| Junho de 2007
Cuba sem Fidel
No final, el comandante en jefe viu-se nocauteado por um inimigo que ele não pôde prender, torturar ou fuzilar no paredón: a idade. Em julho de 2006, prestes a completar 80 anos, Fidel foi internado e submetido a uma cirurgia de emergência por causa de uma hemorragia intestinal atribuída ao stress. Seu estado de saúde foi declarado "segredo de estado" e o país fechou suas fronteiras aos jornalistas estrangeiros. As possibilidades reais de recuperação do homem que há quase 50 anos governa Cuba com a desfaçatez de um senhor feudal foram alvo de muita especulação na imprensa internacional. Dada a gravidade da situação, Fidel transferiu "temporariamente" o poder para o irmão Raúl, ministro da Defesa e sucessor designado. Em fevereiro de 2008, o ditador anunciou sua renúncia ao poder por meio de uma carta publicada em jornal oficial. Com o gesto de Fidel, veio uma questão crucial: depois dele, o que
será de Cuba?
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1.
O que pode ocorrer com o regime cubano logo após a renúncia
de Fidel?
Vários cenários são possíveis na Cuba pós-Fidel. A
queda abrupta do regime - a exemplo do que ocorreu na
Europa Oriental após 1989 - é a menos provável. Afinal,
a repressão policial cubana eliminou qualquer possibilidade
de oposição interna: os dissidentes estão na cadeia
ou, a maioria, no exílio. Uma invasão de anticastristas
apoiados pelos Estados Unidos parece fora de moda. Mais
factível a curto prazo é a continuidade do governo comunista
sob o comando de Raúl Castro - o irmão de Fidel, ministro
da Defesa que assumiu o país durante a licença médica
do ditador - ou de um colegiado. Outra possibilidade
é a implantação de um regime no molde chinês, ou seja,
alguma abertura econômica, mas sem democracia. Pode
funcionar - mas só por algum tempo.
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2.
Quem é Raúl Castro, o provável sucessor?
Quando, em julho de 2006, Fidel foi afastado do poder
para realizar uma cirurgia de emergência, o então ministro
da Defesa Raúl Castro assumiu interinamente o país.
Espécie de enigma para os próprios cubanos, o irmão
do "comandante" não fez alterações na linha política
do governo ao chegar ao poder. Alguns dizem que Raúl
é um linha-dura, enquanto outros sustentam até que ele
é uma espécie de "autor" por trás do grande "ator" do
drama cubano - Fidel. Raúl foi oficialmente designado
sucessor do irmão em 1997. Ele participou da Revolução
Cubana, em 1959, e foi um dos responsáveis pela conversão
de Cuba e do próprio Fidel ao comunismo. Muitos cubanos
afirmam que Raúl teria ainda apresentado Fidel a Che
Guevara. Em junho de 2007, Raúl deu sinais de que seu
irmão deve ser sucedido não por ele próprio ao morrer,
mas por um governo coletivo, formado por líderes do
Partido Comunista cubano.
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3.
Os Estados Unidos podem aproveitar a transição para
invadir a ilha?
É pouco provável. Apesar da antiga hostilidade entre
os dois países, os Estados Unidos têm dado mostras de
que não pretendem intervir militarmente no caso. Logo
após o anúncio da doença de Fidel, o presidente George
W. Bush afirmou que o destino de Cuba estava nas mãos
dos próprios cubanos. "O povo cubano deve decidir como
transformar uma situação tirânica em um tipo de sociedade
diferente", disse. É certo, porém, que os EUA deverão
influenciar o processo cubano por meio de recursos econômicos
e políticos.
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4.
É possível que haja distúrbios em Cuba durante
a transição?
O governo americano, que monitora de perto a situação,
teme que certa instabilidade social possa provocar um
êxodo em massa após a morte de Fidel. É natural que
haja inseguranças: cerca de 70% dos cubanos nunca tiveram
outro dirigente. Neste caso, o principal destino para
emigrantes seria a Flórida, Estado do sul americano
separado de Cuba por menos de 200 quilômetros de mar.
Para evitar um eventual caos, os americanos estudam
até oferecer ajuda financeira a um novo governo que
se mostre amistoso a Washington. Mas, apesar dos temores
americanos, a vida em Cuba segue tranqüila desde o afastamento
de Fidel.
