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Julho de 2009
Esquizofrenia

Getty Images
Reuters

Delírios, vozes e visões de seres imaginários. Esse é o quadro de uma pessoa que sofre de esquizofrenia. É comum também que ela passe por períodos de apatia e desordem de pensamento, com alterações de juízo, falsas ideias de perseguição e dificuldade em se relacionar. Descrito pela primeira vez no fim do século XIX, o transtorno ganhou esse nome em 1908, autoria do psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857-1939). A palavra é resultado da junção dos termos gregos skizo (divisão) e phrenos (espírito), devido aos sintomas que provoca. O mal atinge atualmente cerca de 1% da população mundial e conta com 56.000 novos casos a cada ano no Brasil. Compreenda a doença e as formas de tratamento, segundo orientação de especialistas, ouvidos pela repórter Cecília Araújo.

1. Como é feito o diagnóstico da esquizofrenia?
2. Quais são suas principais características?
3. O que ocorre de diferente no cérebro de uma pessoa esquizofrênica?
4. Há uma predisposição genética para a doença?
5. Ela tem alguma relação com o uso de drogas?
6. Que consequências a esquizofrenia traz para a vida do portador?
7. Ao notar sinais da doença em amigos ou familiares, que medidas devem ser tomadas?
8. Em que consiste o tratamento?
9. Qual é o papel da família durante o tratamento?
10. Qual a recorrência e a duração dos surtos esquizofrênicos?
11. Quanto tempo costuma durar a internação dos doentes?
12. A medicina está perto de achar a cura?

1. Como é feito o diagnóstico da esquizofrenia?

De acordo com o psiquiatra Jaime Hallak – professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) –, o diagnóstico é estritamente clínico. "Não há exames que a confirmem, mas isso não significa que eles sejam dispensáveis. Por meio deles, é possível descartar outros quadros, o que reforça o diagnóstico da esquizofrenia", diz Hallak.

 
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2. Quais são suas principais características?

A esquizofrenia pode se apresentar de várias maneiras. Alguns quadros comuns são o afastamento da realidade por meio de alucinações e/ou delírios, o comportamento volúvel e estranho do paciente, o distanciamento do contato social e a maior dificuldade de estabelecer laços afetivos estáveis. "Trata-se de um transtorno crônico, que pode apresentar crises diante de conflitos ou situações em que faltam ao paciente recursos para simbolizar e suportar o sofrimento, como normalmente fazem as outras pessoas", explica a psicóloga e psicanalista Adriane Barroso.

 
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3. O que ocorre de diferente no cérebro de uma pessoa esquizofrênica?

No centro do problema está a dopamina, neurotransmissor associado às sensações de prazer e de recompensa e que é encontrado em uma das regiões cerebrais mais profundas: o mesencéfalo. Nas pessoas saudáveis, a dopamina é liberada em quantidades equivalentes para os lobos frontal e temporal – sendo que o primeiro é responsável pela elaboração do pensamento, e o segundo, pela percepção e pela memória. O cérebro do paciente com esquizofrenia, contudo, funciona como se houvesse menos dopamina no lobo frontal e mais no lobo temporal. Essa falta provoca apatia e lentidão de pensamento. Já o excesso de dopamina na região temporal provoca delírios e alucinações. Essas duas falhas contribuem para o aparecimento dos sintomas da doença.

 
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4. Há uma predisposição genética para a doença?

A esquizofrenia, por definição, é um transtorno neurodesenvolvimental, o que significa que ele se inicia quando o bebê ainda está sendo formado dentro do útero. Porém, apesar de tão precoce, a doença só é identificada na adolescência ou na fase adulta, pois é preciso que o cérebro amadureça para que os sintomas se manifestem. Em geral, ela aparece nos homens entre os 15 e 20 anos e nas mulheres entre os 20 e 25 anos. O psiquiatra Jaime Hallak explica que, apesar da existência de características hereditárias genéticas que colaboram para a doença, elas não são determinantes. "Se fossem, dois gêmeos idênticos, que necessariamente têm cargas genéticas iguais, teriam 100% de concordância no quadro de transtornos mentais, o que não acontece. Essa concordância é de apenas 50%", diz o médico Para quem não tem parentes esquizofrênicos, o risco de ser portador da doença é de 1%.

 
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5. Ela tem alguma relação com o uso de drogas?

Sim. Antigamente, acreditava-se que as drogas não tinham influência na manifestação da esquizofrenia, apenas provocavam sintomas parecidos com o da doença. Contudo, estudos genéticos recentes já comprovam que o uso crônico da maconha pode colaborar para o seu desenvolvimento, dependendo do tipo de polimorfismo genético que o usuário possui.

 
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6. Que consequências a esquizofrenia traz para a vida do portador?

