Rodada
Doha de comércio
Após sete anos
alternando pequenos avanços e revezes, a Rodada
Doha de liberalização do comércio mundial
sofreu um severo abalo em julho de 2008, na
sexta etapa de negociações entre líderes de
todo o planeta, ocorrida em Genebra, na Suíça,
promovida pela Organização Mundial de Comércio
(OMC). Se nas edições anteriores, os subsídios
agrícolas eram o ponto de divergência, o último
encontro revelou um novo empecilho ao avanço
da globalização: o mecanismo especial de salvaguardas.
Entenda por que a reunião de Genebra fracassou,
o que significa o mecanismo de salvaguardas
e, enfim, qual a importância de um acordo
para a economia global.
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1.
O que é a Rodada Doha?
Rodada Doha é o nome atribuído a um importante
ciclo de negociações entre os países que integram
a Organização Mundial do Comércio (OMC), iniciado
em 2001 na capital do Catar, Doha. O encontro tentava
liberalizar o comércio internacional através de
um acordo multilateral entre as nações. A meta era
dar um novo impulso à troca de bens e serviços entre
os países ao reduzir não apenas as tarifas, mas
também todos os outros entraves ao comércio. As
negociações receberam o nome de Rodada Doha de Desenvolvimento,
pois o maior objetivo passou a ser a eliminação
dos subsídios e de outras práticas anticompetitivas
que, embora generalizadas, punem e prejudicam principalmente
as nações em desenvolvimento ricas em produtos agrícolas.
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2.
Qual é a importância da rodada para o comércio mundial?
Caso o acordo multilateral seja um dia firmado,
os países ricos passarão a ter maior acesso às economias
em ascensão, como a Índia. Já os países em desenvolvimento
deixarão de enfrentar a concorrência desleal dos
produtos agrícolas altamente protegidos das nações
industrializadas. Um bom exemplo da importância
de um acordo, sobretudo na área agrícola, é uma
estimativa do Banco Mundial de que 140 milhões de
pessoas poderiam sair da linha da pobreza até 2015
se os 152 membros da OMC concordassem em acabar
com os subsídios e com todas as barreiras no setor.
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3.
Por que, até agora, todas as rodadas têm fracassado?
Devido ao protecionismo econômico. As reuniões
acabaram se tornando um palco de combate entre ricos
e pobres. De sua trincheira, as nações em desenvolvimento,
que têm na agricultura sua arma para competir no
mercado internacional, exigem o fim dos subsídios
governamentais que os EUA e a Europa dão aos seus
agricultores e pecuaristas – mais de 300 bilhões
de dólares por ano. Isso porque a prática torna
a competição comercial injusta. Do outro lado, os
países ricos querem maior acesso aos mercados de
bens e serviços dos países em desenvolvimento, ou
seja, a diminuição das taxas de importação cobradas
sobre os seus produtos industrializados.
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4.
Por que os subsídios prejudicam a economia dos países
pobres?
Porque tornam desleal a concorrência com os produtos
agrícolas das nações industrializadas. Eles são
nocivos ao comércio livre porque fazem com que os
preços internacionais de commodities como soja,
milho e trigo fiquem abaixo de seu valor real, num
patamar inferior ao que seria justo para remunerar
os produtores que buscam o lucro na produtividade,
e não no tapetão da ajuda oficial. O agronegócio,
setor em que os países em desenvolvimento dispõem
de maior vantagem competitiva, é justamente o mais
protegido nos EUA, na Europa e no Japão. Os subsídios,
além de fortalecerem artificialmente os produtores
europeus e americanos (o que diminui as chances
de exportação para esses mercados), dificultam as
vendas para vários outros países. O caso do algodão
é emblemático. Mesmo com custos bem maiores que
os dos concorrentes, os produtores americanos conseguiram
conquistar mais de 40% das exportações mundiais
graças aos subsídios. Os maiores prejudicados foram
agricultores no Brasil e África, que viram a enxurrada
de algodão americano roubar mercados no exterior
e baixar o preço do produto. Sem os subsídios americanos,
calcula-se que o valor do algodão subiria 13%.
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5.
E por que é tão difícil chegar a um acordo sobre
essa questão?
Porque essa é uma batalha não só econômica, mas
também cultural. O subsídio agrícola é uma prática
entranhada nas sociedades européia e americana.
