Esquizofrenia
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Delírios, vozes e visões de seres imaginários. Esse é
o quadro de uma pessoa que sofre de esquizofrenia. É comum também
que ela passe por períodos de apatia e desordem de pensamento, com alterações
de juízo, falsas ideias de perseguição e dificuldade em
se relacionar. Descrito pela primeira vez no fim do século XIX, o transtorno
ganhou esse nome em 1908, autoria do psiquiatra suíço Eugen Bleuler
(1857-1939). A palavra é resultado da junção dos termos
gregos skizo (divisão) e phrenos (espírito), devido
aos sintomas que provoca. O mal atinge atualmente cerca de 1% da população
mundial e conta com 56.000 novos casos a cada ano no Brasil. Compreenda a doença
e as formas de tratamento, segundo orientação de especialistas,
ouvidos pela repórter Cecília Araújo.
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1.
Como é feito o diagnóstico da esquizofrenia?
De acordo com o psiquiatra Jaime Hallak – professor
do Departamento de Neurociências e Ciências
do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão
Preto (USP) e Associação Brasileira
de Psiquiatria (ABP) –, o diagnóstico é
estritamente clínico. "Não há
exames que a confirmem, mas isso não significa
que eles sejam dispensáveis. Por meio deles,
é possível descartar outros quadros,
o que reforça o diagnóstico da esquizofrenia",
diz Hallak.
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2.
Quais são suas principais características?
A esquizofrenia pode se apresentar de várias
maneiras. Alguns quadros comuns são o afastamento
da realidade por meio de alucinações
e/ou delírios, o comportamento volúvel
e estranho do paciente, o distanciamento do contato
social e a maior dificuldade de estabelecer laços
afetivos estáveis. "Trata-se de um transtorno
crônico, que pode apresentar crises diante
de conflitos ou situações em que faltam
ao paciente recursos para simbolizar e suportar
o sofrimento, como normalmente fazem as outras pessoas",
explica a psicóloga e psicanalista Adriane
Barroso.
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3.
O que ocorre de diferente no cérebro de uma pessoa
esquizofrênica?
No centro do problema está a dopamina, neurotransmissor
associado às sensações de prazer
e de recompensa e que é encontrado em uma
das regiões cerebrais mais profundas: o mesencéfalo.
Nas pessoas saudáveis, a dopamina é
liberada em quantidades equivalentes para os lobos
frontal e temporal – sendo que o primeiro é
responsável pela elaboração
do pensamento, e o segundo, pela percepção
e pela memória. O cérebro do paciente
com esquizofrenia, contudo, funciona como se houvesse
menos dopamina no lobo frontal e mais no lobo temporal.
Essa falta provoca apatia e lentidão de pensamento.
Já o excesso de dopamina na região
temporal provoca delírios e alucinações.
Essas duas falhas contribuem para o aparecimento
dos sintomas da doença.
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4.
Há uma predisposição genética para a doença?
A esquizofrenia, por definição, é
um transtorno neurodesenvolvimental, o que significa
que ele se inicia quando o bebê ainda está
sendo formado dentro do útero. Porém,
apesar de tão precoce, a doença só
é identificada na adolescência ou na
fase adulta, pois é preciso que o cérebro
amadureça para que os sintomas se manifestem.
Em geral, ela aparece nos homens entre os 15 e 20
anos e nas mulheres entre os 20 e 25 anos. O psiquiatra
Jaime Hallak explica que, apesar da existência
de características hereditárias genéticas
que colaboram para a doença, elas não
são determinantes. "Se fossem, dois
gêmeos idênticos, que necessariamente
têm cargas genéticas iguais, teriam
100% de concordância no quadro de transtornos
mentais, o que não acontece. Essa concordância
é de apenas 50%", diz o médico
Para quem não tem parentes esquizofrênicos,
o risco de ser portador da doença é
de 1%.
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5.
Ela tem alguma relação com o uso de drogas?
Sim. Antigamente, acreditava-se que as drogas não
tinham influência na manifestação
da esquizofrenia, apenas provocavam sintomas parecidos
com o da doença. Contudo, estudos genéticos
recentes já comprovam que o uso crônico
da maconha pode colaborar para o seu desenvolvimento,
dependendo do tipo de polimorfismo genético
que o usuário possui.
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6.
Que consequências a esquizofrenia traz para a vida
do portador?
A doença é marcada especialmente
pela dificuldade que o indivíduo apresenta
para criar e manter laços sociais, no relacionamento
com as pessoas e com o restante do mundo. "Isso
traz, obviamente, uma série de questões
e entraves: o esquizofrênico, de maneira geral,
apresenta problemas extras para lidar com momentos
de conflito, com perdas e com mudanças. Deparar-se
com essas situações pode causar o
que chamamos de desencadeamento ou crises, em que
geralmente se nota uma transformação
brusca do sujeito, tanto no comportamento quanto
no pensamento", diz a psicanalista Adriane
Barroso. Consequentemente, se não tratado
devidamente, o portador passa a ter problemas na
escola, no trabalho e até dentro da própria
casa, podendo tomar a atitude extrema de deixar
a família ou ser abandonado por ela.
