| Abril de 2008 Expansão
do crédito
Em março de 2008, na abertura do Fórum Brasil-México, o presidente
Luís Inácio Lula da Silva disse que o Brasil resolveu ser um país
capitalista moderno, e que "não há como ser um país
capitalista sem que se tenha crédito". De fato, a oferta de crédito
no Brasil vem aumentando de forma notável. O Banco Central prevê
que esse volume ficará entre 20% e 25% maior neste ano, o suficiente para
elevar o montante de empréstimos para 40% do PIB. O panorama é animador,
mas também traz temores. Também em março, o Ministério
da Fazenda manifestou preocupação com a tendência de alta
da inflação, reflexo do maior consumo uma das conseqüências
da fartura de crédito. Entenda como ocorreu a expansão do crédito
na economia, e saiba quais são seus principais benefícios e riscos.
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| 1. Qual é o
impacto da alta disponibilidade de crédito no país? Ela altera
os hábitos de consumo da classe C, em maior grau, e também das classes D e E,
além de mudar sua imagem no mercado financeiro. Essa parcela da população, que
em 2006 correspondia a 77% do total, tornou-se a grande alavanca do aumento na
oferta de crédito. Ao mesmo tempo, com a possibilidade de comprar produtos mais
caros com prazos cada vez mais longos, passou a adquirir itens antes considerados
supérfluos ou excessivamente caros. Agora, alguns deles são vistos como básicos,
como DVD e microondas. O crédito consignado e as linhas abertas pelas grandes
redes varejistas e supermercados deram um impulso ainda maior nessa força de consumo.
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| 2. O
que permite esse aumento? Os índices de estabilidade e crescimento
da economia nacional diminuem a fragilidade do sistema de crédito pessoal, permitindo
o aumento do crédito total disponível. O fator mais importante é a manutenção
da inflação em níveis baixos, o que permite reduzir os juros. Essa realidade começou
a se moldar a partir de 1994, com o Plano Real, e, mais acentuadamente, nos últimos
sete anos. Outro fator importante é a profissionalização das empresas financeiras,
com a criação de tecnologias adequadas de análise de risco. Algumas reformas institucionais,
como a alienação fiduciária em garantia, deram mais segurança à abertura de linhas
antes mais arriscadas, como o financiamento de automóveis. |
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| 3. Quais
são as expectativas para o crescimento do crédito? O Banco Central
espera que o volume de crédito disponível no Brasil cresça entre 20% e 25% em
2008. Isso seria o suficiente para elevar o saldo de empréstimos para um valor
equivalente a cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB). Caso a expectativa
se confirme, esse será o maior nível já registrado pelas estatísticas do BC. Em
fevereiro de 2008, a relação entre crédito total e PIB alcançou 34,9%, ante 34,8%
em janeiro e 30,9% em fevereiro de 2007. Segundo relatório do Banco Central, nem
mesmo a turbulência no mercado internacional tiraria a força do quadro previsto.
Um dos fatores apontados para o crescimento é a forte concorrência no mercado
de crédito, o que pode manter o ritmo forte das concessões e impulsionar ainda
mais a demanda doméstica. | | | | •
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| 4. Quais
benefícios a expansão do crédito traz à economia? O crédito
pode ser um importante propulsor do crescimento. O aumento do volume aquece a
demanda no mercado interno e, assim, atua diretamente – e de forma positiva –
no desempenho do Produto Interno Bruto, que é a soma de todos os bens e serviços
produzidos no país. Esse é o melhor cenário. Funciona desta forma: ao fomentar
o consumo, o crédito obriga o setor produtivo a fabricar mais bens e, por conseqüência,
empregar mais gente, aumentando a renda da população – que melhora seu nível de
vida e compra mais. | | | | •
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| 5. Quais
são os setores que mais ganham? Entre dezembro de 2002 e setembro
de 2007, o crédito cresceu 150%, levando a um boom vigoroso na aquisição de bens
de consumo. No mesmo período, a venda de celulares cresceu 194%; a venda de aparelhos
de DVD, 642%; a de computadores, 190%; e a de carros, 78%. O setor automobilístico,
por sinal, depende de financiamento farto e acessível em todo o mundo. Anos atrás,
no Brasil, ele era escasso e caro. Hoje, é possível adquirir um veículo sem nenhuma
entrada e financiá-lo em até sete anos, com prestações inferiores a um salário
mínimo. Em 2007, foram cerca de 2,5 milhões de unidades vendidas, um recorde.