Na França, o país que mais se beneficia das proteções
européias, o apoio ao produtor rural ganhou enorme
impulso depois da II Guerra Mundial. Em meados da
década de 50, a França começou a registrar excessos
de produção, e, com isso, surgiu a necessidade de
exportar. Como não era competitiva em relação a
países em desenvolvimento, concentrou as vendas
na Europa e buscou nos vizinhos os parceiros para
dividir a conta dos subsídios. Nos EUA, o protecionismo
se fortaleceu depois da quebra da Bolsa de Valores
de Nova York, em 1929. Para tirar a economia da
depressão, o governo implementou o New Deal, um
pacote de medidas para estimular o crescimento que
elevou os impostos de importação. Hoje, os políticos
do país são bastante suscetíveis ao lobby agrícola.
Na região conhecida como Meio-Oeste, o celeiro americano,
ele ganha força em ano eleitoral (como é o caso
de 2008).
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6.
Países ricos já concordaram em promover algum corte
nos subsídios?
Sim. Nas negociações de Genebra, os EUA ofereceram
reduzir seus subsídios agrícolas para o teto de
15 bilhões de dólares ao ano. Os países em desenvolvimento,
porém, não concordaram com a proposta, alegando
que o valor equivale ao dobro daquele que o governo
americano efetivamente dá a seus agricultores atualmente
– ou seja, Washington continuaria a ter grande folga
para subsidiar seus produtores. Vale ressaltar que
os EUA pouparam o algodão, um dos principais pontos
de discussão, de quaisquer eventuais cortes.
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7.
Afinal, o que é o mecanismo especial de salvaguardas?
Caso o acordo de Doha fosse fechado e os países
ricos tivessem mais acesso à economia dos países
pobres, esse seria um recurso de emergência que
permitiria às nações em desenvolvimento elevar suas
tarifas alfandegárias caso se sentissem prejudicadas
por surtos de importação de alimentos. Na prática,
porém, o SSM pode ser acionado por países como a
China para aumentar suas tarifas de importação —
ou seja, ele tem potencial para se transformar numa
barreira comercial disfarçada. Durante as negociações
de Genebra, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy,
propôs que, se as importações de um produto subissem
40% em relação à média dos três anos anteriores,
as tarifas poderiam superar em até 15 pontos porcentuais
os limites fixados pela Rodada do Uruguai, concluída
em 1994. EUA, Índia e China não conseguiram chegar
a um acordo sobre esse assunto, o que levou os dois
últimos países a abandonar as negociações de Genebra.
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8.
Os SSM foram os únicos motivos do fracasso de Genebra?
Não. Além dos subsídios e das salvaguardas, países
ricos como os Estados Unidos e membros da União
Européia permaneceram em desacordo com nações emergentes,
como China e Índia, sobre os mecanismos para proteger
as indústrias das nações em desenvolvimento dos
cortes nas tarifas industriais. Os EUA passaram
a encorajar as nações em desenvolvimento a tomar
parte em acordos voluntários para cortar ou eliminar
tarifas em alguns setores industriais, como automotivo
ou têxtil, em troca de reduções menores em todos
os setores. Índia e China disseram que o "crédito"
de tarifas proposto acabou com a natureza voluntária
dos acordos. A reunião que se estendeu por nove
dias acabou, então, fracassando. Agora, é bem difícil
que as negociações sejam retomadas antes da posse
do novo presidente americano, em janeiro de 2009.
Ainda assim, o diretor-geral da OMC tenta convencer
os países a preservar os ganhos da negociação até
o momento, retomando as conversas em setembro. O
ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso
Amorim, no entanto, não acredita em uma retomada
antes dos próximos três ou quatro anos.
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9.
Qual a função da Organização Mundial do Comércio
neste cenário?