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7.
Ao notar sinais da doença em amigos ou familiares,
que medidas devem ser tomadas?
O portador da esquizofrenia deve obter ajuda médica
e psicológica o mais rápido possível.
Em sua experiência hospitalar, o psiquiatra
Jaime Hallak conta que, entre o momento em que a
doença aparece até o portador ser
levado ao psiquiatra, geralmente há um intervalo
grande. "Os familiares costumam reconhecer
a doença apenas quando ele tem sua primeira
crise. O problema é que não existem
sintomas tão específicos da esquizofrenia
e, na maior parte das vezes, eles são muito
sutis", explica. Por isso, é importante
que a família se informe no sentido de apurar
sua percepção, pois o ideal é
que a doença seja tratada nos primeiros cinco
anos.
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8.
Em que consiste o tratamento?
A psiquiatria lança mão de medicamentos
antipsicóticos para tratar a esquizofrenia.
Surgidos nos anos 50, os antipsicóticos evoluíram
e estão cada vez mais específicos
e seguros no controle dos sintomas da doença.
Atualmente, preza-se que a medicação
venha sempre acompanhada do atendimento clínico
frequente, através do tratamento psicológico.
A psicanalista Adriane Barroso explica que, com
a psicanálise, "busca-se oferecer ao
sujeito certa ‘assessoria’ para que seja possível,
com os recursos que ele tem, enfrentar a vida, seus
conflitos e suas questões".
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9.
Qual é o papel da família durante o tratamento?
A presença e a participação
da família no tratamento do esquizofrênico
é determinante, já que a doença,
seus desencadeamentos e suas questões comumente
afetam a dinâmica de toda a família.
Segundo a psicanalista Adriane Barroso, geralmente
os pacientes que apresentam ou já apresentaram
várias crises se mostram ainda mais dependentes
desse acompanhamento. "É necessário
compreender os limites e as possibilidades desse
quadro, de forma que seja possível prestar
assistência sem, contudo, invadir a vida e
a particularidade do sujeito", diz a psicanalista.
Para isso é necessário que os familiares
sejam orientados sobre como proceder nessa situação.
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10.
Qual a recorrência e a duração dos surtos esquizofrênicos?
Não é possível determinar
a frequência das crises, que podem acontecer
uma ou diversas vezes na vida do paciente. Porém,
em apenas 15% dos casos não acontece um segundo
surto. Os outros 85% têm crises recorrentes.
Segundo o psiquiatra Jaime Hallak, um surto não
tratado pode durar mais de um ano, enquanto aqueles
que têm o acompanhamento adequado duram apenas
dias. Somente casos em que os pacientes respondem
mal aos medicamentos podem durar mais, chegando
a até 10 meses.
Quanto mais longos e frequentes forem os surtos,
mais prejuízos trazem aos papéis sociais
do portador. Também por isso, é importante
que o acompanhamento médico e psicológico
se inicie o mais rápido possível.
"O tratamento é a longo prazo e deve
ser mantido mesmo fora dos momentos de crise. Dessa
forma, com diagnóstico e tratamento adequados,
os desencadeamentos podem, inclusive, ser evitados,
garantindo ao sujeito uma vida estável",
explica a psicanalista Adriane Barroso.
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11.
Quanto tempo costuma durar a internação dos doentes?
Por muito tempo, a internação foi
utilizada de forma incorreta e abusiva. Hospitais
psiquiátricos apresentavam condições
desumanas, funcionando como verdadeiros depósitos
de pessoas, que eram vistas como incômodo
social ou para a família. Nos últimos
anos, diversas leis têm sido criadas e modificadas
no sentido de garantir o tratamento do paciente
de acordo com suas necessidades clínicas,
visando seu retorno ao convívio familiar
e social tão logo seja possível. Hoje,
há restrições quanto ao tempo
de internação e às condições
em que ela pode ocorrer. Um procedimento comum é
a internação temporária dos
esquizofrênicos, mas ocorre apenas quando
esses pacientes apresentam riscos para si ou para
terceiros. Segundo a psicanalista Adriane Barroso,
o recurso não deve ser entendido como um
processo prejudicial. "Ao contrário,
ele é, muitas vezes, necessário e
benéfico, desde que usado com critérios
clínicos rigorosos, assim como todo o restante
do tratamento."
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12.
A medicina está perto de achar a cura?
O psiquiatra Jaime Hallak garante que a medicina
está no caminho certo: "Estamos trabalhando
intensamente pela cura da doença e nos aproximando
de estudos muito relevantes, inclusive liderados
por grupos brasileiros. Costumo dizer que a esquizofrenia
é uma doença que acontece em todas
as raças, religiões e sexos e que
não tem cura... ainda! Os resultados das
pesquisas são promissores, e os familiares
e portadores devem manter a esperança da
recuperação total."
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