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Setembro de 2007
Espionagem na Fórmula 1



A classificação da temporada 2007 da mais glamourosa e popular categoria do automobilismo mundial quase ganhou um asterisco de fazer inveja aos que infestam as tabelas dos campeonatos de futebol no Brasil. Em meio ao mais disputado campeonato em mais de duas décadas, com quatro pilotos com chances de conquistar o título até as últimas provas, o circo teve que desviar suas atenções da pista por causa de um escândalo de espionagem envolvendo suas duas principais escuderias. A suspeita de que a inglesa McLaren teria se aproveitado de informações confidenciais da italiana Ferrari levou à abertura de investigações esportivas e judiciais. Por pouco, o maior caso de espionagem da história da Fórmula 1 não estragou a disputa entre Fernando Alonso, Lewis Hamilton, Felipe Massa e Kimi Raikkonen pelo troféu de campeão. Entenda o que aconteceu:


1. No que consiste este escândalo de espionagem?
2. Que pistas levaram à sua descoberta?
3. O caso já não tinha sido resolvido?
4. Surgiram novas evidências?
5. A McLaren fez uso das informações confidenciais?
6. Quais foram os desdobramentos do escândalo?
7. A McLaren correu o risco de ser banida da Fórmula 1?
8. O caso é inédito na Fórmula 1?

1. No que consiste este escândalo de espionagem?

O escândalo envolvendo Ferrari e McLaren é basicamente um caso de roubo de segredos industriais. Ele veio à tona em junho de 2007, quando a Ferrari denunciou à Justiça italiana e pouco tempo depois demitiu seu engenheiro e ex-chefe dos mecânicos Nigel Stepney. A equipe suspeitava havia meses que Stepney teria passado um dossiê com mais de 700 desenhos secretos da Ferrari modelo F2007 a Mike Coughlan, projetista-chefe da McLaren. No documento estariam informações sobre a preparação do carro, mapas minuciosos de aerodinâmica e telemetria, detalhes de vários testes, informações sobre motor, consumo, reabastecimento e pneus – segredos guardados a sete chaves pelos times de ponta da Fórmula 1. Uma busca policial na residência de Coughlan, na Inglaterra, encontrou o dossiê. Ele também foi demitido pouco tempo depois, mas a suspeita de que a McLaren teria tirado vantagem das informações contidas no dossiê comprometeram a lisura da disputa do campeonato de 2007.

 
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2. Que pistas levaram à sua descoberta?

Segundo a Ferrari, a primeira pista veio de um fã inglês da equipe, dono de uma loja de fotocópias no condado de Woking, perto da sede da McLaren. Ele estranhou o fato de Trudy Coughlan, mulher do projetista chefe do time, ter pedido cópias de muitos documentos com o logotipo da Ferrari em sua loja. Pouco depois, Nick Fry, principal executivo da equipe Honda, admitiu à Federação Internacional de Automobilismo (FIA) que teve um encontro com Mike Coughlan e Nigel Stepney e que a dupla lhe ofereceu um plano para construção de um "carro dos sonhos" para 2008 – combinando o que havia de melhor na Ferrari e na McLaren. Antes de tudo, porém, Stepney já havia dado declarações à imprensa de que não estava satisfeito com sua posição no time italiano – ambicionava ocupar um cargo mais alto. Por fim, há a amizade entre os dois trapaceiros. Coughlan e Stepney se conhecem desde a infância, e trabalharam juntos nas escuderias Lotus e Benetton durante os anos 80 e 90.

 
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3. O caso já não tinha sido resolvido?

No fim de julho, pouco depois de o escândalo vir à tona, a acusação de espionagem foi analisada pelo Conselho Mundial de Automobilismo, da FIA. Na ocasião, o órgão concluiu que a McLaren teve, de fato, acesso a informações confidenciais da rival Ferrari – o que é ilegal de acordo com as regras do esporte – mas não havia evidências suficientes para acusar o time de levar vantagem com os dados. A equipe inglesa alegou que apenas Coughlan tinha visto o dossiê, e que não poderia ser penalizada por obra de um funcionário "rebelde". Sem punir ninguém, a FIA deixou em aberto a possibilidade de a McLaren ter de prestar novos esclarecimentos se alguma novidade aparecesse.

 
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4. Surgiram novas evidências?