Além de promover rodadas com o objetivo de reduzir
subsídios e impostos de importação, a OMC funciona
como um tribunal internacional para resolver disputas
comerciais. Os países emergentes costumam usar as
decisões da organização contra países industrializados
para forçar a abertura desses mercados. Isso acontece
por meio das retaliações. Por exemplo, na disputa
entre Brasil e EUA por causa do algodão, a OMC considerou
que os americanos burlavam as regras comerciais
com seus subsídios, e permitiu que o governo brasileiro
retaliasse em 4 bilhões de dólares as exportações
americanas. Desde a reunião em Doha, a organização
já promoveu cinco encontros para tentar solucionar
os pontos divergentes. Em 2007, a reunião de Potsdam,
na Alemanha, terminou em meio a um cerrado tiroteio
verbal. Brasil e Índia abandonaram as conversas
dois dias antes do previsto, alegando que as propostas
dos americanos e europeus eram tão insuficientes
que beiravam o escárnio. A resposta foi dura. O
presidente americano George W. Bush acusou os dois
países de negligenciar os interesses de outros emergentes
– Brasil e Índia atuaram como representantes de
um bloco de 20 países em desenvolvimento.
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10.
Como o Brasil se tornou um país de destaque durante
as negociações de Doha?
O Brasil se viu alçado à condição de protagonista
nas negociações desde que virou uma espécie de porta-voz
do G-20, o grupo que reúne os países emergentes
– isso embora responda por apenas 1% do comércio
internacional, e ocupe o 27º lugar no ranking tanto
dos maiores exportadores como no dos importadores.
A explicação para a inclusão do Brasil nos momentos
decisivos da discussão é que o país é o quarto maior
exportador de produtos agrícolas do mundo.
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11.
Se as negociações avançarem, quais os benefícios
para o Brasil?
O Brasil seria um dos principais beneficiários
do eventual sucesso da Rodada Doha. Estima-se que
as exportações do país poderão aumentar em até 20
bilhões de dólares anuais caso o acordo seja fechado.
Além disso, desde 2003, os donos da política externa
brasileira rejeitam sistematicamente quaisquer outros
projetos de acordos comerciais relevantes na esperança
de que Doha obrigue os países ricos a derrubar suas
barreiras comerciais. Entre os acordos enterrados
pela estratégia do governo estão a Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) e o acordo entre o
Mercosul e a União Européia. Ou seja, com um fracasso
em Doha, o Brasil ficaria sem opções para expandir
o comércio exterior.
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12.
Depois de tantos anos, a Rodada Doha já apresentou
algum resultado prático?
Sim. Um dos grandes avanços nas negociações de
Doha diz respeito à quebra de patentes de medicamentos.
Já na reunião de 2001 ficou acertado que a saúde
pública tem precedência sobre o direito de patente
de remédios. É um passo gigantesco para vencer a
epidemia de Aids na África, pois permite reduzir
a um terço o custo dos tratamentos. Essa mudança
de atitude permite não apenas a redução do preço
dos medicamentos. Ela abre espaço também para que
países como o Brasil e a Índia ganhem projeção na
indústria mundial de biotecnologia.
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13.
Por que não desistir de um acordo tão difícil e
investir só nos bilaterais, como a Alca?
A idéia básica é que somente um acordo planetário,
e não regional ou bilateral, possibilitaria uma
redução drástica dos subsídios. Os acordos bilaterais,
no entanto, têm se proliferado para amenizar o sufocamento
das artérias globais do comércio. O excesso deles,
porém, pode acabar criando um amontoado de tratados
com milhares de cláusulas confusas e contraditórias.
O sistema multilateral é a grande inovação. Só ele
teria força para impulsionar as grandes reformas
na economia mundial. A questão do comércio agrícola
também não pode ser totalmente resolvida em acordos
regionais e bilaterais. Além disso, os EUA e a UE
estão condicionando os acordos com o Mercosul à
conclusão da Rodada Doha. Subsídios à exportação
só serão negociados quando houver consenso na OMC.
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14.
Há algum acordo pelo qual o comércio internacional
é regido atualmente?
Sim. Durante a rodada multilateral de 1995, ano
da criação da OMC, foi estabelecido o Acordo Geral
sobre o Comércio de Serviços (Gats, na sigla em
inglês). Esse documento tomou por base o acordo
multilateral firmado anteriormente, o Gatt, ou Acordo
Geral sobre Tarifas e Comércio. Enquanto o Gatt
estabelecia regras apenas para o comércio de bens,
o Gats estipula ainda as diretrizes sobre o comércio
de serviços – como o turismo – e propriedade intelectual.
Esse acordo tem por função assegurar o tratamento
igualitário a todos os membros da OMC nas questões
comerciais, estimulando a atividade econômica por
meio da liberação dos entraves ao comércio.
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