Outro setor com invejáveis ganhos é o financeiro. Os bancos ficam com a maior
parte do lucro gerado pelos juros dos financiamentos. Por isso, nos últimos três
anos, praticamente todas as grandes instituições apostaram em produtos voltados
ao financiamento, investiram em compras de financeiras ou criaram suas próprias. |
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| 6. Qual
é a situação do financiamento imobiliário? O setor tem o maior
volume de recursos desde os anos 1970. Em 2006, foram 20,3 bilhões de reais, um
crescimento de 48% em relação ao ano anterior. E a tendência é que o volume continue
a aumentar, um esforço para retirar o país de uma posição tímida no ranking de
crédito imobiliário em relação ao PIB. Enquanto o país atinge 2%, o Chile tem
12,8%, o México, 14%, a França, 26,2% e a Espanha, 45,9%. Mesmo assim, já há mudanças
importantes na busca pela casa própria. Um exemplo é que, antes, durante a obra,
era preciso dispor de até 40% do valor do imóvel para receber as chaves. Hoje,
o desembolso fica entre 10% a 20%. Outro: até cinco anos, a Caixa Econômica era
praticamente o único banco que oferecia financiamentos superiores a 10 anos. Atualmente,
vários bancos privados oferecem linhas de até 20 anos. | | |
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| 7. Quais
são os principais riscos da expansão do crédito? O principal
e mais tenebroso é acordar o dragão da inflação, desencadeando um conjunto de
ações que poderiam colocar em xeque o crescimento econômico. Em boa parte porque,
para conter a pressão inflacionária, seria necessário reverter a política de juros,
elevando as taxas. E, se os juros sobem, o mercado desaquece, já que um de seus
grandes motores é justamente o crédito. Os créditos a prazos muito longos também
trazem riscos. A partir do quinto ano, os proprietários de carros, por exemplo,
começar a ter altas despesas com seus veículos e, assim, podem deixar de pagar
as prestações. Como o carro perde valor, os bancos e as financeiras ficariam sem
garantias, o que, eventualmente, detonaria uma onda de calotes e poderia levar
a uma crise no setor financeiro (lembrando que o aumento de juros encarece os
financiamentos em geral, o que também traz o risco de calote). |
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| 8. Como
esse crescimento influencia a inflação? Quanto mais crédito
disponível à população, mais ela compra. Caso o consumo aumente rápido demais
e as indústrias não consigam atender à demanda, a inflação dispara, seguindo a
lei da oferta e da procura – se a oferta é bem menor que a procura, os preços
tendem a subir. Isso torna o investimento nas empresas essencial para evitar o
reaquecimento inflacionário em épocas de crédito farto. | | |
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| 9. Qual
é a situação atual da inadimplência no Brasil? Os números não estão
em níveis alarmantes, embora demandem monitoramento cauteloso, devido ao constante
aumento da oferta de crédito. Em março de 2008, o índice caiu de 4,4% para 4,3%
dos empréstimos bancários, segundo dados do Banco Central. A marca razoável vêm
se mantendo constante nos últimos meses. | | |
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| 10.
O que é cadastro positivo? Previsto por um Projeto de Lei ainda não
apreciado pelos parlamentares, o cadastro positivo seria uma forma de garantir
aos bons pagadores acesso a dinheiro mais barato. Atualmente, os bons pagam pelos
ruins, o que encarece o financiamento no geral. A medida é entendida como fundamental
para estimular todas as modalidades de crédito. | | |
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| 11.
A crise iniciada nos EUA teve como raiz a explosão do crédito? Sim.
Os seguidos anos de juros baixos nos Estados Unidos estimularam uma concessão
desenfreada de crédito. Os bancos passaram a emprestar dinheiro até para pessoas
com um histórico deficiente – o crédito de alto risco, ou subprime, como é chamado
por lá. Muitos americanos aproveitaram para financiar ou refinanciar o pagamento
de alguns bens, principalmente imóveis. Mas, em 2007, os juros subiram, o que
elevou os preços dos financiamentos e disparou a inadimplência. O temor de um
calote em massa, da diminuição do ritmo de consumo e da existência de papéis "contaminados"
nos fundos de investimentos fez muitos investidores venderem suas ações, o que
derrubou o preço dos papéis. Foi essa série de ações que levou abaixo a cotação
das bolsas de valores. | | | | •
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| 12.
Pode acontecer o mesmo por aqui? O Ministério da Fazenda mostra-se
temeroso, mas o cenário da economia brasileira e a opinião de especialistas afastam
o risco de calote generalizado. Para o presidente da Federação Brasileira de Bancos,
Fábio Barbosa, o setor financeiro está lidando com a expansão "de forma muito
bem estruturada" e o Banco Central têm dado um bom exemplo na fiscalização das
operações de crédito. Num panorama mais amplo, o Brasil mostra bons procedimentos
no controle da inflação, na responsabilidade da política fiscal e monetária e
na proteção contra as oscilações do mercado mundial. Existem alguma variáveis
para que a expansão do crédito no país continue sustentável ao longo prazo. As
principais são investimentos nas condições necessárias para o crescimento e a
geração de empregos, o que inclui uma pauta de reformas já velha conhecida: trabalhista,
previdenciária e tributária. | | | | •
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