A doença é marcada especialmente pela dificuldade que o indivíduo apresenta para criar e manter laços sociais, no relacionamento com as pessoas e com o restante do mundo. "Isso traz, obviamente, uma série de questões e entraves: o esquizofrênico, de maneira geral, apresenta problemas extras para lidar com momentos de conflito, com perdas e com mudanças. Deparar-se com essas situações pode causar o que chamamos de desencadeamento ou crises, em que geralmente se nota uma transformação brusca do sujeito, tanto no comportamento quanto no pensamento", diz a psicanalista Adriane Barroso. Consequentemente, se não tratado devidamente, o portador passa a ter problemas na escola, no trabalho e até dentro da própria casa, podendo tomar a atitude extrema de deixar a família ou ser abandonado por ela.

 
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7. Ao notar sinais da doença em amigos ou familiares, que medidas devem ser tomadas?

O portador da esquizofrenia deve obter ajuda médica e psicológica o mais rápido possível. Em sua experiência hospitalar, o psiquiatra Jaime Hallak conta que, entre o momento em que a doença aparece até o portador ser levado ao psiquiatra, geralmente há um intervalo grande. "Os familiares costumam reconhecer a doença apenas quando ele tem sua primeira crise. O problema é que não existem sintomas tão específicos da esquizofrenia e, na maior parte das vezes, eles são muito sutis", explica. Por isso, é importante que a família se informe no sentido de apurar sua percepção, pois o ideal é que a doença seja tratada nos primeiros cinco anos.

 
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8. Em que consiste o tratamento?

A psiquiatria lança mão de medicamentos antipsicóticos para tratar a esquizofrenia. Surgidos nos anos 50, os antipsicóticos evoluíram e estão cada vez mais específicos e seguros no controle dos sintomas da doença. Atualmente, preza-se que a medicação venha sempre acompanhada do atendimento clínico frequente, através do tratamento psicológico. A psicanalista Adriane Barroso explica que, com a psicanálise, "busca-se oferecer ao sujeito certa ‘assessoria’ para que seja possível, com os recursos que ele tem, enfrentar a vida, seus conflitos e suas questões".

 
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9. Qual é o papel da família durante o tratamento?

A presença e a participação da família no tratamento do esquizofrênico é determinante, já que a doença, seus desencadeamentos e suas questões comumente afetam a dinâmica de toda a família. Segundo a psicanalista Adriane Barroso, geralmente os pacientes que apresentam ou já apresentaram várias crises se mostram ainda mais dependentes desse acompanhamento. "É necessário compreender os limites e as possibilidades desse quadro, de forma que seja possível prestar assistência sem, contudo, invadir a vida e a particularidade do sujeito", diz a psicanalista. Para isso é necessário que os familiares sejam orientados sobre como proceder nessa situação.

 
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10. Qual a recorrência e a duração dos surtos esquizofrênicos?

Não é possível determinar a frequência das crises, que podem acontecer uma ou diversas vezes na vida do paciente. Porém, em apenas 15% dos casos não acontece um segundo surto. Os outros 85% têm crises recorrentes. Segundo o psiquiatra Jaime Hallak, um surto não tratado pode durar mais de um ano, enquanto aqueles que têm o acompanhamento adequado duram apenas dias. Somente casos em que os pacientes respondem mal aos medicamentos podem durar mais, chegando a até 10 meses.

Quanto mais longos e frequentes forem os surtos, mais prejuízos trazem aos papéis sociais do portador. Também por isso, é importante que o acompanhamento médico e psicológico se inicie o mais rápido possível. "O tratamento é a longo prazo e deve ser mantido mesmo fora dos momentos de crise. Dessa forma, com diagnóstico e tratamento adequados, os desencadeamentos podem, inclusive, ser evitados, garantindo ao sujeito uma vida estável", explica a psicanalista Adriane Barroso.

 
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11. Quanto tempo costuma durar a internação dos doentes?

Por muito tempo, a internação foi utilizada de forma incorreta e abusiva. Hospitais psiquiátricos apresentavam condições desumanas, funcionando como verdadeiros depósitos de pessoas, que eram vistas como incômodo social ou para a família. Nos últimos anos, diversas leis têm sido criadas e modificadas no sentido de garantir o tratamento do paciente de acordo com suas necessidades clínicas, visando seu retorno ao convívio familiar e social tão logo seja possível. Hoje, há restrições quanto ao tempo de internação e às condições em que ela pode ocorrer. Um procedimento comum é a internação temporária dos esquizofrênicos, mas ocorre apenas quando esses pacientes apresentam riscos para si ou para terceiros. Segundo a psicanalista Adriane Barroso, o recurso não deve ser entendido como um processo prejudicial. "Ao contrário, ele é, muitas vezes, necessário e benéfico, desde que usado com critérios clínicos rigorosos, assim como todo o restante do tratamento."

 
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12. A medicina está perto de achar a cura?

O psiquiatra Jaime Hallak garante que a medicina está no caminho certo: "Estamos trabalhando intensamente pela cura da doença e nos aproximando de estudos muito relevantes, inclusive liderados por grupos brasileiros. Costumo dizer que a esquizofrenia é uma doença que acontece em todas as raças, religiões e sexos e que não tem cura... ainda! Os resultados das pesquisas são promissores, e os familiares e portadores devem manter a esperança da recuperação total."

 
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