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5.
Quem mais poderia influenciar a transição?
Outra nação que poderia exercer influência na transição
cubana é a Venezuela, do presidente Hugo Chávez, adversário
declarado de Washington. Fidel já afirmou que vê o venezuelano
como uma espécie de "sucessor" no papel de antípoda
da hegemonia dos Estados Unidos na América. Chávez,
por sua vez, tem garantido fornecimento de petróleo
barato aos cubanos, como forma de dinamizar a economia
local.
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6.
Os bens confiscados pela Revolução Cubana serão devolvidos
por um novo governo a seus antigos donos?
A Revolução promoveu o maior confisco de propriedades
privadas das Américas, estimado em mais de 100 bilhões
de dólares. Quando a hora chegar, os cubanos poderão
se inspirar no exemplo dos países do antigo bloco soviético
na Europa do Leste e Central, que criaram programas
para restituir e compensar os bens confiscados pelos
nazistas e comunistas. O mais satisfatório deles, implementado
pelo presidente Vaclav Havel, da ex-Checoslováquia,
resultou na devolução rápida de um patrimônio equivalente
a 10 bilhões de dólares para os donos legítimos - um
terço do território do país foi restituído. Lá, a restituição
foi condicionada à residência obrigatória no país. Essa
foi a forma encontrada para estimular o interesse pela
reconstrução, por meio de investimentos nas indústrias
obsoletas e melhorias nas residências depauperadas.
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7.
Os Estados Unidos poderão suspender o embargo comercial
ao país?
A suspensão do embargo comercial americano a Cuba depende,
por lei, do acerto do confisco. As gavetas do Departamento
de Justiça em Washington guardam queixas de 5.013 cidadãos
e 898 empresas americanas com bens confiscados pelo
regime comunista cubano, o que representa menos de 5%
da economia da ilha pré-Fidel. Em valores atuais, a
indenização seria de cerca de 80 bilhões de dólares.
O confisco total do patrimônio de cubanos, no entanto,
não está mapeado. Entre 1959 e 1973, período em que
saiu do país a maioria dos exilados com alguma posse,
457.600 cubanos cruzaram os 145 quilômetros de mar que
separam a ilha da costa dos Estados Unidos.
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8.
Como sobreviverá a economia cubana?
Cuba é um país endividado, sem reservas e com uma economia
amarrada. Como ocorria antes da Revolução, o país ainda
se apóia em grande medida na cultura de açúcar e produção
de fumo, além do turismo. De certo, sabe-se que o país
vai precisar de investimentos para voltar a crescer.
Um estudo da Babun Group Consulting identificou 1.490
estatais cubanas que poderiam ser vendidas e dinamizadas.
Se todas fossem comercializadas, o resultado, porém,
não passaria dos 40 bilhões de dólares. A ironia da
história pode transformar os americanos na principal
fonte de ajuda econômica a um eventual governo democrático
em Cuba. Mas, apesar das dificuldades, os 11,3 milhões
de cubanos têm alguns trunfos, frutos da Era Fidel,
que podem ajudar o futuro do país: ótimos sistemas de
saúde e educação, considerados vitais ao crescimento
sustentável de qualquer nação.
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9.
Os exilados vão voltar para o país?
Estima-se que há centenas de milhares de cubanos exilados
- grande parte vivendo em Miami, no estado da Flórida.
Alguns falam em voltar para visitar os lugares e pessoas
que deixaram para trás há muitos anos. Outros esperam
por mudanças na ilha, através das quais poderiam recuperar
os bens confiscados pela revolução. Muitos, porém, pensam
em estabelecer uma situação intermediária, vivendo parte
do tempo em Cuba e parte nos Estados Unidos - onde fixaram
residência.
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10.
Qual a posição do governo brasileiro sobre o quadro
pós-Fidel?
Oficialmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
tem dito que espera a recuperação de Fidel. Questionado
sobre a inevitável sucessão, porém, Lula defende a autodeterminação
do povo cubano: "O processo sucessório de Cuba é uma
decisão que vai caber ao povo cubano. Da mesma forma
que não quero que os cubanos digam como é o processo
sucessório no Brasil, não posso dizer como vai ser lá.
Se tiver que acontecer, que aconteça da melhor forma
possível."
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