante Ian Paisley). O acerto tem a bênção da Inglaterra,
que hoje administra a Irlanda do Norte. O governo conjunto pode consolidar a estabilização
a Irlanda do Norte - a província vive desde 1998 sob um acordo de paz que praticamente
acabou com o terrorismo e a violência sectária. Desde 1969, 3.600 pessoas morreram
por causa da luta entre os dois lados - a maioria, vítima de atentados do IRA,
braço armado dos católicos. Entenda as origens do conflito e os termos do atual
acordo de paz:
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1. Qual é a
origem do conflito na Irlanda do Norte? Ainda que ingleses e irlandeses
tenham se enfrentado desde o século XII, quando o monarca inglês Henrique II conquistou
e anexou a ilha da Irlanda por um curto período de tempo, o atual conflito tem
origem nos séculos XVI e XVII. Paralelamente ao seu rompimento com o Vaticano
- que fundou o Anglicanismo - a dinastia Tudor lançou a Inglaterra a uma nova
tentativa de conquista da Irlanda. O sucesso da empreitada submeteu os irlandeses
- católicos desde sua origem - ao governo de ingleses protestantes. A partir daí,
milhares de colonos ingleses estabeleceram-se na ilha - especialmente na província
de Ulster, no norte do território - discriminando, perseguindo e expulsando os
nativos. Nas primeiras décadas do século XX, revoltas sucessivas resultaram na
divisão da ilha: os católicos conseguiram a independência da República da Irlanda
(Eire) em 1921, mas alguns condados do norte, onde os protestantes eram - e ainda
são - maioria, continuaram atrelados à Inglaterra. | | |
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2. Quais
foram as conseqüências da divisão da Irlanda? A divisão do território
irlandês não satisfez a população católica do Ulster, forçada a continuar sob
domínio britânico. Os mais exaltados deste grupo nacionalista partiram para a
luta armada, incluindo o terrorismo. Extremistas protestantes responderam à altura.
Desde o fim dos anos 60 confinadas em bairros separados por muros e cercas de
arame farpado - na capital Belfast e em outras cidades importantes -, as duas
comunidades trocam tiros e bombas. Neste período, mais de 3.600 pessoas foram
mortas. | | | | •
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3. O
que querem os católicos? Os católicos da Irlanda do Norte, também
conhecidos como republicanos, desejam o mesmo que os seus vizinhos do sul conseguiram
- independência do Reino Unido. Seu objetivo final é integrar os condados que
permaneceram sob controle da coroa britânica ao resto da República da Irlanda,
acabando com a divisão territorial da ilha. Até 1998, a própria Constituição da
República da Irlanda estabelecia que era um dever do país lutar pela anexação
do norte protestante. O catolicismo é visto como ponto essencial desta questão
pois serviu como catalisador da identidade nacional irlandesa durante a resistência
contra a ocupação e as lutas pela independência. | | |
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4. E
o que reivindicam os protestantes? Ao contrário dos católicos, os
protestantes, tradicionalmente chamados de unionistas por sua vontade de permanecerem
unidos à Grã-Bretanha, desejam que a situação continue como está. Querem manter-se
cidadãos britânicos. Mas não querem, para isso, deixar o território irlandês,
onde, apesar de sua origem britânica, muitas famílias estão estabelecidas há séculos. |
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5. O
que é o IRA? A organização terrorista mundialmente conhecida como
IRA (Exército Republicano Irlandês, na sigla em inglês) surgiu no ano de 1969,
reivindicando para si o legado do IRA original - o exército que lutou contra a
Inglaterra e conquistou a independência do Eire em 1921. Ao dedicar-se a matar
civis na Irlanda do Norte e na Inglaterra, com explosões ou ações armadas, o IRA
deu um caráter extremista à causa dos católicos republicanos. Em 1984, num de
seus atos mais ousados, o grupo explodiu um hotel na tentativa de assassinar a
primeira-ministra Margaret Thatcher. Já em 1991, o primeiro-ministro John Major
escapou de um morteiro atirado contra a residência oficial do chefe de governo
inglês. A violência do IRA, que sempre contou com o apoio financeiro de americanos
descendentes de irlandeses, fez surgir vários outros grupos paramilitares, na
maioria protestantes, dispostos a vingar suas vítimas. Atualmente, o IRA abandonou
a luta armada, tendo mantido-se ativo apenas por meio de seu braço político, o
partido Sinn Féin, católico de orientação marxista. | | |
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6. Quem
são os personagens centrais de cada grupo hoje? Pelo lado protestante,
o grande líder da comunidade unionista hoje é o reverendo Ian Paisley, que assumiu
o cargo de primeiro-ministro do governo autônomo da Irlanda do Norte de maio de
2007. Líder do principal partido unionista do país, o DUP (Democratic Unionist
Party), e membro do Parlamento britânico desde 1970, o reverendo é também o fundador
da Igreja Presbiteriana Livre de Ulster. Entre os católicos, destaca-se a figura
do ex-comandante do IRA e atual vice-premiê norte-irlandês, Martin McGuiness.
Após co-liderar ações violentas do grupo nos anos 1970, McGuiness abandonou as
armas e tornou-se figura proeminente do Sinn Féin. Antes de assumir o gabinete
compartilhado com os protestantes, foi ministro da Educação entre 1999 e 2002.