Sim. Depois da audiência do Conselho em julho, a FIA teve acesso a trocas de e-mails entre Mike Coughlan, Fernando Alonso e o espanhol Pedro de la Rosa, piloto de testes da McLaren. Nas mensagens, o ex-projetista passava aos pilotos informações sobre o carro da Ferrari. Além disso, a polícia italiana descobriu novas conversas comprometedoras entre Coughlan e Stepney. A revelação de dados confidenciais da Ferrari foi além daquele primeiro dossiê. Por conta disso, a equipe inglesa foi novamente chamada a comparecer perante o Conselho Mundial no dia 13 de setembro.

 
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5. A McLaren fez uso das informações confidenciais?

Sim. A conclusão é do próprio Conselho Mundial de Automobilismo, que divulgou no dia 14 de setembro um relatório em que afirma que há provas suficientes para concluir que "a McLaren obteve algum tipo de vantagem esportiva a partir dos segredos da Ferrari". Segundo o órgão, no entanto, é "impossível quantificar essa vantagem em termos concretos". O que se sabe é que, nos e-mails trocados com Alonso, Pedro de la Rosa explica ao colega que as informações passadas por Coughlan são confiáveis. Ele confabula com o bicampeão se devem ou não testar algumas das soluções da Ferrari – especificamente: a distribuição de peso do carro, o sistema de freios e o gás usado pela equipe italiana para calibrar os pneus. Os pilotos alegam que tais testes nunca foram feitos, o que não pôde ser provado pela FIA. Há outras evidências. Ainda no início da temporada, a McLaren denunciou o chamado fundo móvel da Ferrari, usado nos GPs da Austrália e do Barein. A delação causou estranheza na escuderia italiana. O dispositivo era impossível de ser detectado a olho nu. Como então a McLaren sabia de sua existência?

 
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6. Quais foram os desdobramentos do escândalo?

De posse de todas as evidências apuradas, o Conselho Mundial de Automobilismo puniu a McLaren com a perda de todos os pontos conquistados no Mundial de Construtores de 2007. Impôs ainda ao time inglês o pagamento de uma multa de 100 milhões de dólares – menos o que ganhariam caso vencessem o Mundial de Construtores, o que era quase certo. Entretanto, mesmo com o envolvimento comprovado de Fernando Alonso no escândalo, nem ele, nem seu companheiro Lewis Hamilton sofreram qualquer tipo de sanção.

 
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7. A McLaren correu o risco de ser banida da Fórmula 1?

Sim, mas por um período curto. A punição máxima prevista pela FIA, caso ela concluísse que a escuderia fez uso dos segredos da Ferrari – o que de fato aconteceu – era a exclusão da McLaren das temporadas de 2007 e 2008 da Fórmula 1. Seus pilotos ficariam sem time, mas poderiam seguir no campeonato em outra equipe, mantendo os pontos conquistados até então. Na opinião de muitos comentaristas esportivos brasileiros e estrangeiros, saiu barato para a McLaren. Por se tratar de uma das duas principais escuderias do circuito, no entanto, uma punição desta gravidade afetaria os interesses comerciais da categoria, além de manter afastada das pistas a Mercedes-Benz, fornecedora dos motores da equipe e uma das mais importantes forças numa modalidade que depende cada vez mais do poder financeiro das montadoras. Se a acusada de espionagem tivesse sido uma equipe pequena, o desfecho provavelmente teria sido outro.

 
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8. O caso é inédito na Fórmula 1?

Não. A história da categoria está repleta de casos de espionagem e roubo de informações técnicas. Em 1977, por exemplo, três sócios da equipe Shadow deixaram o time para fundar a Arrows. Ao lançarem a nova escuderia, seu carro era tão semelhante ao da Shadow que foi proibido de competir pelas autoridades esportivas da época. Coisa parecida aconteceu em 1981, quando, ao fim da temporada, o engenheiro Derek Gardner, da Tyrrel, fez um passeio pela oficina da Lotus e viu escondido o protótipo do modelo a ser usado na temporada seguinte. Em 1982, o carro da Tyrrel era uma cópia quase exata do projeto da Lotus. Até o escândalo de 2007, o caso mais grave talvez tenha sido aquele que levou os engenheiros Angelo Santini e Mario Iacconi à prisão em 2006. Ex-funcionários da Ferrari, foram trabalhar na Toyota, levando debaixo dos braços uma série de softwares desenvolvidos pela equipe italiana.

 
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