Ainda pelo lado católico, tem papel central o líder Gerry Adams, presidente do
Sinn Féin e importante negociador do processo de paz. | | |
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7. Quais
foram os principais episódios dessa luta sectária? O período de escalada
da violência na Irlanda do Norte, que recebeu o nome de "The Troubles" (os problemas),
teve início no fim dos anos 60, quando a Associação de Direitos Civis do país,
organização majoritariamente católica, promoveu uma série de marchas de protesto
em todo o território, reivindicando igualdade de condições políticas entre católicos
e protestantes. Diversas destas marchas terminavam em quebra-quebra e confrontos
entre manifestantes e a polícia, leal à coroa britânica. Uma destas marchas, na
cidade de Derry, em 1972, terminou em tragédia quando soldados britânicos abriram
fogo contra os civis católicos, matando 14 deles. A partir do episódio, conhecido
como Domingo Sangrento, o Reino Unido suspendeu a autonomia do Ulster e fechou
a Assembléia Nacional norte-irlandesa. Em resposta, o IRA iniciou uma série de
ações terroristas que só terminariam em 1998. Em 1972, tendo matado já mais de
100 soldados britânicos, o grupo explodiu 22 bombas no centro de Belfast, no dia
chamado por alguns de Sexta-Feira Sangrenta. Onze pessoas morreram e 130 ficaram
feridas. Seguiram-se quase 30 anos de conflitos entre o IRA e grupos paramilitares
protestantes. Entre os episódios famosos, destacaram-se ainda o bombardeio do
Rememberance Day, em 1987; a explosão de um shopping em Londres em 1996, que matou
duas pessoas e causou centenas de milhões de dólares de prejuízos; e a explosão
de um carro-bomba na cidade de Omagh em 1998, por dissidentes do IRA que se opuseram
a um cessar-fogo assumido pelo grupo meses antes - o ataque matou 29 civis e feriu
mais 330. | | | | •
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8. Qual
é a posição de Londres? Oficialmente, o governo britânico afirma
nunca ter tomado parte em nenhum dos lados do conflito, e diz que todas as suas
ações - políticas ou militares - na região sempre tiveram o único intuito de manter
a lei e a ordem. Para os católicos da Irlanda do Norte, entretanto, a polícia
britânica foi vista como o inimigo a ser derrubado durante boa parte dos últimos
30 anos. Embora nunca tenha sinalizado claramente que o Ulster pode vir a ser
independente no futuro, existe em Londres atualmente um movimento de conceder
autonomia cada vez maior aos outros três países do Reino Unido - Escócia, Gales
e Irlanda do Norte. No fim dos anos 90, o governo de Tony Blair aprovou a criação
de Legislativos autônomos para os três. | | |
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9. Qual
a posição das principais nações do mundo diante dessa questão? Por
ser um conflito que envolve pontos muito específicos, de origem historicamente
antiga, não há no resto dos países do mundo, especialmente entre as potências,
uma divisão de posicionamento a favor de uma ou outra comunidade da Irlanda do
Norte - todos repudiam a violência sectária, mas se mantêm em posição de neutralidade
(ao contrário do que acontece com questões mais atuais, como a criação do estado
de Israel, que até hoje divide o mundo entre pró-árabes e pró-judeus). A neutralidade,
entretanto, não impediu que durante os anos de maior violência, a sólida comunidade
de 40 milhões de norte-americanos descendentes de irlandeses patrocinasse a luta
separatista de grupos como o IRA. Estima-se que a organização recebia 1 milhão
de dólares por ano vindos dos EUA. O mesmo IRA chegou a receber polpudas doações
de armamentos e munição do ditador líbio Muamar Khadafi nos anos 80. Desde os
ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001, porém,
o terrorismo virou palavrão até mesmo para os irlandeses-americanos. O próprio
IRA abandonou definitivamente as armas em 2005. Ficou impossível manter o esquema
enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha travavam uma guerra global contra
o terror. | | | | •
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10.
Há perspectiva de resolução do conflito irlandês? O último grande
passo dado em direção ao fim da luta sectária entre católicos e protestantes na
Irlanda do Norte foi o Acordo da Sexta-Feira Santa, assinado em abril de 1998,
no qual Londres aceitou um governo autônomo na província, com a eleição de uma
Assembléia e de um Executivo com representação proporcional das duas comunidades.
Pelo acordo, qualquer nova decisão sobre a soberania na Irlanda do Norte precisaria
ser submetida a plebiscito. O católico John Hume e o protestante David Trimble,
dois líderes moderados signatários do pacto, até dividiram o Prêmio Nobel da Paz
naquele ano. Em contrapartida, a República da Irlanda (Eire), retirou de sua Constituição
o dever de anexar o norte protestante. A instabilidade, contudo, se manteve após
o acordo. Com facções radicais do IRA ainda na ativa e denúncias de espionagem
no governo por parte dos dois lados, o governo compartilhado fracassou em 2002.
Muito pela insistência dos governos de Londres e de Dublin, a Irlanda do Norte
voltou a ter sua Assembléia em 2007, eleita pela população e composta por membros
das duas comunidades rivais, que se comprometeram a resolver suas discórdias pela
via política. A diferença entre o novo governo e as tentativas anteriores de unir
católicos e protestantes sob o mesmo gabinete é que, desta vez, foram os líderes
dos grupos mais extremos que aceitaram dividir o poder, e não os mais moderados. |
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11.
Católicos e protestantes vão dividir o poder na Irlanda do Norte? Sim.
Em 8 de maio de 2007, o protestante Ian Paisley e o católico Martin McGuiness
assumiram o gabinete como primeiro-ministro e vice-primeiro-ministro respectivamente,
e deram início à mais promissora tentativa de governo conjunto na Irlanda do Norte.
Não apenas o Executivo passou para as mãos dos irlandeses do norte, como também
o Legislativo - a Assembléia de Stormont, na capital Belfast, voltou a funcionar.
A cerimônia que marcou o início do novo período autônomo do Ulster deve entrar
para a história como o último grande ato do combalido Tony Blair, que trabalhou
para que a situação se estabilizasse na ilha vizinha. | | |
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